Home > Arquivo > 01 - 2004 > O filósofo francês e o natal de Jesus
SARTRE
Extraído do número 01 - 2004

O filósofo francês e o natal de Jesus


Natal de 1940: o escritor francês, prisioneiro num campo alemão, compõe um auto para ser representado num barracão. É a peça de teatro Bariona, ou le Fils du tonnerre. Nela se vê um Sartre inédito que por um instante parece comover-se pela afeição admirada de Maria, o olhar de José e a esperança dos Magos e dos pastores diante do Deus menino. “Eles uniram as mãos e devem pensar: começou alguma coisa. E estão enganados...”


de Massimo Borghesi


Giovanni Bellini, Nossa Senhora com o menino (detalhe), Verona, Museu de Castelvecchio

Giovanni Bellini, Nossa Senhora com o menino (detalhe), Verona, Museu de Castelvecchio

1. O ateísmo de Sartre: uma filosofia sem paternidade?
“Onde está ‘o verdadeiro Sartre’?”, perguntava-se Charles Moeller num esplêndido ensaio dedicado ao autor1. “Na experiência existencial da náusea, diante da excrescência cega, obscena, da natureza? Ou essa náusea é apenas uma conseqüência? Há, originariamente, uma opção, uma escolha em favor de certo tipo de experiência humana em detrimento dos outros? Por outras palavras, é a náusea o fato primordial, ou é a opção do pensador ateu que o obriga a não ver senão uma parte da vida, sempre a mesma?”2. Para responder à questão, Moeller tenta decifrar o “paradoxo” do homem Sartre, reencontrar o nível de experiência que está por trás de seu pensamento. Esse nível é percebido a partir de uma lacuna, a da paternidade, que influencia toda a visão de mundo do filósofo. Afinal, ele mesmo escreveu, lembrando sua infância: “Naquele tempo éramos todos mais ou menos órfãos de pai: os Senhores pais haviam morrido ou estavam no front, e os que ficavam, diminuídos, desvigorados, procuravam ser esquecidos pelos próprios filhos; era o reinado das mães”3. Para Moeller, “parece que uma experiência essencial sempre faltou a Sartre, a da paternidade. [...] [faltou-lhe o] laço íntimo que liga o sentido de Deus ao sentido da paternidade”4. Tendo ficado órfão na infância, Sartre assiste à entrada de um padrasto em sua casa, o novo marido da mãe. É uma situação análoga à de Baudelaire, autor estudado por Sartre, no qual podia encontrar uma circunstância semelhante à sua. “Ele viveu talvez o mesmo drama, porém resolveu-o de outro modo, pela orgulhosa negativa da paternidade, pela violenta afirmação de uma autonomia absoluta, que em breve transformará no eixo da sua filosofia”5. É uma hipótese difícil de verificar, segundo o crítico, mas da qual é impossível esquivar-se. “Não escapo, contudo, à impressão de que o sentimento de ‘ser demais’, que parece tão profundo na obra (lembremos a cena da raiz, em La nausée), encontra uma das suas origens no fato de Sartre ter ficado órfão de pai e viver como um estranho diante do padrasto”6. A recusa da condição filial tornou-se recusa do mundo, percebido como estranho. Na qualidade de “estrangeiro” (A. Camus), o homem se encontra numa existência absurda: ele é “demais”, é uma criatura que ninguém deseja, transeunte desolado e anônimo numa metrópole imersa em neblina. Jean-Paul Sartre, segundo Moeller, “quis negar ser ‘criança, filho’”7. Em consonância com o homem moderno, que quer “ser ‘sem pai nem mãe’”8, sua filosofia abole qualquer idéia de dependência. A liberdade, como autonomia absoluta, criadora, é a negação da alteridade, da natureza, de Deus. Liberdade é negação de qualquer raiz, laço, relação. Sartre tem gosto pelo “nada”: o “para si”, a consciência, é o vazio que dissolve a feia “coisalidade” do mundo. No meio, entre o “nada” do eu e a realidade reificada, já não há pessoas, rostos, afetos. A filosofia da liberdade como negatividade exclui, até L’être et le néant (O ser e o nada), qualquer experiência de positividade. Mundo revirado pela má-fé, o universo sartriano parece ambíguo, sórdido, inquietante. A luz da graça não rasga a noite. Como observou Gabriel Marcel, Sartre tem o mais lógico sistema de recusa de qualquer graça que já se tenha apresentado. Não há lugar para Deus, o estranho por excelência, o inimigo da liberdade e da autonomia. O existencialismo sartriano é rigorosamente ateu.
Tudo isso é verdade. Moeller percebeu muito bem a dinâmica que leva Sartre a negar qualquer alteridade, a excluir tanto Deus quanto o mundo. E também percebeu como o ateísmo deve necessariamente radicalizar-se em antiteísmo, em opção contra Deus. Mesmo assim, sua análise deixa pontos em aberto que merecem uma reflexão apropriada. Entre eles, em primeiro lugar, a idéia de que o anticristianismo de Sartre esteja relacionado a sua condição de órfão, ao ressentimento edipiano pelo padrasto. O ¨roblema, na realidade, é mais complexo. Moeller não tinha como resolvê-lo, uma vez que seu ensaio, de 1957, não podia usufruir da preciosa confissão autobiográfica de Les mots (As palavras), publicada pela Gallimard em 1964. A recusa sartriana de Deus, a sua orgulhosa autonomia, continuavam a ser para Moeller um “nó secreto” difícil de desatar, pois “Sartre, ao contrário de Gide, nunca se põe em cena em sua obra”9. É justamente isso que acontece em Les mots, onde o filósofo traça um quadro de sua infância, de seus desejos, de sua posição religiosa. Esta última, longe de ser determinada pela ausência do pai, é muito mais dominada pela figura do avô, Charles Schweitzer, protestante e veemente anticatólico. “Na esfera privada, por fidelidade às nossas províncias perdidas, à pesada alegria dos antipapais, seus irmãos, não perdia uma oportunidade para pôr o catolicismo na berlinda: seus discursos à mesa eram parecidos com os de Lutero. Sobre Lourdes, era inesgýtável: para ele, Bernadete vira ‘uma mulherzinha que trocava de roupa’ [...]. Contava a vida de São Labre, coberto de piolhos, de Santa Margarida Maria Alacoque, que limpava com a língua as fezes dos doentes. Essas invenções me foram úteis [...]. Eu corria o risco de ser uma presa para a santidade. Meu avô tirou-me esse gosto para sempre: vista através dos olhos dele, aquela loucura cruel me revirou o estômago com seus êxtases insípidos, me aterrorizou com seu desprezo sádico pelo corpo”10.
Giotto, A Natividade (detalhe), Pádua, Capela dos Scrovegni

Giotto, A Natividade (detalhe), Pádua, Capela dos Scrovegni

Sartre, dividido entre o avô protestante e a mãe católica, fechada com “um Deus seu”, vive uma tensão profunda. “Em resumo, aquilo me prostrava: fui conduzido à incredulidade não pelo conflito com os dogmas, mas pela indiferença dos meus avós. Apesar disso, eu tinha fé: com a roupa de dormir, ajoelhado à beira da cama, de mãos juntas, dizia as orações todos os dias, mas pensava em Deus com uma freqüência cada vez menor”11. Relembrando aquele tempo, Sartre confessa que está contando “a história de uma vocação que falhou: eu precisava de Deus, ele me foi dado, mas o recebi sem entender que o buscava. Não podendo lançar raízes no meu coração, ele vegetou em mim, depois morreu. Hoje, quando me falam dEle, digo [...]: há cinqüenta anos, sem aquele mal-entendido, sem aquele erro, sem aquele incidente que nos separou, seria possível que houvesse alguma coisa entre nós”12.
O lugar que Deus deixou vazio foi ocupado pela literatura, pela arte de escrever. “Esse pastor que não deu certo, fiel à vontade de seu pai, havia conservado o Divino para depositá-lo na cultura. [...] Descobri essa religião feroz e a fiz minha para dourar a minha vocação desbotada [...]. Tornei-me cátaro, confundi a literatura com a oração, ofereci-lhe um sacrifício humano”13. Sartre se sente predestinado, eleito, “analista dos infernos”. “Veio daí o lúcido ofuscamento de que padeci por trinta anos. Uma manhã, em 1917, em La Rochelle, esperava colegas que iriam comigo para o colégio; estavam atrasados, e em pouco tempo eu não soube mais o que inventar para me distrair: decidi pensar no Onipotente. Ele imediatamente rolou para o céu e desapareceu sem dar explicações: não existe, eu disse a mim mesmo, com surpreendentes bons modos, e acreditei que o problema estivesse resolvido. E de certa forma estava, dado que nunca, depois disso, tive a mínima tentação de reabri-lo. Mas o Outro continuava, o Invisível, o Espírito Santo, aquele garantia o meu mandato e dominava a minha vida por intermédio de grandes forças anônimas e sagradas. Desse, foi ainda mais difícil me libertar, já que se instalara na parte posterior da minha cabeça. [...] Escrever, por muito tempo, foi pedir à Morte, à Religião, de forma mascarada, que arrancasse a minha vida do acaso”14. Essa , no momento em que Sartre escreve Les mots, já se perdeu. “A ilusão retrospectiva está reduzida a migalhas; martírio, salvação, imortalidade, tudo se deteriora, o edifício cai em ruínas, agarrei o Espírito Santo na adega e me livrei dele; o ateísmo é uma empreitada cruel e de grande fôlego”15. Consciente de que “a cultura não salva nada nem ninguém, não justifica”16, pois “nos livra de uma neurose, não nos cura dela mesma”17, Sartre não pode, no entanto, deixar de reconhecer como “consumidas, apagadas, humilhadas, jogadas num canto, passadas ao silêncio, todas as feições do garoto ficaram no cinqüentenário”18. Os personagens literários amados durante a adolescência continuam a viver na memória. “Griselda não está morta. Pardillan ainda me habita. E Strogoff. Só dependo deles, e eles só dependem de Deus, e eu não creio em Deus. Andem, vão se reencontrar. De minha parte, eu não me reencontro e às vezes me pergunto se não é um jogo em que vence quem faz menos pontos, e não me esforço por pisotear minhas antigas esperanças só para que tudo me seja centuplicado. Nesse caso, eu seria Filoctetes: magnífico e fedorento, esse enfermo doou tudo, até seu arco, sem impor condições. Mas, no fundo, no fundo, podem ter a certeza de que ele espera sua recompensa”19.

2. O natal de Jesus como “primeira manhã do mundo”
Não foi porque, órfão, recusou a figura do padrasto, que Sartre se tornou ateu. As idiossincrasias anticatólicas de Charles Schweitzer tiveram um peso decididamente maior na dissipação da fé juvenil do neto. A prova disso é uma obra, escrita em 1940, em que a tese de Moeller, segundo a qual Sartre “quis negar ser ‘filho’”, não se confirma. É a peça teatral Bariona, ou le Fils du tonnerre (Barjonas, ou o filho do trovão)20, que Sartre compôs durante sua permanência num campo de prisioneiros alemão. Moeller acena a ela de passagem: “Num campo de prisioneiros compôs ‘um auto de Natal’ para ser representado num barracão”21. Nem podia ser diferente, pois a primeira publicação da obra, em 500 exemplares não comercializados, data de 1962. Nela aparece um Sartre inédito, distante do niilismo de A náusea, aberto à esperança despertada pelo novum do nascimento. Um Sartre que reconhece a positividade do ser e sabe descrever, com rara delicadeza, a afeição admirada de Maria e o pudor protetor de José diante do “Deus menino”.
Gentile de Fabriano, A adoração dos Magos (detalhe), Florença, Galeria dos Ofícios

Gentile de Fabriano, A adoração dos Magos (detalhe), Florença, Galeria dos Ofícios

Em junho de 1940, com a derrota do exército francês, Sartre é feito prisioneiro pelos alemães. Em agosto, é transferido para o campo de concentração de Trier, na Alemanha, onde ficará até abril de 1941. Fora as privações e os abusos de autoridade, não foi um período negativo para Sartre. A experiência de solidariedade entre prisioneiros vai tirá-lo de sua solidão, do ressentimento de Roquentin, do desprezo pelo mundo. É a premissa da passagem para o marxismo, no qual acreditará, em seguida, ter encontrado a possibilidade de um “grupo em fusão”, de uma vida autêntica, solidária na luta. “No Stalag, encontrei uma forma de vida coletiva que nunca havia conhecido depois da École Normale, e quero dizer que ali, enfim, era feliz”22. Lá Sartre conhece alguns sacerdotes, entre os quais o abade Marius Perrin, do qual se torna amigo. “No fim das contas”, escreve Annie Cohen-Solal, “sente-se em fraternidade com os padres, apesar das intermináveis discussões sobre a fé”23. No campo, sublinha Merleau-Ponty, “esse anticristo entreteceu relações cordiais com um grande número de padres e jesuítas”24.
É nesse contexto que nasce a idéia de uma obra teatral, escrita por Sartre por ocasião do Natal de 1940. Os ensaios acontecem no hangar que padre Boisselot obteve do comandante do campo para celebrar a missa, realizar concertos e espetáculos teatrais. Em suas linhas essenciais, a obra encena a história de um chefe de povoado judeu, Barjonas, que, diante da ordem do procurador romano de que se aumentem os impostos, aceita pagar o novo valor, mas pede aos habitantes do lugar que não tenham mais filhos. Roma acabaria por só exercer seu poder sobre um deserto. Em seu imperativo suicida, Barjonas não sabe ainda que sua esposa, Sara, espera um filho. A descoberta, dramática, não o faz desistir da opção, à qual a consorte se opõe. É nesse quadro que Barjonas é informado pelos pastores do nascimento do Messias num estábulo de Belém; uma notícia que a seus olhos tem o sabor de uma grande ilusão, de um engano. O chefe judeu medita em seu coração se deve matar a criança, suprimindo essa esperança vazia. Chegando a Belém, lá encontra Sara e, junto ao estábulo, uma multidão ajoelhada, comovida e feliz. Surpreso, desiste de seu propósito e, recebendo a notícia de que Herodes quer matar Jesus, reúne os seus, distribui as armas e, consciente de que caminha para a morte, vai de encontro aos guardas do rei. Sartre ficou muito contente com seu trabalho. Escrevendo a Simone de Beauvoir, diria: “Parece que fiz um mistério de Natal muito comovente, tanto que um dos atores, quando representava, chegava a chorar”25. Trinta anos mais tarde, porém, dará uma interpretação negativa da obra, sublinhando as finalidades políticas da peça: “Fiz Barjonas, que era muito ruim, mas continha uma idéia teatral [...]. Os alemães não entenderam a alusão ao engajamento. Viam ali simplesmente um espetáculo de Natal”26. E ainda: “Se tomei o tema da mitologia do cristianismo, não é porque a direção do meu pensamento tenha mudado, talvez momentaneamente, durante a prisão. Tratava-se de encontrar, em acordo com os padres prisioneiros, um tema que pudesse realizar na noite de Natal a mais ampla unidade entre cristãos e não cristãos”27.
Tudo isso tem a sua verdade. Não se explicaria de outra forma o final da obra, claramente político, com um sentido anti-alemão. Todavia, é verdade também, como observa Cohen-Solal, que se trata, para Sartre, de uma “experiência mais importante do que poderia parecer”28. Não é por acaso que, nesse mesmo intervalo de tempo, Sartre se apaixona pelas obras de Claudel e Bernanos: “As duas grandes descobertas que fiz no campo foram O sapato de cetim e o Diário de um pároco de aldeia. São os livros que de fato me impressionaram mais profundamente”29. Barjonas, na realidade, é bem mais que um panfleto político incitando à luta, ainda que esse aspecto esteja claramente presente. Nele, Sartre se aproximou de uma percepção do mistério do nascimento e da maternidade, além do próprio mistério cristão, como nunca fizera nem faria novamente em sua obra. Nesse sentido, Barjonas constitui realmente, como escreve Antonio Delogu na introdução da edição italiana, “uma verdadeira exceção”30 dentro do pensamento sartriano. Barjonas é, antes de mais nada, a saída da visão de mundo expressa em A náusea e nos contos de O muro, visão que está também no centro de O ser e o nada. As palavras que Barjonas diz a Sara para convencê-la a eliminar o filho que carrega em seu ventre exprimem o niilismo existencialista do primeiro Sartre: “Mulher, essa criança que queres deixar nascer é como uma nova edição do mundo. Por meio dela, as nuvens, a água, o sol, as casas, a pena dos homens existirão mais uma vez. Tu recriarás o mundo. Será formada uma espécie de crosta espessa e negra em torno de uma pequena consciência escandalizada que continuará lá, prisioneira, no meio da crosta, como uma lágrima. Entendes que enorme incongruência, que monstruoso erro de tato seria trazer ao mundo arruinado novos exemplares? Fazer um filho é aprovar a criação do mundo do fundo do próprio coração, é dizer ao Deus que nos atormenta: ‘Senhor, tudo é bom e vos dou graças por terdes feito o universo’. Queres realmente cantar esse hino? [...] A existência é uma lepra horrenda que nos corrói a todos, e nossos pais foram culpados”31.
Não gerar é expiar a culpa dos pais, a culpa de Deus. É recusar uma criação impura, malsucedida. Barjonas exprime todo o ressentimento da revolta gnóstica, “cátara”, de um niilismo que odeia o ser. A negação do filho é a negação de um novo início. O que existe merece perecer: a morte é o julgamento do mundo. Diante da pergunta de Sara: “E se, apesar disso, fosse a vontade de Deus que nós gerássemos?”32, Barjonas pede um sinal, a manifestação de Deus. Pede um sinal, mas na realidade não quer acreditar: “Não pedirei a graça e não farei ação de graças. [...] Ainda que o Eterno me mostrasse seu rosto entre as nuvens, eu recusaria ouvi-lo, pois sou livre, e contra um homem livre nem o próprio Deus pode fazer nada. Ele pode me reduzir a pó ou me inflamar como uma tocha [...], mas nada pode contra este pilar de bronze, contra esta coluna inflexível: a liberdade do homem”33.
Barjonas é Sartre, o Sartre prometeico da liberdade absoluta, da negação da alteridade como forma suprema de autonomia. O Sartre que veta a si mesmo qualquer possibilidade de esperança, entendida como fuga, como deserção da inexorável dureza do existir. Barjonas não pode esperar o Messias. “Este mundo é uma queda interminável, vós bem sabeis. O Messias seria alguém que pararia esta ruína, que deteria de repente a ruína das coisas [...], e nós nasceríamos velhos para rejuvenescer em seguida até a infância”34. Isso não é possível: “A dignidade do homem está no seu desespero”35. Até aqui, nada de novo. É o Sartre mais conhecido, o Sartre “existencialista”. Na obra aparece, porém, a figura do rei mago Baltasar, personificada em cena pelo próprio Sartre, improvisando-se como ator. Baltasar representa o momento novo que intervém na visão sartriana, o momento da esperança: “É verdade, somos muito velhos e muito sábios e conhecemos todo o mal da terra. Por isso, quando vimos aquela estrela no céu, nossos corações se alegraram como o das crianças, e nos tornamos crianças e nos pusemos a caminho, pois queríamos cumprir com nosso dever de homens que esperam. Quem perde a esperança, Barjonas, será expulso de seu vilarejo [...]. Mas, a quem espera, tudo sorri, e o mundo é dado como um presente”36.
A esperança de Baltasar é a esperança de Sara. Ela também quer ir a Belém: “Lá embaixo há uma mulher feliz e satisfeita, uma mãe que deu à luz por todas as mães. É como se me desse uma permissão: a permissão de pôr no mundo o meu filho. Quero vê-la, vê-la, essa mãe feliz e sagrada”37.
O propósito da esposa não faz Barjonas voltar atrás. Sabendo, por uma espécie de vidente, o destino de morte na cruz que esperava o Messias, amadurece em Barjonas o propósito de matar a criança pelo bem de seu povo, para “conservar neles a chama pura da revolta”38ý Tendo chegado a Belém, diante do estábulo, Barjonas encontra Maria de costas, não vê Jesus nos braços da mãe, vê apenas José. “Mas vejo o homem. É verdade: como ele olha para o menino! Com que olhar! O que pode haver por trás daqueles dois olhos claros, claros como duas profundezas límpidas nesse rosto doce e marcado? Que esperança será essa? [...] Para encontrar a coragem de apagar essa vida recém-nascida com minhas mãos, eu não poderia tê-la reconhecido primeiro no fundo dos olhos de seu pai. Vamos embora, fui vencido”39. O olhar de José pousado sobre Jesus detém a mão homicida de Barjonas, que não pode evitar ter inveja da felicidade maravilhada da multidão que veio adorar o menino. Uma felicidade ilusória, de seu ponto de vista, mas evidente: “Eles uniram as mãos e devem pensar: começou alguma coisa. E estão enganados, dá para ver, caíram numa armadilha e mais tarde pagarão caro por isso. Mas, apesar de tudo, terão tido este minuto; têm a sorte de poder crer num início. O que é mais comovente para um coração de homem do que o início de um mundo e a juventude de traços ambíguos, o início de um amor, quando tudo é ainda possível, quando o sol está presente no ar e nos rostos [...]. E eu estou na grande noite terrena, na noite tropical do ódio e da desgraça. Mas - força enganadora da fé - para meus homens, milhares de anos depois da criação, eleva-se nesta sala, ao claror de uma candeia, a primeira manhã do mundo”40.
Barjonas não participa dessa esperança. “Vejam só: eles cantam e eu estou sozinho na soleira da sua alegria [...]. Eles me abandonaram, e minha mulher está entre eles. E todos se alegram, até esqueceram que eu existo. Eu estou numa estrada, do lado do mundo que acaba, e eles estão do lado do mundo que começa. Sinto-me mais sozinho no limiar da alegria e da oração deles do que no meu vilarejo deserto”41. Só agora, incapaz de participar da alegria de todos, Barjonas está realmente sozinho. Uma solidão que só é aparentemente superada no sétimo ato, o último da peça, em que Barjonas, enfim, muda de opinião e reúne seus homens para salvar Jesus dos mercenários de Herodes. É a parte mais “política” e, talvez, a menos bem-sucedida, que justifica o juízo dado pelo abade Perrin ainda no calor da hora, no dia seguinte da apresentação: “Neste Barjonas não há nada do mistério de Natal clássico: não se vê a Virgem nem o Menino, a não ser de relance [...]. Os homens de Barjonas vão em frente, talvez para morrer, mas morrerão para que não seja assassinada a esperança dos homens livres”42.
O juízo é pertinente, mas não de todo exaustivo. Na realidade, Sartre nunca esteve mais perto de intuir o mistério cristão, esse novo início que torna possível a esperança. O início ligado ao nascimento de um menino. Como afirma Barjonas: “Um Deus-Homem, um Deus feito da nossa carne humilde, um Deus que aceitaria conhecer este gosto de sal que existe no fundo das nossas bocas quando o mundo inteiro nos abandona, um Deus que aceitaria antecipadamente sofrer o que eu sofro hoje [...]. Vamos embora, é uma loucura”43. Essa loucura se transforma numa “admiração ansiosa” no olhar terno e trepidante de Maria. “Ela olha para ele e pensa: ‘Este Deus é meu filho. Esta carne divina é a minha carne. É feita de mim, tem os meus olhos. E essa forma da sua boca é a forma da minha. Parece comigo. É Deus e se parece comigo’. E nenhuma mulher recebeu o seu Deus do destino, para ela sozinha. Um Deus menino, que se pode pegar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quente que sorri e respira, um Deus que está vivo e se pode tocar”44.
Sartre nunca mais escreveria assim, nem de Deus nem do homem. A obra do Natal de 1940 continuará a ser, desse ponto de vista, uma “exceção”, como se a atmosfera peculiar do campo de prisioneiros o tivesse tornado mais próximo do mistério da existência. Mas isso bastou para nos conceder uma das mais belas representações do Natal na literatura do século XX.


Notas

1 C. Moeller. Létterature du XXe siècle et christianisme, II: La foi en Jésus-Christ. Paris-Tournai, Éditions Casterman, 1957. Esta e as demais citações de Charles Moeller remetem ao capítulo sobre Sartre na edição em língua portuguesa: C. Moeller. “Jean-Paul Sartre ou a negativa do sobrenatural”. In: Literatura do século XX e cristianismo, II: A fé em Jesus Cristo. Tradução de Augusto Sousa. São Paulo, Flamboyant, 1958, p. 44.
2 Op. cit., p. 44.
3 J. P. Sartre. Les mots. Paris, 1964. As citações remetem à edição em língua italiana: Le parole. Milão, 1968, p. 214.
4 C. Moeller. Op. cit., p. 45.
5 Op. cit., p. 46.
6 Op. cit., p. 46.
7 Op. cit., p. 95.
8 Op. cit., p. 91.
9 Op. cit., p. 46.
10 J. P. Sartre. Le parole. Op. cit., p. 95.
11 Op. cit., p. 96.
12 Op. cit., p. 97-98.
13 Op. cit., p. 169 e 170.
14 Op. cit., p. 236-237.
15 Op. cit., p. 238.
16 Op. cit., p. 239.
17 Op. cit., p. 239.
18 Op. cit., p. 239.
19 Op. cit., p. 240.
20 J. P. Sartre. Bariona, ou le Fils du tonnerre. Paris, 1970. As citações remetem à edição em língua italiana: Barjonas o il figlio del tuono. Racconto di Natale per cristiani e non credenti. Milão, Christian Marinotti, 2003.
21 C. Moeller. Op. cit., p. 44.
22 J. P. Sartre. Oeuvres romanesques. Paris, 1981, p. LXI.
23 A. Cohen-Solal. Sartre. Nova York, 1985. A citação remete à edição em língua italiana: Sartre. Milão, 1986, p. 188.
24 M. Merleau-Ponty. Sens et non sens= Paris, 1948. A citação remete à edição em língua italiana: Senso e non senso. Milão, 1967, p. 61.
25 J. P. Sartre. Lettres au Castor et à quelches autres. Paris, 1983.
26 Cit. in: S. De Beauvoir. La Cérémonie des adieux. Paris, 1981, p. 238.
27 M. Contant, M. Rybalka. Les Ecrits de Sartre - Chronologie, Bibliographie commentée. Paris, 1970, p. 564.
28 A. Cohen-Solal. Op. cit., p. 191.
29 Entrevista de Sartre com Claire Vervin para o artigo “Lectures de prisonniers”. In: Les lettres françaises, 2 de dezembro de 1944, p. 3.
30 A. Delogu. “Un mistero di Natale molto commovente”. Introdução a: J. P. Sartre. Bariona o il figlio del tuono. Op. cit., p. VII.
31 J. P. Sartre. Barjonas o il figlio del tuono. Op. cit., p. 36.
32 Op. cit., p. 38.
33 Op. cit., p. 61.
34 Op. cit., p. 64.
35 Op. cit., p. 68.
36 Op. cit., pp. 70-71.
37 Op. cit., p. 72.
38 Op. cit., p. 89.
39 Op. cit., p. 97.
40 Op. cit., p. 101.
41 Op. cit., p. 102.
42 M. Perrin. Avec Sartre au Stalag XII D. Paris, 1980, p. 78.
43 J. P. Sartre. Barjonas o il figlio del tuono. Op. cit., p. 78.
44 Op. cit., p. 91.




Italiano Español English Français Deutsch