Católicos e anglicanos. Entrevista com o arcebispo de Westminster, Cormac Murphy-O’Connor
Nossa Senhora e o caminho da unidade
Há um novo episódio no diálogo com a Comunhão Anglicana. O texto conjunto sobre a mãe de Jesus, Maria: graça e esperança em Cristo, fruto do trabalho da Comissão Internacional Católico-Anglicana, pode servir não apenas ao debate teológico e eclesiológico, mas também a uma prática compartilhada de piedade popular
de Giovanni Cubeddu

O cardeal Cormac Murphy-O’Connor diante da Catedral de Westminster, em Londres
Eminência, por que um texto sobre Maria neste momento? Qual é a importância dele no diálogo entre anglicanos e católicos?
CORMAC MURPHY-O’CONNOR: Maria teve um lugar de relevo na vida e na liturgia tanto dos anglicanos quanto dos católicos. Mas os dogmas marianos da Imaculada Conceição e da Assunção, como também algumas formas de devoção mariana na Igreja Católica no passado, foram motivos de forte desacordo entre anglicanos e católicos. Assim, entre nossas duas Igrejas, qualquer diálogo sincero - que a Arcic sempre promoveu - cedo ou tarde teria de encarar essa questão. A outra razão para escolher falar de Maria consiste no fato de que, além dos desacordos sobre Ela, aparece o desacordo sobre a autoridade na Igreja. Creio que devamos em primeiro lugar esclarecer nossa concepção diferente da autoridade na Igreja - como fizemos em 1999 com a declaração “O dom da autoridade”, The gift of Authority - antes de podermos agir no sentido de considerar expressamente os dogmas. Portanto, esse documento deseja realmente ir até o coração do problema: de que forma a compreensão católica de Maria se desenvolveu segundo a Escritura e a Tradição?
Que resposta o texto fornece?
MURPHY-O’CONNOR: A parte que o documento dedica a Maria na Escritura é realmente bem feita e poderia ser utilizada para o ensino. O que aparece é uma espécie de nova acolhida de Maria, tanto por parte dos católicos quanto dos anglicanos, uma compreensão, renovada, dos diversos aspectos da tradição, que talvez tenham-se perdido de vista. O documento ajudará muitos anglicanos a recuperarem aspectos da tradição comum que eles perderam e a ver como a devoção católica por Maria, entendida de maneira adequada, coincide genuinamente com a tradição bíblica e eclesiástica. E creio que isso ajudará os católicos a redescobrirem alguns dos fundamentos bíblicos que dizem respeito a Maria e o horizonte teológico dentro do qual Ela deve ser olhada, horizonte que se perdeu de vista em algumas formas de devoção.
É um documento que dá novo vigor a ambas as tradições, e faz com que estejamos mais próximos na compreensão recíproca.
A Arcic examinou de perto a tradição mariana do Oriente (Maria, a “Toda Santa” e a “dormição” de Maria) para enfrentar os problemas que dividiram o Ocidente. Além disso, São Paulo é amplamente retomado no texto.
MURPHY-O’CONNOR: É surpreendente o que pode acontecer quando homens de fé se encontram diante das Escrituras! A Comissão acabou por trabalhar de maneira muito estendida sobre o trecho da Carta aos Romanos 8, 28-30, que não é especificamente um texto mariano. Mas para os membros da Comissão tornou-se uma espécie de instrumento de interpretação, que permitiu que vissem em Maria um modelo de graça e de esperança, reveladora, para nós, da maneira como o próprio Deus age com os homens. Tanto a Imaculada Conceição quanto a Assunção revelam algo de como Deus opera sobre nós antecipadamente, para chamar-nos durante a nossa vida, e da finalidade a que Deus nos exorta. Assim, Maria é exemplar no chamado e na resposta, e a devoção a Ela pode nos levar para mais perto de Deus por meio de Jesus Cristo.
Esse documento conjunto é um passo à frente rumo à partilha da eucaristia com os anglicanos?
MURPHY-O’CONNOR: Foi de enorme ajuda na remoção do enésimo obstáculo para a compreensão entre católicos e anglicanos. Leva-nos mais perto da partilha da eucaristia? Eu diria igualmente que sim e que não. Não, pois a maneira como a Arcic procedeu tem por finalidade esclarecer as diferenças e não necessariamente resolvê-las. Ocupa-se em limpar o caminho para fazer com que as duas Igrejas possam caminhar ainda mais próximas. E isso porque - e aqui eu responderia sim a sua pergunta - quanto mais soubermos caminhar juntos, mais poderemos construir a unidade da qual jorra a partilha da eucaristia.
A propósito do caminho a ser compartilhado, qual é a realidade atual da Igreja Católica num país de maioria anglicana como a Grã-Bretanha?
MURPHY-O’CONNOR: Para ser sincero, considero muito fascinante a vida cotidiana de um bispo ou de um cardeal católico, hoje, na Grã-Bretanha. Por um lado, há um veloz processo de descristianização do país, que realmente me preocupa: a crise da família, a falta de respeito pela vida humana - o aborto, a eutanásia, a experimentação com embriões humanos -, como também a pouca ou inexistente generosidade para com os imigrantes, e um egoísmo generalizado. Por outro lado, porém, vejo para a Igreja Católica e para seu cardeal uma possibilidade desconhecida até bem pouco tempo de fazer sua voz ser ouvida.
De que forma?
MURPHY-O’CONNOR: Hoje, por muitas razões, eu e os outros bispos católicos podemos nos expressar sobre os temas ligados à vida, ao aborto, à eutanásia, à família, à reforma das penitenciárias, ao cuidado dos pobres, de uma maneira que há apenas poucos anos era inimaginável. Nos tempos da minha juventude, a Igreja Católica estava à margem da sociedade britânica, as pessoas nos olhavam com suspeita. Hoje estamos no centro das questões, e ouve-se distintamente o que dizemos. Em parte, uma das razões disso está no fato de que os católicos não são mais apenas imigrantes que acabaram de chegar da Irlanda, mas, sim, cidadãos ingleses que desejam e precisam fazer-se ouvir. Assim, em muitos ambientes sociais e na vida cotidiana em geral, você hoje pode encontrar católicos, até mesmo no governo.

A Virgem com o Menino, saltério de Robert de Lisle, século XIV, British Library, Londres
MURPHY-O’CONNOR: O grande dom que foi dado à Igreja inglesa é o de sua firme fidelidade nos tempos de provação. Fui durante anos reitor do Venerável Colégio Inglês, e lembro-me, por exemplo, de que durante a Reforma quarenta e quatro estudantes do Colégio foram martirizados. Por séculos, a Igreja Católica e os católicos foram penalizados e perseguidos. Graças a essa experiência, a Igreja renasceu no século XIX, e desde então caminha para a frente. Assim, o que a Igreja inglesa possui é uma herança de fidelidade, de grande fidelidade ao Papa e à Igreja universal. E a experiência da Igreja britânica pode oferecer muito à Igreja universal no que diz respeito a seu modo de estar presente na Europa moderna. Concretamente, nós ajudamos o Papa com o conselho que podemos lhe dar, com a unidade da nossa Igreja, dos nossos bispos, juntos na colegialidade. Dessa forma, portanto, damos ao Papa o exemplo de uma hierarquia que é unida, que se empenha de todas as formas para fazer com que a Igreja seja mais forte e mais evangelizadora dentro da cultura atual.
Nos últimos tempos, o primaz anglicano teve de enfrentar fortes crises internas à Comunhão Anglicana. O senhor pôde ajudá-lo de alguma forma?
MURPHY-O’CONNOR: O arcebispo Williams sabe que pode contar não apenas com a minha amizade mas também com a do cardeal Kasper e do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, em Roma. Sabe que sempre terá de nossa parte uma escuta compreensiva e um conselho digno de confiança - além do mais, é disso que a amizade é feita. Falamos regularmente dos temas que o fazem enfrentar batalhas dentro da Comunhão Anglicana, mesmo porque esses conflitos dizem respeito à unidade dos cristãos. Nós tentamos ajudá-lo de todas as formas possíveis.
De que modo o senhor acha possível a unidade dos cristãos em terra anglicana?

O arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, com o papa Bento XVI, em 25 de abril de 2005, no Vaticano
E o que a Comunhão Anglicana pode nos ensinar?
MURPHY-O’CONNOR: Por exemplo, a maior escuta dos leigos nas dioceses. O bispo é alguém que cuida de sua diocese, que deve dar ouvidos a seus padres, aos religiosos e aos leigos, o que significa que depende de um tipo de governo da Igreja que é majoritariamente sinodal. Aqui, há alguma coisa que provavelmente possamos aprender dos anglicanos, remetendo-o, porém, ao interior de toda a eclesiologia da Igreja. E eis então o papado, em seu papel que consiste em servir no mundo inteiro à comunhão dos cristãos. João Paulo II, na Ut unum sint, pediu aos líderes cristãos respostas sobre a maneira como a sé de Pedro pode servir da melhor maneira à causa da comunhão, e creio que ainda devamos levar adiante este diálogo.