VINTE ANOS DEPOIS. Da queda do Muro à crise global
Sucessor do sucessor de Pedro
de Gianni Valente
![Marx durante uma ordenação sacerdotal no Domo de Freising em junho de 2009 [© Katharina Ebel/KNA-Bild]](/upload/articoli_immagini_interne/1259682476300.jpg)
Marx durante uma ordenação sacerdotal no Domo de Freising em junho de 2009 [© Katharina Ebel/KNA-Bild]
“Sou o sucessor do sucessor de Pedro!” brinca hoje Reinhard Marx. Mas a sua “crítica cristã às razões de mercado” (este o subtítulo da versão italiana do seu Das Kapital, publicada pela editora Rizzoli alguns meses atrás) é bastante séria.
Segundo o bispo, nos últimos vinte anos, a globalização neoliberal e a usurocracia dos especuladores deram um golpe mortal exatamente na economia social de mercado que com os seus elementos de tutela e de correção – salários mínimos garantidos com contratos coletivos, welfare robusto e difuso, subsídios sociais para os desempregados e as faixas mais pobres – parece ter desmentido as profecias marxistas sobre a inevitável revirada do modelo de desenvolvimento econômico capitalista. Assim, depois do crepúsculo histórico do comunismo, justamente os processos de concentração desmedida da riqueza, o sentimento difuso de alienação produzido pela informalidade generalizada do trabalho, o aparecimento de novas oligarquias financeiras e a progressiva erosão das classes médias oferecem ao filósofo de Trier a chance de uma póstuma, paradoxal desforra. “Apoiamo-nos todos nas costas de Marx. Nas suas análises do século XIX há pontos incontestáveis”, reconheceu o bispo em uma entrevista a Der Spiegel há pouco mais de um ano atrás.
No seu livro, Reinhard Marx descreve com paixão pastoral e concretude não moralizante os efeitos desestabilizadores causados pela aceleração “turbocapitalista” no dia-a-dia concreto de grande parte da população mundial: fim das tutelas obtidas pelas lutas sindicais, erosão do valor real dos salários, gradual desaparecimento do comércio no varejo, ampliação surreal do abismo que separa uma elite de super-ricos (“Se no final dos anos Setenta um empresário americano ganhava em média vinte e cinco vezes o salário de um operário, apenas trinta anos depois subiu a quinhentas vezes”) e massas de populações que pertenciam à classe média e se tornaram inexoravelmente working poor, pessoas que “mesmo contando com um trabalho fixo, vivem abaixo do limite da pobreza”. A raiz destes processos está bem descrita em termos marxistas: “No âmbito do antigo conflito entre trabalho e capital”, reconhece o arcebispo de Munique e Freising, citando o sociólogo Manuel Castells, “o incremento da velocidade nas trocas de informações, bens e muitas vezes também serviços deslocou os pesos em favor do capital [...]. O capital é, na substância, global, enquanto que o trabalho é, de regra, local. Deste modo as possibilidades de investidores, especuladores e prestigiadores das finanças aumentam, enquanto que os que podem contar apenas com a operosidade das próprias mãos ficam em uma situação pior”.
Diante de uma situação deste gênero, há os que já reservaram à Igreja o papel de sparring partner, garante da natureza “compaixonável” do neocapitalismo: “Apesar de todas as críticas dirigidas à Igreja”, escreve o bispo Reinhard, ironizando sobre a artificiosidade ideológica da operação, “espera-se dela, de qualquer modo, o ‘rearmamento moral’, na falta de outras instituições. Como se fosse possível desenfornar moral como se desenforna pão. Ou como se a moral fosse a essência do cristianismo, como se Jesus tivesse pensado principalmente em estruturar a nossa sociedade com a moral. Não consigo encontrar esta confirmação, mesmo folheando as páginas do Evangelho, que esta tenha sido a sua preocupação primária”.