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ECUMENISMO
Extraído do número 12 - 2005

“É impossível ser fiel à Escritura e não levar Maria a sério”


Um comentário à Declaração Comum da Comissão Internacional Anglicano-Católica (Arcic) sobre
Maria: graça e esperança em Cristo


de René Laurentin


René Laurentin

René Laurentin

A Virgem Maria teve um lugar realmente triunfal na Igreja, sob o impulso do Movimento Mariano (1600-1958) - mesmo em presença de exageros e às vezes desvios -, até o final do pontificado de Pio XII; ao mesmo tempo, voltou a ocupar uma posição menos elevada na Igreja em razão da legítima preocupação de não ser obstáculo ao ecumenismo, mas também por reação contra a ênfase e o radicalismo do já nomeado Movimento Mariano, e mais ainda em razão do triunfo pós-conciliar do espírito crítico na teologia e na catequese.
Os esforços de João Paulo II para dar de novo um lugar mais elevado a Maria, para obrigar as universidades a instituir novamente um ensino mariológico institucional (coisa que em geral não acontece nem com freqüência e nem bem) e até para dar destaque ao segredo de Fátima não tiveram senão um eco limitado no combate a esse retrocesso.
Eis por que 30Dias me pede um artigo sobre a declaração comum da Comissão Internacional Anglicano-Católica (Arcic), de 16 de maio de 2005, sobre Maria: graça e esperança em Cristo. Essa declaração não apenas confirma o acordo sobre Maria Virgem e Mãe de Deus, mas também o embasamento dos dois dogmas pontifícios sobre a Imaculada Conceição (Pio IX, 8 de dezembro de 1854) e sobre a Assunção (Pio XII, 1º de novembro de 1950).
Esse acordo deve ser inserido dentro do diálogo dramaticamente movimentado entre anglicanos e católicos.

A origem do cisma
No século XIV, pela ação desenvolvida por Wyclif e pelos heréticos Lollards, o Parlamento inglês limitou a dependência da Inglaterra ao papado de Roma. Mas foi por razões pessoais ligadas ao problema de seu divórcio que o rei Henrique VIII proclamou sua supremacia sobre a Igreja da Inglaterra (1534), supremacia que posta em ação graças à obra de Thomas Cromwell, vigário-geral, com os “Dez artigos” (1536), confissão de fé inspirada na reforma luterana. Sob Eduardo VI (1547-1553) foi publicado em 1552 o Book of common prayer e a Igreja da Inglaterra tomou sua forma definitiva. Tratou-se portanto de uma ini­ciativa da ilha e pessoal dos soberanos, preocupados em controlar a Igreja, que deu lugar a uma religião de Estado, à imitação dos protestantes.
Foi um cisma, e não uma heresia, apesar do cisma ter-se apoiado no crescente protestantismo luterano e depois calvinista, e ter-se progressivamente radicalizado. Era um cisma artificial, pois a estrutura e a oração essencial da Igreja (a Lex orandi) na Inglaterra continuavam a ter as características formais de uma fé católica.

Um projeto de união
Foi a constatação a que chegou lucidamente o cardeal Mercier, antes e depois da guerra de 1914-1918. Estando o ecumenismo no ar junto aos protestantes, com a criação progressiva do Conselho Ecumênico das Igrejas, ele tentou reintegrar a Igreja da Inglaterra na Igreja Católica, por meio de contatos assíduos, cordiais e profundos com lorde Halifax.
Roma, na época, não se preocupava com o ecumenismo: temiam-se compromissos, e a Santa Sé publicou oficialmente a declaração de que as ordenações da Igreja da Inglaterra eram inválidas por uma das primeiras ordenações de bispos, feita independentemente de Roma.
Foi um choque não apenas na Igreja da Inglaterra, mas também para toda a nação inglesa e para a Coroa. Uma pisada no freio que tornou inútil o diálogo que estava em andamento.
Nossa Senhora com o Menino Jesus, pintura sobre pergaminho, cerca de 1270, Lambeth Palace, Londres

Nossa Senhora com o Menino Jesus, pintura sobre pergaminho, cerca de 1270, Lambeth Palace, Londres

Lorde Halifax e outros representantes anglicanos estavam então em Malines, na cabeceira do moribundo cardeal Mercier. Estavam lá quando o cardeal mandou celebrar diante deles uma missa particular, “a missa de Maria mediadora”, que obtivera como privilégio de Roma. Pois, em seu pensamento, a prioridade do ecumenismo não estava separada de sua prioridade espiritual pela Virgem Maria. Essa profunda aliança entre o ecumenismo e Maria, mãe da unidade, deveria ser mencionada como um sinal das grandes intenções e das grandes iniciativas pela unidade entre a Igreja de Roma e a Igreja da Inglaterra que, infelizmente, não tiveram êxito.
Se a declaração de Roma acerca da invalidade das ordenações foi um freio duradouro contra a união, trouxe ao menos este benefício: que os bispos anglicanos, preocupados com a constatação da Santa Sé baseada em documentos históricos, se organizaram progressivamente para assegurar às suas ordenações a presença de bispos válidos, ainda que cismáticos. Não os ortodoxos, que recusariam esse “compromisso”, mas os “velhos católicos” da Holanda. Muitos bispos anglicanos de hoje procuram dar destaque, pelo menos em seus contatos com católicos e ortodoxos, ao fato de que sua ordenação, a rigor, é válida graças ao número maciço de recentes ordenações das quais participaram bispos válidos segundo a tradição católica.
Apesar dessa interrupção do projeto de Mercier, o diálogo foi retomado, no âmbito do relançamento ecumênico realizado por João XXIII desde o início de seu pontificado.
Mas os anglicanos, em outras coisas fiéis à tradição, se deixaram enredar pelas correntes feministas, e foram levados a promover a ordenação de mulheres como padres e bispos. Essa decisão da Comunidade Anglicana cria o obstáculo mais grave, e que mais dificilmente pode ser superado, à esperança da união, depois que João Paulo II excluiu, de forma mais clara do que nunca, a possibilidade de ordenação de mu­lheres. O que também não existe na tradição apostólica da Igreja Ortodoxa.
A situação piorou ainda mais em 2003, depois da aprovação, por parte da Igreja Episcopaliana (Anglicana) dos Estados Unidos, da consagração de um bispo homossexual. A Santa Sé foi obrigada a “atrasar” a publicação de uma “declaração comum de fé” entre as duas Igrejas, mesmo “comprometendo-se a continuar o diálogo”.
A publicação do relatório sobre a Virgem Maria confirma, portanto, que as pontes, gravemente danificadas, não foram totalmente cortadas, ainda que a extensão do homossexualismo ostentado até os sacerdotes e bispos episcopalianos, e as ordenações de mu­lheres, constituam um problema permanente (sobretudo nos Estados Unidos).
Um acordo importante
Fazer um balanço do recente documento seria longo demais. Sublinhamos alguns de seus aspectos.
Ele testemunha uma consideração positiva e até uma devoção fervorosa por Maria. O acordo se alimenta “da Escritura e da tradição comum que precede a Reforma e a Contra-Reforma” (século XVI). Escritura e tradição são a constante do documento: “É impossível ser fiel à Escritura e não levar Maria a sério”.
Seguindo o Evangelho de Lucas, a declaração conjunta diz: “A anunciação e a visita a Isabel su­blinham que Maria é de maneira única a destinatária da eleição e da graça de Deus”.
O novo nome dado a Maria (em grego Kecharitoméne) implica “uma primordial santificação por parte da graça divina”. É um comentário notável, aberto à Imaculada Conceição.
O documento se baseia constantemente na concepção virginal de Jesus expressa segundo Mateus e Lucas em termos muito diferentes, mas perfeitamente convergentes e ainda mais significativos. “A concepção virginal pode parecer em primeiro lugar uma ausência, ou seja, a ausência de um pai humano. Todavia, na realidade, é um sinal da presença e da obra do Espírito [...]. Para os fiéis cristãos, é um sinal eloqüente da filiação divina de Cristo e da vida nova por meio do Espírito”.
Segundo o documento, portanto, a concepção virginal de Jesus é ao mesmo tempo um dado fundamental da Revelação e um sinal rico de conseqüências para a nossa vida, tal como foi desenvolvido pelos Padres da Igreja, para os quais a Mãe de Deus só podia ser virgem e só uma virgem podia ser Mãe de Deus.
Alguns teólogos e escritores franceses contestaram com vigor e insistência a virgindade perpétua de Maria, fazendo dela uma mãe de família de muitos filhos, forçando e deformando os textos bíblicos. O acordo com os anglicanos professa que Maria “permaneceu sempre virgem. Em sua [de anglicanos e católicos] reflexão a virgindade é entendida não apenas em termos de integridade física, mas como uma disposição interior de abertura, obediência e fidelidade unânime a Cristo, que modela o próprio seguimento cristão e produz uma riqueza de frutos espirituais”. Essa é justamente a problemática, infelizmente incompreendida, dos Padres da Igreja.
O acordo da Arcic cita depois “o papel de Maria na redenção da humanidade [...]. Ela [“nova Eva”, precisa o texto] é associada a seu Filho na vitória sobre o ini­migo antigo. [...] A obediência da Virgem Maria abre caminho à salvação”.
Pode-se, portanto, ir muito longe com os anglicanos, se evitarmos o título, discutido também entre os católicos, de “co-redentora”. João XXIII pediu com discrição à Comissão Doutrinal do Concílio, da qual eu participava como especialista, que não usasse essa palavra.
O acordo versa também sobre o lugar de Maria no culto. Lá se diz assim: “Depois [...] dos Concílios de Éfeso e de Calcedônia [...] estabeleceu-se gradualmente uma tradição de oração com Maria e de louvor a Maria. Desde o século IV, especialmente no Oriente, esta foi associada ao pedido de sua proteção”. O que continua em uso na Igreja Anglicana até hoje.
No acordo se aceitam também “as festas em sua homenagem”. Admite-se também a legitimidade da festa da Conceição de Maria criada no Oriente no século VII e adotada nas ilhas britânicas desde o século XI.
No acordo se reconhece a intercessão de Maria e a “sua presença” na vida da Igreja, mesmo admitindo os exageros da Idade Média, que, de maneira ambígua, chamou Maria “mediadora junto a Cristo mediador”; no texto se sublinha, com o Concílio Vaticano II, que Cristo é o único mediador e que Maria é mediadora apenas “em Cristo”, como escreveu João Paulo II, retomando a fórmula admitida antes do Concílio, em 1950, pelo luterano alemão Hans Asmulsen, como tive a oportunidade de notar desde antes do Concílio, em meu Court traité sur la Vierge Marie.
No acordo se data a fé na intercessão de Maria a partir do Concílio de Éfeso (431) e cita-se a Ave Maria, cuja difusão é notada no século V, reconhecendo que “os reformadores ingleses criticaram essa invocação e outras semelhantes formas de oração, porque acreditavam que pusessem em discussão a única mediação de Jesus Cristo”. Sobre esse ponto, portanto, o acordo marca uma etapa positiva. Sublinha-se ainda que o Concílio Vaticano II endossou a prática ininterrupta dos fiéis que pedem a Maria que reze por eles, uma vez que “a função materna de Maria perante os homens de nenhum modo obscurece ou diminui essa única mediação de Cristo (Lumen gentium, 60)”.
Essa avaliação positiva merece ser citada. Um dos últimos parágrafos (p. 34) é intitulado: “Intercessão e mediação na comunhão dos santos”.
A Virgem Maria, miniatura extraída do Livro das Horas 
da Bem-aventurada Virgem Maria, escrito e ilustrado na França, 
século XV, Catedral de Canterbury

A Virgem Maria, miniatura extraída do Livro das Horas da Bem-aventurada Virgem Maria, escrito e ilustrado na França, século XV, Catedral de Canterbury


Acordo sobre a origem imaculada e sobre a assunção de Maria
A coisa nova e notável é o acordo, limitado mas substancial e positivo, sobre as duas definições pontifícias sobre a Virgem Maria (1854 e 1950), tão contestadas não apenas pela Reforma, mas também pelos ortodoxos.
No 150º aniversário da definição de Pio IX sobre a origem imaculada de Maria, o documento sublinha que Maria teve “necessidade de Jesus Cristo”. Um ponto que era essencial e fundamental para Pio IX, pois ele não definiu apenas a pureza original de Maria. Declarou também que Maria foi justamente resgatada para preservação (contra aqueles que pensam que esse privilégio fosse devido à nova Eva, enquanto pertencente à primeira criação e assim subtraída da descendência de Adão).
O documento reconhece também o fundamento da definição lacônica de Pio XII, pois este se preocupou em ater-se ao essencial. Não quis definir a morte de Maria, mas apenas que “foi assunta à glória celeste em corpo e alma”.
Os anglicanos reconhecem que essa é uma formulação harmoniosa com a fé comum, pois, sendo todos os cristãos chamados à Ressurreição, nada impede que essa promessa seja realizada desde já para aquela que gerou corporalmente a Cristo ressuscitado (enquanto, por exemplo, Karl Rahner queria estender esse privilégio a todos os cristãos, diferentemente de Schillebeeckx).
A fé formulada no acordo é para nós plenamente comum, com a seguinte diferença: o problema que essas duas definições põem aos anglicanos é que elas são para os católicos um dogma de fé. Os anglicanos acreditam de bom grado na mesma coisa como uma correta interpretação da fé, mas não como uma obrigação imposta pela Revelação, porque essas duas doutrinas não estão explícitas na Escritura. Alguns católicos, por outro lado, se dizem embaraçados quando têm de justificá-las biblicamente, sem que por isso se mova contra eles nenhuma reprimenda. De minha parte, demonstrei, com uma leitura penetrante mas rigorosa da Escritura, que essas duas doutrinas estão não apenas implícita, mas formalmente presentes na Escritura.
“Todavia”, continua a Declaração, “na compreensão católica, assim como se expressa nessas duas definições, a proclamação de um dado ensinamento como dogma comporta que o ensinamento em questão seja considerado ‘divinamente revelado’ e portanto algo em que todos os fiéis devem crer ‘firme e inviolavelmente’”. Isso põe um problema aos anglicanos, como a outras confissões cristãs. Eles se perguntam se são necessárias essas expressões de rigor. Eles aderem sem dificuldade às duas doutrinas tal como são expressas na constituição dogmática Lumen gentium, segundo uma formulação menos jurídica, e segundo a doutrina da constituição dogmática Dei Verbum sobre a Escritura definida como testemunho.
Lê-se ainda na Declaração: “Os anglicanos perguntaram se entre as condições de um futuro restabelecimento da plena comunhão lhes será pedido que aceitem as definições de 1854 e 1950. Os católicos acham difícil imaginar um restabelecimento da comunhão no qual a aceitação de determinadas doutrinas seria exigida a uns e não a outros. Ao enfrentar esses problemas, lembramos o fato de que ‘uma conseqüência da nossa separação foi a tendência tanto dos anglicanos quanto dos católicos de exagerar a importância dos dogmas marianos em si, às custas de outras verdades mais estritamente correlatas com os fundamentos da fé católica’ (Autoridade na Igreja II, 30). Os anglicanos e os católicos concordam sobre o fato de que as doutrinas da assunção e da imaculada conceição de Maria devem ser compreendidas à luz de uma verdade mais central, a da sua identidade de Theotokos, que por sua vez depende da fé na encarnação”.
Heures de Beaufort, A anunciação, 
início do século XV, Ms Royal 2 A. XVIII,
 f. 23, British Library, Londres

Heures de Beaufort, A anunciação, início do século XV, Ms Royal 2 A. XVIII, f. 23, British Library, Londres

Segundo o acordo católico-anglicano, temos integralmente a mesma fé a respeito da Virgem Maria, mas seria preciso que as verdades definidas depois da separação fossem apresentadas num contexto menos jurídico, conformemente às pontualizações do Vaticano II, mais atentas à unidade da fé e à hierarquia dos dogmas.
“Diante disso, os anglicanos deveriam aceitar que essas definições são uma legítima expressão da fé católica, e devem ser respeitadas como tais, ainda que entre eles formulações como essas não tenham sido utilizadas. Há, nos acordos ecumênicos, exemplos nos quais o que um dos parceiros definiu de fide pode ser expresso pelo outro parceiro de modo diferente, como por exemplo na Declaração cristológica comum entre a Igreja Católica romana e a Igreja assíria do Oriente (1994) ou na Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação entre a Igreja Católica Romana e a Federação Luterana Mundial (1999)”. Em conclusão, os signatários do acordo pensam não ter apenas negociado uma conciliação ou uma reaproximação, mas ter “iluminado de maneira nova o lugar de Maria na economia da esperança e da graça”.
São as últimas palavras: “A nossa esperança é que, enquanto compartilhamos o único Espírito pelo qual Maria foi preparada e santificada para a sua singular vocação, podemos participar com ela e com todos os santos do incessante louvor de Deus”.
O acordo espiritual e doutrinal anglicano-católico sobre Maria vai mais longe do que se podia imaginar, mesmo com a rigidez e para além dos altos e baixos e dos impedimentos ecumênicos dos quais se falou e das suas conseqüências para a plena comunhão que já o cardeal Mercier tinha razão em querer realizar, segundo o nosso desejo comum, que é também a vontade de Jesus Cristo: “Que todos sejam um, como o Pai e eu somos um” (cf. Jo 17,21).


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