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VATICANO. As palavras do cardeal Antonio Cañizares Llovera
“Porque procuro sempre o encontro e o diálogo”
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Entrevista com o novo prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos: os estudos de liturgia, a sua experiência de bispo, a relação com o governo espanhol,
o Concílio Vaticano II e a remissão da excomunhão dos lefebvrianos |
Entrevista com o cardeal Antonio Cañizares Llovera de Gianni Cardinale
O cardeal Antonio Cañizares Llovera, espanhol,
da região de Valência, 64 anos a serem completados em outubro
deste ano, é o novo prefeito da Congregação para o
Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Com o cardeal, a Espanha volta
a contar com um chefe de dicastério na Cúria Romana. De
caráter jovial, mesmo tendo a fama de ser um “severo”, o
purpurado nos recebe em seu escritório com as janelas voltadas para
a Praça de São Pedro. Antes de chegar a Roma o cardeal foi
bispo de Ávila, de Granada e, por último, de Toledo.
Também foi vice-presidente da Conferência Episcopal Espanhola.
O fato de residir atualmente em Roma não impede a estreita
ligação com o seu país. Também por isso,
aceitou colaborar semanalmente para o jornal de Madri La Razón.
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 | | O cardeal Cañizares Llovera durante
a bênção eucarística no final da procissão de Corpus Christi pelas ruas de Toledo [© Agencia Efe] | | |
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Eminência, o senhor foi nomeado pelo Papa
prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos em 9 de dezembro passado. Há tampo se falava da sua
chamada a Roma...
ANTONIO CAÑIZARES LLOVERA: Com efeito era assim.
Já era uma verdadeira perseguição, não podia
aparecer em público que os jornalistas, mas não apenas eles,
perguntavam-me: quando o senhor vai a Roma? Mas eram “rumores”.
E tais permaneceram até que o Papa comunicou a sua decisão
durante a audiência que me foi concedida em 20 de novembro de 2008.
A nomeação foi publicada no dia em que a
Igreja lembra também de Santa Leocárdia de Toledo. Não
é por acaso...
CAÑIZARES LLOVERA: Obviamente não, foi
uma homenagem a esta jovem mártir do século IV, vítima
da terrível perseguição de Diocleciano, que é
também protetora da juventude toledana. Para Toledo foi muito bom
que a nomeação tenha sido anunciada naquele dia: pois Santa
Leocárdia era uma jovem testemunha da oração e da
caridade. Mas no dia 9 de dezembro festeja-se também San Juan Diego,
ao qual apareceu Nossa Senhora de Guadalupe. É um dia importante
para toda a América Latina e portanto também para a Espanha!
Como o senhor enfrenta este novo encargo? O senhor fez
estudos especiais de Liturgia?
CAÑIZARES LLOVERA: Desde o início da
minha formação sacerdotal fui apaixonado pela liturgia. Antes
da tese de doutorado em Teologia Pastoral e Catequética, estudei a
Sagrada Escritura no Tríduo pascoal da liturgia hispânica.
Como sacerdote lecionei Liturgia e Catequese. Como bispo, antes em
Ávila e depois em Granada e enfim em Toledo, uma das minhas
principais preocupações era que nas dioceses que o Senhor me
confiara a liturgia eucarística fosse celebrada em todos os lugares
com sobriedade e beleza, sempre dentro do respeito das normas estabelecidas
pela Igreja. Com efeito, a missa é realmente a fonte e ápice
da vida cristã – como nos recordou o Concílio Vaticano
II –, e por isso não pode ser celebrada de modo indigno. A
Eucaristia é realmente o coração da Igreja, e portanto
a adoração eucarística, dentro da
celebração litúrgica, mas não somente ali,
é uma ação decisiva para a vida das nossas
comunidades.
A sua formação sacerdotal amadureceu
durante a transição do pré ao pós
Concílio...
CAÑIZARES LLOVERA: De fato, entrei no
seminário diocesano de Valência em 1961, com 16 anos, portanto
de 1964 a 1968 estudei na Pontifícia Universidade de Salamanca onde
obtive a graduação em Teologia. Em 1970 fui ordenado
sacerdote e no ano seguinte, no mesmo Ateneu, concluí o doutorado
com a especialização em Catequese.
Então o senhor é o primeiro prefeito da
Congregação para o culto Divino a ter logo celebrado com o Novus Ordo pós-conciliar...
CAÑIZARES LLOVERA: Evidentemente é assim.
Celebrei com o missal de 1962 apenas recentemente, em 2007, quando ordenei
dois sacerdotes do Instituto Cristo Rei em Gricigliano, perto de
Florença.
O que o senhor recorda da fase de reforma litúrgica?
CAÑIZARES LLOVERA: Creio que um aprofundamento e
uma renovação da liturgia tenham sido
necessários. Mas do modo como eu vivenciei , não foi uma
operação com um perfeito êxito. A primeira parte da
constituição Sacrosanctum
Concilium não entrou no
coração do povo cristão. Houve uma mudança nas
formas, uma reforma, mas não uma verdadeira renovação
como pede a Sacrosanctum Concilium. Às vezes muda-se pelo simples fato de mudar com
relação a um passado considerado de todo negativo e superado.
Às vezes, concebe-se a reforma como uma ruptura e não como um
progresso orgânico da Tradição. Disso partem todos os
problemas criados pelos tradicionalistas ligados ao rito de 1962.
Então tratou-se de uma reforma que, nos fatos,
não respeitou plenamente o ditado conciliar?
CAÑIZARES LLOVERA: Mais do que isso diria que
foi uma reforma aplicada e principalmente vivida com uma mudança
absoluta, como se tivesse que criar um abismo entre o pré e o
pós Concílio, em um contexto em que
“pré-conciliar” era usado como um insulto.
Na verdade até hoje geralmente é assim.
Todavia, quando foi publicada a sua nomeação, alguns
descreveram a sua evolução teológica como uma
parábola que partiu de uma posição bastante
progressista e aportou em mares conservadores. Na prática o mesmo
itinerário “imputado” ao Papa Bento XVI. O senhor se
reconhece neste contexto?
CAÑIZARES LLOVERA: Em 1967, quando eu era
estudante no seminário, li um artigo do então professor
Joseph Ratzinger sobre a renovação da Igreja depois do
Concílio, artigo que colocava em alerta sobre algumas derivas que
já estavam acontecendo. Compartilhei plenamente o seu escrito. O
Concílio foi uma bênção para a Igreja. Eu sempre
o vivi não como uma ruptura com a Tradição, mas como
uma confirmação da Tradição, atualizada para
poder ser oferecida ao homem de hoje. Nesse aspecto não creio que eu
tenha mudado. Quem me conhece bem sabe que na minha vida não houve
“retornos”. É suficiente ler o que escreveu Juan Martin
Velasco no jornal País depois da minha nomeação.
Na mídia o senhor é conhecido como o
“pequeno Ratzinger”. O que o senhor acha deste epíteto?
CAÑIZARES LLOVERA: Bem [sorri, ndr], talvez porque nós
dois temos os cabelos completamente brancos... Talvez o apelido tenha
nascido na época, entre 1985 e 1992, que fui secretário da
Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé. Obviamente para mim
sempre foi uma grande honra ser comparado ao cardeal Ratzinger, mais ainda
hoje. Mas que seja claro, não me considero digno. Non sum dignus. Sinceramente.
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 | | O altar El transparente (1730) do escultor Narciso Tomé na Catedral de Toledo, Espanha [© Lessing Photo/Contrasto] | | |
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Quando o senhor o conheceu pessoalmente?
CAÑIZARES LLOVERA: Em 1987, durante uma
reunião dos presidentes das Comissões Episcopais
Européias para a Doutrina da Fé. Mais tarde este conhecimento
pôde ser aprofundado pela minha colaboração à
redação do Catecismo da Igreja
Católica publicado em 1992, e
à sua tradução em língua espanhola. E, por
último, com a nomeação a membro da
Congregação para a Doutrina da Fé.
Um outro aspecto que a imprensa colocou à luz
é o do seu comportamento para com o atual governo espanhol. O
senhor foi definido como um “anti-Zapatero de ferro”.
CAÑIZARES LLOVERA: Por favor! Eu não sou
“anti” ninguém. Por definição. Não
pertence ao meu DNA. E acredito que poucos bispos tenham uma
relação tão próxima com o governo da Espanha
como eu tenho. Isso é demonstrado, por exemplo, com as
relações cordiais com a vice-presidente socialista, Maria
Teresa Fernández de la Vega, e com o responsável pelo governo
socialista da Castela-La Mancha, onde encontra-se Toledo. E mesmo com os
governos socialistas da Andaluzia, quando eu era arcebispo de Granada,
sempre tivemos boas relações. Do mesmo modo sou muito amigo
de vários expoentes do Partido Popular, desde quando eu era o bispo
de Ávila – cujo prefeito, Angel Acebes, era do PP – ou
quando eu era sacerdote em Valência [fortaleza do PP, ndr]. Não sou um homem de
oposição por um partido assumido e que gosta de
“guerra”. Procuro sempre o encontro e o diálogo. Isso
não me impede, repito, de dizer abertamente o que a minha
consciência de cristão e o meu dever de pastor da Igreja me
obrigam dizer.
Com efeito, mais de uma vez o senhor criticou
abertamente as iniciativas do governo...
CAÑIZARES LLOVERA: Como bispo tenho um dever
particular para com os fiéis e para com todos os espanhóis.
Tenho o dever de defender o direito dos mais fracos, como são os
não-nascidos, tenho o dever de defender o matrimônio assim
como fez a lei natural, tenho o dever de defender a liberdade religiosa, a
liberdade dos pais de educar os filhos em base aos seus próprios
princípios, a liberdade da Igreja. Como o senhor vê, trata-se
de promover os grandes “sim” à vida e à
família assim como nos pede o Evangelho de Jesus. Para o bem do
homem e de toda a sociedade. Nós não queremos impor nada.
Queremos a liberdade de propor. Nós amamos a liberdade. Sem
liberdade uma sociedade não tem futuro. Hoje, o perigo é que
esta liberdade seja anulada.
Em que sentido?
CAÑIZARES LLOVERA: A liberdade não
é possível sem a verdade e sem a razão. O perigo de
hoje é o de querer separar a liberdade da verdade. Neste sentido
pode ser que algumas afirmações minhas sejam recebidas
como críticas contra algumas medidas do governo. Mas a Igreja
não pode calar sobre essas questões. Trairia Jesus. Somos a
Sua Igreja. E não podemos ser contra o que ele disse e contra os
mandamentos de Deus. Nós respeitamos o poder constituído.
Devemos ser assim, e isso é recordado várias vezes nas Cartas
de São Pedro e São Paulo, mas não por isso a nossa
palavra – sobre questões centrais que se referem à
fé e à moral – pode ser acorrentada. Espero ter sido
claro.
Então não é verdade – como
foi até escrito – que o senhor foi transferido a Roma
para fazer um favor ao governo espanhol incomodado com o seu comportamento
crítico...
CAÑIZARES LLOVERA: Política
imaginária. Não tem nada a ver com a realidade. Até
mesmo porque depois foi escrito o contrário. A minha vinda para Roma
não tem nada a ver com a questão das relações
Estado-Igreja na Espanha. Absolutamente não.
O senhor também é membro da
Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”. Qual é
o seu parecer sobre o motu proprio Summorum
Pontificum?
CAÑIZARES LLOVERA: Mesmo sendo recebido por
parte de alguns de modo não entusiasmado, foi um gesto de
extraordinário bom senso eclesial. Com o qual reconheceu-se como
plenamente válido um rito que nutriu espiritualmente a Igreja latina
por mais de quatro séculos. Acredito que este motu proprio seja uma graça
que fortificará a fé de grupos tradicionalistas que já
estão organicamente presentes na Igreja e que ajudará o
retorno dos chamados lefebvrianos... Será também uma ajuda
para todos.
O senhor teve contato com os lefebvrianos: o que o
senhor acha da remissão da excomunhão dos bispos e das
polêmicas que seguiram?
CAÑIZARES LLOVERA: Não tive contato com o
mundo chamado “lefebvriano”. Com relação à
remissão da excomunhão o meu pensamento é simples. Foi
um gesto de misericórdia gratuita do Santo Padre, para ajudar a
plena integração deles na Igreja Católica. É
obvio que isso só poderá acontecer depois que eles
reconhecerem todo o Magistério da Igreja, inclusive o que foi
expresso no Concílio Vaticano II e pelos últimos
pontífices. Mas temos de reconhecer que a unidade é
inseparável da cruz.
E com relação às
afirmações negacionistas ou reducionistas do Shoah do bispo Williamson?
CAÑIZARES LLOVERA: Trata-se de delírios
que o Papa e a Santa Sé repetida e firmemente rejeitaram. Espero e
rezo para que sejam o quanto antes, oficial e claramente, renegadas pelo
interessado. Porém, acrescento que não foi um belo
espetáculo o modo com o qual o Papa foi tratado, mesmo pelos que
estão dentro da Igreja, em toda essa história. Felizmente,
pelo menos a Igreja espanhola emitiu um belo comunicado de filial apoio ao
nosso grande Bento XVI.
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 | | O cardeal Cañizares Llovera com o primeiro-ministro José Luis Zapatero a 7 de janeiro de 2009 [© Agencia Efe] | | |
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Voltemos à liturgia. Quando o senhor era
arcebispo em Toledo celebrou também no antiquíssimo rito
moçárabe...
CAÑIZARES LLOVERA: Com efeito, todos os dias na
Catedral de Toledo celebra-se a missa e recitam-se as laudes, também
segundo este antiquíssimo rito que sobreviveu à reforma
tridentina. É preciso recordar, de fato – e isso não
agrada a algumas pessoas – que o chamado Missal de São Pio V
não aboliu todos os ritos precedentes. Foram “salvos” os
ritos que podiam contar com ao menos dois séculos de
história. E o rito moçárabe – junto com o, por
exemplo, rito próprio da ordem dominicana – estava entre
estes. Assim depois do Concílio de Trento não houve uma
absoluta uniformidade na liturgia da Igreja Latina.
Quais são, além das que já
falamos, as questões que deverá enfrentar ao desenvolver a
sua missão?
CAÑIZARES LLOVERA: Ajudar toda a Igreja a seguir
plenamente o que indicou o Concílio Vaticano II na
constituição Sacrosanctum
Concilium. Ajudar a compreender plenamente o que
o Catecismo da Igreja Católica diz sobre a liturgia. Usar como guia o que o Santo Padre
– quando era o cardeal Joseph Ratzinger – escreveu sobre o
assunto, especialmente no belíssimo livro Introdução ao espírito da liturgia. Usar como guia como o Santo Padre – coadjuvado pelo
Departamento das Cerimônias Litúrgicas presidido pelo
monsenhor Guido Marini – celebra a liturgia. As liturgias
pontifícias, com efeito, sempre foram, e ainda são,
exemplares para todo o mundo católico.
Em uma entrevista concedida na Espanha o senhor elogiou
a decisão do Papa de distribuir a eucaristia, nas liturgias por ele
presididas, apenas de joelhos e apenas na boca. Estão previstas
mudanças, neste ponto, na disciplina universal da Igreja?
CAÑIZARES LLOVERA: Como se sabe, a atual
disciplina universal da Igreja prevê como norma que a comunhão
seja distribuída na boca dos fiéis. Há também
um indulto que permite, a pedido dos episcopados, distribuir a
comunhão também na palma da mão. Isso é bom que
seja recordado. O Papa, para dar maior relevo à devida
reverência com a qual devemos nos aproximar do corpo de Jesus, quis
que os fiéis que recebessem a comunhão das suas mãos
que o façam de joelhos. Pareceu-me uma iniciativa bela e edificante
do bispo de Roma. As normas atuais não obrigam ninguém a
fazer o mesmo. Mas também não impedem isso.
O senhor já conhece a Itália e a
Cúria Romana?
CAÑIZARES LLOVERA: Conheço estas duas
realidades menos do que deveria. Espero poder logo recuperar.
Da Espanha, qual a sua impressão sobre a Igreja
italiana?
CAÑIZARES LLOVERA: Muito positiva. A Igreja
italiana nos serve de exemplo. E para mim pessoalmente. É uma Igreja
do povo que sabe falar com clareza e respeito, e ao mesmo tempo desenvolve
uma grande obra de ajuda às faixas mais necessitadas da sociedade
italiana.
O senhor tomou posse poucos dias depois da
nomeação. Mas antes de se estabelecer em Roma, retornou duas
vezes à Espanha: o senhor encontrou-se com o rei e com o
primeiro-ministro Zapatero e acompanhou o Secretário de Estado,
cardeal Tarcisio Bertone, em sua viagem a Madri no início de
fevereiro. Quais são os temores e as esperanças para o seu
país?
CAÑIZARES LLOVERA: Temo que a onda laicista e
relativista que investe a sociedade prossiga prejudicando princípios
e valores fundamentais sobre os quais se construiu a nossa
nação: a fé católica, a vida, a família,
a educação. Espero e rezo para que a Igreja seja capaz de
apresentar aos espanhóis a face autêntica de Jesus, que os
espanhóis abram ou reabram o próprio coração a
Jesus que oferece a todos esperança de uma vida nova, mais bela e
digna de ser vivida. Espero e rezo para que os meus compatriotas abram o
coração e a mente a Jesus e não cortem as
raízes cristãs que estão na base da nossa
história e da unidade do nosso país.
Como arcebispo de Granada o senhor pôde ver de
perto qual foi a influência e a herança
árabe-muçulmana na história da Espanha. Quais
são as suas reflexões a propósito?
CAÑIZARES LLOVERA: A dominação
muçulmana durou séculos. E parecia uma questão
concluída, Não escondo que não falta uma certa
preocupação, porque no mundo islâmico há gente
que gostaria de recuperar para o islã as nossas terras. Confirmando
que nós católicos queremos boas relações com
todos, incluindo os muçulmanos, estes projetos – que
não parecem ser apenas teóricos – não podem
não nos perturbar.
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 | | O cardeal Cañizares Llovera em audiência com Bento XVI a 30 de janeiro de 2009 [© Osservatore Romano] | | |
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O senhor teme pela unidade do seu país?
CAÑIZARES LLOVERA: A unidade da Espanha é
um bem moral, pré-político constitutivo da nossa identidade.
Não é apenas uma questão política. Esta unidade
tem origem no III Concílio de Toledo de 589, quando o rei visigodo
Recaredo converteu-se à verdadeira fé e abandonou o
arianismo, favorecendo assim uma plena comunhão entre os componentes
latino e germânico da população. O cardeal Ratzinger
recordou isso em uma conferência na qual disse que o Concílio
de Toledo foi de algum modo o ato de fundação da Europa. Por
isso considero que a unidade da Espanha seja um bem não
negociável.
Porém, no corpo episcopal espanhol há
sensibilidades diferentes a propósito por parte dos bispos das
regiões mais autonomistas...
CAÑIZARES LLOVERA: A Conferência Episcopal
Espanhola aprovou um documento no qual a unidade do país é
considerada um bem moral. E isso foi feito com um voto claríssimo.
O que o senhor acha da causa de
beatificação de Isabel de Castela?
CAÑIZARES LLOVERA: Isabel era uma mulher com
muita fé, uma esposa exemplar, uma rainha com um zelo
apostólico único, uma grande cristã. Deu a
permissão a Colombo para atravessar o Atlântico com a
condição de que o seu primeiro objetivo fosse evangelizar as
terras que tivesse descoberto. Creio e espero que possa subir às
honras dos altares o quanto antes. Confesso que como arcebispo de Granada
muitas vezes, especialmente quando tinha algum problema importante a
ser enfrentado, ia rezar diante do túmulo de Isabel que se encontra
na Catedral, e sempre percebi sua ajuda.
Em uma entrevista ao jornal La
Razón o senhor disse que último
filme que viu foi A Vida é Bela de Roberto Benigni.
CAÑIZARES LLOVERA: É um filme
belíssimo, aberto à vida e à esperança. Na
verdade é a quarta vez que o vi. E todas as vezes me comovo mais
ainda. A vida é realmente bela porque é um dom de Deus.

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