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REPORTAGEM DE CUBA
Extraído do número 02/03 - 2008

Entrevista com Eusebio Leal Spengler

Reformar, também o social



Entrevista com Eusebio Leal Spengler de Davide Malacaria


A Oficina del Historidor de la ciudad, certamente é o órgão cultural mais importante de Cuba. Dirige a reforma dos tanto incantadores quanto deteriorados edifícios da parte antiga de Havana. Mas é apenas uma das múltiplas atividades desta Oficina: alguns dos edifícios restaurados tornaram-se museus, outros tornaram-se sede de lojas multicoloridas, de artesanatos, centro de serviço, nos quais se dá emprego aos residentes do bairro, talvez os mais pobres da cidade. Uma série de atividades dependentes do próprio Historiador que sustenta o seu desenvolvimento e utiliza os seus lucros para incrementar a própria obra. Ao mesmo tempo, este órgão promove atividades humanitárias e culturais, na tentativa de recuperar e favorecer o crescimento social desta zona que foi e ainda está em decadência. Por isso a Havana antiga tornou-se um canteiro de obras, onde a colorida e alegre gente do bairro mistura-se às frotas de turistas e às barulhentas excursões escolares. O presidente da Oficina del Historiador é Eusebio Leal Spengler, figura realmente singular no panorama político cubano. Católico declarado desde sempre, mesmo não tendo um cargo no Partido, participa do Conselho de Estado, máximo órgão político do país. Eusebio Leal transformou o escritório que dirige em uma ponte entre Cuba e o resto do mundo, atraindo financiamentos e turistas de todas as partes com fantasia e inteligência e criando uma extensa rede de relações internacionais.

Fidel Castro, madre Tekla Famiglietti e Eusebio Leal Spengler junto ao convento das Brigidinas em Havana (fotografia inédita, proveniente do arquivo pessoal de Fidel Castro)

Fidel Castro, madre Tekla Famiglietti e Eusebio Leal Spengler junto ao convento das Brigidinas em Havana (fotografia inédita, proveniente do arquivo pessoal de Fidel Castro)

Quando foi criada a Oficina del Historiador?
EUSEBIO LEAL SPENGLER: Em 1937, seguindo a tradição dos cronistas da Índias que narraram a história da conquista espanhola na América e o nascimento das cidades. Antes desta data, vários intelectuais empreenderam, assumiram o ofício de historiador, deixando obras sobre a cidade de Havana. O nosso propósito foi o de dar continuidade à incansável obra de Emilio Roig de Leuchsenring. Assim arquivo, museu, publicações, conferências e um uso adequado da imprensa traçaram a história do nosso caminho até outubro de 1994, quando a Oficina del Historiador, por efeito do decreto lei 143, assumiu uma nova dimensão, empreendeu com resolução a obra de restauração do centro histórico, baseando-se nas experiências anteriores e em outras contribuições vindas durante o desenvolvimento desta iniciativa.
Como nasceu o projeto de Belén? Qual é a relação com o trabalho da Oficina del Historiador e a relação com a Igreja Católica?
LEAL SPENGLER: A idéia é a de fazer com que os habitantes do centro histórico participem de um projeto que realize casas, crie trabalhos, torne possível um aproveitamento total do espaço público e produza uma repartição equilibrada e proporcional dos frutos do trabalho, de modo que forme uma base propícia à cooperação e à solidariedade internacional e uma relação harmônica com todas as forças sociais que atuam na comunidade, nas instituições profissionais, religiosas e filantrópicas. Tivemos o apoio das mais importantes personalidades do mundo cultural, além do respeito e estima de sua eminência Ortega y Alamino, cardeal da Havana.
O senhor conhece bem a Itália, os nossos costumes e a nossa cultura...
LEAL SPENGLER: Na minha opinião a Itália foi uma escola excepcional. As relações entre o mundo clássico e os tempos modernos, que se manifesta através da cultura e da espiritualidade do seu povo, ofereceram, na minha opinião, exemplos excepcionais à civilização. São incontáveis os italianos que tomaram parte à luta de emancipação do povo cubano e nem se pode esquecer a simpatia que causou ao povo cubano o Ressurgimento italiano. Também o nosso herói nacional, José Martí, tinha uma profunda admiração por Garibaldi.
O senhor tem uma particular recordação da visita de João Paulo II a Cuba?
LEAL SPENGLER: João Paulo II será sempre recordado pela sua cortês atenção em manter-se sempre informado sobre os acontecimentos de Cuba. A sua visita foi um momento memorável para a ilha. Uma visita precedida e preparada por outras personalidades. Entre estas recordo Madre Teresa de Calcutá e a reverenda madre Tekla Famiglietti, superiora geral da Ordem de Santa Brígida. As relações com a Igreja atravessam um momento de excepcional criatividade. Elas se baseiam em um mútuo respeito e na busca incansável do bem ao povo cubano. Uma idéia que Fidel Castro manifestou mais de uma vez: lutar para obter toda a justiça possível e preservar para as futuras gerações os sucessos e as conquistas sociais da revolução. Esta é a base das nossas esperanças.


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