Notas da sede da ONU
Uma contribuição esperada
Os que seguiram até aqui a atividade
diplomática multilateral vaticana naturalmente perguntam-se sobre o modo como
esta prosseguirá com o novo Pontífice, quais serão as diretrizes e se na
Assembléia do Palácio de Vidro de Nova York será possível encontrar traços da
chamada “novidade na continuidade”.
O certo é que na primeira audiência (em francês) do Papa Ratzinger com o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, em 12 de maio, impressionou a menção “das nações com as quais a Santa Sé ainda não estabeleceu relações diplomáticas” e a expressão a estas da “sua gratidão” por unirem-se às celebrações por ocasião da morte de João Paulo II e pela sua eleição. Também manifestou o desejo de vê-las “o mais depressa possível representadas junto à Sé Apostólica”. Que houvesse uma referência, entre outras coisas, à China continental foi evidente.
Assim como foi evidente que a ação e a herança de Papa Wojtyla não pode limitar-se em poucas frases. Isso já tinha sido constatado nos numerosos discursos de despedida em memória do Papa João Paulo II tributados por todos os líderes da ONU, de Kofi Annan ao presidente da Assembléia, Jean Ping, e aos oradores que tomaram a palavra representado realmente todo o planeta. Porque ele, foi evidenciado, combateu o capitalismo selvagem do Oeste e o comunismo do Leste, e deu voz ao povo do Sul condenado a viver com menos de um dólar por dia e tentou difundir a cultura da vida no Norte desenvolvido. E cabe ao Papa João Paulo II o auspício de que a ONU deva ser o centro moral para fazer com que o mundo seja uma família de nações. Que traduzindo, significa estar do lado da paz, dos mais fracos e dos pobres.
Como o novo Pontífice declinará esta herança?
Bento XVI, logo que foi eleito, comunicou que gostaria de vincular-se idealmente a Bento XV – “que guiou a Igreja em um período difícil por causa da primeira guerra mundial” – e deste modo colocar o seu ministério “a serviço da reconciliação e da harmonia entre todos os homens”. Portanto, reconciliação.
Também não há mais dúvida, depois dos primeiros pronunciamentos de Bento XVI, que a dignidade humana, base de toda conseqüente consideração e ação política, receberá a mesma atenção e empenho dado pelo Papa anterior, e portanto certamente haverá a vontade de se exprimir sobre problemas de bioética, como por exemplo a clonagem, tema muito delicado na sede da ONU.
Se Bento XV foi o Papa que tentou evitar “a inútil tragédia”, mediando com os que queriam a guerra, o seu homônimo sucessor já se encontra diante, na sede da ONU, da tentativa impotente de novo reajustamento da ordem mundial, no qual a paz a segurança e o desenvolvimento são ao mesmo tempo critérios e urgências inadiáveis. A Igreja não pode condicionar unilateralmente a atividade da ONU, mas ninguém duvida que a viva inteligência do Pontífice poderá dar aquela contribuição que se espera da Igreja Católica para a paz e a pobreza no mundo. Por outro lado “o deserto da pobreza” foi imediatamente lembrado por ele na homilia do dia 24 de abril, quando inaugurou o seu ministério petrino, prefigurando a sua vontade de dar impulso ao magistério social e à ação caritativa, mesmo por meio de instâncias internacionais como as Nações Unidas.
Sobre a manutenção da paz, os diplomatas do Papa Bento na linha do “não” à guerra como instrumento político poderão oferecer a Kofi Annan um sincero apoio ideal.
Com efeito, em março o Secretário geral publicou um relatório que visa traçar um caminho para a reforma das Nações Unidas 60 anos depois do seu nascimento. A propósito do uso da força nas relações internacionais (inclusive o delicado caso da “intervenção humanitária” preventiva), ele pede que se faça uma resolução ad hoc do Conselho de Segurança que sancione alguns critérios para o futuro. Os quais – enunciados por extenso por Annan: seriedade da ameaça, claro propósito do uso da força, prévia consideração dos meios alternativos a esta; proporcionalidade da força a usar com relação à ameaça, razoável esperança de sucesso – são in ictu oculi idênticos aos expressos pelo Catecismo da Igreja Católica como herança de Agostinho e dos Padres da Igreja. Aplicando os critérios à realidade, o representante vaticano na ONU, aproveitou a ocasião, em maio – a propósito do delicado compromisso de conseguir êxito positivo na conferência de revisão do Tratado de não proliferação nuclear – para afirmar que a paz no século XXI não pode ser alcançada com base nos armamentos nucleares e que a resposta à ameaça do terrorismo “não pode produzir males e desordens mais graves do que o mal a ser eliminado”.
G. C.
O certo é que na primeira audiência (em francês) do Papa Ratzinger com o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, em 12 de maio, impressionou a menção “das nações com as quais a Santa Sé ainda não estabeleceu relações diplomáticas” e a expressão a estas da “sua gratidão” por unirem-se às celebrações por ocasião da morte de João Paulo II e pela sua eleição. Também manifestou o desejo de vê-las “o mais depressa possível representadas junto à Sé Apostólica”. Que houvesse uma referência, entre outras coisas, à China continental foi evidente.
Assim como foi evidente que a ação e a herança de Papa Wojtyla não pode limitar-se em poucas frases. Isso já tinha sido constatado nos numerosos discursos de despedida em memória do Papa João Paulo II tributados por todos os líderes da ONU, de Kofi Annan ao presidente da Assembléia, Jean Ping, e aos oradores que tomaram a palavra representado realmente todo o planeta. Porque ele, foi evidenciado, combateu o capitalismo selvagem do Oeste e o comunismo do Leste, e deu voz ao povo do Sul condenado a viver com menos de um dólar por dia e tentou difundir a cultura da vida no Norte desenvolvido. E cabe ao Papa João Paulo II o auspício de que a ONU deva ser o centro moral para fazer com que o mundo seja uma família de nações. Que traduzindo, significa estar do lado da paz, dos mais fracos e dos pobres.
Como o novo Pontífice declinará esta herança?
Bento XVI, logo que foi eleito, comunicou que gostaria de vincular-se idealmente a Bento XV – “que guiou a Igreja em um período difícil por causa da primeira guerra mundial” – e deste modo colocar o seu ministério “a serviço da reconciliação e da harmonia entre todos os homens”. Portanto, reconciliação.
Também não há mais dúvida, depois dos primeiros pronunciamentos de Bento XVI, que a dignidade humana, base de toda conseqüente consideração e ação política, receberá a mesma atenção e empenho dado pelo Papa anterior, e portanto certamente haverá a vontade de se exprimir sobre problemas de bioética, como por exemplo a clonagem, tema muito delicado na sede da ONU.
Se Bento XV foi o Papa que tentou evitar “a inútil tragédia”, mediando com os que queriam a guerra, o seu homônimo sucessor já se encontra diante, na sede da ONU, da tentativa impotente de novo reajustamento da ordem mundial, no qual a paz a segurança e o desenvolvimento são ao mesmo tempo critérios e urgências inadiáveis. A Igreja não pode condicionar unilateralmente a atividade da ONU, mas ninguém duvida que a viva inteligência do Pontífice poderá dar aquela contribuição que se espera da Igreja Católica para a paz e a pobreza no mundo. Por outro lado “o deserto da pobreza” foi imediatamente lembrado por ele na homilia do dia 24 de abril, quando inaugurou o seu ministério petrino, prefigurando a sua vontade de dar impulso ao magistério social e à ação caritativa, mesmo por meio de instâncias internacionais como as Nações Unidas.
Sobre a manutenção da paz, os diplomatas do Papa Bento na linha do “não” à guerra como instrumento político poderão oferecer a Kofi Annan um sincero apoio ideal.
Com efeito, em março o Secretário geral publicou um relatório que visa traçar um caminho para a reforma das Nações Unidas 60 anos depois do seu nascimento. A propósito do uso da força nas relações internacionais (inclusive o delicado caso da “intervenção humanitária” preventiva), ele pede que se faça uma resolução ad hoc do Conselho de Segurança que sancione alguns critérios para o futuro. Os quais – enunciados por extenso por Annan: seriedade da ameaça, claro propósito do uso da força, prévia consideração dos meios alternativos a esta; proporcionalidade da força a usar com relação à ameaça, razoável esperança de sucesso – são in ictu oculi idênticos aos expressos pelo Catecismo da Igreja Católica como herança de Agostinho e dos Padres da Igreja. Aplicando os critérios à realidade, o representante vaticano na ONU, aproveitou a ocasião, em maio – a propósito do delicado compromisso de conseguir êxito positivo na conferência de revisão do Tratado de não proliferação nuclear – para afirmar que a paz no século XXI não pode ser alcançada com base nos armamentos nucleares e que a resposta à ameaça do terrorismo “não pode produzir males e desordens mais graves do que o mal a ser eliminado”.
G. C.