|
A presença de Cristo na Eucaristia. Verdadeira, real
e substancial
|
Ao falar da presença de Cristo neste Sacramento, o Concílio de Trento usou três advérbios. Jesus está presente na Eucaristia “verdadeiramente, realmente e substancialmente” (Denzinger-Schönmetzer 1651). Esses três advérbios são as chaves que abrem as portas do ensinamento católico e excluem os pontos de vista contrários, que devem, portanto, ser rejeitados |
do cardeal Avery Dulles, S.J.
 |
 | | São Erardo eleva a hóstia consagrada, escultura em madeira de tília da segunda metade do século XIV atribuída ao ateliê ducal estiriano, Galeria Eslovena Narodna, Lubiana | | |
 |
 |
Este Ano da Eucaristia, na medida em que estimula a uma
maior devoção, sugeriu uma nova reflexão
teológica sobre os vários aspectos da Eucaristia como
sacrifício, presença real e comunhão.
A presença real, investigada com grande acuidade
durante a Idade Média, foi um dos pontos centrais de
controvérsia entre os cristãos a partir do período da
Reforma. Lutero, mesmo pondo em dúvida a
transubstanciação, manteve firmemente a opinião sobre
a natureza real e substancial da presença de Cristo, ainda que a
maior parte dos outros protestantes não concordassem com isso, ao
menos verbalmente. Nas últimas décadas, houve um pouco de
confusão no âmbito católico quanto à
presença real. A Conferência Episcopal Americana, assumindo
como sua responsabilidade pastoral o necessário esclarecimento dessa
questão, publicou em 2001 uma pequena obra, muito útil: A presença real de Jesus Cristo no sacramento da
Eucaristia: as perguntas e as respostas fundamentais. No presente artigo, retomarei o fundamento teológico do
ensino católico oficial.
Depois da consagração, o sacerdote, em
todas as missas, proclama que a Eucaristia é um mysterim fidei. A presença real
leva a mente humana aos limites extremos de suas capacidades. No fim de
tudo, somos obrigados a reconhecer que é um mistério
inefável e que deveria ser acolhido com admiração e
maravilhamento. É uma verdade que só a mente de Deus pode
entender completamente. Todavia, algo deve ser dito, visto que Deus
não se revelou simplesmente para nos envolver em mistério.
Quer que imitemos a Santa Virgem, que refletiu profundamente sobre as
palavras que lhe foram dirigidas.
Antes de mais nada, é preciso dizer que a Igreja
aceita a presença real como matéria de fé, pois
está incluída na Palavra de Deus, como confiram a Sagrada
Escritura e a Tradição. Jesus disse claramente: “Este
é meu corpo... este é meu sangue” e, polemizando com os
judeus, insistiu que não estava usando uma metáfora.
“Minha carne é verdadeira comida e meu sangue é
verdadeira bebida. Quem consome a minha carne e bebe o meu sangue permanece
em mim, e eu nele” (Jo 6,55-56).
Muitos discípulos acharam essas palavras
árduas demais e o deixaram, mas Jesus não modificou suas
afirmações para fazê-los voltar atrás.
Os Padres e Doutores da Igreja confessaram com
confiança a presença real, século após
século, apesar de todas as objeções e mal-entendidos.
Finalmente, em 1551, o Concílio de Trento forneceu uma
exposição completa da doutrina católica da Eucaristia,
dando muita importância à presença real. A partir de
então, repetido por muitos papas e documentos oficiais, o que foi
ensinado por Trento continua a ser ainda hoje normativo. O Catecismo da Igreja Católica não tem medo de citá-lo ao pé da letra (Catecismo da Igreja Católica, 1374.1376-77).
Falando da presença de Cristo nesse sacramento,
o Concílio de Trento usou três advérbios. Nele, o
Senhor está contido, diz o Concílio, “verdadeiramente,
realmente e substancialmente” (Denzinger-Schönmetzer 1651). Esses três advérbios são as
chaves que abrem as portas do ensinamento católico e excluem os
pontos de vista contrários, que devem, portanto, ser rejeitados1.
Dizendo em primeiro lugar que Cristo está verdadeiramente contido nas
espécies eucarísticas, o Concílio afastou a
idéia de que o sacramento seja meramente um símbolo ou uma
figura que aponta para um corpo que está ausente ou que talvez
esteja em algum lugar no céu. Essa afirmação é
feita contra o herege Berengário, do século XI, e contra
alguns de seus seguidores protestantes do século XVI.
Em segundo lugar, a presença é real. Ou seja, é
ontológica e objetiva. Ontológica porque acontece no
nível do ser; objetiva porque não depende dos pensamentos ou
dos sentimentos do ministro ou dos comungantes. O corpo e o sangue de
Cristo estão presentes no sacramento graças à promessa
de Cristo e ao poder do Espírito Santo, ligados à
execução correta do rito por parte de um ministro validamente
ordenado.
Isso ensinando, a Igreja refuta a idéia de que a
fé seja o instrumento que determina a presença de Cristo no
sacramento. Segundo o ensinamento católico, a fé não
torna Cristo presente, mas reconhece com gratidão essa
presença e permite que a santa comunhão traga seus frutos de
santidade. Receber o Sacramento sem fé é inútil,
até pecaminoso, mas a falta de fé não torna a
presença irreal.
Em terceiro lugar, o Concílio de Trento nos diz
que a presença de Cristo no Sacramento é substancial. A palavra
“substância” nunca é usada, neste caso, como um
termo filosófico técnico, como na filosofia de
Aristóteles. Essa palavra era usada na alta Idade Média muito
antes que circulassem as obras de Aristóteles.
“Substância”, no uso comum, denota a
realidade fundamental da coisa, o que a coisa é em si. Derivada da
raiz latina sub-stare,
significa o que está sob as aparências, que podem mudar
de uma hora para a outra, deixando o objeto intacto.
As aparências podem ser enganadoras. Vocês
poderiam não conseguir me reconhecer se eu me disfarçasse ou
se estivesse gravemente doente, mas eu não deixo de ser a pessoa que
era; minha substância continua a mesma. Não há
nada de obscuro, portanto, no significado de “substância”
nesse contexto.
“Substância”, significando o que uma
coisa é em si, pode ser contraposta a
“função”, que faz referência à
ação. Cristo está presente por meio de seu poder
dinâmico e de sua ação em todos os sacramentos, mas na
Eucaristia a sua presença é, além disso, substancial.
Por esse motivo, a Eucaristia pode ser adorada. É o maior de todos
os sacramentos.
Depois da consagração, o pão e o
vinho, de uma forma misteriosa, tornam-se o próprio Cristo. O
Concílio Ecumênico Vaticano II cita Santo Tomás para
dizer que esse sacramento contém a inteira riqueza espiritual da
Igreja, dado que a Igreja não tem outras riquezas espirituais a
não ser Cristo e o que Ele comunica a ela2.
O Concílio de Trento falou também da
maneira como acontece essa presença de Cristo. Afirma que o
pão e o vinho mudam; deixam de ser o que eram e se transformam no
que não eram. A inteira substância do pão e do
vinho se transforma na substância do corpo e do sangue de Cristo
e, visto que Cristo não pode ser dividido, se transformam
também em sua alma e em sua divindade (Denzinger-Schönmetzer 1640.1642). Todo o Cristo é feito presente
inteiramente em cada uma das duas formas.
A mudança que acontece na
consagração durante a missa é sui generis. Não se deixa
circunscrever nas categorias de Aristóteles, que acreditava que toda
mudança substancial comportasse uma mudança nas
aparências ou no que ele denominava acidentes. Quando eu como uma
maçã, ela perde as suas qualidades perceptíveis, tal
como a sua substância de maçã. Torna-se parte de mim
mesmo. Mas, na consagração do pão e do vinho durante a
missa, as aparências externas continuam idênticas.
 |
 |
Como Jesus está presente na Eucaristia?
Jesus Cristo está presente na Eucaristia de modo único e incomparável. Está presente, com efeito, de modo verdadeiro, real, substancial: com o seu Corpo e o seu Sangue, com a sua Alma e a sua Divindade. Nela está, portanto, presente de modo sacramental, ou seja, sob as espécies eucarísticas do pão e do vinho, Cristo todo inteiro: Deus e homem.
(do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, nº 282) |
 |
A Igreja cunhou o termo
“transubstanciação” para designar o processo
com o qual a inteira substância, e tão-somente ela,
transforma-se na substância do corpo e do sangue de Cristo.
É preciso uma palavra especial para indicar um processo que é
único e sem paralelo. Ao ensinar que as espécies continuam as
mesmas, a Igreja indica que as propriedades físicas e
químicas continuam a ser as do pão e do vinho. Não
apenas parecem e pesam o mesmo; elas mantêm também o mesmo
valor nutritivo que tinham antes da consagração3. Seria inútil
tentar demonstrar ou refutar a presença real por meio de
experimentações físicas, pois a presença de
Cristo é espiritual ou sacramental, não física, no
sentido de mensurável.
Para esclarecer o ensinamento da Igreja a respeito da
presença real, será útil, acredito, contrapô-lo
a algumas posições errôneas. A presença de
Cristo pode ser entendida de maneira demasiadamente carnal ou
demasiadamente mística, demasiadamente grosseira ou demasiadamente
tênue, demasiadamente ingênua ou demasiadamente figurada.
O erro realista ingênuo pode ser ilustrado por
meio da reação dos judeus em Cafarnaum, que ficaram chocados
com as palavras de Jesus. Evidentemente, eles pensaram que Ele estivesse
afirmando o canibalismo, que consideravam, com justiça, como um
pecado horrível. Alguns cristãos compreendem a
presença de Cristo na Eucaristia num sentido demasiadamente
materialista, sem fazer uma adequada distinção entre sua
presença natural e sua presença sacramental. Às vezes
imaginam que Ele poderia sofrer se a hóstia fosse profanada ou que
poderia sentir-se sozinho no tabernáculo. Li em algum lugar sobre
uma jovem estudante que tinha medo de tomar sorvete depois de receber a
comunhão, pois pensava que Jesus sentiria frio.
Na alta Idade Média, alguns teólogos,
seguindo Pascásio Radberto, afirmaram que Jesus, na Eucaristia,
assumiria a forma do pão e do vinho como sua verdadeira forma.
“Por que não poderia ser assim”, eles se perguntavam,
“visto que na Ressurreição apareceu como um peregrino e
como um jardineiro que seus discípulos não conseguiam
reconhecer?”. O que vemos quando olhamos para a hóstia e o que
engolimos durante a comunhão, diziam, é o corpo e o sangue de
Cristo numa forma travestida. Alguns afirmavam até que na
consagração os elementos perdem a natural capacidade
nutritiva do pão e do vinho4.
Para evitar a implicação de que, na
glória, Cristo pudesse sofrer em razão da indignidade, alguns
pensadores da alta Idade Média afirmaram que o corpo de Cristo no
altar não era o mesmo do céu. De fato, falavam dos três
corpos de Cristo: seu corpo natural, que agora está no céu;
seu corpo sacramental, que está na Eucaristia; e seu corpo eclesial,
que é a Igreja5. Essa afirmação nunca foi condenada pela
Igreja, mas não é mais muito sustentada, talvez porque,
contrariamente à idéia daqueles que a elaboraram, parece
sugerir que o corpo na Eucaristia não seja o que nasceu da Virgem
Maria. Se fosse assim, não poderíamos cantar: “Ave
verum corpus, natum de Maria Virgine”.
Santo Tomás de Aquino desenvolveu o que
poderíamos definir como uma posição de
mediação. Por um lado, evita falar da Eucaristia como um
corpo especial (sacramental ou místico), mas, por outro lado, afirma
que o corpo ressuscitado e glorificado de Cristo tem uma existência
diferente no céu e no Sacramento. Contrapõe a
existência de Cristo em si e sua existência sob o véu do
Sacramento como dois diferentes estados ou modos de ser. Segundo sua
maneira natural de existência, Cristo está no céu;
segundo a maneira eucarística de existência, está no
Sacramento6. O corpo de Cristo está realmente presente na Eucaristia,
mas não no sentido em que os corpos estão num determinado
lugar. Suas partes e suas dimensões não podem ser medidas em
relação a outros corpos. Sua circunferência não
é a da hóstia.
Contra os realistas ingênuos, portanto, Santo
Tomás afirma que quando olhamos para a hóstia não
vemos a figura e as cores que propriamente pertencem ao corpo de Cristo,
mas as da própria hóstia. Não estamos na mesma
situação dos discípulos antes da Ascensão, aos
quais Cristo apareceu em seu próprio corpo. Quando olhamos para a
hóstia ou para o cálice sobre o altar, os aspectos ou os
fenômenos visíveis são ainda os do pão e do
vinho.
Santo Tomás apresenta a objeção
segundo a qual alguns contaram ter visto o Menino Jesus ou seu
preciosíssimo sangue numa hóstia consagrada. Responde que
Deus é capaz de realizar uma mudança milagrosa na
hóstia, de forma tal que possa aparecer como um menino ou como
sangue humano, mas o que aparece num caso como esse não podem ser as
qualidades do próprio Cristo7.
Olhando para a hóstia ou para o
preciosíssimo sangue, não podemos dizer que a cabeça
está aqui e os pés, ali. A presença de Cristo nesse
Sacramento assemelha-se com a da alma no corpo. A minha alma não
está parte na minha cabeça, parte no meu
coração, parte nas minhas mãos, mas está
inteiramente presente no todo e em cada uma das partes. E assim é a
respeito de Cristo na Eucaristia. Quando uma hóstia é
partida, cada fragmento contém Cristo plenamente, tanto quanto a
hóstia inteira. Uma única gota do preciosíssimo sangue
contém dEle tanto quanto todo o conteúdo do cálice
inteiro. Santo Tomás dá o útil exemplo do reflexo de
uma imagem no espelho. Quando o espelho se quebra, cada fragmento pode
refletir todo o objeto, tal como fazia o espelho inteiro8.
 |
 | |
O cardeal Giovanni Battista Montini durante a procissão
do Corpus Christi | | |
 |
 |
Se a situação e as características
da hóstia não são as de Cristo, surge a pergunta:
podemos dizer que Cristo é transportado durante uma procissão
ou que é posto no tabernáculo? Não comemos sua carne,
nem bebemos seu sangue? Sim, diz Santo Tomás, Ele é
transportado, comido e bebido, mas não em suas próprias
dimensões. É transportado, comido e bebido em sua forma
eucarística de existência, na medida em que sua
presença coincide com as propriedades palpáveis ou
“acidentes” do pão e do vinho. Ele não é
danificado fisicamente por nenhuma violência feita ao Sacramento,
pois essas qualidades e dimensões não são propriamente
suas.
A presença de Cristo no Santíssimo
Sacramento só pode ser reconhecida, portanto, pelo intelecto, que
aceita a Palavra de Deus na fé9. A presença pode ser denominada sacramental porque as
aparências do pão e do vinho indicam onde o corpo e o sangue
de Cristo estão presentes. São sinais, ou seja, sacramentos
de uma realidade que está presente neles.
A presença eucarística, porquanto real,
não elimina a ausência da qual Jesus fala quando se despede de
seus discípulos durante a última ceia. A Eucaristia é
um memorial da presença histórica de Jesus na terra e penhor
de sua volta na glória, quando seremos capazes de vê-Lo como
Ele é.
Pelo que foi dito, pode-se entender que a
presença de Cristo nesse sacramento é única e
misteriosa. Os mestres do espírito nos advertem de que não
sejamos curiosos demais, pois nossas mentes poderiam facilmente
confundir-se diante de tão excelso mistério. É melhor
aceitar simplesmente as palavras de Cristo, da Sagrada Escritura, da
Tradição, do Magistério da Igreja, que nos dizem o que
é necessário saber: “Cristo está real mas
invisivelmente presente na Eucaristia”. Sua presença é
tal que o pão e o vinho, depois da consagração,
são verdadeira, real e substancialmente seu corpo e seu sangue,
mas segundo uma forma de existência diferente de sua presença
no céu.
Falemos agora dos erros de minimização. O
Concílio de Trento foi por vezes atacado por estar concentrado
demais numa só das maneiras com as quais Cristo está presente
na liturgia. Segundo Paulo VI e segundo o Concílio Vaticano II -
lembram-nos esses autores - Cristo está presente na liturgia em
não menos de cinco formas: na assembléia, quando nos reunimos
para a oração; na Palavra de Deus, quando é
proclamada; no sacerdote, quando celebra a missa; nos sacramentos, quando
são administrados; e, finalmente, na hóstia e no
cálice oferecidos durante a missa.
A presença nas espécies consagradas,
afirmam esses autores, é apenas uma das cinco maneiras e não
deveria ser tomada como se fosse a única efetiva. De fato, dizem,
deveria ser vista como subordinada à presença na Igreja, da
qual é um sinal sacramental. Agostinho e Tomás de Aquino
acaso não ensinaram que a finalidade do sacramento é criar a
unidade da Igreja como corpo místico de Cristo? Alguns
teólogos, a partir disso, começaram a dizer que a
presença de Cristo está primariamente na assembléia
reunida10.
Segundo o ensinamento da Igreja, as múltiplas
presenças de Cristo são efetivas e importantes, mas a
presença na Eucaristia ultrapassa as outras. Cerca de quinze anos
antes do Vaticano II, o papa Pio XII chamou a atenção para
quatro das maneiras como Cristo está presente na liturgia. Mas se
preocupou em precisar que essas maneiras de presença não
estavam todas no mesmo nível. O Divino Fundador da Igreja, escrevia
o Papa, “está presente [...] sobretudo sob as espécies
eucarísticas”11.
Paulo VI, em sua encíclica de 1965, forneceu uma
relação semelhante, acrescentando à lista de Pio XII
uma quinta maneira: a presença de Cristo na
proclamação da Palavra12. Mas não deu espaço a dúvidas sobre
qual pudesse ser a presença mais importante. Depois de ter
sublinhado mais uma vez as múltiplas presenças de Cristo,
dizia: “Outra é, contudo, e verdadeiramente sublime, a
presença de Cristo na sua Igreja pelo Sacramento da Eucaristia. Por
causa dela, é este Sacramento, comparado com os outros, mais suave
para a devoção, mais belo para a inteligência, mais
santo pelo que encerra; contém, de fato, o próprio Cristo e
é como que a perfeição da vida espiritual e o fim de
todos os Sacramentos” (Mysterium fidei, 40). Essa presença, dizia Paulo VI, é
denominada real não porque as outras sejam irreais, mas porque
é real por excelência (Mysterium fidei, 41). Como presença substancial de Cristo todo
inteiro, a Eucaristia supera a sua presença transitória e
virtual nas águas batismais, nos outros sacramentos, na
proclamação da Palavra e no ministro que representa Cristo
nessas ações.
Se essa autoridade não fosse suficiente,
poderíamos notar que o Vaticano II, em sua
constituição sobre a liturgia, afirma que Cristo está
presente “sobretudo [maxime] nas espécies eucarísticas” (Sacro sanctum Concilium, 7). E o
papa João Paulo II, em sua encíclica de 2003 sobre a
Eucaristia, disse que deveríamos ser capazes de reconhecer Cristo
“onde quer que Ele se manifeste, com as suas diversas
presenças, mas sobretudo no sacramento vivo do seu corpo e do seu
sangue”13.
Há uma diferença notável entre a
presença de Cristo na Eucaristia e na assembléia ou em seus
membros. Os fiéis, em determinadas condições,
são unidos misticamente a Deus por graça. O Espírito
Santo habita neles, mas eles mantêm a sua identidade pessoal.
Não são transubstanciados; não deixam de ser eles
mesmos para se transformarem em Cristo Senhor.
A Igreja como corpo místico nunca pode se elevar
à dignidade de Cristo em seu corpo específico, que nasceu da
Virgem Maria, morreu na cruz e reina glorioso no céu. Esse corpo
está substancialmente presente na Eucaristia, mas não na
comunidade cristã. Há uma notável diferença
entre a adoração que damos a Cristo na Eucaristia e a
veneração que damos aos santos.
Alguns desses teólogos que minimizam afirmam
que, visto que a finalidade da Eucaristia é formar a Igreja como
corpo de Cristo, sua presença eclesial é mais intensa e mais
importante do que sua presença nas espécies consagradas14. O erro que reside
nessa lógica pode ser entendido se pensarmos na
Encarnação. Jesus se fez homem e morreu na cruz pela nossa
redenção, mas não é conseqüência
disso que Deus esteja mais intensamente presente na comunidade dos remidos
do que no Filho encarnado, ou que a nossa devoção se deva
concentrar mais nos cristãos do que em Cristo Senhor.
Um segundo argumento empregado às vezes para
exaltar a Igreja acima da Eucaristia é que seria a Igreja, como
sacramento geral, aquele que produz cada um dos sete Sacramentos, inclusive
a Eucaristia. A Igreja, dizem, não poderia dar o que não tem.
Mas esse argumento não leva em conta o fato de que a Igreja
não produz os sacramentos por obra de seu poder. A Eucaristia, como
os outros sacramentos, é um dom de Deus. Ao produzi-lo, a Igreja
é subordinada a Cristo, o ministro principal. A Igreja, além
disso, é formada pela Eucaristia. Os fiéis são um
só corpo porque participam de um só pão, que é
Cristo Senhor (cf. 1Cor 10,17). Assim, poderíamos dizer, como disse
o papa João Paulo II em sua encíclica, que, se a Igreja faz a
Eucaristia, não é menos verdade que a Eucaristia faz a Igreja
(cf. Ecclesia de Eucharistia, 26).
Uma terceira linha de pensamento que tende a minimizar
a realidade da presença de Cristo na Eucaristia vem da fenomenologia
personalista em moda no período do Vaticano II. Concentrando-se nas
relações interpessoais, essa escola de pensamento faz
coincidir a existência pessoal com os relacionamentos humanos.
Os teólogos seguidores dessa tendência
refutam a idéia de substância, sobretudo quando é
aplicada à Eucaristia, que consideram como a uma
refeição comum. Mesmo em nível natural, dizem, um
almoço com os amigos é muito mais que comer e beber; é
uma ocasião social para expressar e consolidar as
relações humanas. Assim se dá, dizem, com a
Eucaristia.
Convidando-nos a sua ceia, o Senhor dá ao
pão e ao vinho um novo significado e uma nova finalidade, como
símbolos eficazes de seu amor que redime. Os elementos mudaram na
medida em que adquirem uma nova importância e uma nova finalidade.
Por esse motivo, continuam, deveríamos falar de
“transignificação” e de
“transfinalização”, mais que de
“transubstanciação”15.
Esses novos termos podem ser discutíveis e
estorvar e, assim, do ponto de vista terminológico, não levam
a nenhuma melhoria com relação ao termo
“transubstanciação”. No que exprimem de positivo,
os termos são inócuos. Na Eucaristia, a importância e a
finalidade do pão e do vinho efetivamente mudaram: indicam e
realizam a alimentação espiritual e a jubilosa
comunhão com Cristo e com os cristãos. Mas a terminologia
alternativa é carente porque não nos diz nada acerca do que
acontece às espécies consagradas em si mesmas.
Paulo VI, em sua encíclica Mysterium fidei, explicou que o
pão e o vinho podem adquirir uma importância e uma finalidade
radicalmente novas porque contêm uma nova realidade. A mudança
do significado e da finalidade derivam de uma precedente
mudança ontológica (cf. Mysterium
fidei, 46). Podemos nos relacionar pessoalmente
com Cristo no Sacramento, e Ele conosco, pois Ele está realmente
ali. Sua presença no Sacramento é real e pessoal, quer a
pessoa creia e a reconheça, quer não. A Eucaristia não
é apenas um sinal, mas uma pessoa que subsiste por direito
próprio, como acontece às pessoas.
Um teólogo holandês da década de
1960 perguntou-se se a presença real continuaria na hóstia
consagrada caso no mundo todos fossem mortos inesperadamente por algum
desastre excepcional. Respondeu negativamente, com base no fato de que a
presença pessoal não pode existir fora de um encontro
recíproco de sujeitos livres e conscientes16.
Esse teólogo parece confundir os dois sentidos
de “presença”. “Presença”, de fato,
pode significar duas coisas. Pode ser presença
dentro, como a alma está presente no corpo ou como
Cristo está presente nas espécies eucarísticas. Ou
pode significar presença para outros. Das duas, a presença
dentro é a mais fundamental. Restringir a presença real
à segunda é redutivo. Nós nos distanciamos da
fé da Igreja Católica, que afirma que a presença real
de Cristo na Eucaristia é objetiva e independente de sua
percepção por parte de quem quer que seja.
Continuam a ser levantadas questões sobre o
termo “substância”, sobretudo porque o conceito
clássico de substância, comum ao pensamento realista,
não é muito aceito hoje. Desde o período de Descartes
e Locke, o termo passou a significar algo auto-incluído e inerte, ao
passo que antes tinha o significado de centro ativo gerador de
relações, que, por meio dos próprios acidentes, entra
em relação dinâmica com outras criaturas.
Naturalmente, hoje muita gente acha estranho dizer de
uma pessoa que é uma substância. Mas, se o conceito
clássico for abandonado, será preciso encontrar outro termo
para indicar o que é uma coisa em sua realidade fundamental. Ao
chamar substancial a presença eucarística de Cristo, a Igreja
pretende dizer que a Eucaristia em sua realidade nada mais é que
Cristo.
A transubstanciação, como expliquei,
é o processo por meio do qual uma substância, no caso a do
pão ou do vinho, se transforma numa outra substância, a do
corpo e do sangue de Cristo, sem sofrer nenhuma mudança
físico-química. O Concílio de Trento ensinou que o
termo é muito adequado (cf. Denzinger-Schönmetzer 1652). Paulo VI, em 1965, disse que era ainda
“adequado e preciso” e, como lembrei, achava-o superior a
outros termos que haviam sido propostos (cf. Mysterium
fidei, 46). Mas a Igreja não se vinculou
definitivamente a nenhum vocábulo em particular.
Uma mudança na terminologia continua a ser teoricamente possível.
Houve ainda, como resultado das novas teologias
eucarísticas propostas durante e logo depois do Vaticano II, uma
temporária perda de interesse pelo Santíssimo Sacramento.
Toda a atenção foi reservada à
celebração da missa. Em muitas paróquias e casas
religiosas, a bênção eucarística foi
repentinamente abandonada. Em algumas igrejas, reservou-se um lugar modesto
ao receptáculo do Santíssimo Sacramento, mais parecido com
uma despensa do que com uma capela. Educadores de vanguarda no campo da
religião repetiam aos fiéis que a finalidade do
Santíssimo Sacramento era ser recebido na comunhão e
não ser adorado, como se as duas coisas se excluíssem
mutuamente.
O magistério eclesiástico resistiu
constantemente a essa tendência negativa, combatendo-a. Mesmo
concordando que a finalidade primária da Eucaristia é tornar
presente o sacrifício da cruz e dar alimento espiritual ao fiel, o
Concílio de Trento insistiu em que o Santíssimo Sacramento
seja honrado e adorado fora da liturgia da missa (cf. Denzinger-Schönmetzer 1643.1656).
Negar isso equivale a negar a presença substancial de Cristo no
Sacramento.
Em 1965, o papa Paulo VI falou de maneira clara e
decidida em favor da custódia do Santíssimo Sacramento num
lugar de honra na igreja. Exortou os pastores a que expusessem o Sacramento
à solene adoração e a que fizessem procissões
eucarísticas nos momentos oportunos; convidou depois os fiéis
a visitá-lo freqüentemente (cf. Mysterium
fidei 55.66-68).
João Paulo II, em seus muitos escritos como
papa, procurou promover a digna celebração da Eucaristia e a
devoção à Eucaristia fora da missa. Em sua
encíclica de 2003, exprime satisfação pelos muitos
lugares nos quais a adoração do Santíssimo Sacramento
é praticada com fervor, ao mesmo tempo em que deplora que em outros
lugares essa prática tenha sido quase completamente abandonada (cf. Ecclesia de Eucharistia, 10).
O culto eucarístico fora da missa, escreve,
“é de um valor inestimável na vida da Igreja, e
está ligado intimamente com a celebração do
sacrifício eucarístico. [...] Compete aos Pastores, inclusive
pelo testemunho pessoal, estimular o culto eucarístico, de modo
particular as exposições do Santíssimo Sacramento e
também as visitas de adoração a Cristo presente sob as
espécies eucarísticas” (cf. Ecclesia
de Eucharistia, 25).
O próprio Papa passava muitas horas diante do
Santíssimo Sacramento e muitas de suas melhores
intuições nasciam desses momentos de oração.
Como Santo Afonso de Ligório, que ele cita a esse respeito, o Papa
estava convencido do valor da adoração de Jesus no
Santíssimo Sacramento. A oração diante da Eucaristia
fora da missa, escreve, nos permite tomar contato com a fonte da
graça (cf. Ecclesia de Eucharistia, 25).
Em boa parte graças a esse encorajamento papal,
houve um notável crescimento da prática da
exposição e da hora santa de adoração. Ao longo
do ano 2000, verificou-se que mais de mil paróquias nos Estados
Unidos promoveram a adoração eucarística
perpétua e que outras mil criaram condições para a
adoração durante boa parte do dia17.
 |
 | | Uma pequena imagem de época da Primeira Comunhão | | |
 |
 |
Essas práticas, longe de enfraquecer a fome da
santa comunhão, a estimulam. Prolongam e incrementam os frutos da
participação ativa à missa. Além disso,
exprimem e fortificam a fé dos católicos no pleno significado
da presença real. Permanecendo entre nós dessa forma
sacramental, o Senhor mantém sua promessa de estar com sua Igreja
“todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Ainda que o mistério da presença real
leve ao limite as nossas possibilidades de compreensão, não
é um quebra-cabeças. É um sinal consolador do amor, do
poder e da genialidade do nosso Divino Salvador. Ele quis entrar em
íntima união com os fiéis de todas as
gerações e quis fazê-lo de um modo que satisfizesse a
nossa natureza de espíritos encarnados.
O alimentar e o beber formas profundamente carregadas
da lembrança da história do antigo Israel, são
significativos até para as pessoas incultas, em todos os tempos.
Simbolizam oportunamente a alimentação e a
restauração espiritual conferidos pelo Sacramento.
Em outro nível, conduzem o pensamento à
crucifixão de Cristo, que derramou Seu sangue pela nossa
redenção. E, enfim, prefiguram o banquete eterno dos
bem-aventurados na Jerusalém celeste. O simbolismo múltiplo
da Eucaristia não pode ser separado da presença real. Esse
simbolismo tem o poder singular de chamar a atenção da
memória para o passado, transformar o presente e antecipar o futuro,
pois contém verdadeira, real e substancialmente o Senhor da
história.
NOTAS
1 Para uma
exposição desses três termos, cf.: Max Thurian, The Mystery of the Eucharist: an Ecumenical Approach, Michigan, Eerdemans-Grand Rapids, 1984, pp. 55-58.
2 Concílio
Vaticano II, Presbyterorum ordinis, 5, que cita Santo Tomás de Aquino, Summa theologiae III, q. 65,
a. 3, ad 1; cf. q. 79, a. 1c e ad 1.
3 Cf. Santo
Tomás de Aquino, Summa theologiae III, q. 77, a. 6, “Podem as espécies
alimentar?”. Santo Tomás se refere a 1Cor 11,21 e aos
comentários que se faziam em seu tempo para mostrar que as
espécies, tomadas em quantidade suficiente, podem satisfazer a fome
e embebedar.
4 Essa linha de
pensamento, que parte de Pascásio Radberto, é representada
por Lanfranco e Guitmundo de Aversa. Cf. o artigo, “Guitmund of
Aversa and the Eucharistic Theology of St. Thomas”, de Mark G.
Vaillancourt, em The Thomist 69 (outubro de 2005).
5 Jean Borella, The Sense of Supernatural,
Edinburgh, T&T Clark, 1998, pp. 71-77. Ele encontra a doutrina do
“triplo corpo de Cristo” em Ambrósio, Pascásio
Radberto e Honório de Autun. Henri de Lubac fala de Amalário
de Metz e Godescalco de Orbais como representantes dessa doutrina medieval.
Cf. seu Corpus Mysticum: L’Eucharistie et
l’Eglise au Moyen Age, 2ª ed., Paris,
Aubier, 1949, p. 37. Esses teólogos não negaram a identidade
real entre o corpo real e o corpo eucarístico de Cristo.
6 Santo
Tomás de Aquino, Summa theologiae III, q. 76, a. 6. Para um lúcido comentário,
cf. Anscar Vonier, A Key to the Doctrine of the
Eucharist, 1923, pp. 132-133; segunda
edição: Bethesda (EUA), Zaccheus Press, 2003.
7 Id.,
ibid., a. 8, ad 2 e ad 3.
8 Santo
Tomás de Aquino, Summa theologiae III, q. 76, a. 3.
9 Id.,
ibid., q. 76, a. 7.
10 Judith Marie
Kubicki atribui a Karl Rahner, Edward Schillebeeckx e Piet Schoonenberg a
posição segundo a qual a Igreja como sacramento é
“o primeiro lugar da presença de Cristo no mundo”. Cf.
seu artigo “Recognizing the Presence of Christ in the Liturgical
Assembly”, in: Theological Studies 65 (2004), pp. 817-837, na p. 821.
11 Pio XII,
encíclica Mediator Dei, 20.
12 Paulo VI,
encíclica Mysterium fidei, 36.
13 João
Paulo II, encíclica Ecclesia de
Eucharistia, 6.
14 Típico
desse ponto de vista é o breve artigo “Changing Elements or
People?”, de F. Gerald Martin, in: America 182 (4 de março de 2000), p. 22. Reagindo contra
a tendência a separar a presença real da santa
comunhão, ele cai no erro oposto, desmerecendo a
devoção ao Santíssimo Sacramento, como se ela se
opusesse à comunhão freqüente.
15 O termo
“transfinalização” parece ter sido cunhado pelo
marista francês Jean de Baciocchi, mas foi usado por muitos outros. O
termo “transignificação” está associado em
particular ao jesuíta holandês Piet Schoonenberg. Para boas
informações sobre essas tendências, cf. Joseph M.
Powers, Eucharistic Theology, Nova York, Seabury, 1967, pp. 111-179, e Colman O’Neill, New Approaches to the Eucharist,
Staten Island, Alba House, 1967, pp. 103-126.
16 Piet
Schoonenberg, “The Real Presence in Contemporary Discussion”,
in: Theology Digest 15
(primavera de 1967), pp. 3-11, na p. 10.
17 Tomo esses
dados de Amy L. Florian, “Adoro Te devote”, in: America 182 (4 de
março de 2000), pp. 18-21, na p. 18.

|