“Bastava olhá-lo para saber como rezam os santos”
Era assim que Santa Teresinha do Menino Jesus falava do pai, Luís Martin, que será beatificado em breve com sua esposa, Zélia Guérin, no aniversário de cento e cinqüenta anos de suas núpcias
de Paolo Mattei

Luís Martin
Luís Martin, relojoeiro e joalheiro de profissão, concebera na juventude o propósito de se tornar monge, mas, em 1845, não lhe foi permitido entrar no mosteiro do Grande São Bernardo, pelo fato de que deveria, antes, aprender o latim. Por um motivo desconhecido, permissão semelhante também foi negada a Zélia, que desejava entrar para as Irmãs da Caridade; elas administravam o Hospital Novo de Alençon, sua cidade. A partir daí, ela se orientou para o matrimônio. O primeiro encontro com Luís aconteceu na ponte de São Leonardo. A jovem autora do refinado “ponto de Alençon” ouviu distintamente uma voz interior que lhe dizia, enquanto Luís passava a sua frente: “Foi esse homem que preparei para ti”. Naqueles mesmos dias de graça, a Imaculada, a quem Zélia se havia votado, sorria na gruta de Massabielle à pequena Bernadete Soubirous. O matrimônio se deu na igreja paroquial de Alençon, depois de poucos meses de noivado, em 13 de julho de 1858, três dias antes da última aparição de Lourdes.
Depois desse prelúdio, a vida desses dois esposos, em seus dezenove anos de casamento, foi transcorrida no cotidiano de uma família como qualquer outra, apenas remediada, em que o trabalho e a educação dos filhos absorviam quase todo o tempo do dia. Só que os dois esposos viviam como cristãos seus deveres de estado, começando o dia com a missa diária, praticando o respeito às leis da Igreja, participando da vida da paróquia, acentuando de modo particular o repouso do domingo, confessando-se freqüentemente, pedindo ao “bom Deus”, segundo a expressão que estava sempre nos lábios de Zélia, que lhes mandasse filhos para que pudessem educá-los “para o Céu”. Tiveram nove, conheceram quatro vezes a dor da morte prematura, que infelizmente não era uma exceção naqueles tempos, e criaram, com amor, as cinco filhas que chegaram à idade adulta. A última a vir à luz, em janeiro de 1873, foi Teresa. Não se arrependeram por ter estado abertos aos filhos que Deus lhes quis dar. Escrevendo à cunhada, que também vivia a dor de perder um filho recém-nascido, Zélia escrevia: “Estou desolada, tenho o coração tão apertado como quando perdi meus filhos, e, todavia, Deus te concedeu uma grande graça, já que o pequenino teve tempo para receber o batismo. Quando vemos uma criatura em perigo, é sempre desse ponto que devemos começar. Quando eu fechava os olhos dos meus queridos filhinhos, experimentava uma dor muito grande, mas não lamentava as dores e os afãs que suportava por eles. Muitos me diziam: ‘Teria sido melhor nunca os ter tido’. Eu não podia tolerar essa linguagem. Não achava que minhas dores e afãs pudessem ser comparados à felicidade eterna de meus meninos”.
O maior testemunho sobre sua santidade vem justamente dos escritos de Teresa, que teve a graça de aprender muito cedo a confiança em Deus, olhando para os pais. De Zélia, conservou poucas recordações: realmente, a mãe morreu de câncer no seio em 1877, quando Teresa era ainda muito pequena. Mas as cartas da mãe estão cheias de referências a sua infância cheia de vida e alegria: “A pequena Teresa às vezes é realmente divertida”, escreve em 1876 à segunda filha, Paulina, então no colégio: “Perguntou-me outro dia se irá para o Céu. Disse-lhe que sim, se se comportar direito. Respondeu-me: ‘Sim, mas se eu não for gentil irei para o inferno..., mas sei o que faria, voarei contigo, que estarias no Céu. Como é que Deus faria para me pegar?... Tu me segurarias bem forte em teus braços’. Vi nos olhos dela que acreditava firmemente que Deus nada poderia fazer-lhe se estivesse no colo da mãe...”
A oração e a confiança em Deus nessa família não eram apenas recomendadas. Eram vividas cotidianamente, e as cinco filhas respirariam um clima no qual o extraordinário poder formador da oração era o método naturalmente aprendido a cada passo. “Em nossa casa”, lembrava na velhice Celina, a penúltima, companheira de brincadeiras e “amiga de coração” de Teresa, “a educação tinha como principal eixo a piedade. Havia toda uma liturgia do lar: oração da noite em família, mês de Maria, ofícios do domingo, leituras devotas na Vigília. Minha mãe me pegava em seus joelhos para me ajudar a preparar minhas confissões, e era justamente à confidência de suas filhinhas que se dirigia sempre”.
Como Teresa aprendeu cedo com esse método! Quando começava a dar os primeiros passos, conta a mãe, era difícil para ela subir as escadas da casa. Então ia até a frente do primeiro degrau e gritava: “Mamãe!”, e não se movia dali até que a mãe lhe respondesse: “Sim, minha filha!” Só então levantava o pezinho e superava o obstáculo. “Havia a necessidade de uma invocação e de uma resposta de encorajamento para cada degrau”, observa padre Antonio Sicari ao comentar o episódio. E acrescenta: “Mais tarde, Teresa, tendo-se tornado educadora das jovens noviças, ensinará a elas que não existe método melhor para aprender a subir para Deus a não ser chamá-lo a cada passo”.

Zélia Guérin
Zélia não obteve a graça que tanto esperava. Aos 54 anos, Luís viu-se, assim, enfrentando sozinho a tarefa de administrar uma família, quando a filha primogênita, Maria, tinha dezessete anos e Teresa apenas quatro anos e meio. Foi assim que decidiu se transferir para Lisieux, onde estava o irmão de Zélia, Isidoro, e oferecer às filhas o apoio maternal da cunhada, Celina Fournet, amiga e confidente da esposa. A lembrança desses anos é extraordinariamente viva em Teresa, que, sendo a mais nova da casa, foi cercada por um amor todo particular por parte do pai: a ela era dedicada o passeio da noite, com a visita ao Santíssimo Sacramento; era com ela que o pai passava as tardes a pescar à beira do rio; a ela era dado o último beijo, depois da oração da noite diante da imagem de Nossa Senhora, tão cara a Zélia e Luís, que a família havia trazido de Alençon. Foi assim que o coração de Teresa começou a se abrir de novo; superou aos poucos a dor pela morte da mãe, que a havia tornado inicialmente mais frágil, propensa ao choro e melancólica, e descobriu nos olhos do pai um amor que remetia naturalmente a Deus e se ampliava no espaço da caridade: “Durante os passeios que eu fazia com papai, ele gostava de me encarregar de levar esmola aos pobres que encontrávamos. Um dia, vimos um que se arrastava penosamente sobre muletas. Aproximei-me e lhe dei um centavo; mas, não se achando bastante pobre para receber a esmola, olhou-me sorrindo tristemente e recusou-se a tomar o que eu lhe oferecia. Não posso dizer o que se passou em meu coração. Teria desejado consolá-lo, aliviá-lo [...]. Papai acabara de comprar um bolo para mim, e eu queria dá-lo ao pobre, mas não ousava; queria dar-lhe alguma coisa que não pudesse recusar, pois sentia uma grande simpatia por ele. Ora, tinha ouvido dizer que no dia da primeira comunhão obtinha-se o que se pedisse. Esse pensamento consolou-me e, embora tivesse apenas seis anos, disse a mim mesma: ‘Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão’. Cinco anos depois, cumpri minha promessa, e espero que Deus tenha acolhido favoravelmente a oração que me inspirara dirigir por um dos seus membros padecentes...”
Não podemos nestas poucas páginas deixar de fazer referência à História de uma alma, vislumbrando ali refletida a estatura de Luís, a graça de estado que lhe permitiu formar, sem muitas palavras, mas com o exemplo, esse espírito de confiança em Deus que tanto caracterizou Teresa: “As festas”... ah! quantas recordações essa palavra me traz... Gostava tanto das festas!... [...] Gostava sobretudo das procissões com o Santíssimo. [...] As festas! ah! as grandes eram escassas, mas cada semana trazia uma que me era muito querida: ‘o domingo’. Que belo dia o domingo!... Era a festa de Deus, a festa do repouso. [...] Toda a família saía para a missa. Durante todo o percurso, e também na igreja, a rainhazinha do papai segurava-lhe a mão, seu lugar era ao lado dele e quando éramos obrigados a descer para a homilia ainda precisava-se de duas cadeiras juntas. Não era muito difícil, todos pareciam achar bonito ver um ancião tão bonito com uma menina tão pequena, que mudavam de lugar para que nos acomodássemos. [...] Quando o pregador falava de Santa Teresa, papai inclinava-se e dizia-me baixinho: ‘Escute, rainhazinha, fala-se da sua santa padroeira’. De fato, escutava bem, mas olhava papai mais do que ao pregador. Sua linda figura evocava tantas coisas para mim!... Às vezes, seus olhos enchiam-se de lágrimas que ele procurava segurar”.
Teresa insiste sobretudo no verbo olhar, quando se refere ao pai: “Que dizer dos serões de inverno, sobretudo aos domingos? Ah! como era bom, depois da partida de damas, sentar-me com Celina no colo de papai... [...] Subíamos depois para a oração em comum e a rainhazinha estava sozinha junto do seu rei, bastava olhá-lo para saber como rezam os santos...”.
É preciso dizer que Teresa, que nunca se sentiu uma santa, sempre, no entanto, se sentira filha de santos. E por isso pode se exprimir assim, numa carta ao pai, quando se encontrava já no Carmelo: “Quando penso em ti, penso naturalmente em Deus”.
Coube, assim, a Luís, entre 1882 e 1887, acompanhar três de suas cinco filhas às portas do Carmelo de Lisieux: Paulina, a mãe adotiva de Teresa, foi quem entrou primeiro; Maria, a primogênita, quatro anos depois; Teresa, enfim, que para o pai representou o maior sacrifício, entrou depois de um ano, tendo obtido a especial permissão de tomar o hábito das carmelitas aos 15 anos. Naquela ocasião, um dos amigos de Luís lhe disse: “Abraão não tem nada a lhe ensinar; o senhor teria feito como ele, se o bom Deus lhe tivesse pedido que sacrificasse sua pequena rainha...” Ele replicou logo: “Sim, mas confesso que teria levantado minha espada lentamente, esperando o anjo e o carneiro”.

Teresa, última de nove filhos, aos três anos e meio, numa foto de julho de 1876
Nos últimos anos de sua vida, depois de ter oferecido a Deus todas as filhas – Leônia e Celina também entrariam no mosteiro depois de sua morte -, Luís teve de enfrentar a provação mais difícil: uma penosa doença que o levou lentamente à perda das faculdade mentais e à internação no sanatório de Caen. Alternando momentos de lucidez com longas crises, procurava oferecer tudo ao bom Deus, aceitando por amor, ele que sempre fora muito ativo e empreendedor, essa dolorosa condição: “Eu sempre estive acostumado a comandar e me vejo reduzido a obedecer; é duro. Mas sei por que o bom Deus me deu essa prova: eu nunca tive de viver a humilhação em minha vida; era preciso passar por uma”.
Quando faleceu, em 1894, Teresa escreveu: “A morte de papai não me causa a impressão de uma morte, mas sim de uma verdadeira vida. Reencontro-o após seis anos de ausência, sinto-o perto de mim, olhando-me e protegendo-me”.
Talvez a santidade deles não tenha as características extraordinárias da de Teresa. Mas, para dizer o quanto Teresa deve a seus pais, bastaria o testemunho de um amigo de Luís, Cristóvão Desroziers, que, em 1899, depois de ter lido a primeira edição de História de uma alma, escrevia: “Não é sem viva emoção que encontrei ali o retrato físico e moral daquele querido Luís, um dos homens que mais amei neste mundo. Nunca encontrei coração maior, nem alma mais generosa, e é seguramente dele que provém a nobreza de sentimentos de irmã Teresa do Menino Jesus”.