O Hospital de São Galicano em Trastevere, uma boa obra
Neglectis reiectisque ab omnibus
de Simona Benedetti

O Hospital de São Galicano em Trastevere, gravura de Giuseppe Vasi, metade do século XVIII
Tão logo eleito, Bento XIII encarregou o cardeal Corradini de identificar o lugar para a construção do novo hospital, a ser realizado com fundos pontifícios da Dataria por ocasião do Jubileu de 1725. Conhece-se a aversão de Bento XIII pelo luxo. Uma fonte bem informada da época relata a crítica que, quando cardeal, expressou sobre as magníficas estrebarias papais do Quirinal: “Como teria sido melhor que aquele dinheiro fosse aplicado em benefício dos pobres e não para a comodidade dos animais!”.
Para o novo edifício, Lami elaborou um “pequeno esboço” para a distribuição funcional dos ambientes, organizados em planta inicialmente com a ajuda do arquiteto Lorenzo Possenti. Todavia, foi Filippo Raguzzini, “napolitano, ex-arquiteto de Sua Santidade em Benevento”, que foi designado para o projeto definitivo do Hospital. Ele, por sua vez, acolheu tanto os aspectos gerais do projeto quanto algumas sugestões funcionais inovadoras, provavelmente ditadas pela experiência de campo de Lami, como a varanda para abrir e fechar as janelas do lado de fora (que ficavam em nível elevado com relação aos quartos dos hospitalizados) ou a dotação de serviços de higiene todos feitos em mármore, “de forma que a água, escorrendo em abundância por dentro deles, os limpa completamente”, dispostos em nichos, fechados por portas, nas paredes perimetrais dos quartos, e arejados por fendas de ventilação que coincidem com aberturas nos pilares externos transformadas em elementos decorativos circulares.
A disposição original na planta previa dois longos quartos, um para os homens e outro para as mulheres. Nas duas extremidades estavam previstos ambientes para os assistentes (clérigos para os homens e virgens para as mulheres). Paralelamente à extensão dos ambientes dos quartos dos hospitalizados (num total de 160 metros) desdobravam-se as instalações de serviço: salas com lareiras para o inverno; quartos para os moribundos que eram afastados dos ambientes comuns; alpendres e galerias para estender as roupas no inverno; vãos com “pias para os enfermos”; cozinhas; refeitórios, etc. Os subterrâneos eram usados como depósito e garagem.
No coração de toda a composição destacava-se a igreja de planta central e coberta com cúpula, foco arquitetônico e urbano de todo o conjunto, tanto funcionalmente (no espaço interno da igreja, coincidindo com os quartos dos hospitalizados, abrem-se uma grande janela e duas portas de cada lado para permitir que os doentes assistam às liturgias) quanto figurativamente: na fachada para a rua, a estrutura da igreja interrompe a longuíssima moldura do edifício, destacando-se da repetitividade da parede e revigorando volumetricamente as cadências moduladas formais dos elementos laterais.
As linhas arquitetônicas convexas e côncavas da igreja, tipicamente barrocas, unidas ao grande arco de entrada, marcam e valorizam formalmente esse coração de todo o conjunto assistencial, dedicado “aos abandonados e repelidos por todos”.
Na epígrafe da entrada do hospital se lê: “Bento XIII, pai dos pobres, erigiu este asilo amplo e imponente, e dotado de orçamento anual, para cuidar dos abandonados e repelidos por todos que sofrem com o prurido na cabeça ocasionado pela porrigem e pela sarna, e para arrancá-los das presas de uma morte precoce no ano da salvação de 1725”.