SANTOS. Aníbal Maria Di Francia e Luís Orione “Percebi que seus olhos brilhavam de lágrimas...”
...e eu nunca havia encontrado uma pessoa adulta que se abrisse de um modo tão sincero e simples com um jovem”. A transcrição do testemunho de Ignazio Silone no processo de beatificação de Dom Orione
de Ignazio Silone
Eu o conheci em 1916
Ignazio Silone. O escritor conheceu Dom Orione em 1916, quando, órfão, escapou do terremoto de Marsica e foi acolhido num dos colégios de Dom Orione. Em seu livro Uscita di sicurezza, o escritor dedica um capítulo à viagem ao colégio, na qual foi acompanhado pelo sacerdote, que foi buscá-lo pessoalmente
Eu o conheci em 1916. Só o vi de relance depois do terremoto da Marsica
[centro da Itália], em 1915. Eu me lembro, por ter estado presente, de que Dom
Orione reunira um grupo de crianças que haviam escapado do desastre e ficado
sem as suas famílias. Dom Orione achava que poderia transportá-las a Roma, mas
a linha ferroviária estava interrompida e, para chegar até a primeira estação,
era preciso percorrer cerca de quarenta quilômetros. Naquele local, já estavam
presentes o rei e as autoridades de seu séquito, e seus carros estavam
estacionados. Dom Orione começou a mandar as crianças subirem em alguns carros,
para que pudessem chegar até a estação. Os soldados que faziam a guarda não
queriam deixar, mas Dom Orione parecia nem ligar para eles e continuava sua operação
de carga. Nesse meio tempo, o rei e seu séquito haviam chegado para voltar aos
automóveis. Dom Orione se apresentou respeitosamente ao rei e expôs os motivos
pelos quais mandava os pequenos órfãos subirem nos carros. O rei acolheu o
desejo de Dom Orione e deu sua permissão para o transporte dos pequenos órfãos.
Dom Orione tomou com eles o primeiro trem e os acompanhou até Roma, onde
ficariam na Casa de Sant’Ana dos Palafreneiros. Como já disse, só posso dizer que conheci
Dom Orione em 1916. Naquele ano, fui internado num colégio dirigido por
religiosos muito zelosos para terminar o ginásio. Pouco antes do Natal, sem nenhum
motivo plausível, fugi do colégio. Saí sem me dar conta do que estava fazendo e
sem nenhuma direção, simplesmente porque, a certa altura, vi o portão do pátio
escancarado. Tinha umas poucas liras no bolso e, naturalmente, nenhuma bagagem.
Alojei-me no sótão de um pequeno hotel, perto da estação. Fiquei lá três dias e
passava o tempo a ver os trens chegarem e partirem. Enquanto isso, minha
ausência no colégio havia sido avisada na delegacia e, no terceiro dia, fui
encontrado por um policial e reconduzido ao colégio, onde fiquei esperando uma
resposta de minha avó, que, na qualidade de tutora, deveria decidir o meu
futuro. A resposta de minha avó não demorou muito: ela chegou com a notícia de
que um certo Dom Orione estava disposto a me receber em seu colégio. O diretor
do meu colégio havia marcado um encontro com ele na estação central de Roma,
onde, no dia e no local estabelecido, encontrei um padre que não reconhecia,
pois não era o que eu tinha visto no ano anterior, entre os destroços da minha
cidade. Pensei que Dom Orione não tivesse podido vir. Ele carregou minhas malas
e trouxas e tomamos o trem. Como teríamos de viajar a noite inteira, a certa
altura ele me perguntou se eu tinha trazido alguma coisa para ler e se desejava
um jornal, e qual jornal. L’Avanti, eu respondi (era um jornal dos comunistas; ndt.). Era difícil imaginar um pedido mais
impertinente vindo de um colegial. Mas, sem perder a compostura, aquele padre
desceu do trem e, pouco depois, reapareceu e me entregou o jornal. “Por que foi
que Dom Orione não veio?”, eu perguntei a ele. “Dom Orione sou eu!”, ele me
disse; “desculpe-me se não me apresentei”. Eu me senti muito mal com aquela
revelação inesperada. Escondi o jornal na hora e balbuciei algumas desculpas
pela minha presunção de antes e por ter deixado que ele carregasse todas as
minhas malas. Ele sorriu e me falou de sua felicidade por poder carregar as
malas de vez em quando. Aliás, ele usou uma imagem que me agradou enormemente e
me comoveu: “Carregar as malas como um asno”. E me confessou: “A minha vocação
- é um segredo que eu quero revelar - seria poder viver como um autêntico asno
de Deus, como um autêntico asno da Divina Providência”.
Dom Orione em Roma, em 1915, com o bispo de Avezzano, dom Bagnoli, e alguns órfãos sobreviventes do desastre de Marsica
Foi assim que começou entre nós uma
conversa que, com algumas breves pausas, durou a noite inteira. Ainda que nunca
nos tivéssemos encontrado antes daquele dia, Dom Orione falava com uma
simplicidade, uma naturalidade e uma confiança que eu não havia conhecido igual
na minha vida. Só à noite, quando deixaram só uma lampadazinha acesa, foi que
os traços de Dom Orione voltaram a ser semelhantes aos que eu tinha visto um
ano antes, em minha cidade. Eu disse isso a ele, lembrei o episódio dos
automóveis do rei. Ele me falou das peripécias e das dificuldades por que
passou naqueles dias; contou-me que levou vinte e sete dias para percorrer toda
a região devastada, durante os quais nunca dormiu numa cama e nem conheceu uma
noite inteira de repouso, só algumas horas em leitos de palha improvisados, sem
tirar os sapatos dos pés para não correr o risco de congelamento. Tão logo
reunia um certo número de órfãos ou jovens abandonados, transportava-os para
Roma e depois voltava imediatamente aos lugares do desastre para salvar outros.
Ele me falou de sua origem miserável e difícil: seu pai exercia um ofício
humilde, o de pavimentador de ruas, e ele, desde jovem, o ajudava muitas vezes
naquele trabalho ingrato. Mesmo quando, mais tarde, foi aceito no seminário
diocesano, para desfrutar do alojamento gratuito, teve de trabalhar como
coroinha na catedral. Contou-me vários episódios comoventes de sua
adolescência. Lembrou, entre outras coisas, a primeira viagem a Roma para ver o
Papa, tendo como viático um simples pãozinho caseiro, e cinco liras. Eu sentia um prazer infinito em ouvi-lo
falar daquela forma: experimentava uma paz e uma serenidade novas. O que ficou
gravado em mim foi a ternura serena do seu olhar. A luz dos seus olhos tinha a
bondade de quem sofreu pacientemente toda espécie de tribulações na vida e, por
isso, conhece as penas mais secretas. Em alguns momentos, eu tinha mesmo a
impressão de que ele me enxergava com mais clareza do que eu, de que ele via
até o meu futuro. “Eu queria lhe dizer algo que você não deve esquecer”, ele me
disse a certa altura. “Lembre-se disto: Deus não está só na igreja. No futuro,
não vão lhe faltar momentos de profundo desespero. Mesmo que você ache que está
só e abandonado, não estará. Lembre-se disto!”. Eu percebi que seus olhos brilhavam
de lágrimas. E eu nunca havia encontrado uma pessoa adulta que se abrisse de um
modo tão sincero e simples com um jovem. Chegamos a San Remo perto do meio-dia. À
noite, quando Dom Orione tinha de voltar, ouvi quando ele encarregou alguém de
me procurar, pois queria se despedir de mim. Mas eu me escondi. Não quis que
ele me visse chorar. Poucos dias depois, na manhã de Natal, recebi sua primeira
carta, uma longa, afetuosa, extraordinária carta de doze páginas. Numa das viagens
que fizemos juntos, Dom Orione me contou que havia chegado a Avezzano na noite
de 19 de setembro, um ou dois dias depois do terremoto, e que, no dia seguinte,
de manhã, saiu para celebrar a missa. Assim que a missa terminou, chegou um
mensageiro, que o convidou a ver o bispo imediatamente. O bispo lhe perguntou
se fora ele quem havia trazido a bandeira, posta no Patronato. Dom Orione lhe
assegurou que não havia sido ele. Mas o bispo logo o intimou a nunca mais
voltar à diocese dos Marsos enquanto ele vivesse. Dom Orione contava tudo isso
com tranqüilidade, mas com tristeza. Eu tinha cerca de vinte anos e era
jornalista num periódico muito hostilizado, por isso vivia miseravelmente, sem
que ninguém soubesse. No dia de Natal, fui a um restaurante, procurando não
gastar mais que uma cifra modestíssima, mas, no final, a conta superou o que eu
possuía. O dono quis que eu empenhasse o meu velho impermeável até que
trouxesse o resto do dinheiro. Chovia. Ao sair, me lembrei de que poucos dias
antes havia visto Dom Orione passar de charrete. Decidi procurá-lo em Sant’Ana,
esperando que estivesse lá. O porteiro, mesmo confirmando sua presença, não
queria me deixar entrar. Insisti e, enquanto discutia com o porteiro, Dom
Orione desceu e, logo depois de me cumprimentar, enfiou a mão no bolso e pôs em
minhas mãos uma soma pouco superior à que eu devia pagar. Foi singular aquele
gesto de Dom Orione, pois, até aquele dia, eu nunca lhe havia pedido dinheiro.
Numa viagem de Cúneo a Régio Calábria, em que o acompanhei, Dom Orione queria
parar em Roma, pois estava sem dinheiro para continuar a viagem. Mas, na
estação de Roma, um senhor se aproximou dele e lhe entregou um envelope. Dom
Orione, depois de agradecer, exclamou: “Agora podemos prosseguir”. Era
impressionante a sua maneira de crer em Deus, mais presente do que as coisas
reais, e a sua caridade, que lhe permitia ter o contato que tinha com seus
interlocutores, dos quais, em certos casos, previa o futuro. Dito isso, e antes mesmo que lhe
fizessem prestar juramento, a testemunha declarou: “Eu disse tudo o que sei de Dom Orione e não teria
mais nada a acrescentar”. Ignazio Silone Roma, 10 de novembro de 1964