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JOÃO PAULO I
Extraído do número 07 - 2003

UMA PALESTRA DO BISPO ALBINO LUCIANI

«Eu não sou um mÍstico»


Em janeiro de 1965, Albino Luciani, então bispo de Vitório Vêneto administrou um curso de exercícios espirituais aos sacerdotes das dioceses do Vêneto. O texto da palestra, inspirado na parábola do Bom Samaritano, mais tarde foi transcrito e publicado. Apresentamos um trecho no qual se refere à oração


de Albino Luciani


João Paulo I

João Paulo I

O Senhor nos faz muitas recomendações sobre a oração no Evangelho. Uma delas é a insistência. Não basta pedir uma vez. Não é como tocar piano: você aperta uma tecla, sai um som. “Senhor, dai-me esta graça.” E pronto, está servido! Os tambores batendo. Não é assim. O Senhor mesmo disse que não é assim: quero que vocês peçam. Chegou a contar uma parábola. Havia um juiz iníquo numa cidade. Não se importava nem com Deus nem com os poderes mortais. Uma viúva ia vê-lo todos os dias: “Faz-me justiça, faz-me justiça!”. “Deixa-me! Não tenho tempo, não tenho tempo”. Mas a viúva voltava. Um dia, finalmente, o juiz disse consigo: “Essa viúva vem sempre me importunar e não me deixa em paz. Mesmo não temendo a Deus e não tendo nenhum respeito pelos homens, quero lhe fazer justiça, para que ela pare de me rondar”. A conclusão de Jesus Cristo: se um juiz iníquo, por motivos egoístas, faz isso, vosso Pai, quando insistirdes em lhe pedir que vos faça justiça, vosso Pai que está nos céus, que vos ama, não vos fará o mesmo? E já ouvimos do Concílio: é preciso rezar sempre, rezar sem interrupção.
Nosso primeiro dever é ensinar o povo a rezar, pois quando lhe damos esse instrumento poderoso, ele mesmo se arranja para obter as graças do Senhor. Não posso fazer um tratado sobre a oração, mesmo porque é possível que vocês saibam mais do que eu a esse respeito. Só apontarei algumas coisas. Talvez nós insistamos demais na oração de petição: “Senhor, lembra-te de mim; Senhor, perdoa-me!”. Isso é muito bom! Mas Jesus, quando nos ensinou o Pater nosterý nos disse: “Rezem assim”, e dividiu sua oração em duas partes. A primeira: “Santificado seja o vosso nome, venha nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade”. Essa é a parte que diz respeito à nossa relação com Deus. Só depois se passa à segunda: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje, etc.”. Portanto, em nossas orações devemos seguir o mesmo método: fazer primeiro a oração de adoração, de louvor, de agradecimento; e só depois a de pedido. Nas epístolas de São Paulo: “Gratias agamus, Deo gratias, Deý autem gratias...”. Essas expressões aparecem mais de cento e cinqüenta vezes, e não fui eu que as contei. São Paulo dá graças continuamente. Mas observem também as outras orações: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”. Depois vem o pedido: Rogai por nós, pecadores”. Primeiramente, se faz uma bela saudação a Nossa Senhora. É preciso ser diplomático: louva-se, depois se pede. Os oremus antigos - os modernos, não - têm todos também, no início, o louvor, a saudação. Faz-se um belo louvor: “Deus qui corda fidelium Sancti Spiritus illustratione docuisti...”, e então: “da nobis quaesumus...”, vem o pedido. Ao contrário, hoje se diz: “Concedi nobis, famulis tuis...”; esse é um oremus moderno: começa pedindo logo alguma coisa. Quem o compôs não entendeu nada, nada mesmo. Até as ladainhas de Nossa Senhora dizem: “Mater purissima!”, o elogio, e: “ora pro nobis”, o pedido; são todas assim. Devemos usar esse método nas nossas orações. Devemos nos preocupar um pouco também... O Senhor não precisa das nossas preocupações, mas certamente lhe agrada que nos ocupemos um pouco dele. Há um livro muito bonito de padre Faber: Tudo por Jesus; não é uma obra “elevada”, são coisas humildes; ele diz exatamente que precisamos nos preocupar com os interesses de Deus, antes de nos preocuparmos com os nossos. Eu dizia: a adoração. “Tu estás lá nos céus, ó Deus imenso e onipotente, e eu, pequenino, estou aqui, Senhor”: esse sentimento de adoração, de maravilhamento diante de Deus. “Eu te devo tudo, Senhor!”: o agradecimento. Sentir-se sempre pequenos, míseros, diante de Deus. É preciso ajudar os fiéis a adorar, a agradecer ao Senhor. Ninguém é grande diante de Deus. Diante de Deus, até Nossa Senhora se sentiu olhada, pequena. É importantíssimo nos sentirmos olhados por Deus. Sentirmo-nos objetos do amor que Deus tem por nós. São Bernardo, quando era muito pequeno, numa noite de Natal, adormeceu na igreja e sonhou. Teve a impressão de ver o menino Jesus apontando para ele e dizendo: “Olha ele aí, o meu pequeno Bernardo, o meu grande amigo”. Acordou, mas a impressão daquela noite nunca mais se apagou, e teve uma enorme influência sobre a sua vida. Sintamo-nos pequenos, pois somos pequenos. Se não nos sentirmos pequenos, a fé será impossível. Quem levanta a crista, quem se vangloria demais, não tem confiança em Deus. Tu és grandíssimo, Senhor; eu, diante de ti, pequeníssimo. Não tenho vergonha de dizê-lo. E farei de bom grado o que me pedires. Ainda mais porque sei que não pedes para tomar, mas para dar, que não pedes para proveito teu, mas em meu interesse! Manzoni diz: “O homem nunca é maior do que quando se ajoelha diante de Deus”. Falta cada vez mais nas orações o sentido da adoração. No entanto, essa é uma das posturas fundamentais de toda a religião cristã.
“Não entendo de contemplação. Detenho-me na oração simples, na oração humilde, a das almas simples. Determinadas pessoas, muito humildes, não aprenderam a meditar, mas rezam bem as orações vocais, com o coração. Santa Bernadete só se tornou santa por causa disso. Rezava bem o rosário, obedecia a sua mãe”
Que orações e com que método? Vocês são mestres em Israel; sabem que a oração mais bela, em si mesma, é a passiva, onde nos abandonamos à ação da graça. É o que acontece a algumas almas que chegam a ser capturadas por Deus, trabalhadas, dominadas, santificadas. É o que se chama oração mística, a daqueles que se entregam à contemplação. Sobre isso não posso lhes dizer nada, pois sinceramente não sou um místico. Lamento. Cheguei a ensiná-lo na escola, estudei os vários sistemas, as várias tendências, os cýrmelitas daqui, os jesuítas dali... Mas Santa Teresa, que era uma mulher muito inteligente, diz: “Conheci alguns santos, verdadeiros santos, que não eram contemplativos, e conheci contemplativos que tinham graças de oração superior, que, porém, não eram santos”. O que significa que, “salvo meliore iudicio”, para a santidade não seria necessária a contemplação. Mas não posso entretê-los a respeito da contemplação, pois sinceramente não entendo do assunto, mesmo tendo lido alguns livros. Por isso, paro na simples oração, na oração humilde, a das almas simples. Eu me explico sempre com um exemplo muito simples e prático. Ouçam: um pai festeja seu aniversário. Organizaram uma pequena festa em sua casa. Chega a hora; ele já sabe da festa e diz: “Vamos ver as coisas bonitas que vão me mostrar!”. Primeiro vem seu filho caçula: lhe ensinaram uma poesia, que ele decorou. Pobre menino! Lá, na frente do pai, recita a sua poesia. “Parabéns!”, diz o pai, “gostei muito, você foi muito bem, querido”. De cor. Sai oýcaçula, apresenta-se o segundo filho, que já está no ginásio. Ah, ele não se contentou em aprender uma poesiazinha de cor; preparou um pequeno discurso, coisa sua, farinha do seu saco. Mesmo sendo breve, ele posa de orador. “Eu nunca poderia acreditar”, diz o pai, “que você fosse tão bom para fazer discursos, querido”. O pai está contente: veja só, que belos pensamentos!... Não é uma obra-prima, mas... Terceira: a senhorita, a filhinha. Ela preparou simplesmente um macinho de cravos vermelhos. Não diz nada. Vai até o pai, não solta um pio: mas está comovida, fica tão vermelha que não se sabe quem é mais vermelho, ela ou os cravos. E o pai diz: “Dá pra ver como você gosta de mim; está tão emocionada”. E nem sequer uma palavra. Mas ele agradece as flores, especialmente porque a vê tão comovida e tão cheia de afeição. Depois vem a mãe, a esposa. Não dá nada. Ela olha para seu marido e ele olha para ela: simplesmente um olhar. São tantas coisas. Aquele olhar traz de volta todo o passado, toda uma vida. O bem, o mal, as alegrias, as dores da família. Não há mais nada. São os quatro tipos de oração. O primeiro é a oração vocal: quando rezo o rosário com atenção, quando rezo o Pater noster, a Ave Maria; então somos crianças. O segundo, o pequeno discurso, é a meditação. Sou eu que penso e faço meu discurso ao Senhor: belos pensamentos e até sentimentos profundos, fiquemos bem entendidos. O terceiro, o maço de cravos, é a oração afetiva. A menina, tão ýmocionada e tão afetuosa. Aqui não são necessários muitos pensamentos, basta deixar falar o coração. “Meu Deus, te amo.” Mesmo que alguém só faça cinco minutos de oração afetiva, é melhor do que a meditação. A quarta, a esposa, é a oração da simplicidade e do simples olhar, como se diz. Ponho-me diante do Senhor, e não digo nada. Olho para ele da maneira como puder. Essa oração parece valer pouco, mas pode ser superior às outras. Considerem cada uma dessas formas de oração. A primeira também. Costuma-se dizer: é uma criança, está apenas começando. Mas Santa Teresa escreve: a pessoa pode se tornar santa com a primeira oração. Determinadas pessoas, muito humildes, não aprenderam a meditar, mas rezam bem as orações vocais, com o coração. Santa Bernadete só se tornou santa por causa disso. Rezava bem o rosário, obedecia a sua mãe. E se tornava santa.
Deixem-me agora recomendar-lhes a devoção a Nossa Senhora, já que devo comentar o rosário, que, em parte, é uma oração vocal. O rosário é também a Bíblia dos pobres. Nunca negligenciem o rosário, e rezem-no bem. Eu me preocupo muito com meus fiéis: alguns ainda rezam em casa, mas não rezam mais o rosário. Quando os filhos vêem o pai rezar em família, rezar com eles todos, isso tem um efeito sobre a educação, que nossas pregações nunca terão, estejam certos disso. Portanto, nas visitas pastorais, faço também esta pergunta: “Vocês rezam em casa?”. Infelizmente, rezam pouco. Que pena! Então digo na igreja: “Façam-me o favor! Sei que vocês têm de ver televisão, eu entendo. Mas se não puderem rezar o rosário, todas as cinco estações, digam pelo menos uma, dez ave-marias, um mistério que seja. Recomendo-lhes muito pelo menos isso. E insistam também na devoção a Nossa Senhora. Um dia me perguntaram - são curiosas essas almas pias -: “Que Nossa Senhora o senhor prefere? A do Carmo? Pois eu sou devota de Nossa Seýhora do Carmo”. É gente boa, então respondi: “Se a senhora me permite um conselho, eu lhe sugeriria a Nossa Senhora dos pratos, dos pratos fundos e das sopas”. Observem que Nossa Senhora se fez santa sem visões, sem êxtases, fez-se santa por meio dessas pequenas coisas do trabalho cotidiano. Eu queria dizer: muita devoção a Nossa Senhora. Sim ao rosário, à confiança nela, mas também imitação de suas virtudes. Portanto, não se cansem de recomendar a devoção a Maria.


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