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Augusto Del Noce. Um pensamento não maniqueísta
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Há vinte anos, em 30 de dezembro de 1989, morria, em Roma, Augusto Del Noce, um dos maiores intelectuais italianos do pós-guerra, assíduo colaborador de 30Dias. O aniversário de sua morte, ao qual se seguirá, em 2010, o centenário de seu nascimento, permite voltar a refletir sobre o percurso conceitual do filósofo |
de Massimo Borghesi
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 | | Augusto Del Noce [© Grazia Neri]
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O leitmotiv de um pensamento
Há vinte anos, em 30 de dezembro de 1989,
morria, em Roma, Augusto Del Noce, um dos maiores intelectuais italianos do
pós-guerra, assíduo colaborador de 30Dias. O aniversário de sua
morte, ao qual se seguirá, em 2010, o centenário de seu
nascimento, permite voltar a refletir sobre o percurso conceitual de um
filósofo por quem o interesse nunca diminuiu, tanto no âmbito
católico quanto no leigo. Autor complexo, genial na
indicação de genealogias e percursos ideais inexplorados, Del
Noce parece desorientar quem procura encontrar a unidade de seu pensamento.
Tomo aqui a liberdade de apresentar uma hipótese, por mais
insólita que possa soar. O elemento de fundo do pensamento
delnociano, seu impulso ideal, não está, como ele repetiu
mais de uma vez, referindo-se a qualquer doutrina filosófica, no
desejo de conhecer, numa gnosiologia, mas, sim, numa afirmação moral; em seu caso,
na rejeição de “qualquer cumplicidade com o mal”1. É esse
posicionamento que o leva a encontrar e a constituir amizade, em 1935, com
Aldo Capitini, uma nobre personalidade antifascista, teórico da
não violência. Muitos anos depois, chegaria mesmo a afirmar
“que é a sensibilidade ao problema da violência [...]
que distingue os filósofos autênticos dos filósofos
acadêmicos”2. Na correspondência com Norberto Bobbio, pouco antes
de sua morte, escreverá que “tivemos em comum uma
aversão, desde os primeiros anos da juventude: a aversão ao
predomínio da força”3. Essa “aversão” é o que nos
permite retomar passo a passo o percurso existencial, teológico,
político e filosófico de Del Noce4. A começar da oposição moral ao
fascismo, após a guerra da Etiópia, em 1936, uma vez que
“o que o fascismo afirmava era um reinado universal da força,
a elevação da violência pura a valor”5. Passando pela
decepção com a Resistência (que inicialmente tinha
visto como uma primavera) pois traía a identidade entre
“antifascismo” e “não violência”, para
ele decisiva6. E chegando à oposição e à
crítica ao marxismo, pela redução da ética a
política e pela justificação que faz da
violência. Percorrendo as várias etapas do pensamento do
filósofo, podemos encontrar, assim, uma espécie de fio
condutor: a rejeição da violência, a não
cumplicidade com o mal, como motivo de fundo de sua reflexão. Essa
convicção moral é o horizonte em que se bifurca o
caminho de seu pensamento. Vem daí, e este é o aspecto que
gostaríamos de sublinhar, uma vez que é negligenciado nos
outros estudos sobre o autor, o encontro com as
categorias do pensamento gnóstico,
consideradas por ele as mais adequadas para
entender a forma nova que a violência assume ao longo do
século XX.
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 | | Ambrósio batiza Agostinho, Pinacoteca Vaticana, Cidade do Vaticano | | |
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Da rejeição maniqueísta da
história ao maniqueísmo ativo. O problema do marxismo: gnose
ou terapia antignóstica?
A familiaridade de Del Noce com os conceitos
gnósticos data de meados da década de 1930, quando sua
oposição ideal ao fascismo coincide com o seu interesse pelo
filósofo Piero Martinetti. O pensamento de Martinetti, inspirado num
dualismo kantiano fortemente pessimista, levava a um incurável
conflito entre interioridade e exterioridade, entre moral e poder, vida
espiritual e história7. O mundo exterior, dominado pelo fascismo, se opunha ao
mundo interior, numa espécie de contraposição entre o
reino das trevas e o reino da luz que renovava, indiretamente, um quadro
gnóstico-maniqueísta, “cátaro”8. “A mentalidade
maniqueísta, nos últimos anos do fascismo”, escreve Del
Noce em 1944, “foi uma tentação bastante forte (e
encontrou, também filosoficamente, nas últimas obras de
Martinetti e Rensi, seus intérpretes). Podia o avanço do
fascismo deixar de parecer o de uma força pura e simples (e
não de um valor; contra os valores, isso sim), que somente pelo
impacto com uma força mais poderosa poderia ser detido [...] Mas na
Itália, em 1938, a mentalidade maniqueísta era um estado de
espírito desesperado [...] – meu
também, em parte”9. Del Noce confessa aqui sua
tentação daqueles anos, tamanha a ponto de o levar a entrar
em crise, seriamente, também no que diz respeito à fé
católica. “Essa oposição entre a ética e
a violência foi vivida por mim de maneira dilacerante nos anos entre
1930 e 1940. [...] Sofri essa contradição de um modo
exasperado naqueles anos, dramaticamente, pois as várias filosofias
que tinham então prestígio pareciam-me tentativas de viver em
harmonia com a violência; a única certeza que eu tinha era a
certeza moral, de ter de testemunhar pela ética contra a
violência (daqui a minha amizade com Aldo Capitini). Não
escondo também o fascínio que exerceram então sobre
mim as formas religiosas orientadas para o dualismo gnóstico”10.
O Del Noce “gnóstico-maniqueísta” sai
da crise espiritual que o atormenta em 1943, com a queda do fascismo, a
recuperação da obra de Jacques Maritain e a experiência
dos católico-comunistas, entre o fim de 1943 e os primeiros meses de
1944. A queda do regime abre a possibilidade de pensar numa
relação diferente entre idealidade e história, uma
história já não abandonada ao reino da violência
e do mal. A mentalidade maniqueísta, declara Del Noce em 1944,
“não é mais a minha”11. O problema que o momento histórico impõe aos
católicos é agora o da determinação da natureza
do comunismo: este é um aliado na criação da nova
sociedade ou um adversário, inconciliável com a
posição cristã? Em Humanismo
integral, de Maritain, Del Noce podia encontrar
tanto a indicação de uma possível aliança
prática com a esquerda marxista, quanto a observação
de que o humanismo de Marx era um humanismo
“maniqueísta”, que “obriga a repelir para as
trevas toda uma parte da herança humana, enquanto religiosa”12. O uso do termo
“maniqueísta” é retomado por Del Noce em
relação ao marxismo, uma vez que, para essa ideologia,
“o mal está na estrutura do real”13. A história, vista
como contraposição dialética entre as classes, uma
negativa e outra positiva, reapresenta um dualismo em que a hegemonia de
uma das duas partes sociais coincide com o mundo perdido, alienado,
próprio das cosmologias gnósticas. O problema que Del Noce
encontra aqui é, porém, o uso de um conceito – o de
maniqueísmo – que parece se referir, inopinadamente, a
fenômenos diferentes. De um lado, esse conceito descrevia, no final
da década de 1930, a contraposição martinettiana entre
ética e história; de outro, parecia referir-se agora a uma
doutrina que incorporava a ética à história e
santificava a violência. O maniqueísmo, este era o problema,
repelia ou implicava a ação violenta? Pode uma mesma
categoria referir-se a posições ideais antitéticas?
Acrescentemos a isso o fato de que na ótica do catolicismo
comunista, expressa por Franco Rodano e por Felice Balbo, o marxismo, longe
de encontrar a posição gnóstica, como afirmarão
em seguida Eric Voegelin e Ernst Topitsch, constituía, ao
contrário, seu corretivo, o reagente às tendências
idealístico-gnósticas próprias de um certo
cristianismo agostiniano-platonizante, pessimista e impotente diante da
história. Marx aparecia aqui como um Aristóteles redivivo que
exigia um novo Tomás para ser incorporado ao pensamento
católico14. Num artigo de 1958 publicado em Il
Mulino, dedicado à obra de Felice Balbo,
Del Noce tomava a obra de Claude Tresmontant Études
de métaphysique biblique (Paris, 1955)
como exemplo paradigmático dessa interpretação. Para
Tresmontant, Marx, em sua crítica a Hegel, repete a crítica
de Aristóteles a Platão, permitindo ao pensamento
cristão repudiar as sugestões gnósticas e recuperar o
contato com o pensamento bíblico, realista e antiplatônico.
Essa leitura de Marx explica a aproximação de Del Noce da
experiência dos católicos comunistas, em 1943, quando o autor
se libertava, enfim, de sua fuga idealista da história. Em 1958, Del
Noce observa como “Tresmontant desenvolve a
tese, que considero verdadeira, segundo a qual não se deram na
história, e nem são em si
possíveis, senão dois tipos
essenciais de pensamento metafísico, o gnóstico e o
cristão, especificados por uma diferente
concepção do mal: para o gnosticismo (que tem seu ponto de
chegada no pensamento hegeliano), o mal faz parte da própria
estrutura da realidade, e sua relação com a existência
finita é necessária; para o pensamento bíblico e
cristão, o mal foi introduzido no mundo pelo pecado, ruptura da
aliança entre o homem e Deus”15. Esse dualismo ficara claro para Del Noce graças
à leitura da obra de Lev Chestov, uma vez que havia escrito, em
1946, o prefácio de dois ensaios seus publicados pela editora Bocca.
O pensador russo, mesmo em meio a muitas ambiguidades, permitia a
compreensão de um ponto importante. O racionalismo moderno,
culminante em Hegel, é uma filosofia que justifica o negativo,
considerando-o necessário no quadro da totalidade da natureza e da
história. O mal pertence à estrutura da existência
finita, é conatural a esta. Para a fé bíblica, ao
contrário, o mal é acidental e, como tal, um dia
poderá ser vencido. O racionalismo, em sua versão hegeliana,
se aproxima da compreensão gnóstica do mundo: o finito,
enquanto finito,
é mal.
O erro de Tresmontant. Velha e nova gnose
Del Noce concordava, portanto, com Tresmontant quando
este opunha o gnosticismo e o cristianismo. Mas não concordava com
ele na dissociação entre platonismo e judaísmo, entre
pensamento helênico e pensamento cristão: a chamada deselenização. A
identificação do pensamento grego com a gnose, oposta ao
pensamento cristão, era um erro grave que não levava em
consideração o fato, demonstrado pela Cabala e pelo
misticismo judaico moderno, de que “o gnosticismo encontrou meios de
se arraigar no pensamento hebraico, como também no grego”16. Para Del Noce,
“parece infinitamente mais correspondente à verdade
histórica dizer que o cristianismo salvou, assim, tanto o
judaísmo quanto o pensamento grego das involuções
gnósticas”17. O que escapa a Tresmontant é que, se vemos “no
pensamento de Hegel o ponto de chegada do gnosticismo, o fato de Marx ter
libertado o pensamento hegeliano dos aspectos platônicos não
significa de modo algum que o tenha libertado dos aspectos
gnósticos”18. Marx, na realidade, rejeita o momento platônico de
Hegel e conserva o gnóstico: a filosofia da história baseada
na dialética entre unidade (comunismo primitivo), cisão
(alienação capitalista) e reconciliação
(comunismo final). A realização do bem passa, aqui, pela
grande catástrofe (a revolução), que, virando de
ponta-cabeça o mundo perdido, permite a saída da
alienação e a instauração do novo Éon. A
correta compreensão da relação Marx-Hegel torna-se,
assim, um problema de máxima importância. Se interpretamos,
como Tresmontant, o marxismo como oposto do gnosticismo hegeliano, a
filosofia de Marx passa a ser a melhor aliada da fé na luta contra a
gnose, o apoio que permite a plena reabilitação do mundo
natural. “O ponto de chegada lógico é a
encarnação sem cruz e sem redenção do
pecado”19. É o catolicismo naturalista de Balbo e de Rodano, em que
um certo tomismo aristotelizante se opõe a qualquer possível
encontro com a posição “agostiniana”. Ao
contrário, se fica claro que o Hegel “gnóstico”
continua na dialética de Marx, então a terapia marxista da
gnose não se sustenta.
O ponto, segundo Del Noce, era “um
equívoco extremamente grave, que é o fundamento do
neomodernismo: a ideia da unidade da gnose, uma unidade entre a gnose pré-cristã
e a pós-cristã”20. Tresmontant, e com ele Rodano e Balbo, não fazem
distinções entre as possíveis variantes de um mesmo
modelo, entre gnose antiga e gnose moderna. A “gnose antiga
ateíza o mundo (ao negar sua criação por parte de
Deus) em nome da transcendência divina; a pós-cristã o
ateíza em nome de um imanentismo radical. Podemos certamente
encontrar um caráter comum a ambas, na busca de evitar os males da
existência, mas sublinhar o elemento comum serve para evidenciar
melhor a diferença substancial: a que existe entre o pessimismo e o
otimismo”21. A gnose hegeliana, encontrada no ponto culminante de um processo
em que a religião se reduz a filosofia, é uma nova gnose,
“pós-cristã”, que vê na história
não o lugar da evasão, mas da realização do
homem, o qual, na superação do mundo alienado, realiza
prometeicamente sua natureza deiforme. O que o marxismo, na sequência de Hegel, combate
é a forma antiga da gnose, a que abandona o mundo e a matéria
a seu destino de iniquidade. Faz isso, porém, dentro de um modelo
que reatualiza a si mesmo na enquadramento do ateísmo moderno
pós-cristão. “Dentro do novo gnosticismo, a forma ativista e revolucionária está
destinada a prevalecer sobre a forma contemplativa”22. Com isso, não podemos dizer que a velha gnose tenha
desaparecido. Esta sobrevive nos filões pessimistas do pensamento
moderno, em Martinetti e em Simone Weil, por exemplo, em quem um
pessimismo, configurado de modo racionalista, luta dramaticamente com o
cristianismo23. Essa inquietação religiosa é negada pelo
otimismo da nova gnose, para a qual o mal e a dor do mundo não
são um problema, uma ferida aberta, mas apenas um obstáculo
necessário no caminho para o progresso.
Distinguindo as duas perspectivas, a antiga e a nova,
Del Noce podia, assim, dar uma resposta à questão
implícita da década de 1940: como era possível agrupar
duas atitudes tão distantes – a martinettiana e a marxista
– sob a única categoria do maniqueísmo? Na realidade, o
posicionamento espiritual da década de 1930, compartilhado por
Martinetti, apresentava analogias com o pessimismo da gnose antiga. Ao
contrário, o novo ativismo da Resistência
(católico-comunista), que previa a legitimação da
violência, se enquadrava na versão nova da gnose, a
tipicamente moderna. Como quer que seja, o tema
da violência, como ficava evidente, se entrelaçava sempre com o da gnose. A violência moderna, a que se disseminou no século
XX, não é uma violência “natural”. É
o resultado do contexto pós-cristão, em que, pela primeira vez, é
justificada como violência “criadora”, necessário
parto doloroso do mundo novo que deve ser produzido. Em Violenza e secularização da gnose, seu ensaio de 1979, une os dois termos do problema. A paranoia
pós-hegeliana está no paradoxo de uma perspectiva que dilata
a esfera do negativo, do mal, da dor, com a finalidade de poder
resolvê-lo numa época de pura positividade. A violência
é justificada por uma teodiceia que desenha, mítica e
gnosticamente, as linhas do mundo novo.
A recuperação de Agostinho
Nessa sua luta contra o pensamento
“violento”, de uma forma bem mais sutil que a empregada por
Foucault, Del Noce encontrou-se idealmente com um autor em que, de certa
forma, reconheceu um processo semelhante ao seu: Agostinho. O fato de ter
atravessado as névoas da tentação
“maniqueísta”, entre os anos de 1936 e 1943, e de ter
encontrado no cristianismo a resposta, gratuita e misteriosa, para o mal do
mundo tornam-no seguramente próximo, até existencialmente, da
perspectiva do santo bispo de Hipona. Não por acaso, em 1944, depois
de ter-se libertado da tentação maniqueísta, escreve:
“Nós nos encontramos hoje em condições melhores
para entender a mentalidade maniqueísta em sua intencionalidade e em
sua essência eterna. Creio que quem se dedicar a esse estudo
chegará a uma conclusão filosófica inesperada: a de
que o maniqueísmo é sempre correlativo a um defeito de
criticidade da consciência moral, a um pessimismo humano
insuficiente, ou seja, à consideração de formas
humanas e sempre relativas de bem como um bem absoluto. E por esse caminho
será possível libertar Santo Agostinho da
acusação que tantos historiadores lhe fazem de ter-se voltado
nos últimos anos, com a teoria dos splendida
vitia, para uma posição
próxima do maniqueísmo. Na realidade, a crítica a Mani
talvez tenha suas raízes no pessimismo que mais tarde o levou a
criticar Pelágio”24. O maniqueísmo representa um pessimismo imperfeito,
que não envolve a alma divina e sua capacidade de
autoelevação. Daí sua retomada na
divinização do humano, que é o fio condutor da gnose
moderna. O desencanto agostiniano se opõe à utopia,
também à utopia maniqueísta, a partir de um dualismo
novo entre civitas Dei e civitas mundi, cuja diferença é obra de Deus e não do
homem. A consequência é liquidar com qualquer possível teologia política25. Como escreve Del Noce em sua resposta a Balbo, em perfeita
linguagem agostiniana, “ou pomos a origem do mal na própria
vontade do homem, ou esta está na injustiça [...] de uma
estrutura social, removida a qual o mal também será tolhido.
A consequência da primeira tese é a distinção
mais precisa entre a religião e a política; na segunda tese,
a política substitui a religião na luta contra o mal.
É lícito a qualquer um optar por uma ou por outra; não
é lícito, porém, contaminá-las. Certamente os
santos transformaram o mundo, mas sem se propor a fazê-lo; a
transformação é um ‘acréscimo’,
dado a quem buscou em primeiro lugar o reino (não temporal) de Deus:
segue-se à irradiação de uma autêntica
experiência religiosa. Essa distinção marca
também o limite que a concepção cristã deixa
à ação estritamente política: a busca da
minimização do mal [...], mas sem a pretensão direta
de uma transformação do homem”26.
Agostinho, crítico do milenarismo, torna-se aqui
o modelo de um pensamento não conservador, mas realista. É
prova disso a leitura que Del Noce nos oferece do agostinismo
cristão moderno, uma leitura que não se detém em
Pascal, que em seu pessimismo roça o maquiavelismo, nem em
Malebranche, com sua “a-historicidade”, mas, passando por Vico,
recupera a relação positiva com a história, para
concluir-se, enfim, em Rosmini, em quem o catolicismo se encontra com as
liberdades modernas.
O agostinismo moderno, que Del Noce contrapõe ao
filão imanentista, gnóstico, da modernidade, não
é um percurso linear. É, antes, o resultado, na original
reconstrução historiográfica realizada pelo pensador
piemontês, de uma série de correções, de
integrações. Del Noce, portanto, tem perfeita
consciência de que a gnose moderna, a hegeliana, se impôs
porque o pensamento cristão moderno, numa singular assonância
com o gnosticismo antigo, perdeu a relação com a
história. Esse é o elemento de
verdade contido na reflexão de Balbo e de Rodano, elemento que Del Noce acolhe. O agostinismo moderno, aquele
que procede da tradição cartesiana, parece impotente diante
da nova gnose, que utiliza a história como legitimação
de sua verdade. Essa fraqueza é evidente em Nicolas Malebranche, um
dos mais importantes filósofos da França moderna, cujo
pensamento, porém, como dirá Von Balthasar, dá lugar a
um “reino de espectros, devoto e vazio de mundo” que
“sucumbe ao juízo da revolução francesa, e
sucumbe-lhe com a mesma necessidade com que o reino dos espectros de Hegel
cairá vítima de Feuerbach e de Marx”27. Da mesma forma, para Del
Noce, Malebranche “representa uma bifurcação em que
é possível retroceder ao pensamento cátaro ou proceder
rumo a Rosmini”28. A segunda direção é assegurada se o
agostinismo, tendo-se libertado dos trilhos cartesianos, se encontra com a
tradição tomista, para além das
contraposições artificiosas entre filosofia da interioridade
e filosofia da exterioridade que caracterizaram o pensamento cristão
moderno. A obra de Étienne Gilson, com seu “tomismo
agostiniano”, representava um exemplo paradigmático desse
encontro29.
Com ele, Del Noce compartilhava a ideia de que, na
relação entre fé e razão, “o processo
deve ir da fé à razão, pois o Deus da fé
não é o Deus da razão mais
alguma coisa. Há um salto, pois todos os
conhecimentos filosóficos sobre Deus, juntos, não nos podem
fazer chegar ao Deus redentor. Por conseguinte, em vez de falar de uma
fé que se sobreponha ao conhecimento racional, será preciso
falar de uma fé que salva a razão, libertando-a da idolatria de si mesma, do
racionalismo”30. Era uma perspectiva sensivelmente diferente da da
Escolástica. Todavia, a resposta a Hegel exigia o encontro de
Agostinho e de Tomás, da metafísica platônica da
participação e do realismo gnosiológico, única
possibilidade de restituir ao pensamento cristão a consciência
de sua tarefa31. “Se a filosofia cristã tem uma história, esta
não é a da síntese das posições opostas,
nem muito menos a da deselenização, mas a de sua
purificação do racionalismo, ou, se quisermos usar este termo
em referência ao adversário que o cristianismo teve à
sua frente desde o início, da gnose”32.
Notas
1 Del Noce, A. Pensieri di un uomo libero, notas
de seu diário, suplemento de Il Sabato, nº 13, 30 de março de 1991, p. 15.
2 Del Noce, A.
“Violenza e secolarizzazione della gnosi”. In: Vv. Aa. Violenza. Una ricerca per comprendere. Bréscia: Morcelliana, 1979, p. 205.
3 Del Noce, A.;
Bobbio, N. “Dialogo sul male assoluto”. In: Micromega, nº 1, 1990, p. 232. A
carta de Del Noce é de 4 de janeiro de 1989.
4 Sobre o
desenvolvimento de seu pensamento ético-político no
período 1930-1946, cf.: Borghesi, M. Modernità
e democrazia in Augusto Del Noce. Encarte de 30Giorni, nº 10, outubro de
2004, pp. I-XXIV. Hoje em: Scalon, R. (org.) Le
radici storico-filosofiche della democrazia.
Turim: Trauben, 2006, pp. 183-229.
5 Del Noce, A.
“La prima sinistra cattolica italiana postfascista”. In:
Rossini, G. (org.) Modernismo, fascismo,
comunismo. Aspetti e figure della cultura e della politica dei cattolici
nel ’900. Bolonha: Il Mulino, 1972, p.
463.
6 Del Noce, A.
“Storia di un pensatore solitario”, entrevista concedida a M.
Borghesi e L. Brunelli. In: 30Giorni, nº 4, abril de 1984. Hoje em: Borghesi, M. Maestri e testimoni. Profili filosofico-teologici del
’900. Pádua: Edizioni Messaggero,
2009, p. 115.
7 Sobre o
pensamento de Martinetti, cf.: Colombo, G. La
filosofia come soteriologia. L’avventura spirituale e intellettuale
di Piero Martinetti. Milão: Vita e
Pensiero, 2005.
8 Del Noce, A.
“Martinetti nella cultura europea, italiana e piemontese”. In:
Vv. Aa. Giornata martinettiana. Turim: Edizioni di “Filosofia”, 1964. Hoje em:
Mercadante, F.; Casadei, B. (orgs.) Filosofi
dell’esistenza e della libertà.
Milão: Giuffrè, 1992, p. 436.
9 Del Noce, A.
“La volontà morale nella situazione politica presente”,
texto datilografado, provavelmente de 1944, hoje em: Del Noce, A. Scritti politici 1930-1950. Org.
por T. Dell’Era. Soveria Mannelli: Rubbettino, 2001, pp. 214 e 215.
Grifo nosso.
10 Del Noce,
A. “Violenza e secolarizzazione della gnosi”, p. 206.
11 Del Noce,
A. “La volontà morale nella situazione politica
presente”, p. 215.
12 Maritain, J. Umanesimo integrale. Turim: Borla,
1962, p. 134.
13 Del Noce, A.
“Principi di una politica cristiana”, texto datilografado de
1944-1945, hoje em: Del Noce, Scritti politici
1930-1950, p. 232.
14 Sobre a
crítica antignóstica em Balbo e Rodano, cf.: Borghesi, M.
“Contemplazione e/o azione?” In: Atlantide, nº 1, 2009, pp. 56-62. Para um estabelecimento
crítico da relação entre antropologia grega e
antropologia cristã em Franco Rodano, cf.: Napoleoni, C. Cercate ancora. Lettera sulla laicità e altri saggi. Roma: Editori Riuniti, 1990. Sobre a relação
entre Del Noce, Rodano e Balbo, cf.: Musté, M. Franco Rodano. Bolonha: Il Mulino, 1993,
pp. 131-143; Possenti, V. Cattolicesimo &
Modernità. Balbo, Del Noce, Rodano.
Milão: Edizioni Ares, 1995; Ricci, N. Cattolici
e marxismo. Filosofia e politica in Augusto Del Noce, Felice Balbo e Franco
Rodano. Milão: Franco Angeli, 2008.
15 Del Noce, A.
“Pensiero cristiano e comunismo: ‘inveramento’ o
‘risposta a sfida’?” In: Il
Mulino, nº 5, 1958. Depois em: Balbo, F. Opere 1945-1964. Turim:
Boringhieri, 1966, p. 982. Grifos nossos.
16 Id., ibid.
17 Id., ibid.
18 Id., ibid.
19 Del Noce, A.
“Eric Voegelin e la critica dell’idea di
modernità”, introdução a Voegelin, E. La nuova scienza politica. Turim:
Borla, 1968, p. 24.
20 Id., ibid., p. 22.
21 Id., ibid., p. 19.
22 Id., ibid., p. 21.
23 Sobre Weil,
cf.: Del Noce, A. “Simone Weil interprete del mondo di oggi”.
In: Del Noce, A. L’epoca della
secolarizzazione. Milão: Giuffrè,
1970, pp. 137-177.
24 Del Noce,
“La volontà morale nella situazione politica presente”,
pp. 214-215.
25 Cf. Borghesi,
M. “Da Peterson a Ratzinger: Agostino e la critica alla teologia
politica”. In: Possenti, V. (org.) Ritorno
della religione? Tra ragione, fede e società. Milão: Guerini e Associati, 2009, pp. 165-186.
26 Del Noce,
“Pensiero cristiano e comunismo: ‘inveramento’ o
‘risposta a sfida’?”, pp. 980-981.
27 Von Balthasar,
H. U. Nello spazio della metafisica.
L’epoca moderna. Vol. 5 de Gloria. Una estetica teologica.
Milão: Jaca Book, 1978, p. 429.
28 Del Noce,
“Simone Weil interprete del mondo di oggi”, p. 162.
29 Sobre o
conflito de ideias entre Del Noce e Gilson, cf.: Borghesi, M. Caro collega ed amico. Lettere di Étienne Gilson ad
Augusto Del Noce. Sena: Cantagalli, 2008, pp.
5-57.
30 Del Noce, A.
“Gilson e Chestov”. In: Vv. Aa. Esistenza,
Mito, Ermeneutica, 2 vols. Pádua: Cedam,
1980, p. 316.
31 Cf. Del Noce,
A. “Agostino e Tommaso”. In: Il
Mulino, n°6, 1959, pp. 509-521.
32 Del Noce,
A. “Gilson e Chestov”, pp. 325-326.

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