“...Eu nunca tinha ouvido coisas tão belas”
Em 5 de setembro de 1978, durante um encontro com João Paulo I, morria repentinamente o metropolita da Igreja Ortodoxa russa, Nikodim. O intérprete do Papa para a língua russa era o padre Miguel Arranz. Nesta entrevista, o jesuíta relembra aquele dia trágico
Entrevista com Miguel Arranz de Stefania Falasca

João Paulo I com Nikodim e o cardeal Willebrands, em 5 de setembro de 1978
Na galeria pessoal das oportunidades perdidas, dos presságios, do que podia ter sido e não foi, Arranz inclui também as palavras que Nikodim disse a João Paulo I, e que ele mesmo traduziu para o Papa, naquela manhã dramática de 5 de setembro de 1978. O próprio Luciani fez menção publicamente àquela conversa. “Há dois dias”, disse o Papa, “morreu em meus braços o metropolita Nikodim de Petersburgo. Eu estava respondendo ao seu discurso. Asseguro-vos de que em toda a minha vida nunca tinha ouvido palavras tão belas dirigidas à Igreja como as que ele pronunciou. Não posso repeti-las; continua a ser um segredo”. Um segredo que o intérprete Arranz conhece. Voltamos a mergulhar com ele, pela primeira vez, na história daqueles dias e daquela manhã trágica.
Padre Arranz, o senhor chegou a encontrar o metropolita Nikodim em Roma logo após a morte de Paulo VI?
MIGUEL ARRANZ: Sim. Nikodim veio a Roma para os funerais de Paulo VI. Depois de uma cerimônia fúnebre celebrada na Basílica de São Pedro, da qual participaram muitos representantes da hierarquia da Igreja Católica, eu disse a ele que o superior-geral dos jesuítas, padre Arrupe, convidava-o para passar aquelas semanas na Vila Cavalletti, em Frascati, onde Nikodim seria seu hóspede pessoal. Assim, Nikodim ficou na Vila Cavalletti durante todo o mês de agosto, até a eleição do novo pontífice.
Isto significa que o metropolita estava presente quando Luciani foi eleito...
ARRANZ: Não. Naquele momento ele não estava presente. Veio a Roma no dia seguinte, 27 de agosto, e eu o acompanhei ao primeiro discurso dominical do novo Papa, antes do Angelus.
O que o senhor lembra daquela circunstância?
ARRANZ: Lembro-me de um pequeno episódio. Estávamos indo para a praça de São Pedro, pela Via da Conciliação, na mesma hora em que passavam os carros dos conclavistas que haviam ficado no Vaticano naquela noite, e, num determinado momento, um desses carros parou bem na nossa frente. Era o carro do cardeal Willebrands, então presidente do Secretariado para a União dos Cristãos. Willebrands desceu do carro e, dirigindo-se ao metropolita Nikodim, começou a exclamar: “Foi o Espírito Santo! O Espírito Santo!...”. Imagine... um homem racional, frio como o gelo como o cardeal Willebrands, saindo do carro gritando daquela maneira! Nikodim nem se mexeu... Mas me olhou com um ar interrogativo, como se dissesse: “Ora, vejam só!...”. Continuamos e chegamos à praça de São Pedro, onde conseguimos avançar até quase debaixo do balcão. Quando o papa Luciani apareceu na janela, comecei a traduzir a Nikodim o que ele ia dizendo.

Nikodim com padre Miguel Arranz em Leningrado, em 1971
ARRANZ: Quando o papa Luciani começou a dizer: “Ontem de manhã fui votar... jamais passou pela minha cabeça...”, vi Nikodim surpreso, muito surpreso com aquela linguagem decididamente incomum para um papa. Eu tinha até alguma dificuldade para traduzir, para passar aquelas expressões para o russo, e Nikodim, atentíssimo, não parava de me fazer repetir, perguntando: “Como é que é?”, e de novo, e de novo, a cada frase: “Como é que é?”.
Ele quis passar os dois dias seguintes em Turim, para venerar o Santo Sudário. Quando voltou, pediu-me que o acompanhasse num encontro com Casaroli.
Por que ele queria encontrá-lo?
ARRANZ: Para pedir uma audiência com o novo Pontífice. Naquela época, Dom Agostino Casaroli era presidente da Comissão para a Rússia.
Mas a audiência das delegações orientais já estava prevista para 5 de setembro...
ARRANZ: Sim. Mas, de acordo com o protocolo, aquelas eram as visitas de homenagem e boas-vindas que toda delegação devia fazer ao novo Pontífice depois da sua entronização. Não estavam previstas para aquele momento conversas particulares com as delegações. Só que o metropolita Nikodim queria falar de forma reservada com o Papa. Ele estava pedindo uma audiência fora do protocolo, aproveitando o encontro com as delegações. E insistiu muito com Casaroli para que tivesse essa possibilidade.
Ele apresentou motivos para isso?
ARRANZ: Ele contou a Casaroli por que o seu pedido era tão urgente.
E o seu pedido foi logo respondido?
ARRANZ: No dia seguinte à entronização, ou seja, 4 de setembro, uma segunda-feira, Nikodim recebeu a confirmação de que poderia falar com o Papa.
Quer dizer que Nikodim se transferiu para o Colégio Russicum em 4 de setembro, e passou lá também a noite, já que na manhã seguinte iria se encontrar com o Papa...
ARRANZ: Exatamente. Eu me lembro de que naquela tarde ele foi encontrar o cardeal Slipyi. Depois, retirou-se cedo para o seu quarto, pois sabia que o dia seguinte seria intenso e importante.
O senhor voltou a vê-lo no dia da audiência...
ARRANZ: A saída do Russicum para irmos à audiência papal estava marcada para as 8h20. Mas, quando cheguei ao Colégio naquela manhã, encontrei Nikodim transtornado. Ele me disse que não tinha dormido nada. O calor dentro de casa estava terrível... ele se tinha sentido sufocado. Seu secretário, o arquimandrita Lev, havia checado sua pressão às sete. Como tinha problemas de coração, Nikodim começou a se medicar logo cedo. Ainda por cima, haviam roubado durante a noite o carro posto à sua disposição para ir ao Vaticano. Isso o deixou ainda mais agitado. Procurei tranqüilizá-lo um pouco. Quando saíamos do Russicum, ele me disse: “Padre Miguel, quando um dia começa muito mal acaba bem...”. De fato... às 11 ele já não estava entre nós.
Portanto, vocês foram do Russicum direto para o Vaticano...
ARRANZ: Não imediatamente. Do Russicum, fomos para a Casa do Clero, onde estava agendada uma reunião das delegações eclesiásticas que iriam à audiência papal. Nikodim desceu do carro com dificuldade. Quando o padre jesuíta John Long lhe perguntou se ele precisava de ajuda, pediu apenas para que não andasse muito rápido. Mas ali aconteceu também uma outra coisa que gerou confusão e preocupação. Às nove, o padre Long comunicou às delegações os números de seus automóveis, de acordo com a ordem com que deviam prosseguir para o Vaticano. Nikodim, o arquimandrita Lev e eu fomos juntos para o carro que nos foi destinado. Chovia demais. Houve um certo tumulto e o resultado foi que nós três acabamos em automóveis diferentes. Nikodim foi parar no que transportava a delegação búlgara. Imagine a preocupação dele: será que daria tempo de nos reencontrar? Ainda mais sabendo que tinha aquele privilégio de encontrar o Papa antes de todo o mundo...
“Há dois dias”, disse o Papa, “morreu em meus braços
o metropolita Nikodim de Petersburgo. Eu estava respondendo ao seu discurso. Asseguro-vos de que em toda a minha vida nunca tinha ouvido palavras tão belas dirigidas à Igreja como as que ele pronunciou. Não posso repeti-las; continua a ser um segredo”
E vocês conseguiram se reencontrar depois?
ARRANZ: Sim, por sorte. Chegamos antes do horário da audiência e, por isso, nos levaram para uma sala de espera. Eu me lembro de que disse a ele algo a propósito da sala em que estávamos e dos quadros que havia nas paredes, mas evidentemente naquele momento a sua cabeça estava ocupada com outros pensamentos. Enfim, entrou o arcebispo Martin, prefeito da Casa Pontifícia, para nos acompanhar até a Sala da Biblioteca, onde seria a audiência. Antes de entrar, Nikodim me entregou o frasco de comprimidos e me disse: “Mantenha-o aberto. Pode ser necessário”.
Quem estava presente ao encontro?
ARRANZ: O cardeal Willebrands e eu.
Conte-nos como foi...
ARRANZ: João Paulo I, ao entrar, foi logo ao encontro do metropolita, sorrindo. Cumprimentou-o com muita cordialidade. Nikodim transmitiu ao chefe da Igreja Católica Romana as saudações do patriarca de Moscou, Pimen, do Sínodo e de toda a Igreja Ortodoxa russa, desejando ao novo Papa muitos anos de pontificado. Expressou-lhe a grande esperança de que as relações fraternais entre as duas Igrejas, tão bem iniciadas no tempo do pontificado de João XXIII e continuadas com Paulo VI, pudessem prosseguir rumo a uma compreensão recíproca cada vez mais profunda, em favor da obra comum das duas Igrejas pela paz. O Papa agradeceu-lhe os cumprimentos e os votos e pediu ao metropolita que transmitisse de sua parte ao patriarca Pimen os votos de um trabalho frutuoso pelo bem da Igreja Ortodoxa russa. Disse-lhe que sempre havia acompanhado com grande interesse a sua atividade ecumênica e expressou também o desejo de que aquela obra pudesse continuar. Depois dessas palavras, eles se sentaram para uma conversa reservada.
A conversa reservada foi breve?
ARRANZ: Durou cerca de quinze minutos.
O que disse o metropolita Nikodim ao papa Luciani?
ARRANZ: Isso eu não posso dizer, é segredo. Mas suas palavras vinham de um sentimento de total confiança. Como alguém que se dirige a um pai.

João Paulo I
ARRANZ: Sim. Eu me lembro também de que ele falava em voz baixa com o papa Luciani; em certos momentos, aliás, baixava ainda mais o tom, como para se proteger de ouvidos indiscretos. Não queria que ninguém ouvisse.
E o que aconteceu depois?
ARRANZ: Terminada a conversa, o arquimandrita Lev foi convidado a entrar. Nikodim o apresentou ao Papa. Disse ao Santo Padre que Lev estudava em Roma, na Gregoriana, e que falava italiano. O Papa, então, ficando de pé, começou com o arquimandrita uma conversa a respeito de seus estudos. Nikodim também ficou de pé a seu lado. Num determinado momento, quando a conversa com Lev já tinha terminado, Nikodim, sem dizer nada, se sentou, e, ao sentar-se, inclinou-se para a frente, de uma maneira cheia de compostura, elegante, como se fizesse uma reverência, uma grande reverência... tanto que, na hora, eu me admirei; sabendo como ele respeitava sempre o protocolo, pensei que aquele fosse mais um gesto de homenagem... Mas ele desfaleceu aos pés do Papa. Tentamos levantá-lo. Até o Papa se curvou para ele, procurando segurá-lo. Naquele momento conturbado, o papa Luciani não se deu conta imediatamente do que estava acontecendo. Eu disse ao Papa que Nikodim sofria do coração, enquanto o arquimandrita Lev, que tinha corrido para fora para pegar a mala de remédios, tentou aplicar uma injeção para reanimá-lo, sem resultado. Os olhos de Nikodim tinham ficado um pouco abertos. Murmurei então ao Santo Padre: “Dê-lhe a absolvição...”. O Papa se ajoelhou e, em latim, deu-lhe a absolvição. O médico que entrou pouco depois não pôde fazer nada, a não ser constatar a morte de Nikodim.
E Luciani, o que disse, o que fez depois daquele momento dramático?
ARRANZ: Ele estava desconcertado... “Meu Deus, meu Deus, até isso tinha de acontecer comigo”, repetia, e, na hora, ficou realmente perdido, tanto que, quando o médico chegou, enquanto Nikodim permanecia estendido no chão, o Papa recolheu um por um todos os comprimidos que, na confusão, eu havia derrubado. E os pôs na palma da minha mão... Eu disse a ele: “Santidade, agora eles já não têm utilidade...”.
O senhor reviu o Papa mais tarde?
ARRANZ: O Papa deixou a biblioteca para receber as outras delegações que esperavam em fila. Mas, depois que o corpo de Nikodim foi transferido para uma outra aula, fui novamente chamado a servir de intérprete para a saudação da delegação búlgara. Assim, estive mais uma vez ao lado do papa Luciani. O bispo búlgaro deveria ter apresentado de imediato os seus cumprimentos, mas o idoso prelado ortodoxo e o Papa não conseguiram dizer nada um ao outro. Comecei então a ler o texto do discurso que eu estava encarregado de traduzir para o italiano. E continuei a ler. Enquanto isso, eles choravam, em silêncio. Os dois. Sem dizer uma palavra um ao outro.
O corpo do metropolita foi trasladado naquela mesma manhã para a igreja paroquial vaticana de Sant’Ana, posta temporariamente à disposição da Igreja Ortodoxa russa...
ARRANZ: Sim. Eu me lembro de que havia uma grande multidão que fazia pressão para entrar. Nikodim era muito popular entre os romanos.
“Lembro-me de um pequeno episódio. Estávamos indo para a praça de São Pedro, pela Via da Conciliação, na mesma hora em que passavam os carros dos conclavistas que haviam ficado no Vaticano naquela noite, e, num determinado momento, um desses carros parou bem na nossa frente. Era o carro do cardeal Willebrands, então presidente do Secretariado para a União dos Cristãos...
O senhor pôde encontrar novamente João
Paulo I nos dias seguintes?
ARRANZ: Sim, dois dias depois, em 7 de setembro, quando acompanhei à audiência papal a delegação russa enviada a Roma para conduzir à pátria o corpo do metropolita. A delegação russa foi recebida na mesma sala em que Nikodim havia morrido dois dias antes. Antes da audiência, troquei algumas palavras com dom Magee. Ele me disse que fazia duas noites que o Santo Padre não dormia, que havia ficado profundamente impressionado com aquela morte. Aos membros da delegação, o Papa contou os últimos minutos da vida de Nikodim, e mencionou também as palavras que ele disse. A certa altura, o metropolita Juvenalij, inclinando-se, encontrou sobre um tapete a tampa do frasco de comprimidos que deve ter caído das minhas mãos naqueles momentos... isso impressionou um pouco os presentes. O metropolita Juvenalij, depois da audiência, declarou à Rádio Vaticana: “Vimos agora da audiência com o papa João Paulo I. Expressamos nossos sinceros sentimentos ao novo Papa da Igreja romana católica... Em particular, expressamos a Sua Santidade a nossa gratidão por todo o amor que manifestou para com o metropolita Nikodim, seu amor pessoal e de toda a Igreja Católica”.
Logo depois da morte, porém, começaram a se difundir suspeitas. Alguns russos diziam que Nikodim não estava morto, mas tinha optado por desaparecer no Vaticano para ocultar ao mundo a sua conversão ao credo católico. Outros, mais tarde, lançaram a hipótese de que o metropolita tivesse bebido por engano um café envenenado destinado a João Paulo I... O senhor tomou conhecimento desses boatos?
ARRANZ: Muitos boatos rodaram por aí.
Ainda na opinião de outros, o bispo ortodoxo teria dito coisas que não devia dizer a esse novo Papa, e um prelado chegou a dizer que, da Vila Abamelek, residência da embaixada russa da qual se vêem as janelas do apartamento pontifício, os agentes da KGB teriam atirado em Nikodim à distância...
ARRANZ: Que Vila Abamelek que nada! Tudo isso é pura imaginação! A saúde de Nikodim estava seriamente comprometida, fazia algum tempo.
No entanto, sabe-se que Nikodim nunca quis se internar num hospital, e que só fez isso antes da visita a Roma, na Checoslováquia, e que depois dessa internação suas condições pioraram...
ARRANZ: Ele já havia tido cinco enfartes. O que lhe tirou a vida naquele dia já era o sexto.
Depois de tantos anos, que impressão o senhor guardou daquele encontro? Ele poderia realmente ter delineado o caminho rumo à plena comunhão?
ARRANZ: Nikodim não tinha vindo para dar conselhos ao Papa. Tinha um forte senso do lugar que cada um ocupa na Igreja. Nikodim falou da Igreja, no seu conjunto, com grande intensidade... uma visão nova, e papa Luciani não se fez de desentendido. Além do mais, seu gesto foi o de alguém que não tem medo e, ao mesmo tempo, um gesto de abertura e simplicidade... O fato de um papa reconhecer que um não-católico pudesse lhe ensinar alguma coisa e de afirmá-lo naquele momento, com aquela espontaneidade desarmante, até publicamente: “Eu vos asseguro que nunca na vida havia ouvido coisas tão belas...”.
Foi o que João Paulo I disse na audiência ao clero romano de 7 de setembro...
ARRANZ: Sim. E frisou ter ficado realmente impressionado: “Ortodoxo”, disse, “mas como amou a Igreja! E acredito que tenha sofrido muito pela Igreja, fazendo muitíssimo pela união”.
O que mais impressionou o senhor nessas palavras?
ARRANZ: Fiquei impressionado com o fato de ele ter repetido duas vezes a palavra ortodoxo... e com aquele tom ao repeti-lo... Foi um momento de graça que passou. Que a Igreja perdeu.