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HISTÓRIA
Extraído do número 09 - 2004

O incêndio de Roma e a primeira perseguição de Nero

“Não poupou nem Roma nem o povo”


O incêndio de julho de 64, provocado por Nero, e a conseqüente perseguição aos cristãos


de Marta Sordi


Robert Hubert (1733-1808), <I>O incêndio de Roma</I>, Museu André Malraux, Le Havre, França

Robert Hubert (1733-1808), O incêndio de Roma, Museu André Malraux, Le Havre, França

Com exceção de Tácito (Annales XV, 38), que, ao lado da versão do incêndio provocado dolosamente por Nero (dolo principis), reconhece também a versão daqueles que atribuíam ao acaso (forte) o próprio incêndio, todas as fontes antigas o atribuem com certeza a Nero, desde o contemporâneo Plínio, o Velho, que está provavelmente na base da tradição que se seguiu (Naturalis historia XVII, 1, 5), até Sêneca, autor de Octavia, Suetônio (Nero, 38) e Dion (LXII, 16, 18). Desencadeado em 19 de julho de 64, o incêndio durou, segundo Suetônio, seis dias e sete noites, mas recomeçou logo - partindo das propriedades de Tigelino e alimentando, assim, as suspeitas contra o imperador - e continuou por mais três dias, como se vê por uma inscrição (CIL VI, 1, 829, que informa a duração de nove dias).
Os modernos já tendem a negar a responsabilidade direta de Nero no incêndio. Todas as fontes, porém, concordam em dizer que foram vistas pessoas que atiçavam o fogo depois que o incêndio havia começado. Para os culpabilistas, essas pessoas agiam iussu principis, “por ordem do imperador”; para os inocentistas, segundo os quais o incêndio foi desencadeado por negligência, por autocombustão, pelo calor do verão ou pelo vento, essas pessoas agiam “para poder fazer seus saques mais livremente”. Para Suetônio e para Dion, porém, essas pessoas eram cubicularii (criados) do imperador ou até soldados, e sua presença podia autorizar as piores suspeitas. Do confronto entre Tácito e Suetônio, por outro lado, vê-se que medidas de precaução e intervenções de socorro foram interpretadas como provas da culpa de Nero: em particular, a derrubada de edifícios pelos soldados, por meio do fogo, na região próxima do que seria depois a Domus aurea, e a proibição aos legítimos proprietários de se aproximarem de suas casas para salvar o que fosse possível e recuperar os mortos. Tudo isso alimentou muitas suspeitas, para o que contribuiu também a atribuição de um motivo preciso ao imperador: não tanto aquele que é aceito como seguro por Suetônio e por Dion, mas não por Tácito, de desejar ver Roma perecer sob seu reino, como Príamo vira perecer Tróia (desejo coroado pelo famoso canto), mas também e sobretudo o desprezo pela velha Roma, com suas ruas estreitas e seus velhos edifícios, e a vontade de aventurar-se numa grande empreitada urbanística, tornando-se o novo fundador de Roma.
Tácito é o único, entre nossas fontes, que diz que Nero, para calar aqueles que o acusavam do incêndio, inventou a falsa acusação contra os cristãos (Annales XV, 44): a notícia chegou até ele, certamente, da fonte culpabilista (para a fonte inocentista, não havia culpados pelo incêndio, que rompera por acaso), portanto, muito provavelmente, de Plínio. Para Plínio, como para Tácito, os cristãos eram inocentes do incêndio de Roma, e o suplício infligido a eles despertava pena, ainda que os cristãos, inocentes do incêndio, certamente fossem culpados, para a nossa fonte, de uma exitiabilis superstitio (culto funesto). O testemunho de Tácito, claramente hostil aos cristãos por sua superstitio, mas convicto de sua i­nocência no incêndio, mostra como é infundada a hipótese daqueles que, entre os modernos, acusaram os cristãos de terem incendiado Roma por sua fé na iminente parusia (retorno de Cristo à terra).
A distinção entre a falsa acusação de incendiários, que atingiu somente os cristãos de Roma, segundo Tácito, e a de superstitio illicita (culto ilícito), a única conhecida de Suetônio (Nero, 16, 2), que atingiu os cristãos de todo o Império, não é, como muitas vezes se crê, o resultado de duas versões do mesmo fato contado por fontes diversas, mas o efeito de duas decisões diferentes, das quais a segunda é certamente anterior à primeira. A Primeira Carta de Pedro (4,15), que, a meu ver, pode ser datada entre 62 e 64, prevê a possibilidade de que os cristãos possam ser incriminados pelo fato de serem cristãos não apenas em Roma, mas em todo o Império, e pressupõe uma hostilidade largamente difundida (cf. 1Pd 4,12), que se adapta bem às acusações de flagitia (crimes infamantes), que, segundo Tácito, tornavam os cristãos malvistos ao vulgus (as pessoas comuns). Mas, se a atmosfera da Primeira Carta de Pedro é a pressuposta por Tácito, a incriminação por cristianismo é certamente aquela que Suetônio conhece, e não pode se referir a um edito imperial (como a incriminação pelo incêndio de Roma), mas somente a uma consulta ao senado, ao qual cabia, na era júlio-claudiana, decidir sobre as questões religiosas. O institutum (instituição) de que fala Suetônio, o institutum Neronianum de que fala Tertuliano (Ad nationes I, 7, 14) não é um edito nem uma consulta ao senado, mas um precedente de fato: é a aplicação que Nero, primeiro entre os imperadores, dedicator damnationis nostrae (autor da nossa condenação; Tertuliano, Apologeticum V, 3), deu, logo depois de 62, à consulta ao senado com a qual fora refutada em 35 a proposta de Tibério de reconhecer a legalidade do culto de Cristo e que havia feito do cristianismo uma superstitio illicita em todo o Império. O veto de Tibério havia detido sua aplicação, e a situação permaneceu igual até 62, quando o assassinato de Tiago Menor, na Judéia, decidido pelo sumo-sacerdote Anã, foi tornado possível apenas pela momentânea ausência do governador romano. Mas, em 62, verificou-se uma reviravolta decisiva, não apenas nas relações entre o Império e os cristãos, mas em toda a política de Nero: esse é o momento da retirada de Sêneca da vida política, da morte de Burro, substituído na Prefeitura do pretório por Tigelino, do repúdio de Otávia e das núpcias com a judaizante Popéia, da ruptura com os estóicos da classe dirigente e do abandono definitivo da linha júlio-claudiana do principado para uma dominação de tipo horizontalizante e teocrático. Cristãos e estóicos foram atingidos nos mesmos anos e juntos criminalizados diante da opinião pública: aerumnosi Solones (atormentados de Sólon) eram, segundo Pérsio (Satirae III, 79), os estóicos na opinião das pessoas ignorantes; saevi Solones (impiedosos de Sólon) eram definidos os cristãos numa inscrição de Pompéia: segundo a Primeira Carta de Pedro (4,4), eles são caluniados “porque não se entregam à mesma torrente de perdição”. O clima no qual essas acusações foram formuladas é o mesmo: contra os estóicos da classe dirigente, foi usada a arma política da lex maiestatis (lei para a defesa do Estado); contra os cristãos, bastou exumar a velha consulta ao senado de 35.
A primeira vítima da decisão de Nero de incriminar os cristãos com base na velha consulta ao senado foi, a meu ver, Paulo, que era bem conhecido nos ambientes da corte: essa incriminação é testemunhada pela Segunda Carta a Timóteo, escrita no outono de um ano que poderia ser 63 (cf. 2Tm 4,21). Paulo está de novo na prisão, em Roma, mas desta vez espera por uma condenação, embora não certamente pelo incêndio (por se tratar de um cárcere “civil”, Paulo pode pedir livros e um manto). A prisão e a condenação de Pedro viriam a acontecer, por sua vez, junto à dos outros cristãos de Roma, depois do incêndio de 64: seu martírio, ocorrido por crucificação nos horti neroniani (os jardins de Nero), não pode ser separado, como revela o confronto entre a descrição de Clemente Romano (1Cor 5) e a de Tácito (Annales XV, 44), do da multitudo ingens (enorme multidão) - poly plethos que Nero ofereceu como espetáculo, junto a um circense ludicrum (espetáculo circense), ao povo de Roma, pondo à disposição hortos suos (seus jardins): a historiadora Guarducci pensou nas festas de 13 de outubro de 64, alguns meses depois do incêndio, quando com a persistência das suspeitas contra o imperador pôde aconselhar a este último que buscasse bodes expiatórios.


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