Trinta anos do fim da guerra do Vietnã
As trilhas perdidas da paz
O diário inédito de Giovanni d’Orlandi, embaixador italiano em Saigon de 1962 a 1968. A história nunca escrita da “operação Marigold”, uma negociação secreta que poderia ter encerrado a guerra muito antes de 1975. Mas havia quem preferisse o cheiro do napalm...
de Roberto Rotondo

Acima, bombardeiros B52 em ação no Vietnã;,os destroços da cidade imperial de Hué, depois dos duros bombardeios americanos em 1968
Esse trecho de 1966, extraído de uma das mais de mil páginas datilografadas que compõem o diário vietnamita que d’Orlandi manteve de julho de 1962 a dezembro de 1968, levanta imediatamente uma pergunta: enquanto a crise do Vietnã percorria a estrada principal da intensificação do conflito militar, houve uma possibilidade concreta de fazê-la desviar-se para a via estreita das negociações de paz? O diário de d’Orlandi testemunha-nos que essa possibilidade existia, mas a história nos diz que a trilha de paz, aberta pela negociação tripartida de Saigon, logo foi perdida, e que a guerra do Vietnã, posta em prática ainda que nunca declarada, só cessará em 30 de abril de 1975, quando os últimos helicópteros americanos decolarem do teto da embaixada americana em Saigon, deixando definitivamente a capital do Sul aos vietcongues vitoriosos. Foi nesse ponto que se organizaram os balanços daquela tragédia: vinte anos de guerra, sete milhões de toneladas de bombas (mais do que as que explodiram durante toda a Segunda Guerra Mundial) sobre um território pouco maior que a Itália, sessenta mil americanos e seiscentos mil soldados vietnamitas mortos, três milhões de mortos civis, uma imensa devastação da qual o Vietnã ainda hoje traz cicatrizes, trinta anos depois do final da guerra.
A história completa da operação Marigold, a que se seguiu, em 1968, a operação Killy, nunca foi escrita. As poucas coisas que saíram nos jornais da época foram muitas vezes liquidadas injustamente como tentativas levianas. Mas as duas operações não são o único motivo de interesse pelo diário totalmente inédito que 30Dias, em colaboração com a família d’Orlandi, está para publicar integralmente. Realmente, o diário, que é fascinante e pode ser lido como um romance histórico, permite-nos reconstruir de um ponto de observação absolutamente privilegiado todo o período da escalada do esforço militar americano no Vietnã. Basta pensar que, no final de 1962, há 11 mil soldados americanos presentes no Vietnã (sob o status de conselheiros militares), e em 1968 chegam à cifra recorde de 580 mil. Esses são os anos em que “aquele país pequeno e banhado de urina”, como o definiu o presidente americano Johnson, que herdou o problema de Kennedy e o deixaria como herança a Nixon, passou de crise regional do Sudeste Asiático, sobre a qual os Estados Unidos e a URSS exerciam pressão, a pesadelo para os EUA, um choque nacional que mudaria a própria concepção do american way of life e alimentaria as manifestações de protesto de 1968 no mundo inteiro.
Diem,
o “césar-papista”
Quando, em 17 de julho de 1962, sob forte chuva tropical, Giovanni d’Orlandi, embaixador italiano no Vietnã, no Camboja e no Laos, aterriza pela primeira vez em Saigon, mesmo sabendo que um trabalho difícil o espera (é um dos cargos mais especializados do Ministério das Relações Exteriores italiano), não pode nem de longe imaginar o que o aguarda nos anos seguintes. O Vietnã que encontra é um país dividido em dois na altura do paralelo 17 pelos acordos de Genebra de 1954. Acordos jamais respeitados, nem ao norte, pelo regime comunista de Ho Chi Minh, apoiado alternadamente pela China e URSS, nem ao sul, pelo governo do nacionalista católico Ngo Dinh Diem, sustentado desde 1954 pelos EUA, pois, segundo a famosa “teoria do dominó”, se o país asiático caísse nas mãos dos comunistas, toda a Indochina e o Sudeste Asiático sofreriam a mesma sorte.
Um cenário que, por mais que seja grave, não está, em 1962, no primeiro lugar da agenda do presidente americano John F. Kennedy. De fato, JFK, ao suceder em 1961 a Eisenhower, tem problemas bem diferentes para resolver: em outubro, por meio de um bloqueio naval, tem de obrigar os soviéticos a retirarem os mísseis estratégicos de Cuba. O Vietnã, portanto, é apenas um dos múltiplos cenários dessa fase histórica que foi definida de “coexistência competitiva” entre os dois blocos. Fase em que, em todas as regiões do globo, EUA e URSS procuram limitar a influência do rival.
D’Orlandi, desde as primeiras páginas de seu diário vietnamita, descreve uma situação política, econômica e militar difícil. O presidente Diem, fervoroso católico e nacionalista anticomunista inflamado, já não goza do sucesso que teve em Washington, e sua popularidade está diminuindo também no Vietnã do Sul. Seu regime é de “condução familiar”: o irmão Nhu, seu conselheiro político, é a verdadeira eminência parda do governo; a cunhada, sendo Diem solteiro, tornou-se uma espécie de primeira-dama; o outro irmão, Thuc, é arcebispo católico de Hué, cidade imperial de fundamental importância para o equilíbrio social e religioso do Vietnã. Os três se destacam por seu extremismo. Os católicos, que representam apenas dez por cento da população e detêm as alavancas do poder em todas as áreas, já são malvistos por isso pelo restante do povo, de maioria budista. Mesmo assim, o trio não pára de envolver o mundo católico em manifestações e tomadas de posição intransigentes, anticomunistas e favoráveis à guerra a qualquer custo, que nada têm a ver com a fé. D’Orlandi, desde o primeiro momento, está preocupado com a situação religiosa no Vietnã: as repressões policiais das manifestações budistas, o cinismo da senhora Nhu, que declarava querer fornecer gasolina e fósforos aos monges budistas que punham fogo em si mesmos para protestar contra o regime, as posições do arcebispo de Hué, não apenas exasperavam a situação política, mas criavam infinitos problemas para os muitos católicos que não se reconheciam de modo algum nas idéias da família Diem e tinham de lidar, como o resto da população, com problemas bem diferentes. Um desses problemas era o projeto dos vilarejos estratégicos que já estava se realizando: a população dos campos, entre mil dificuldades, era obrigada a viver em vilarejos cercados por arame farpado e fortificações, para impedir a contínua infiltração de vietcongues e de soldados norte-vietnamitas entre os camponeses. O mesmo fora feito nos bairros das grandes cidades. Mas os resultados eram desencorajadores, quando não contraproducentes. D’Orlandi dedica páginas muito interessantes aos vilarejos fortificados, surpreso pelo fato de que não nasciam apenas por motivos estratégicos, mas também ideológicos: para a família Diem, tal como o inimigo vietminh extraía suas táticas de guerrilha da doutrina de Mao Tsé-Tung, da mesma forma os vilarejos estratégicos, nascidos para defender os camponeses dos comunistas, mas transformados em prisões, eram inspirados pela filosofia personalista francesa. Era uma espécie de purificação para a população. Para d’Orlandi, também católico, isso é uma loucura, mas não a única que registra entre os católicos do país, divididos entre fundamentalistas e moderados. Nesses anos, d’Orlandi sempre procurará ajudar estes últimos, protestando mais de uma vez contra os discursos sobre o Vietnã do cardeal Spellman, de Nova York, favorável à guerra, procurando alavancar os apelos de Paulo VI contra a guerra, ajudando como podia missionários e instituições religiosas católicas.
Em 1963, d’Orlandi estreita amizade com o embaixador americano Henry Cabot Lodge, que o porá a par do golpe de Estado contra Diem organizado pelos generais sul-vietnamitas com o apoio dos EUA. Desgraçadamente, Diem é assassinado pelos golpistas em 3 de novembro: “A maior tragédia da guerra do Vietnã”, comentará o chefe da CIA William Colby, intuindo que estavam afundando num pântano perigoso.
Mas os americanos são logo obrigados a olhar para outro lado, pois, vinte dias depois, o presidente Kennedy é assassinado em Dallas e sucedido, como já se disse, por seu vice, Lyndon Johnson. Estranhamente, d’Orlandi não relata naqueles dias as recaídas da situação no Sudeste Asiático.
A escalada militar
O golpe contra Diem foi apenas o primeiro de uma série de golpes de Estado e manobras que levarão ao governo personagens como Minh, o general Khanh e o general Cao Ky, os quais terão para o destino do Vietnã do Sul um efeito tão devastador quanto a guerrilha vietcongue. D’Orlandi, nesses anos, não é apenas uma testemunha inteligente e, por isso, cética quanto à possibilidade de vitória do Vietnã do Sul, mas, em alguns casos, é também solicitado pelos componentes vietnamitas mais moderados a fazer com que os EUA não apóiem a subida ao poder dos elementos mais violentos e extremistas do exército. D’Orlandi pode contar nesses anos com a confiança do embaixador Cabot Lodge (que é substituído em 1964, para ser reintegrado no ano seguinte), ainda que se tenha de levar em consideração a obra de dois falcões como o secretário de defesa Robert McNamara, que na realidade desde 1966 começara a nutrir grandes dúvidas sobre a sua condução da guerra e o secretário de Estado Dean Rusk. Os dois estão entre os principais artífices da escalada militar americana no Vietnã.
Um processo acompanhado e analisado em todos os detalhes em seu diário: o ataque norte-vietnamita a dois navios americanos no Golfo de Tonquino (incidente de 1964, sobre o qual d’Orlandi mostra muita perplexidade, uma vez que, como muitos, teme que tenha sido provocado para convencer o Congresso americano a dar carta branca ao presidente Johnson sobre a questão do Vietnã); o desembarque de marines em 1965, que deu início às operações terrestres em grande escala do exército americano para retomar o controle do território sul-vietnamita, que escapa cada vez mais do governo de Saigon, infiltrado como estava pelas tropas de Ho Chi Minh e pelos vietcongues, que, espalhados, controlavam amplas regiões do delta do rio Mekong; a operação Rolling Thunder, de 1965, a primeira de muitos bombardeios maciços sobre o Vietnã do Norte, com os quais os EUA pensavam obrigar os norte-vietnamitas à rendição, mas que nunca produziu os efeitos esperados. De fato, escreve d’Orlandi em seu diário: “Não entendo por que os americanos insistem com tanta teimosia em continuar com os bombardeios, já que as infiltrações dos norte-vietnamitas, em vez de diminuírem, quadruplicaram. Por fontes autorizadas, eu soube que só no último mês não foram inferiores a 22 mil homens”. Mas essa não é a única coisa que d’Orlandi não consegue explicar, pois, examinando o aspecto econômico, que para ele não é secundário ao militar, em 29 de maio de 1966 escreve: “Se a ajuda americana até agora destinada em orçamento tivesse sido distribuída por cabeça, cada família vietnamita teria hoje uma casa, uma geladeira, uma televisão e uma horta. Eu gostaria de saber em que setor civil foi criada uma infraestrutura sólida, ou que problema econômico foi resolvido. Neste país, além das negociatas descaradas e do tráfico de influências, caminha-se sem nenhum plano preestabelecido. Quando as inundações provocaram o êxodo de centenas de milhares de pessoas, entre as quais 200 mil católicos, não foi doado um punhado de arroz ou um cobertor. O homem do povo não vê nenhuma ajuda concreta por parte dos EUA e está convencido de que grande parte dos dólares enviados tenha voltado para a América, ido para a Suíça ou para Hong Kong. Como é possível, no atual caos político-econômico-militar, responder aos argumentos desses vietnamitas (que são cada vez mais numerosos) que afirmam que em tanta corrupção vietnamita e estrangeira os únicos ainda honestos são os vietcongues? Muito se poderia fazer, e talvez ainda se possa tentar fazer para evitar este estado de coisas, mas bem pouco foi feito. Pelo que me concerne, sempre acreditei dever exprimir com muita franqueza aos amigos americanos o que via e me preocupava. Quando o Senado e o Congresso tiverem de abrir uma ampla investigação sobre os erros e as culpas que fizeram com que a situação vietnamita chegasse onde chegou, eu não vou querer estar na pele dos vários dirigentes da ajuda econômica americana em Washington ou no Vietnã”.
Um mês depois dessa análise amarga, em 27 de junho de 1966, d’Orlandi recebe a visita do delegado polonês junto à Comissão de Armistício de Genebra, Janusz Lewandowsky. Este representa um país do outro lado da cortina de ferro com relações estáveis com Hanói e é portador de uma mensagem que deixa d’Orlandi impressionado: Hanói está disponível a um compromisso para a solução do conflito no Vietnã, não exige a reunificação imediata do país nem quer impor um sistema socialista no Vietnã do Sul. Porém, não aceita soluções que possam ser lidas como uma capitulação, e exige, além de segredo total sobre a operação, o fim dos bombardeios. Nos dias que se seguem, são redigidos, com o embaixador americano Cabot Lodge, dez pontos que recebem o nome de “degraus”, pois deveriam ser aceitos um após o outro até que se chegasse ao acordo final. O ritmo do diário se torna alucinante; transparece nessas páginas a paixão com que d’Orlandi (apoiado na Itália pelo ministro das Relações Exteriores, Amintore Fanfani, e pela parte da Democracia Cristã que temia que os protestos contra os EUA no Vietnã acabassem por favorecer o Partido Socialista Italiano) vive o momento mais importante e elevado de sua carreira. O presidente americano Johnson é informado desde o primeiro momento da negociação; parece haver todos os pressupostos para que se siga até o fim. Mas os falcões da administração americana, entre os quais Rusk e McNamara, soterram a tentativa de acordo sob uma chuva de bombas. Depois da enésima incursão sobre Hanói, em 13 de dezembro, cai tudo por terra, e os norte-vietnamitas encerram qualquer negociação. Segue-se um período negro, os poloneses chegam a ser acusados pelos americanos de terem blefado e d’Orlandi é tachado de ingênuo.

Paradoxalmente, em 1968, quando o conflito no Vietnã atinge um dos momentos mais dramáticos - com Brejnev assegurando o completo apoio militar ao Vietnã do Norte e Rusk declarando que não exclui o recurso à bomba atômica -, EUA, URSS e Inglaterra firmam o acordo de não proliferação nuclear, um marco do equilíbrio mundial da segunda parte do século XX. Prova de que a URSS, a despeito da teoria do dominó, não ajudava o Vietnã para garantir o domínio do Sudeste Asiático, mas para cansar seu rival e “amolecê-lo” em outras frentes.