“Os católicos devem levar a sério a noção de plena catolicidade da Igreja local promovida pelo Concílio Vaticano II, e devem aplicá-la a sua eclesiologia.” Ioannis Zizioulas, metropolita de Pérgamo, estabelece
os termos do debate entre católicos e ortodoxos a propósito do primado. Entrevista
de Gianni Valente
Se existe um filho da Igreja do Oriente que nos últimos anos deu provas
de enfrentar com olhar livre de velhos preconceitos a e
Bento XVI com Ioannis Zizioulas, chefe da delegação do patriarcado ecumênico de Constantinopla, que foi a Roma por ocasião da festa dos santos Pedro e Paulo, em 29 de junho de 2005
Se existe um filho da Igreja do Oriente
que nos últimos anos deu provas de enfrentar com olhar livre de velhos
preconceitos a espinhosa questão do primado que ainda divide católicos e
ortodoxos, este é Ioannis Zizioulas, metropolita de Pérgamo, membro do sínodo
do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. Foi ele quem guiou a delegação
constantinopolitana que chegou a Roma no final de junho para render homenagem
ao novo bispo da Cidade Eterna por ocasião da festa dos padroeiros santos Pedro
e Paulo. Será ele, reconhecido por todos como um dos mais respeitáveis teólogos
ortodoxos vivos, o co-presidente, pelo lado ortodoxo, da Comissão Internacional
do Diálogo entre a Igreja Católica e a Ortodoxa, que depois de anos de vida
sofrida deve voltar a se reunir no segundo semestre deste ano, para pôr na
ordem do dia justamente a discussão sobre o primado. Apresentadas estas
premissas, não é preciso muito para imaginar que, na futura discussão, as
análises históricas e reflexões amadurecidas durante os últimos anos por esse
gentil e austero metropolita - as mesmas que expõe detalhadamente a 30Dias nesta entrevista - constituirão um ponto
de referência mais que respeitável. Eminência, o problema do primado está,
sem sombra de dúvida, no coração das relações entre católicos romanos e
ortodoxos. A teologia ortodoxa, a respeito desse problema, não é monolítica. O
senhor poderia nos descrever alguns critérios fundamentais de distinção entre
os teólogos ortodoxos? IOANNIS ZIZIOULAS: Há alguns teólogos
ortodoxos (no passado, eram a maioria) que ligam o primado, qualquer tipo de
primado, à organização da Igreja, e dizem que as pretensões do papa relativas a
seu primado não têm um conteúdo dogmático e que, portanto, o primado pode ser
relativizado. Para eles, o primado está relacionado ao direito canônico, não
diz respeito à fé. Não vislumbram nenhum nexo entre o primado e a natureza da
Igreja. Para eles, o ofício primacial refere-se ao bene esse, não ao esse da Igreja. E o outro grupo? ZIZIOULAS: Alguns teólogos ortodoxos
consideram que o primado na Igreja pertence ao esse da Igreja e não é simplesmente um fato de
ordem canonística. Eles percebem que não podemos renunciar ao primado sem que,
com isso, se enfraqueça algo de essencial da nossa fé. Isso demonstra que o
tema do primado é um problema não apenas em relação à pretensão do bispo de
Roma, mas também dentro da própria Igreja Ortodoxa. O senhor poderia nos dar um exemplo das
argumentações do primeiro grupo? ZIZIOULAS: Um dos maiores teólogos
ortodoxos, o falecido professor Ioannis Karmiris, escreveu: “Em razão da
importância política de Roma e da apostolicidade dessa Igreja, como também do
martírio nela sofrido pelos apóstolos Pedro e Paulo, da pre-excelência de suas
obras de caridade, de serviço e de missão, o bispo de Roma recebeu dos
Concílios, dos Padres e dos pios imperadores - portanto, de instâncias de ordem
humana e não divina - um simples primado de honra e de ordem, como o primeiro entre os pares
presidentes das Igrejas particulares”. Segundo esse modo de ver, a atual
estrutura primacial, inclusive o primado da Sé romana, deve-se simplesmente a
fatores humanos e passageiros. Isso significa que a Igreja poderia existir sem
primado, ao passo que ela não poderia existir sem bispos ou sínodos, sendo
essas realidades de direito divino, constitutivas do esse da Igreja. Os teólogos ortodoxos, com muita
freqüência, usam a fórmula “primado de honra e de ordem”. O que significa? ZIZIOULAS: Quando se fala de “primado de
honra”, quer-se excluir o direito do primaz a exercer jurisdição sobre os
outros bispos. Mas é uma fórmula ambígua. De fato, não parece existir, nem
mesmo na Igreja Ortodoxa, “um simples primado de honra”. Por quê? ZIZIOULAS: Na Igreja Ortodoxa, por
exemplo, na ausência do patriarca ou durante a vacância de sua sé, não pode
haver nenhuma eleição episcopal nem a realização de qualquer ato canônico.
Podemos, portanto, descrever o primado do patriarca como uma simples honra? Essa fórmula tem outros conteúdos? ZIZIOULAS: A expressão “simples primado de
honra” é usada para sublinhar o fato de que todos os bispos, do papa aos
patriarcas, descendo até o último dos bispos, são iguais do ponto de vista do
sacerdócio (hieratikós). Esse, porém, é um princípio tradicional
tanto para os ortodoxos quanto para os católicos romanos... ZIZIOULAS: Mas com uma diferença
fundamental: os católicos romanos só se referem a essa igualdade no nível da
graça sacramental, que não comporta automaticamente o exercício da jurisdição (a missio
canonica), ao passo que
os ortodoxos não fazem uma distinção desse tipo. O senhor considera corretas essas
idéias? ZIZIOULAS: Essas posições parecem
negligenciar certos dados presentes na tradição ortodoxa e também de fé: o
simples e óbvio fato de que não pode existir sinodalidade sem primado. Na tradição ortodoxa, nunca houve nem
pode haver um sínodo ou um concílio sem um protos ou um primus. Portanto, se a sinodalidade é de direito
divino, o primado também deve ser. Algum teólogo ortodoxo procurou
resolver essa contradição? ZIZIOULAS: Alivisatos, por exemplo, afirma
que não é necessário que haja um protos fixo; o primado pode ser exercido rotativamente.
Considero essa posição muito fraca: o primado na Igreja nunca é exercido
rotativamente. Ele está ligado a um ofício ou ministério particular e a uma
pessoa particular. Além disso, se estendêssemos, analogamente, a aplicação da
rotação também ao interior de cada Igreja autocéfala, isso significaria a
abolição dos ofícios de patriarca e metropolita como ministérios pessoais e
permanentes. Outros teólogos ortodoxos recorrem à
democracia em suas objeções teológicas ao primado... ZIZIOULAS: Karmiris, por exemplo,
refere-se à democracia como uma característica da Igreja Ortodoxa. Ele, porém,
identifica explicitamente a posição ortodoxa com a do conciliarismo ocidental em sua oposição ao primado do
papa: não pode haver primado na Igreja porque a autoridade suprema, o
verdadeiro primus na
Igreja é o Concílio. O senhor afirmou que houve novas
perspectivas para uma saída para esse impasse durante o período anterior e
posterior ao Concílio Vaticano II. Por quê? ZIZIOULAS: O problema que já dominava o
debate durante o longo período que precedeu o Concílio, quando as figuras
proeminentes de Congar, Rahner, Ratzinger, De Lubac e outros aplainavam o
caminho para a teologia do Vaticano II, era se a plenitude da Igreja, a sua
catolicidade, coincidia ou não com sua estrutura universal.
Bartolomeu I em oração diante da Confissão de São Pedro nas Grutas Vaticanas, em 29 de junho de 2004
E, a respeito dessa questão, eles
olharam para a ortodoxia... ZIZIOULAS: Principalmente para a chamada
“eclesiologia eucarística” do teólogo russo Nicolai Afanassieff, que formulou o
axioma “onde está a Eucaristia, aí está a Igreja”. Isso significa que toda
Igreja local na qual é celebrada a Eucaristia deveria ser considerada como a
Igreja plena e católica. Os teólogos católicos romanos foram influenciados por
essa abordagem e, como conseqüência, nos documentos do Concílio houve espaço
para uma teologia da Igreja local. Que se refletiu também no debate a
respeito do primado... ZIZIOULAS: Do lado ortodoxo, o debate foi
conduzido sobretudo por teólogos de origem russa, que inicialmente viviam em
Paris e depois se transferiram parcialmente para os Estados Unidos. Quatro
deles - Afanassieff, Meyendorff, Schmemann e Koulomzine - produziram um livro a
várias mãos intitulado O primado de Pedro na Igreja Ortodoxa (edição em inglês de 1973). Partiam da
pergunta: se toda Igreja local é uma Igreja “católica”, que necessidade há de
se falar de um primado universal ou mesmo de uma “Igreja universal”? Todos deram a mesma resposta a essa
pergunta? ZIZIOULAS: Não. Afanassieff, por exemplo,
insiste que uma eclesiologia universal é desconhecida para a Igreja antiga, até
São Cipriano. Seguindo-o, alguns teólogos ortodoxos afirmam que a Igreja
universal é apenas um fenômeno ocasional que se verifica quando bispos e chefes
de Igrejas locais se encontram nos concílios. Se não houvesse concílios, não
haveria Igreja universal. Haveria apenas comunhão na fé e comunhão sacramental,
sem nenhuma conseqüência estrutural. E os outros? ZIZIOULAS: Schmemann, por exemplo, vê a
questão de um modo diferente. Para ele, a Igreja conheceu um primado universal
de direito divino. “O primado”, escrevia, “é a expressão necessária da unidade
na fé e na vida de todas as Igrejas locais”. E Meyendorff? ZIZIOULAS: Para ele, o primado era uma
exigência inevitável da existência da Igreja no mundo. “Não houve época”,
escrevia, “em que a Igreja não tenha reconhecido uma certa ordem em primeiro
lugar entre os apóstolos e depois entre os bispos, e que nessa ordem um
apóstolo, São Pedro, e em seguida um bispo, à cabeça de uma Igreja particular,
não ocupasse o lugar de primaz”. Ele ousou afirmar que “a função desse bispo é
estar a serviço da unidade em escala mundial, tal como a função de um primaz de
uma região é ser fator de unidade em escala regional”. Qual é seu ponto de vista pessoal? ZIZIOULAS: Os ortodoxos recusaram o
primado universal na Igreja tanto por razões não teológicas quanto por razões
teológicas. Depois do grande cisma, os ortodoxos viram o primado papal como um
imperialismo eclesiástico. Nos tempos modernos, os teólogos ortodoxos em geral
consideram o primado incompatível com as idéias democráticas da sociedade
moderna, deixando, assim, que argumentos não teológicos decidam sobre uma
questão teológica. Hoje, porém, nós devemos nos perguntar se essa é uma maneira
de ver correta do ponto de vista da eclesiologia ortodoxa. E no futuro? ZIZIOULAS: Antes de mais nada, é preciso
ter em mente a nossa tradição. Como eu já disse, nunca houve sínodos sem
primados na Igreja Ortodoxa, e isso mostra claramente que, se a sinodalidade é
uma necessidade dogmática, assim deve ser também para o primado. É o que o
conhecido Cânon dos Apóstolos número 34 estabelece explicitamente... Que texto é esse? ZIZIOULAS: Esse cânon do século IV pode
constituir a regra áurea da teologia do primado. Ele estabelece que o protos é uma conditio sine qua non para a instituição sinodal e que o
sínodo, por sua vez, é um pré-requisito para o exercício do primado. O fato de todos os sínodos terem um primaz significa que
os sínodos ecumênicos também deveriam ter um primus. Isso implica automaticamente o primado
universal. Nessas bases, a teologia ortodoxa poderia estar disposta a aceitar o
primado em todos os níveis da estrutura eclesiástica, aí incluído o universal.
O problema que resta para ser discutido, no contexto do diálogo teológico entre
católicos romanos e ortodoxos, é em que espécie de primado se pensa. Que tipo de primado deve ser excluído
para promover a reconciliação sobre esse problema decisivo? ZIZIOULAS: Os ortodoxos não podem aceitar
uma eclesiologia piramidal na qual o titular do primado universal, em vez estar
a serviço, submete as Igrejas locais. O primado universal pode valer apenas em
relação àqueles que compõem o sínodo e nunca isoladamente, ou seja, fora de uma
realidade de comunhão. Por que é tão importante que todas as
primazias (inclusive a primazia universal) devam ser exercidas pelo primaz como
chefe de uma Igreja local? ZIZIOULAS: O primado não é uma noção
legalista que implica investidura de poder de um certo indivíduo, mas uma forma
de diakonia. Implica
também que esse ministério alcance toda a comunidade graças à comunhão das
Igrejas locais manifestada por meio dos bispos que constituem o concílio ou o
sínodo. É por essa razão que o primaz deve ser o chefe de uma Igreja local, ou
seja, um bispo. Como chefe de uma Igreja local, e não como um indivíduo, este
servirá à unidade da Igreja como uma koinonia de Igrejas plenamente constituídas e não como uma
colagem de partes incompletas de uma Igreja universal. O primado, desta forma,
não minará a integridade de nenhuma Igreja local. Por que o senhor não leva em
consideração o papel dos argumentos exegéticos ligados ao debate sobre o
primado? ZIZIOULAS: A exegese bíblica e a história
são um terreno instável de reaproximação. Ainda que a posição-guia de Pedro
entre os doze seja cada vez mais aceita também pelos ortodoxos, a importância
particular que é dada a ele pelos católicos romanos é seriamente contestada
pelos ortodoxos. O falecido cardeal Yves Congar o enxergou muito bem. Escrevia:
“No Oriente, a autoridade da Sé romana nunca foi considerada como a de um
monarca [...]. O Corpo de Cristo não tem outra Cabeça senão o próprio Cristo
[...]. Os teólogos bizantinos remetem muito raramente o primado da Sé romana ao
apóstolo Pedro, ainda que autores prestigiosos como Máximo, o Confessor, ou
Teodoro Estudita algumas vezes digam algo nesse sentido”. Sendo assim, o caminho está fechado
nessa direção... ZIZIOULAS: Se esperarmos que os biblistas
entrem em acordo sobre a relação entre o papel de Pedro no Novo Testamento e o
primado exercido pela Sé romana, teremos de adiar a unidade da Igreja para um
outro milênio, quando não para o infinito...
Nestas páginas, os mosaicos da primeira metade do século XI do mosteiro de Hosios Loukas, Daphni, Grécia; aqui, acima, o lava-pés
Como o senhor avalia a proposta de
voltar ao modelo de relações adotado durante o primeiro milênio? ZIZIOULAS: Esse caminho não me parece
realista, sobretudo porque a Igreja Católica romana não está disposta a apagar
da história seu segundo milênio para fazer a unidade com os ortodoxos. Na sua opinião, então, qual pode ser um
terreno comum realista para respostas comuns a essas questões que estão
abertas? ZIZIOULAS: Para o futuro desenvolvimento
do diálogo sobre esse tema, é de importância crucial que os ortodoxos
reconheçam que o primado faz parte da essência da Igreja e não é uma questão de
organização. Deveriam também aceitar que deve haver um primado em nível
universal. No momento, isso é difícil, mas se tornaria mais simples se
refletíssemos mais profundamente sobre a natureza da Igreja. A Igreja não pode
ser local sem ser universal e não pode ser universal se não é local. E na frente católica, o que é que pode
ajudar o diálogo? ZIZIOULAS: Os católicos devem levar a
sério a noção de plena catolicidade da Igreja local promovida pelo Concílio
Vaticano II, e devem aplicá-la a sua eclesiologia. Isso significa que qualquer
forma de primado em nível universal deve refletir a Igreja local e não intervir
na Igreja local sem seu consenso. Cada Igreja local deve ter a possibilidade de
afirmar sua catolicidade em relação ao primado. Por isso, repito, a regra áurea
para um exercício correto do primado é o Cânon dos Apóstolos número 34. Como é possível uma reaproximação com
base numa nova tese teológica? ZIZIOULAS: O reconhecimento do primado
romano depende de se concordar que a Igreja é formada de Igrejas locais
plenamente constituídas,
unidas numa única Igreja,
sem perder sua plenitude eclesial. Mas isso não é um “novismo” teológico. Padre
Congar acreditava que o primado papal, a despeito das tendências monárquicas
que prevaleciam naquele tempo, havia sido exercido dentro de uma eclesiologia
de comunhão também no Ocidente até por volta do século XVI, quando o papado
acabou por impor o primado monárquico em todo o Ocidente. Se as coisas estão
nesse pé, a volta a essa eclesiologia de comunhão não é uma proposta tão
irrealista assim. Última pergunta. O senhor conheceu o
cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI. Quais o senhor acredita que serão a
abordagem e a contribuição do novo Papa quanto a esses problemas? ZIZIOULAS: Tive a honra e o privilégio de
encontrar o então cardeal Ratzinger no início da década de 1980, quando éramos
membros da Comissão Internacional para o Diálogo Teológico oficial entre
católicos romanos e Igrejas ortodoxas. É um grande teólogo e um especialista em
eclesiologia tanto ocidental quanto oriental. Em sua nova veste de Papa, pode
certamente contribuir de maneira decisiva para a convergência entre católicos
romanos e ortodoxos na compreensão do primado. No passado, deu importantes
sugestões para a solução desse problema. Pode ser providencial o fato de que,
neste momento crucial do debate sobre essa matéria, o Papa seja ele.