Vinte anos após a queda do Muro de Berlim
O pragmatismo indispensável
Giulio Andreotti repercorre o processo de unificação da Alemanha e o terremoto político que envolveu os países comunistas do Leste europeu. Protagonistas e momentos-chave do fim do bipolarismo Leste-Oeste. Entrevista
Entrevista com Giulio Andreotti de Roberto Rotondo

O chanceler alemão Helmut Khol com o presidente do Conselho dos Ministros Giulio Andreotti. Atrás deles, o ministro do Exterior Gianni De Michelis e o seu colega alemão Hans-Dietrich Genscher em outubro de 1989 em Bonn
Percebia-se que era possível uma evolução positiva, mesmo com muitas dificuldades e dúvidas. Hoje, aos historiadores parece tudo claro, mas naquele momento era muito diferente”. Quando o Muro de Berlim foi derrubado pela multidão em 9 de novembro de vinte anos atrás, Giulio Andreotti era o chefe do governo italiano e teve uma participação ativa no processo recorde que em apenas 329 dias da queda do Muro, levou à unificação das duas Alemanhas. A Itália, nos dias mais agitados, com efeito, teve um peso político específico notável também porque naqueles dias detinha a presidência de turno da Comunidade Europeia e da Csce. E Andreotti, que nos anos precedentes tinha sido um dos que mostraram cautela sobre a unificação, tornara-se um dos seus defensores: “Helmut Kohl deve agradecer à Itália e em particular a Andreotti se muitas coisas correram bem”, declarou recentemente à revista Limes Gianni De Michelis, na época Ministro do Exterior.
Diretor, por que o senhor mudou de ideia? “Eu nunca tive uma posição preconcebida contra a reunificação alemã, cuja base de princípio encontrava-se já nos Acordos de Helsinque, de 1975. Simplesmente aquilo que até pouco tempo antes teria sido uma aventura assustadora tornara-se uma estrada praticável. Algumas passagens derivam de fatores que inicialmente pareciam secundários, mas que depois, colocados juntos, acabam por condicionar fortemente a situação”.
Mas o que poderia acontecer se o gesto mais simbólico do fim do bipolarismo, ou seja, a queda do Muro tivesse acontecido alguns anos antes? “Não sou um profeta, mas abrir uma discussão sobre a unificação nas condições que havia antes da perestrojka teria criado um enorme problema para a União Soviética. Esta teria sido levada a suscitar as mais impensadas reações, mesmo em outros países, com medo que se pudesse levantar não só o problema da reunificação, mas todo o problema alemão do pós-guerra. Inclusive o das fronteiras ao Leste. A perestrojka deu aos vários países controlados uma espécie de “passe livre”, consentido-lhes organizarem-se segundo a própria identidade. E como a Alemanha Oriental nunca teve uma identidade própria, era normal que se fizesse a reunificação”. E quais foram os fatores que tinham mudado a situação à qual o senhor referia? “Houve vários. Um determinante foi a introdução por parte de Reagan e Bush do tema do respeito dos direitos humanos nas negociações para a redução dos armamentos. Além disso, tinham saído da insensata campanha militar do Afeganistão, que criara dentro da Rússia um motivo para duvidar do sistema”.
O senhor declarou várias vezes que apoiava uma política de pequenos passos, mas os eventos assumiram uma aceleração inusual: “A verdade é que a história não se programa. Claro, se tivesse sido possível desenhar uma transição gradual de todas as mudanças políticas no Leste, ter-se-ia evitado contragolpes muito duros: do desmantelamento imprevisto das Repúblicas Iugoslavas federalizadas às manobras que fizeram cair Gorbatchov, destruindo seu projeto de autonomias diferenciadas dentro da União Soviética. Mas a mudança tinha sido esperada por muito tempo, e no momento em que estava se realizando os eventos ficaram descontrolados. Por outro lado, era verdade o que Gorbatchov disse em 7 de outubro ao presidente Honecker, que estava celebrando o quadragésimo aniversário da RDA: “Quem reage atrasado é punido por toda a vida”. Os dirigentes da Alemanha Oriental estavam convencidos de que o seu hóspede de honra estivesse errando tudo, iludindo-se em renovar o sistema comunista. Segundo eles, o Muro ter-lhes-ia salvaguardado ao menos um outro século da contaminação burguesa. Claro, as coisas vistas depois são bem mais claras, mas na época havia intuições lícitas tanto em uma direção quanto em outra”.
![A multidão ao redor de um pedaço do Muro de Berlim, dois dias depois da histórica abertura ocorrida dia
9 de novembro de 1989 [© Associated Press/LaPresse]](/upload/articoli_immagini_interne/1259681709065.jpg)
A multidão ao redor de um pedaço do Muro de Berlim, dois dias depois da histórica abertura ocorrida dia 9 de novembro de 1989 [© Associated Press/LaPresse]
Entre os momentos-chave há, para os estudiosos e para os que a viveram, a noite de 18 de novembro de 1989 em Paris, nove dias depois de desmantelamento do Muro. Os líderes dos doze países da Comunidade Europeia encontraram-se, a convite de Mitterrand, para discutir sobre a situação. Devia ser uma encontro de fachada e ao invés, transformou-se em um momento histórico. Na reunião depois do jantar, Kohl encontra-se em dificuldade: Margaret Thatcher é duramente contrária à reunificação, Mitterrand fala apenas como “uma eventualidade histórica”; também a Espanha alinha-se a esta posição. E o senhor, ao invés, quase de surpresa, ajuda Kohl a sair do impasse afirmando que “a Europa promove e espera a reunificação da Alemanha”. A cúpula conclui-se com um explícito apoio a Kohl, que dez dias depois apresenta ao Parlamento de Bonn um projeto de dez pontos para a reunificação e as coisas continuam a ir adiante. Aquela noite foi realmente um momento de virada? “Não sei se pode existir um único momento de virada. Era em geral um período no qual eda única, o euro, e a Alemanha deverá renunciar ao marco, uma moeda muito forte com uma grande influência até mesmo além dos países da Comunidade Europeia. Retoma Andreotti: “Mas Kohl já em 2 de novembro de 1989, no encontro bilateral franco-alemão, tinha dito a Mitterrand: ‘É preciso construir a Europa, para que a Alemanha não seja mais um problema’. O antídoto ao temor, que alguns podiam ter, de que pudesse estourar uma terceira guerra mundial, ou que economicamente a Europa fosse germanizada, foi ver com exatidão o problema alemão. Na verdade o primeiro núcleo europeu nascido em Bruxelas em 1948 era anti-alemão, mas o tempo tinha passado. Além disso, Kohl e Genscher tinham delineado com grande firmeza o processo de reunião, enquadrando-o em um acentuado compromisso em participar da CEE, em participar a uma atualizada Aliança Atlântica e em um reforço da Csce. Estes últimos dois elos permitiram-nos coligar o diálogo inter-alemão às relações entre Europa e Estados Unidos e de caminhar para o caminho certo”.
A CEE, em particular, sob a presidência italiana, conseguiu acompanhar o ritmo dos acontecimentos que corriam. Foram necessários sete anos para fazer com que Espanha e Portugal entrassem e poucos meses para absorver a Alemanha do Leste. Uma das primeiras iniciativas que foram tomadas foi a de fazer entrar para o Parlamento Europeu os representantes da Alemanha Oriental. Giulio Andreotti explica: “O fato de estar na presidência de turno da CEE dava ao nosso país um papel de interlocutor que de outro modo teria sido pretensioso assumir. E acredito que tenha sido muito bem utilizado. Tivemos que fazer algumas pressões nos procedimentos, visto que os tempos eram breves. Mas foi uma política de bom senso. Algumas vezes na política nacional e internacional erra-se justamente porque se perde de vista o fato de que o bom senso é aquilo que deveria guiar a ação. Ao invés, corre-se em busca de fórmulas e motivações complexas, mesmo doutas, perdendo de vista a linha central do caminho de desenvolvimento que se quer percorrer”.
Mas ao senhor não desagrada passar, na vulgata, mais por aquele que em 1984 disse amar tanto a Alemanha a ponto de querer duas, do que ser colocado entre os que mais ajudaram na unificação dos alemães sob o teto europeu? “Digamos que eu poderia ter evitado a frase, porque logo serviu a especulações. Em 1984 era preciso ser realistas, não se podia pensar em superar facilmente as dificuldades históricas, étnicas, culturais e econômicas que havia. Podia evitá-la também porque funcionou tão bem, mesmo literariamente, a ponto de se tornar o slogan de uma certa posição contrária à unificação e esse fato foi-me criticado várias vezes”.
![Mitterrand e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a mais obstinada adversária à unificação alemã [© Afp/Grazia Neri]](/upload/articoli_immagini_interne/1259681709221.jpg)
Mitterrand e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a mais obstinada adversária à unificação alemã [© Afp/Grazia Neri]
Relendo as suas declarações à imprensa na época, percebe-se a sua preocupação em não comprometer os processos de reforma que estavam ocorrendo no Leste. Por que toda aquela atenção? “Antes de tudo porque o nosso trunfo foi sempre a de não ser provocadores. Jamais demos a impressão de querer agredir, mesmo nos anos em que a cortina de ferro não deixava espaço para nenhum diálogo. Depois, porque eu tinha confiança na perestrojka. Pensava que fosse o único modo de os soviéticos superarem as enormes dificuldades, acentuadas também pelo fato que tinham escancarado as janelas. Os que, além da cortina, eram contrários à perestrojka não agiam à luz do sol, mas apostavam justamente nas rivalidades étnicas e na difícil situação econômica, na escassez de gêneros alimentares. Enquanto que eu sempre pensei que a Europa seria muito mais equilibrada se a Rússia também fosse uma potência econômica”.
Mas Gorbatchov percebia que podia encontrar na linha política europeia um ponto de apoio para reforçar a perestrojka? O que emerge é que os russos esperavam antes de tudo numa Alemanha unida, mas vagante entre a Europa e o Pacto de Varsóvia um gigante neutro com relações econômico-políticas privilegiadas com a URSS. Era este realmente o plano de Gorbatchov? “Entre as hipóteses mais fortes havia também o eixo Berlim-Moscou, e eu declarei publicamente que os eixos nunca trouxeram sorte a ninguém. Não sei se era uma ideia de Gorbatchov, ou se dentro de si mesmo prevalecesse o medo da novidade ou o desejo de ser seu autor ou co-autor. Era uma pessoa muito atenta, reflexiva, não era um impulsivo. Porém é preciso considerar, que estava condicionado por uma sua opinião pública que não via positivamente algumas suas mudanças; ao contrário, muitos consideravam que conceder alguma coisa à frente oposta fosse eversivo. Penso que Gorbatchov estivesse muito preocupado, mas tinha grandes convicções construtivas e creio que no seu coração não se tenha esmorecido jamais, mesmo quando a URSS se dissolveu com o golpe de Estado de 1991”.
Uma das imagens mais significativas do período logo depois da queda foi o encontro entre Gorbatchov e João Paulo II em Roma, no dia primeiro de dezembro de 1989: o presidente da URSS e o Papa polonês, aquele que, segundo uma certa linha interpretativa, tinha derrotado o comunismo. Uma pergunta que lhe foi colocada várias vezes: quanto influenciou Papa Wojtyla no terremoto político do outro lado da cortina naqueles anos? “É difícil dizer. Talvez seja exagerado afirmar que o Papa polonês tenha representado o início de todas as reviravoltas da Europa do Leste, mesmo se cronologicamente tenha sido assim. Na realidade João Paulo II mantinha sempre distintas as suas origens, às quais era muito ligado, da sua missão universal de Pontífice. Claro, com relação à preparação e à formação de outras grandes personalidades da Igreja naquele momento, a sua experiência passada colocava-o em uma posição privilegiada, que lhe permitia uma visão mais ampla do que a dos outros”.
O que o senhor recorda do encontro entre Gorbatchov e Wojtyla? Entre outras coisas naqueles dias o presidente da URSS disse-lhe que reunificação alemã era absurda... “Volto a dizer que às vezes nos esquecemos que todos os líderes estrangeiros devem levar em conta a própria opinião pública. Acompanhamos aquela viagem com muito interesse, mesmo porque, embora sem confundir sacro e profano, tínhamos uma atenção especial pela situação da Igreja que outros países não podiam ter. Tínhamos algumas preocupações pela virada em curso, mas nunca fizemos nada de hostil, mesmo admitindo que pudéssemos fazê-lo. Havia a esperança de que fosse reconhecido o fato de que quem, como nós, tinha caminhado rapidamente na direção certa, podia ver melhor as coisas”. No Vaticano estavam contentes, preocupados ou nervosos pela queda do Muro e pelos fatos subsequentes? “O Vaticano ou nunca fica nervoso ou nunca demonstra ficar nervoso. Olham as coisas sub specie aeternitatis, e com razão, vista a sua história milenar. Houve tomadas de posições e artigos do L’Osservatore Romano, mas não percebi preocupações particulares”.
Quanto foi decisivo o fato de que na Polônia havia, na época, um governo não comunista, com um chefe católico, mas que não tinha colocado em dúvida a sua fidelidade à URSS?
“No Ocidente havia uma certa simpatia pela Polônia, justamente porque não tinha tomado dianteiras; certamente foi um dos elementos que impediu algumas posições hostis e negativas. Um dos problemas mais delicados a ser enfrentado foi o dos limites de fronteira ao Leste da Alemanha unida, que interessava justamente a Polônia”. Justamente dali, cinquenta anos antes, tinha iniciado a Segunda Guerra Mundial... “É verdade, mas dia 9 de novembro, quando caiu o Muro de Berlim, Kohl e Genscher estavam justamente em Varsóvia, e a primeira coisa que fizeram foi garantir aos poloneses que a fronteira Oder-Neisse nunca mais seria colocada em discussão”.
Outra protagonista foi Margaret Thatcher. A primeira-ministra inglesa, ao contrário de Mitterrand, que de cético passou também a um fautor da integração da nova Alemanha unida, nunca mudou de ideia e foi a mais obstinada adversária da unificação. Nunca se arrependeu, e isso custou-lhe o fim da carreira política depois do Tratado de Maastricht... “Parte porque era assim o seu temperamento, e parte porque também a sua visão das coisas e as suas preocupações eram legítimas. Considerando posteriormente é evidente que o caminho percorrido estava certo, mas no momento podia-se também pensar que o contrário não estivesse errado. Nós nos convencemos da linha da unificação porque nos pareceu a mais concreta, nos envolvia naquele momento, mas não é que não víamos as dificuldades e os riscos”. A antipatia da Thatcher pelo senhor nasceu neste período? “Não sei, talvez tenha nascido do fato de que estava acostumada a uma série de elogios que chegavam até à veneração por parte de muitos políticos, mesmo italianos, e uma certa frieza romana podia se interpretada como hostilidade. Mas eu não tinha nada contra ela”.

João Paulo II recebe em audiência Mikhail Gorbatchov em 1º de dezembro de 1989. Foi a primeira vez que o presidente do Soviet Supremo da URSS passava sob o portão de bronze do Vaticano
Os Estados Unidos pressionavam para que houvesse uma aceleração do processo de unificação, ou não? Ao senhor parecia que queriam concluir logo e com uma vitória esmagadora a época do bipolarismo com a URSS? “Não era este o comportamento deles. Tínhamos a sensação de que os Estados Unidos pensassem que fosse o caminho certo, porém soube por parte de alguns influentes círculos de estudos políticos americanos que havia uma notável desconfiança sobre a questão em geral, também pelas consequências que teria no plano global. Para eles também havia complicações psicológicas e práticas. Portanto a mensagem que chegava era clara e partilhada por nós: é uma escadaria que deve ser subida degrau após degrau sem saltos”.
Um elemento importante que liga a Europa e os Estados Unidos era e é a Aliança Atlântica. O senhor, naquele período, repetiu várias vezes que para proceder bem era preciso redesenhar rapidamente uma nova Otan: “Mudavam as tarefas que tinha até então. Fui ministro da Defesa por sete anos e nunca vi um projeto que não partisse da ideia de se defender de um ataque do Leste”. Para o senhor a Otan era um elemento positivo para absorver a Alemanha do Leste, mas em outubro de 1990 revelou a existência da Gladio, uma estrutura militar da Aliança Atlântica, quase como se quisesse dizer que a Otan era obsoleta. Por que? “Havia um certo contraste entre a visão cultural, digamos assim, e uma visão prático-política do problema. Nenhuma das duas posições era bizarra, mas naquele momento nos encontrávamos em uma situação intermediária que bem “intermediária” não era, pois havia também um desequilíbrio entre as duas posições. De qualquer modo, o que eu menos teria imaginado era ser polemicamente definido, anos depois, um “paleoatlântico” por parte de alguns círculos que foram por muito tempo hostis de modo irredutível e combatível à Aliança, aprovada pelo Parlamento italiano não sem contrastes”.
O ano de 1990 foi também o ano em que Saddam Hussein invadiu o Kuwait, dando início à crise do Golfo. Um ano particularmente problemático? “Se tivesse que procurar um período em que as coisas foram muito simples, teria dificuldade em encontrá-lo. Sempre tivemos uma série de dificuldades, e foi intenso o contraste entre as coisas que se consideram úteis e necessárias, e as que se podem realizar. Porém quando em algum momento histórico a consciência deste contraste deixou de existir, ou foram tomadas dianteiras inúteis, ou senão diminuímos o passo quando ao invés se podia caminhar”.
![A bandeira alemã hasteada diante do palácio de Reichstag em Berlim durante a cerimônia para celebrar a unificação da Alemanha, na noite de 3 de outubro de 1990 [© Associated Press/LaPresse]](/upload/articoli_immagini_interne/1259681709300.jpg)
A bandeira alemã hasteada diante do palácio de Reichstag em Berlim durante a cerimônia para celebrar a unificação da Alemanha, na noite de 3 de outubro de 1990 [© Associated Press/LaPresse]
Dia 9 de novembro é um aniversário múltiplo: é o dia em que caiu o Muro de Berlim, em 1989, mas é também o dia em que, em 1938, os nazistas iniciaram os pogrons antijudaicos, com a Noite dos Cristais. Em 1999 foi o então chanceler alemão Gerhard Schröder a dizer que para os alemães dia 9 de novembro é “o dia da renovação mas também o dia em que começou o abismo”. Uma brincadeira da história? “A coincidência existe, mas devemos nos acostumar a olhar mais adiante do que para trás. Às vezes fazer comparações com o passado dificulta a convivência no presente e o desenvolvimento positivo da política internacional e da europeia em particular”.
Dedicando uma reportagem sobre o sentimento de desilusão e de insatisfação que acompanha os alemães já há alguns anos, Der Spiegel recentemente perguntou-se: “Mas de que parte caiu o Muro?”. Hoje, segundo uma pesquisa, 49% dos alemães do Leste pensa que a RDA tinha mais coisas boas do que más e sente-se um cidadão de série B. “Claro, quando o Muro caiu a Alemanha devia ser construída e é normal que tenha sido feito algum erro e que alguma previsão tenha sido errada. Mas continuo cético diante das pesquisas e creio que, considerando tudo, todos possam verificar que o caminho tomado foi aquele certo”.
Também a construção política da Europa parece que atualmente se encontra em um momento de espera e o euroceticismo torna-se cada vez mais consistente. Do que depende? “Provavelmente o otimismo dos mais convictos ia bem além do que se podia realisticamente realizar até aqui. Se fizermos referência àquele otimismo podemos também ficar desiludidos, ou descontentes. Com relação aos que olhavam a realidade com maior objetividade pode-se ver que algumas coisas importantes foram realizadas, que o caminho era e é o certo”.
Então quais são as condições para poder fazer mais um trecho do caminho? “Não tenho receitas particulares, o essencial é, por um lado, não habituar-se ao status quo, por outro, não fazer programas muito ousados assim como irrealizáveis. Ainda hoje estamos em uma fase de passagem. E toda passagem pode-se fazer tanto com um passo cadenciado como de corrida, depende da situação. O que realmente conta é dar às intuições uma base lógica, que permita o seu desenvolvimento concretamente”. É um acaso que a partir primeiro do grupo histórico (Adenauer, De Gasperi, Schuman) até os anos Setenta e Oitenta (o senhor e Khol), a integração europeia tenha sido acelerada por políticos democratas cristãos e católicos? “Tenho convicção da positividade destas inspirações religiosas, mas é preciso evitar de confundir os auspícios e os desejos com as realidades praticamente realizáveis. Porque nesta Europa tão alargada trata-se de construir realidades e estruturas de complexidade enorme, que ainda mais do que no passado devem levar em conta ideias, expectativas de culturas e pertenças muito diferentes entre si. Enfim, um certo pragmatismo hoje é indispensável”.