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SECRETÁRIOS DE ESTADOS...
Extraído do número 04 - 2006

Um aristocrata espanhol ao lado de Pio X


O serviço de Raffaele Merry del Val na Secretaria de Estado, perfeitamente coincidente com os onze anos do pontificado de Pio X, se identifica com o governo do Papa vêneto de tal modo que, em alguns casos, a historiografia tem dificuldade em distinguir o que é obra do superior e o que se deve ao comandado


de Giampaolo Romanato


No alto, a primeira página de L’Osservatore Romano de 9 de agosto
de 1903, dia da coroação de Pio X;
 à esquerda, a praça de São Pedro numa imagem dos primeiros anos do século XX

No alto, a primeira página de L’Osservatore Romano de 9 de agosto de 1903, dia da coroação de Pio X; à esquerda, a praça de São Pedro numa imagem dos primeiros anos do século XX

Duas personalidades muito diferentes, Pio X e Raffaele Merry del Val, seu secretário de Estado. O primeiro nasceu em 1835 na zona rural da região do Vêneto. O pai era um funcionário de baixo escalão da administração austríaca, a mãe, analfabeta. Conheceu a pobreza, passou a vida inteira entre paróquias de vilarejos e cúrias de província, longe da ribalta, das altas rodas, dos salões e dos palácios do poder. O segundo, nascido em Londres em 1865 numa família rica da alta aristocracia européia, à vontade entre embaixadores e cabeças coroadas (o pai foi representante da Espanha em Londres, Bruxelas, Viena, Roma), poliglota, teve o privilégio de ser acolhido na Academia dos Nobres Eclesiásticos (a escola da diplomacia pontifícia) quando ainda não era padre. Logo lançado na diplomacia vaticana, tornou-se bispo aos trinta e cinco anos e cardeal aos trinta e nove.
Tinham apenas duas coisas em comum: uma fé granítica em Deus e a ilimitada devoção à Igreja. Isso foi suficiente para cimentar uma relação de colaboração e estima recíproca como não há igual na história da Igreja. O serviço de Merry del Val na Secretaria de Estado, perfeitamente coincidente com os onze anos (1903-1914) do pontificado de Pio X (é o único caso, na lista dos trinta e quatro secretários de Estado que se sucederam de 1800 até hoje), se identifica com o governo do Papa vêneto de tal modo, que a historiografia tem dificuldade para distinguir o que é obra do superior e o que se deve ao comandado.
A dúvida é sobre o papel ocupado por Merry del Val: executor ou inspirador? Uma questão provavelmente mal colocada, seja porque o funcionamento da estrutura de governo da Santa Sé sempre de alguma forma faz com que o momento de decisão retorne à pessoa do papa, seja porque a historiografia vem apurando que Pio X exercia sobre os subordinados um controle muito maior do que se considerou até hoje. Se, além disso, levarmos em conta a diferença de idade entre os dois, de exatamente trinta anos, parece ainda menos convincente pensar num pontífice “manobrado” por seu jovem colaborador. Podemos acrescentar que a extraordinária devoção de Merry a Pio X (originou a petição que deu início a seu processo de canonização; no dia 20 de cada mês, dia do falecimento do Papa, celebrava uma missa em seu sufrágio; pediu para ser sepultado “o mais próximo possível do meu amantíssimo Pai e pontífice Pio X”) torna a hipótese ainda menos provável. É mais verossímil pensar que entre o Papa vêneto e seu ministro espanhol tenha-se realizado um pleno entendimento acerca dos critérios sobre os quais caracterizar a política da Igreja, ad intra e ad extra. Enfim, raciocinavam em uníssono e trabalhavam juntos.
Raffaele Merry del Val cresceu na Inglaterra, onde o pai era embaixador da Espanha, em seguida na Bélgica e depois novamente na Inglaterra. A vocação sincera ao sacerdócio, mediada pelos jesuítas, foi muito precoce. Quando chegou a Roma aos vinte anos para completar a preparação no Pontifício Colégio Escocês, começou ali uma das mais brilhantes carreiras de toda a história eclesiástica. De fato, Leão XIII o impôs à Academia dos Nobres Eclesiásticos, fez dele monsenhor quando ainda não era padre (seria consagrado em 1888) e o utilizou para missões diplomáticas na Inglaterra e na Alemanha. Não basta certamente o domínio das principais línguas européias para justificar tanta atenção. Evidentemente, o descendente da insigne família inglesa Merry, de ascendência irlandesa, e da ainda mais ilustre casa espanhola dos Del Val, deve ter dado provas de capacidade fora do comum.
Depois de diplomado na Gregoriana, tornou-se um dos personagens mais influentes e ouvidos da Roma pontifícia, sobretudo no que diz respeito aos problemas relacionados ao anglicanismo. O perfeito conhecimento do ambiente e da língua, as freqüentes viagens para além da Mancha e a estima do cardeal Vaugham lhe conferiram grande autoridade moral. Investido por Leão XIII da espinhosa questão das ordenações anglicanas, levou a Santa Sé à resposta negativa que seria oficializada em setembro de 1896 com a bula Apostolicae curae, da qual foi redator. Com base numa prática de mais de trezentos anos, Leão XIII confirmava a “nulidade” das “ordenações realizadas no rito anglicano”, negando com isso a sucessão apostólica desses bispos. A reaproximação entre anglicanos e católicos, que se estava realizando havia tempo, sofria assim um pesado intervalo, enquanto o jovem prelado se credenciava como porta-voz de uma linha de austeridade doutrinal alternativa à política do cardeal Rampolla.
No ano seguinte, realizou uma longa missão no Canadá, na qualidade de delegado apostólico. Disputada entre as tentações opostas de encastelamento e de entreguismo, a jovem catolicidade local inundava Roma de pedidos de ajuda. Merry agiu ali com equilíbrio, sobretudo em relação ao problema das escolas católicas em Manitoba, e obteve por isso o reconhecimento público do Papa na encíclica Affari vos (dezembro de 1897). Com palavras fora do protocolo, Leão escreveu que “o nosso delegado apostólico cumpriu perfeita e fielmente aquilo pelo qual o havíamos enviado”. Quando voltou a Roma, foi posto como chefe da Academia dos Nobres Eclesiásticos e nomeado bispo. Tinha queimado etapas graças a uma sólida preparação histórico-jurídica, a uma inata capacidade de se relacionar com qualquer um, à “rapidez”, como diria depois Bento XV, com a qual resolvia os problemas. Mas todos sabiam que o capacitado diplomata era um padre severo e austero, de ascética disciplina de vida.
Raffaele Merry del Val

Raffaele Merry del Val

Uma inesperada coincidência tornou possível o salto definitivo. Quando faleceu o Papa, em 1903, morreu ao mesmo tempo também o prelado que exercia a função de secretário do Sacro Colégio. Pegos de surpresa, os cardeais não hesitaram e pediram a Merry que o substituísse. Foi assim que o jovem prelado anglo-espanhol (naquele momento tinha trinta e oito anos) viu-se como diretor e um dos atores principais, ainda que em posição apenas executiva, do mais dramático conclave da história moderna: o do veto austríaco e do conflito entre o bloco cardinalício francês e a frente austro-alemã-polonesa. Do choque saiu triturada a candidatura do cardeal Rampolla, que havia sido durante dezesseis anos secretário de Estado de Leão, e derrotada definitivamente a linha filo-francesa, antiitaliana e antitriplicista. Mesmo privado do direito de voto, Merry esteve no centro de toda a disputa, como demonstrou seu diário, recentemente publicado por Luciano Trincia. Certamente não lhe escapou que a ines­perada eleição do patriarca de Veneza punha fim a um ciclo inteiro da política vaticana: aquele que, depois de 1870, tinha apostado tudo na recuperação de um papel político internacional da Santa Sé e na restauração do poder temporal.
Estranho à cúria, mas bem consciente de ter de temê-la, Pio X, que antes do conclave nunca havia encontrado Merry, identificou nele o personagem capaz de mantê-la sob controle. Era alguém que conhecia bem, mas que não pertencia ao grupo dos rampollianos, e sobretudo era jovem demais, devoto demais do papado para contrapor-se a ele. As palavras com as quais Pio X lhe comunicou a nomeação, na mesma noite da eleição, em 4 de agosto de 1903, depois que o bispo foi se despedir, tendo esgotado sua função, dão a medida da solidão do novo Papa. “Não decidi nada ainda. Não sei o que farei. Por ora não tenho ninguém. Continue comigo como secretário adjunto de Estado. Depois veremos.” Bastaram dois meses para convencê-lo de que a escolha estava correta. Em 18 de outubro nomeou-o secretário de Estado e lhe preanunciou o cardinalato. Foi a segunda surpresa do pontificado, depois da sua eleição: pela primeira vez se tornava secretário de Estado um prelado não italiano, que ainda não era cardeal e não tinha ainda quarenta anos. O elogio que o papa Sarto lhe dirigiu em 11 de novembro de 1903, dia da imposição do barrete vermelho, é tão inusual que merece ser transcrito integralmente: “O bom perfume de Cristo, senhor cardeal, que difundistes em todos os lugares, mesmo em vossa morada temporária, e as múltiplas obras de caridade às quais continuamente vos dedicastes nos ministérios sacerdotais, especialmente nesta nossa cidade de Roma, conquistaram para vós, com a admiração, a estima universal”. A avaliação positiva do Pontífice, mais que às capacidades do colaborador, voltava-se ao seu mundo moral, às obras de caridade entre os jovens do bairro de Trastevere, nos quais se doava sem se poupar.
Os acontecimentos do pontificado de Pio X são conhecidos. As relações com os Estados se deterioraram um pouco por toda a parte, até a ruptura efetiva. O caso mais conhecido é o da França, onde, em dezembro de 1905, foi votada a lei de separação entre Igreja e Estado. Seis anos depois foi a vez de Portugal, que lançou uma lei ainda mais brutal. Tensões análogas ocorreram em vários países latino-americanos. O Papa não fez muito para modificar o curso dos acontecimentos. Protestou, escreveu encíclicas muito fortes, mas evitou de todas as formas tentar as vias diplomáticas.
 Merry del Val em 1897, quando foi nomeado delegado apostólico no Canadá pelo papa Leão XIII

Merry del Val em 1897, quando foi nomeado delegado apostólico no Canadá pelo papa Leão XIII

No caso francês, a lei previa que as chamadas associações culturais, das quais estava excluída a hierarquia eclesiástica, administrassem as propriedades da Igreja, tornando-se um pólo alternativo aos bispos. O objetivo de desagregar a constituição hierárquica da Igreja era evidente, ainda que nem todos tivessem percebido. O Papa percebeu perfeitamente o nó do problema e opôs-se frontalmente a essa lei. Foi um verdadeiro legal suicide, como se disse, uma vez que a Igreja na França, obrigada por Roma a não aceitar a lei (o Pontífice escreveu em menos de um ano nada menos que três encíclicas dedicadas ao caso francês), perdeu a personalidade jurídica e com ela todo o seu patrimônio, a partir das igrejas onde se desenvolviam diariamente os ofícios religiosos. Mas ganhou de volta a sua liberdade e o pleno controle das nomeações episcopais, até aquele momento confiado ao Estado, como determinava a concordata napoleônica. A escolha de Pio X (entre o “bem” e os “bens” da Igreja, escolhi o primeiro, diria o Papa), que receberia a posteriori os aplausos de Aristide Briand, o inspirador da lei (“o Papa foi o único a enxergar claramente”, escreveu), apagou de um só golpe três séculos de galicanismo, de Igreja nacional, trazendo a catolicidade francesa, disciplinarmente, de volta à plena fidelidade romana.
Foi uma virada fundamental - “evento doloroso e traumatizante”, definiu-o João Paulo II na carta aos bispos franceses escrita no ano passado, por ocasião do centenário desse fato - que pegou os contemporâneos de surpresa e continua a dividir os historiadores, como se observa confrontando o juízo positivo sobre a ação do Pontífice expresso pelo estudioso suíço Martin Grichting no congresso sobre Pio X realizado em Veneza em maio do ano passado (as Atas estão para ser publicadas pelo Instituto de Direito Canônico do Seminário Patriarcal) e a opinião muito cautelosa de Giovanni Sale em Civiltà Cattolica de 5 de novembro de 2005. O gesto do Papa foi a oportunidade que permitiu o aparecimento do idealismo antitemporalista, como foi definido, o qual, na opinião de vários estudiosos, seria o aspecto revolucionário de seu pontificado, a verdadeira novidade na relação entre a Igreja e o mundo.
Com Pio X, termina enfim toda uma temporada na história da Igreja, a das interferências com a política, das tramas diplomáticas, das conexões tardias entre tronos e altares, dos bispos de cartola e dos cardeais de corte, dos confrontos com alguns Estados e as concessões a outros. Diferentemente de seu predecessor, nunca fez “política externa”, nunca tentou enfraquecer no plano internacional os países que se demonstravam contrários à Igreja, nunca procurou tirar vantagem das rivalidades, dos interesses e das alianças das várias nações. E essa linha, à qual os historiadores não deram atenção suficiente, não era um desvio tático, mas uma opção estratégica precisa, como disse um dia a Nicola Canali, então jovem funcionário da Cúria: “O senhor é jovem, mas sempre se lembre de que a política da Igreja é a de não fazer política e de ir sempre pelo caminho reto”.
Merry del Val auxiliou leal e convictamente essa política, como também as decisões simples de renovação da Igreja, de supressão do direito de veto à transformação da Cúria, à codificação do direito canônico. A reforma da Cúria Romana, lançada em 1908, estava diretamente relacionada com as suas competências, que foram ampliadas, mas dentro de um projeto de governo no qual a Secretaria de Estado era apenas o penúltimo dos cinco ofícios vaticanos. A Secretaria, enfim, não era o motor da Igreja de Pio X (como aconteceria a partir da reforma de Paulo VI, sessenta anos depois); esse motor eram as onze congregações, acima das quais estava o Santo Ofício. Talvez seja essa a razão pela qual o papel de Merry coincide, até quase confundir-se, com o do Papa, diferentemente do realizado pelos secretários de Estado Rampolla, que o precedeu, e Gasparri, que o seguiu. Fazendo pouca ou nenhuma política externa e cuidando de governar e renovar a Igreja, Pio X tirou da Secretaria de Estado muito do espaço que a tornava um ator autônomo e reforçou sua ligação com o próprio papado.
O papa Pio X abençoa os peregrinos em visita ao Vaticano

O papa Pio X abençoa os peregrinos em visita ao Vaticano

Essa ligação se tornou ainda mais cerrada durante o episódio modernista, que parece ainda hoje aos historiadores o verdadeiro punctum dolens do pontificado de Giuseppe Sarto. Muito se escreveu sobre esse episódio, e um dos pontos até hoje não resolvidos está relacionado justamente à ação do secretário de Estado. Mas o fato de Merry ter sido protagonista ou coadjuvante, executor ou inspirador não parece ser um elemento decisivo de juízo. O que é decisivo é o fato de ter participado plenamente da linha antimodernista do Papa, defensor convicto da necessidade de deter as instâncias de renovação. Em suas memórias, Ernesto Buonaiuti não poupa ataques à figura “enigmática e sinistra” do cardeal espanhol, à sua “soberba e vazia prosopopéia”. São juízos pesados, fruto também da amargura pessoal daquele que as expressou. Mas, cem anos depois dos fatos, representam um testemunho importante sobre o papel exercido então pelo cardeal e por sua secretaria.
Era inevitável que um secretário de Estado tão estreitamente identificado com o Pontífice que havia servido não fosse confirmado por seu sucessor. Tão logo eleito papa, em 3 de setembro de 1914, Bento XV nomeou primeiramente o cardeal Ferrata, que morreu quase imediatamente depois, e em seguida Pietro Gasparri. Merry del Val teve o mesmo tratamento que fora reservado dez anos antes a seu predecessor, Rampolla: tornou-se secretário do Santo Ofício (a prefeitura dessa Congregação era então reservada ao pontífice), função que conservou até a morte inesperada, ocorrida em 26 de fevereiro de 1930, em conseqüência de uma operação de apendicite.
Devem ter sido dezesseis anos difíceis, sobretudo os primeiros, aqueles do pontificado de Giacomo Della Chiesa, um homem que Merry não havia amado, mesmo respeitando-o, e pelo qual não havia sido amado, mesmo sendo por ele respeitado. O diário de Carlo Monti, um diplomata italiano que tinha grande familiaridade com o papa Bento, publicado por Antonio Scottà, fala de boatos segundos os quais a casa do cardeal, o palacete Santa Marta, seria um lugar de reuniões e amplificação da insatisfação quanto ao sucessor de Pio X, o “pequeno Vaticano”, como era chamado. O Papa sabia disso, mas não ligava (“o que é que eles podem fazer?”, teria respondido sem se alterar a alguém que o desafiou sobre a questão). Assim, o bom nome do cardeal espanhol sobreviveu a sua morte e, em 1953, foi iniciado seu processo de canonização, durante o pontificado de Pio XII, que começara sua carreira justamente sob seu serviço; dessa forma, o início do processo coincidia com a glorificação de Pio X, proclamado beato em 1951 e santo em 1954. Mas, depois da morte do papa Pacelli e do início do período conciliar, ninguém nunca mais falou de elevar o cardeal espanhol aos altares.


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