Fiel intérprete da vontade do papa
Era o que queria ser Pietro Gasparri, destacado canonista que guiou a Secretaria de Estado nos pontificados de Bento XV e Pio XI. Desde a tragédia da Primeira Grande Guerra até solução da duradoura Questão Romana
de dom Giuseppe Sciacca, Ouvidor do Tribunal da Rota Romana
Poucos anos antes de
falecer, o cardeal Pietro Gasparri proferiu uma conferência no
Congresso Jurídico Internacional celebrado em Roma em novembro de
1934. Verdadeiro canto do cisne, falava da gênese da
codificação do direito canônico e do papel que tivera
nesse processo: um discurso admirável, duplamente eloqüente,
revelador. Qualquer um “que fosse ouvi-lo, mesmo sem nunca ter tido
notícia dele”, chegou a escrever Filippo Crispolti, no eficaz
perfil de Gasparri que inseriria em seu livro Corone
e porpore, de 1937, bem recebido pela
crítica, “poderia não apenas obter total esclarecimento
sobre o tema desenvolvido, mas adquirir também uma idéia do
homem que o desenvolvia. Mesmo em páginas estritamente
histórico-jurídicas, o cardeal deixou marcas de sua
índole particular, da qual fazia parte o horror a qualquer
convencionalismo. Quando disse que, apesar dos grandes méritos de
Leão XIII, sob este pontífice a grande empreitada [da
elaboração do Código de Direito Canônico; nde.] não poderia ter
sido conduzida, viu-se claramente que não permitia que sua franca
opinião fosse detida por entraves usuais como o fato de ser cardeal
ou o pouco tempo decorrido desde a morte de um Papa como o que tinha sido
Leão XIII. Quando contou que, ao sugerir a Pio X que entregasse ao
próprio Gasparri a difícil tarefa de direção, o
eminentíssimo Gennari, insigne canonista, acrescentou que dessa
forma o grande trabalho estaria em
ótimas mãos, viu-se claramente
que a modéstia, em suas formas estereotipadas e desacreditadas,
não era feita para ele”.

Mas há outra anotação de
Crispolti, célebre escritor e jornalista que conheceu pessoalmente o
cardeal, que merece ser mencionada, quase como introdução e
epígrafe ao breve perfil do cardeal que estamos começando a
delinear: “O fato de seu aplaudidíssimo discurso in articulo mortis ter-se
referido a Gasparri como codificador do direito canônico e não
como secretário de Estado de dois pontífices foi uma coisa
misteriosamente lógica. Nas eras vindouras, sua glória mais
certa e mais clara será essa”.
Era uma intuição muito aguda, que os anos futuros, com tudo o que de mais significativo viria a ser escrito sobre a figura de Gasparri, confirmariam plenamente.
***
Pietro Gasparri provinha de uma família patriarcal da cidade de Ussita, na região italiana das Marcas, que vivia em relativo bem-estar, dedicando-se à pecuária ovina: “Nasci em 5 de maio de 1852, em Capovallazza, um dos vilarejos que formam o município de Ussita, situado na província de Macerata, diocese de Núrsia, entre os montes Sibilinos, cerca de 750 metros acima do nível do mar. Ar saudável, visual campestre encantador, população sadia, trabalhadora, honesta; família numerosa, como são particularmente numerosas as famílias Gasparri”, escreve ele em suas Memórias, não escondendo um orgulhoso apego a sua terra e a suas origens.
Formou-se no Seminário Romano (Apolinário), onde teve como professores de Direito Canônico Filippo De Angelis e Francesco Santi, depois ouvidor do Tribunal da Rota Romana, dois dos melhores canonistas italianos daquele tempo.
Entrou no seminário em setembro de 1870, apresentado pelo administrador monsenhor Giovanni Moroni, funcionário de São Pedro, que passava as férias em Ussita. Antes havia estudado, por poucos anos, no Seminário de Népi, “lugar que lhe ficou muito querido”, como testemunha Giuseppe De Luca, que ouviu o cardeal e reuniu confidências e lembranças para uma biografia que, apesar dos pedidos insistentes de personalidades de relevo, acabou por não escrever. (Mas De Luca dedicaria a Gasparri dois artigos: “Nova antologia: memória de Pietro Gasparri” e “Conversando com o cardeal Gasparri (1930)”, publicados respectivamente em 1934 e 1936.)
“Gasparri chegou a Roma”, escreve Vittorio De Marco em seu interessante Contributo alla biografia del cardinal P. Gasparri, “apenas dois meses depois do arrombamento da Porta Pia, portanto num clima superaquecido. [...] A ofensa a Pio IX era extremamente recente. [...] Roma não era mais do Papa [...]. A ‘Questão Romana’, que se apresentara como grande problema assim que se constituiu o Reino da Itália, assumia agora uma dimensão completamente nova e mais grave, na medida em que a ‘revolução liberal’ revirava o próprio coração da catolicidade e despedaçava o primado temporal do sucessor de Pedro. O jovem Gasparri certamente não poderia imaginar que, sendo ‘cônsul’ um outro Pio, seria justamente ele, quase sessenta anos depois, quem encerraria definitiva e formalmente a Questão Romana”.
“Gasparri levaria consigo o problema da Questão Romana”, continua De Marco, “conscientemente ou não, por mais de cinqüenta anos, depois de presenciar pessoalmente seu nascimento. Sua postura intransigente nunca seria gratuita, motivada apenas pelo fato de que os eclesiásticos e os católicos deveriam ser assim: foi mediada por sua inteligência jurídica e por seu sentido, por assim dizer, de Realpolitik, provavelmente já implícito em seu caráter, mas que as responsabilidades diplomáticas que assumiria em seguida tornariam cada vez mais claro”.
A grande estima de que Gasparri gozou no Seminário Romano, onde teve como colegas, entre outros, os futuros cardeais Domenico Svampa, Gaetano De Lai, G. B. Callegari e Benedetto Lorenzelli, é comprovada pelo cargo de professor suplente de Teologia Sacramental – mesma cátedra que seria assumida, décadas depois, por Domenico Tardini, também futuro secretário de Estado – e de História Eclesiástica, que lhe foi conferido antes mesmo que completasse seus estudos. Ao obter o diploma in utroque iure, com notas máximas, em 11 de agosto de 1879, já seria sacerdote, tendo sido ordenado em 31 de março de 1877 na Basílica Lateranense pelo cardeal vigário Raffaele Monaco La Valletta.
Dali a alguns anos, Gasparri iniciaria seu ensino de Direito Canônico na faculdade de Teologia do Institut Catholique de Paris. Mas é preciso que recordemos aqui o período anterior, que passou ao lado do cardeal Teodulfo Mertel, último purpurado a sê-lo sem nunca ter recebido a ordenação sacerdotal. Filho de um panificador alemão que se transferiu para Allumiere, no Estado Pontifício, e que se casou com uma jovem da região, Mertel seria o primeiro ouvidor do Tribunal da Rota Romana, depois ministro do Estado Pontifício e, enfim, cardeal prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. O jovem Gasparri foi seu secretário e capelão logo depois da ordenação sacerdotal, o que certamente constituiu uma experiência importante em seu amadurecimento jurídico e político.
“Eu pensava em coisas completamente diferentes do Instituto Católico de Paris”, escreve Gasparri em suas Memórias, “quando, nos primeiros meses de verão de 1879, veio a Roma o cardeal Langeliux, arcebispo de Reims, um dos principais fundadores do Instituto. Ele me deu a entender que desejava falar comigo; fui encontrá-lo e me ofereceu a cátedra de Direito Canônico...”.
Gasparri teve de superar não poucas perplexidades, e não lhe agradava ter de deixar Roma. Além de tudo, “a lembrança da Comuna de Paris era bem fresca, eu não conhecia uma palavra em francês e nunca havia saído do meu pequeno círculo”.
Ficou em Paris até 1897, mas o ensino, ao qual se dedicou com um empenho extraordinário, como reconhecem unanimemente seus contemporâneos e biógrafos, e que lhe rendeu a grande fama de canonista aberto ao novo, não o absorveu completamente. No mesmo período, foi colaborador, ainda que não assíduo, da revista Le Canoniste Contemporaine; interessou-se, dessa vez constantemente, pela Obra de Assistência dos Emigrados Italianos, tornando-se seu diretor e assegurando para ela um serviço pastoral preciso, que lhe permitiu dar provas de um autêntico zelo sacerdotal; teve também um papel ativo nos círculos da Academia de São Raimundo de Penafort, sinal do quanto lhe interessava a promoção do conhecimento e do estudo do direito canônico; viu-se, enfim, engajado na famosa controvérsia teológico-canônica que surgiu em torno do valor das ordenações sagradas conferidas segundo o Ordinal anglicano, o que o levou a escrever e publicar um opúsculo, entre seus menos conhecidos, o De la valeur des ordinations anglicanes (Paris, 1895). Assim escreve Carlo Fantappié no Dizionario biografico degli Italiani, ad vocem: “Na linha do seu Tractatus canonicus de sacra ordinatione, de 1893, Gasparri afirma que Jesus Cristo instituiu o sacramento da ordem não apenas de maneira geral, mas também in specie, ao determinar-lhe tanto a matéria quanto a forma sacramental; verificando-se a conformidade dos ritos quoad substantiam, todos são, em princípio, suficientes para a ordenação; todavia, examinando na prática o Ordinal anglicano, Gasparri viu-o defeituoso no que diz respeito à intenção, e insuficiente com relação aos ritos”.
Na verdade, num primeiro momento, Gasparri parecia estar propenso a reconhecer a validade das ordenações anglicanas. Modificou sua orientação graças a descobertas historiográficas mais aprofundadas. Leão XIII, com a encíclica Ad Anglos, de 1895, pôs fim à questão, declarando a não-validade dessas ordenações.

Mas Gasparri se dedicou sobretudo à
publicação de tratados fundamentais de direito
canônico. Em 1891, publicou o De
matrimonio – elogiado por Leão XIII
numa carta de congratulações em latim –, “o mais
importante e mais bem-sucedido de seus livros”, escreve Paolo Grossi,
“pois teve quatro edições sucessivas e forneceu,
substancialmente, o plano de redação dessa matéria
para o futuro Codex iuris canonici; continuou com o De sacra
ordinatione e terminou com o De Sanctissima Eucharistia, em 1891. Em
todas essas obras, Gasparri oferece uma exposição o mais
completa e cuidadosa possível, especialmente no que diz
respeito à atualização das decisões e das
sentenças das congregações e dos tribunais da
Cúria, valendo-se de materiais que reunia durante suas temporadas de
férias em Roma. Mesmo tendo por base o texto de seus cursos, essas
obras ampliavam, reestruturavam e, sobretudo, introduziam uma nova e
diferente concepção do tratamento da matéria.
Abandonada a tradicional ordem das Decretali, que ele mesmo seguira até então em suas
apostilas, Gasparri passava a uma ordem lógica que, baseada no
modelo da teologia escolástica, lhe permitia a um só tempo
apresentar a complexa e variegada matéria jurídica de maneira
unitária e suficientemente orgânica, dentro do esquema
monográfico, e tentar a resolução dos diversos pontos
ainda controversos, mediante seu constante enquadramento em sua
articulação sistemática. Foi uma opção
metodológica que, tendo a predileção pelo
‘sistema’ e pela ‘técnica jurídica’
como seu ponto de consistência, apoiava-se numa rigorosa
concepção ideológica fortemente tridentina e
excluía qualquer contaminação histórica”.
***
O De Sanctissima Eucharistia ainda estava fresco da impressão, quando o cardeal Rampolla comunicou a Gasparri que Leão XIII o havia promovido, do ensino, à Igreja titular arquiepiscopal de Cesaréia da Palestina, nomeando-o delegado apostólico e enviado extraordinário às repúblicas sul-americanas do Peru, da Bolívia e do Equador. Em 6 de março de 1897, em Paris, foi ordenado bispo pelo cardeal Richard, seu admirador e amigo.
Gasparri era chamado a desenvolver uma missão que não era fácil, em razão da particulares condições políticas e religiosas em que foi obrigado a atuar.
Foi uma experiência breve, de apenas três anos, mas intensa, que lhe permitiu revelar notáveis, e inatas, capacidades diplomáticas – expressão da sua mente jurídica, ao lado do seu arraigado bom senso –, a ponto de fazê-lo merecer, de volta a Roma, a nomeação a secretário da Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, encarregada de cuidar das relações da Igreja com os Estados (abril de 1901).
A Secretaria de Estado era dirigida pelo cardeal Rampolla, e Giacomo della Chiesa era, naquele tempo, subsecretário para os Assuntos Gerais; entre seus colaboradores, Gasparri chamaria Eugenio Pacelli.
Na atuação de Gasparri, já apareciam as duas orientações fundamentais que inspirariam a ação do futuro secretário de Estado: a adesão à linha da neutralidade política, ou seja, a vontade e ao mesmo tempo o esforço de se apresentar aos governantes como “independente dos partidos políticos e inimigo da guerra civil em nome da religião”, por um lado; e, por outro, a decidida preferência pela política concordatária, como melhor instrumento para garantir a ação espiritual da Igreja e limitar as pretensões dos Estados.
A ascensão de Pio X ao trono pontifício (1903) não deixou de realizar uma mudança fisiológica de orientações – que a crise modernista realmente aguçou e em alguns momentos até dramatizou – e a conseqüente troca de cúpula na Secretaria de Estado, liderada até aquele momento, como lembramos, pelo cardeal Rampolla.
De fato, como escreve Fantappié, “a distância entre as duas posições, às vezes até conflitantes, a saber: entre a orientação de Gasparri, herdeiro da visão política leonina e rampolliana de abertura da Igreja às questões internacionais e sociais, e a orientação fortemente intransigente e de isolamento interno logo assumida por Pio X e por seu secretário de Estado, Merry del Val”, não poderia talvez ter levado a conseqüências diferentes.
É verdade que, além de tudo, Gasparri teve simpatias modernistas? Alguns pensavam assim, e mesmo no conclave que se seguiria à morte de Bento XV, do qual sairia eleito Pio XI, a suspeita dos cardeais De Lai e Merry del Val, provavelmente, deve ter pesado sobre Gasparri, contribuindo para que já de saída lhe fosse fechada qualquer possibilidade de eleição. É conhecida a relação de amizade que o ligou a Ernesto Buonaiuti, que Gasparri nunca desmentiu; para alguns, essa é a prova de que a suspeita sobre Gasparri não era afinal tão infundada. Seja como for, o que é certo é que Gasparri não compartilhou as idéias dos modernistas, tal como não compartilhou todos os métodos adotados para debelar o modernismo. Chegou a dizê-lo abertamente, mesmo sabendo que isso o levaria inevitavelmente a ser olhado com suspeita, como afirma Silvio Tramontin, em seu estudo La repressione del modernismo.
Se, portanto, a década compreendida entre 1904 e 1914 foi um período de relativo isolamento, acabou por ser ao mesmo tempo extremamente fecunda para Gasparri, inteiramente dedicada como foi à obra de redação do Código de Direito Canônico, que continua a ser, dentro de uma atividade vasta e complexa, cheia de méritos, o maior de todos eles.
Já durante o Concílio Vaticano I, trinta e três bispos formularam a Pio IX o pedido de que se realizasse a codificação. Na solicitação que lhe enviaram, escreviam: “Opus sane arduum; sed quo plus difficultatis habet, eo magis est anto Pontifice dignum”. Mas foi Pio X – que já como chanceler episcopal de Treviso havia demonstrado vivo interesse pelo direito canônico, como mais tarde como patriarca de Veneza – quem deu vida a uma empreitada que alguns consideravam irrealizável ou inoportuna. De fato, sabemos da existência de duas escolas canonistas que tinham pareceres opostos no que diz respeito à codificação: de um lado – para exemplificar as posições e oferecer apenas alguns nomes, entre os mais emblemáticos –, encontramos os jesuítas da Gregoriana (Wernz, Ojetti), que defendiam a manutenção da ordem das Decretali, e, de outro, a escola do Apolinário (Sebastianelli, depois decano do Tribunal da Rota Romana, Lombardi, Latini), que, defendendo a escola jurídica laica, afirmava a urgência de uma codificação moderna, que superasse o caráter fragmentário da legislação, com todos os problemas hermenêuticos a ele ligados. O Corpus iuris canonici, de fato, era constituído pelo conjunto das coletâneas oficiais (Decretum Gratiani, Liber Extra, Liber VI, Clementinae, Extravagantes Ioannis XXII, Extravagantes communes), pouco a pouco enriquecidas por outros discursos normativos de fonte pontifícia e conciliar, além dos decretos das Congregações romanas e da jurisprudência do Tribunal da Rota. Realmente, “immensum aliarum super alias coacervatarum legum cumulum”, escreveria Gasparri no prefácio do Código, repetindo Lívio, Obruimur legibus. Isso seria remediado por um código assentado sobre o modelo napoleônico, autêntico, porque promulgado pelo Supremo Legislador, único, sistemático, universal, abstrato.
Com o motu proprio Arduum sane munus foi constituída uma comissão cardinalícia “De Ecclesiae legibus in unum redigendis”, da qual Gasparri foi nomeado secretário. A ela foi acrescentado um grupo de consultores, presidido pelo mesmo Gasparri. Para acelerar o trabalho, Gasparri constituiu também duas comissões particulares para matérias distintas, cada uma das quais com dez membros: uma se reunia nas quintas-feiras de manhã, a outra nas manhãs de domingo. Eugenio Pacelli colaborava com Gasparri; quando este, em 1907, foi criado cardeal por Pio X, primeiramente dom Scapinelli e depois o próprio Pacelli o sucederam como secretários da comissão cardinalícia. Os consultores tinham a tarefa de examinar o texto dos cânones propostos pelas duas comissões particulares. E foi a partir de uma proposta de Gasparri que, em 1912, Pio X estabeleceu que todo o trabalho já aprovado pela comissão cardinalícia fosse enviado àqueles que normalmente eram convocados ao Concílio Ecumênico, para que expressassem seu juízo e suas observações.
Com a morte de Pio X, ascendeu ao trono pontifício Giacomo Della Chiesa, com o nome de Bento XV, velho amigo e colega de Gasparri, pertencente à mesma geração leonina, que o nomeou secretário de Estado depois da morte do cardeal Domenico Ferrata, no cargo por apenas um mês. Era 13 de outubro de 1914: completada a redação do último livro do Codex iuris canonici – e preparado por Gasparri o esboço da sua promulgação (prevista para 1º de janeiro de 1915, mas, por diversos motivos, inclusive a guerra, adiada, como se sabe, para 27 de maio de 1917, com a constituição apostólica Providentissima Mater Ecclesia) –, o opus sane arduum estava finalmente concluído.

De 1923 a 1932, Gasparri se dedicaria à
publicação das Fontes em seis tomos, depois completada pelo cardeal Giustiniano
Seredi, primaz da Hungria. A partir de então, a
direção da Secretaria de Estado o manteria empenhado por mais
de quinze anos, uma vez que o sucessor de Bento XV o confirmaria no cargo
em 6 de fevereiro de 1922. Escreveu-se que durante os anos da guerra
– mas poderíamos dizer o mesmo dos anos seguintes e de todo
aquele pontificado –, “Gasparri parecia fundamentalmente um
fiel executor das indicações de Bento XV, tanto as de
caráter humanitário quanto as mais especificamente
políticas” (Romeo Astorri). Por outro lado, Pio XI, plenamente
satisfeito com o trabalho de seu secretário de Estado, não
hesitaria em chamá-lo “o mais fiel intérprete e
realizador da sua vontade”. Já Giuseppe De Luca, antecipando
um juízo que seria expresso mais de uma vez, até pela
historiografia mais recente, escrevia na Memoria
di Pietro Gasparri: “Erradamente
atribuem-se a ele iniciativas que parecem bem pessoais de Pio X e de Pio XI:
dois papas que quiseram ver com os próprios olhos, e agir. E o
próprio Bento XV, na sua trágica situação de
pai cujos filhos, tendo pego em armas, não apenas não o
ouvem, mas o culpam de conivência, Bento XV imprimiu a seu
pontificado um caráter decididamente seu e pessoal. Seria um
exagero, portanto, querer dar [...] ao cardeal Gasparri méritos e
glórias que ele mesmo refutava com uma humildade que não era
afetada, mas consciência clara e elevada. Ele foi ministro, realmente e em todos os
sentidos primeiro ministro
desses pontífices: não quis ser nem foi nunca outra coisa.
Mas o foi como poucos, e por isso seu nome se elevará, creio eu, com
o tempo; não diminuirá”.
***
Como nota agudamente Pio Ciprotti, a mentalidade de jurista acompanhou Gasparri também nas atividades não diretamente jurídicas. Isso se deduz em primeiro lugar pelas Concordatas, em cuja compilação – mesmo que em algumas disposições tenha tido de fazer exceções ao direito canônico geral, para vir ao encontro das exigências dos Estados, ou para que essas eventuais exigências produzissem o menor dano possível às almas – Gasparri sempre formula afirmações de princípio, até mesmo sobre pontos com os quais, na prática, o Estado dificilmente concordaria.
Afirmações de princípio que, ao mesmo tempo em que enunciam pontos fundamentais da doutrina teológica, lembram igualmente verdades que brotam do direito natural. “Nem a enunciação [...] do princípio tem apenas uma importância doutrinal, de proposição filosófica e teológica; ela tem, pelo contrário, um relevante alcance jurídico, na medida em que de certa forma é a premissa às normas práticas, necessariamente ponto de partida, portanto, para sua interpretação, constituindo tais normas, como se disse, nada mais que exceções ao princípio enunciado” (Ciprotti). Gasparri foi, enfim, um jurista levado à concretude, mas jamais inclinado a ceder a um mero pragmatismo que prevalecesse sobre os princípios.
É conhecido o papel exercido por Gasparri nas complexas circunstâncias que antecederam e prepararam a solução definitiva da duradoura Questão Romana. Deixando de lado a reconstrução detalhada dessas circunstâncias, já feita muitas vezes e, poderíamos dizer – considerando a abundante literatura sobre o tema –, de um modo quase definitivo, não acreditamos nos afastar da verdade ao afirmar que o papel de Gasparri foi certamente decisivo. Se a historiografia insistiu nas circunstâncias políticas particulares que levaram ao Tratado de Latrão, pode-se sem dúvida afirmar que foi determinante para a realização da Conciliação o paciente e concreto trabalho de costura realizado pelo cardeal, e que o caráter orgânico da Concordata e a atenção dada à noção de soberania trazem a marca dessa mens iuridica que se valeu da colaboração de Francesco Pacelli, de Domenico Barone, do jesuíta Pietro Tacchi Venturi.
***
O cardeal Gasparri deixou a Secretaria de Estado em 11 de fevereiro de 1930. Houve quem – como Pietro Palazzini, depois cardeal, no verbete dedicado a Pietro Gasparri na Enciclopedia Cattolica – não hesitasse em falar de divergências pessoais com Pio XI. Foi sucedido por Eugenio Pacelli, seu antigo colaborador desde a redação comum, no verão de 1905, em Ussita, do “Livro Branco” sobre a situação da Igreja francesa, e alvo de grandíssimo apreço por parte de Gasparri.
Retirando-se para a vida privada, viveu seus últimos anos entre Roma e a cidade natal, Ussita, reexaminando e reescrevendo algumas de suas obras jurídicas e completando a redação de um texto de catecismo, um trabalho ao qual, desde 1924, dedicara parte de seu tempo livre. “Sempre se lamentou, naqueles últimos anos, de que a memória já não o ajudasse. Considerava esse o maior dano trazido por sua velhice. Afligia-se tanto, então, por ter quase perdido a memória, quanto, quando era jovem e mesmo poucos anos antes, se alegrara de ter uma memória tão meticulosa, tenaz e extremamente ampla” (De Luca). O homem que havia trabalhado “sem pressa mas sem descanso, num ritmo tão desenfreado, encoberto por sua tranqüilidade exterior, a ponto de cansar e até às vezes esgotar quem colaborava com ele” (De Luca), morreu com oitenta e dois anos em Roma, a 18 de novembro de 1934.

Por ocasião do 25º aniversário de
sua morte, numa solene sessão acadêmica realizada na
Universidade Lateranense, tendo por promotor o reitor da época, dom
Antonio Piolanti, o advogado Raffaele Jervolino, antigo dirigente da
Ação Católica, definiu Pietro Gasparri como
“homem das diversas vidas”.
Mas o signo que unifica o jurista, o diplomata e o servidor da Sé Apostólica deve ser buscado inteiramente no fato de Gasparri ter sido, integralmente, sempre e em qualquer circunstância, padre.
Desde os anos em que celebrava a missa para o cardeal diácono Mertel até os anos em que viveu em Paris, nos quais, de respeitado docente, se transformou em “pároco” para os imigrantes italianos, ele foi padre, e assim em todos os ofícios que pouco a pouco exerceu.
“Tendo vestido a túnica pela primeira vez aos oito anos”, nota De Marco, “não a abandonou mais, e sobretudo nunca mais deixou de lado aquele aspecto sóbrio e sereno do coroinha que se veria depois no sacerdote e no cardeal”.
“Foi um padre bom e simples”, escreve padre Giuseppe De Luca, “um brincalhão, que tinha medo até de uma inocente mentira; e foi ao mesmo tempo um dignitário eclesiástico tão elevado, que chegava a incutir em todos os outros uma sujeição invencível. Ninguém, mesmo compartilhando a mesa com ele, mesmo sendo seu alvo numa brincadeira familiar ou sendo de alguma forma provocado por ele, ninguém teria a coragem de assumir a menor intimidade. Obedecia sem se sentir humilhado, e justamente por isso comandava sem humilhar. Nunca uma ordem é mais bem obedecida do que quando o inferior se sente, no momento mesmo em que recebe a ordem, considerado e respeitado”.
Podemos perceber, na conclusão de seu testamento, datado de 4 de outubro de 1934, uma tocante vibração de seu espírito autenticamente sacerdotal, que ao mesmo tempo expressa a concretude que lhe era extremamente peculiar: “Recomendo a todos que sejam bons, lembrando-se de que a vida presente passa como um relâmpago, e que a eternidade nos espera”.
Ao apresentar, em 1932, seu catecismo católico para as crianças, não contendo a comoção fácil, mas não banal, que havia aprendido com sua mãe, escrevia: “Minha querida criança, estou preparando você para a primeira Comunhão. [...] Sou velho, minha querida criança, e muitas coisas e acontecimentos importantes passaram pela minha cabeça e pelo meu coração: no entanto, ainda me lembro com comoção e uma ternura que não consigo descrever o dia da minha primeira Comunhão [...] e peço a você que lembre a Jesus, quando Ele pousar no seu coração, este velho amigo que com um afeto de pai dá sua bênção a você”.
Biliografia essenziale
R. Astorri, Le leggi della Chiesa tra codificazione latina e diritti particolari, Padova 1992.
P. Ciprotti, Il diplomatico giurista, in Aa. Vv., Il cardinale P. Gasparri, Pontificia Università Lateranense, Roma 1960.
F. Crispolti, Corone e porpore, Milano 1937.
G. De Luca, Memoria di P. Gasparri, in La Nuova Antologia, 1° dic. 1934; Id., Discorrendo col card. Gasparri (1930), in ibidem, 16 nov. 1936, poi in Aa.Vv., Il cardinale P. Gasparri, cit.
V. De Marco, Contributo alla biografia del cardinale P. Gasparri, in Aa.Vv. Amicitiae causa. Scritti in onore del vescovo A. M. Garsia, a cura di M. Naro, Caltanissetta 1999.
C. Fantappié, Dizionario biografico degli Italiani, ad vocem; Id., Introduzione storica al Diritto canonico, Bologna 1999.
P. Grossi, Storia della canonistica moderna e storia della codificazione canonica, in Quaderni fiorentini XIV (1985).
G. Spadolini, Il cardinale Gasparri e la Questione Romana (con brani delle memorie inedite), Firenze 1972.
S. Tramontin, La repressione del modernismo, in E. Guerriero e A. Zambarbieri, La Chiesa e la società industriale, Milano 1990.

Ao fundo, a Basílica de São Pedro e o Vaticano numa foto da década de 1920; à direita, um retrato do cardeal Pietro Gasparri e uma imagem da Primeira Guerra Mundial
Era uma intuição muito aguda, que os anos futuros, com tudo o que de mais significativo viria a ser escrito sobre a figura de Gasparri, confirmariam plenamente.
***
Pietro Gasparri provinha de uma família patriarcal da cidade de Ussita, na região italiana das Marcas, que vivia em relativo bem-estar, dedicando-se à pecuária ovina: “Nasci em 5 de maio de 1852, em Capovallazza, um dos vilarejos que formam o município de Ussita, situado na província de Macerata, diocese de Núrsia, entre os montes Sibilinos, cerca de 750 metros acima do nível do mar. Ar saudável, visual campestre encantador, população sadia, trabalhadora, honesta; família numerosa, como são particularmente numerosas as famílias Gasparri”, escreve ele em suas Memórias, não escondendo um orgulhoso apego a sua terra e a suas origens.
Formou-se no Seminário Romano (Apolinário), onde teve como professores de Direito Canônico Filippo De Angelis e Francesco Santi, depois ouvidor do Tribunal da Rota Romana, dois dos melhores canonistas italianos daquele tempo.
Entrou no seminário em setembro de 1870, apresentado pelo administrador monsenhor Giovanni Moroni, funcionário de São Pedro, que passava as férias em Ussita. Antes havia estudado, por poucos anos, no Seminário de Népi, “lugar que lhe ficou muito querido”, como testemunha Giuseppe De Luca, que ouviu o cardeal e reuniu confidências e lembranças para uma biografia que, apesar dos pedidos insistentes de personalidades de relevo, acabou por não escrever. (Mas De Luca dedicaria a Gasparri dois artigos: “Nova antologia: memória de Pietro Gasparri” e “Conversando com o cardeal Gasparri (1930)”, publicados respectivamente em 1934 e 1936.)
“Gasparri chegou a Roma”, escreve Vittorio De Marco em seu interessante Contributo alla biografia del cardinal P. Gasparri, “apenas dois meses depois do arrombamento da Porta Pia, portanto num clima superaquecido. [...] A ofensa a Pio IX era extremamente recente. [...] Roma não era mais do Papa [...]. A ‘Questão Romana’, que se apresentara como grande problema assim que se constituiu o Reino da Itália, assumia agora uma dimensão completamente nova e mais grave, na medida em que a ‘revolução liberal’ revirava o próprio coração da catolicidade e despedaçava o primado temporal do sucessor de Pedro. O jovem Gasparri certamente não poderia imaginar que, sendo ‘cônsul’ um outro Pio, seria justamente ele, quase sessenta anos depois, quem encerraria definitiva e formalmente a Questão Romana”.
“Gasparri levaria consigo o problema da Questão Romana”, continua De Marco, “conscientemente ou não, por mais de cinqüenta anos, depois de presenciar pessoalmente seu nascimento. Sua postura intransigente nunca seria gratuita, motivada apenas pelo fato de que os eclesiásticos e os católicos deveriam ser assim: foi mediada por sua inteligência jurídica e por seu sentido, por assim dizer, de Realpolitik, provavelmente já implícito em seu caráter, mas que as responsabilidades diplomáticas que assumiria em seguida tornariam cada vez mais claro”.
A grande estima de que Gasparri gozou no Seminário Romano, onde teve como colegas, entre outros, os futuros cardeais Domenico Svampa, Gaetano De Lai, G. B. Callegari e Benedetto Lorenzelli, é comprovada pelo cargo de professor suplente de Teologia Sacramental – mesma cátedra que seria assumida, décadas depois, por Domenico Tardini, também futuro secretário de Estado – e de História Eclesiástica, que lhe foi conferido antes mesmo que completasse seus estudos. Ao obter o diploma in utroque iure, com notas máximas, em 11 de agosto de 1879, já seria sacerdote, tendo sido ordenado em 31 de março de 1877 na Basílica Lateranense pelo cardeal vigário Raffaele Monaco La Valletta.
Dali a alguns anos, Gasparri iniciaria seu ensino de Direito Canônico na faculdade de Teologia do Institut Catholique de Paris. Mas é preciso que recordemos aqui o período anterior, que passou ao lado do cardeal Teodulfo Mertel, último purpurado a sê-lo sem nunca ter recebido a ordenação sacerdotal. Filho de um panificador alemão que se transferiu para Allumiere, no Estado Pontifício, e que se casou com uma jovem da região, Mertel seria o primeiro ouvidor do Tribunal da Rota Romana, depois ministro do Estado Pontifício e, enfim, cardeal prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. O jovem Gasparri foi seu secretário e capelão logo depois da ordenação sacerdotal, o que certamente constituiu uma experiência importante em seu amadurecimento jurídico e político.
“Eu pensava em coisas completamente diferentes do Instituto Católico de Paris”, escreve Gasparri em suas Memórias, “quando, nos primeiros meses de verão de 1879, veio a Roma o cardeal Langeliux, arcebispo de Reims, um dos principais fundadores do Instituto. Ele me deu a entender que desejava falar comigo; fui encontrá-lo e me ofereceu a cátedra de Direito Canônico...”.
Gasparri teve de superar não poucas perplexidades, e não lhe agradava ter de deixar Roma. Além de tudo, “a lembrança da Comuna de Paris era bem fresca, eu não conhecia uma palavra em francês e nunca havia saído do meu pequeno círculo”.
Ficou em Paris até 1897, mas o ensino, ao qual se dedicou com um empenho extraordinário, como reconhecem unanimemente seus contemporâneos e biógrafos, e que lhe rendeu a grande fama de canonista aberto ao novo, não o absorveu completamente. No mesmo período, foi colaborador, ainda que não assíduo, da revista Le Canoniste Contemporaine; interessou-se, dessa vez constantemente, pela Obra de Assistência dos Emigrados Italianos, tornando-se seu diretor e assegurando para ela um serviço pastoral preciso, que lhe permitiu dar provas de um autêntico zelo sacerdotal; teve também um papel ativo nos círculos da Academia de São Raimundo de Penafort, sinal do quanto lhe interessava a promoção do conhecimento e do estudo do direito canônico; viu-se, enfim, engajado na famosa controvérsia teológico-canônica que surgiu em torno do valor das ordenações sagradas conferidas segundo o Ordinal anglicano, o que o levou a escrever e publicar um opúsculo, entre seus menos conhecidos, o De la valeur des ordinations anglicanes (Paris, 1895). Assim escreve Carlo Fantappié no Dizionario biografico degli Italiani, ad vocem: “Na linha do seu Tractatus canonicus de sacra ordinatione, de 1893, Gasparri afirma que Jesus Cristo instituiu o sacramento da ordem não apenas de maneira geral, mas também in specie, ao determinar-lhe tanto a matéria quanto a forma sacramental; verificando-se a conformidade dos ritos quoad substantiam, todos são, em princípio, suficientes para a ordenação; todavia, examinando na prática o Ordinal anglicano, Gasparri viu-o defeituoso no que diz respeito à intenção, e insuficiente com relação aos ritos”.
Na verdade, num primeiro momento, Gasparri parecia estar propenso a reconhecer a validade das ordenações anglicanas. Modificou sua orientação graças a descobertas historiográficas mais aprofundadas. Leão XIII, com a encíclica Ad Anglos, de 1895, pôs fim à questão, declarando a não-validade dessas ordenações.

Dom Pietro Gasparri em Ussita com seus irmãos, entre os quais está Luigi, primeiro em pé à direita, pai do cardeal Enrico Gasparri
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O De Sanctissima Eucharistia ainda estava fresco da impressão, quando o cardeal Rampolla comunicou a Gasparri que Leão XIII o havia promovido, do ensino, à Igreja titular arquiepiscopal de Cesaréia da Palestina, nomeando-o delegado apostólico e enviado extraordinário às repúblicas sul-americanas do Peru, da Bolívia e do Equador. Em 6 de março de 1897, em Paris, foi ordenado bispo pelo cardeal Richard, seu admirador e amigo.
Gasparri era chamado a desenvolver uma missão que não era fácil, em razão da particulares condições políticas e religiosas em que foi obrigado a atuar.
Foi uma experiência breve, de apenas três anos, mas intensa, que lhe permitiu revelar notáveis, e inatas, capacidades diplomáticas – expressão da sua mente jurídica, ao lado do seu arraigado bom senso –, a ponto de fazê-lo merecer, de volta a Roma, a nomeação a secretário da Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, encarregada de cuidar das relações da Igreja com os Estados (abril de 1901).
A Secretaria de Estado era dirigida pelo cardeal Rampolla, e Giacomo della Chiesa era, naquele tempo, subsecretário para os Assuntos Gerais; entre seus colaboradores, Gasparri chamaria Eugenio Pacelli.
Na atuação de Gasparri, já apareciam as duas orientações fundamentais que inspirariam a ação do futuro secretário de Estado: a adesão à linha da neutralidade política, ou seja, a vontade e ao mesmo tempo o esforço de se apresentar aos governantes como “independente dos partidos políticos e inimigo da guerra civil em nome da religião”, por um lado; e, por outro, a decidida preferência pela política concordatária, como melhor instrumento para garantir a ação espiritual da Igreja e limitar as pretensões dos Estados.
A ascensão de Pio X ao trono pontifício (1903) não deixou de realizar uma mudança fisiológica de orientações – que a crise modernista realmente aguçou e em alguns momentos até dramatizou – e a conseqüente troca de cúpula na Secretaria de Estado, liderada até aquele momento, como lembramos, pelo cardeal Rampolla.
De fato, como escreve Fantappié, “a distância entre as duas posições, às vezes até conflitantes, a saber: entre a orientação de Gasparri, herdeiro da visão política leonina e rampolliana de abertura da Igreja às questões internacionais e sociais, e a orientação fortemente intransigente e de isolamento interno logo assumida por Pio X e por seu secretário de Estado, Merry del Val”, não poderia talvez ter levado a conseqüências diferentes.
É verdade que, além de tudo, Gasparri teve simpatias modernistas? Alguns pensavam assim, e mesmo no conclave que se seguiria à morte de Bento XV, do qual sairia eleito Pio XI, a suspeita dos cardeais De Lai e Merry del Val, provavelmente, deve ter pesado sobre Gasparri, contribuindo para que já de saída lhe fosse fechada qualquer possibilidade de eleição. É conhecida a relação de amizade que o ligou a Ernesto Buonaiuti, que Gasparri nunca desmentiu; para alguns, essa é a prova de que a suspeita sobre Gasparri não era afinal tão infundada. Seja como for, o que é certo é que Gasparri não compartilhou as idéias dos modernistas, tal como não compartilhou todos os métodos adotados para debelar o modernismo. Chegou a dizê-lo abertamente, mesmo sabendo que isso o levaria inevitavelmente a ser olhado com suspeita, como afirma Silvio Tramontin, em seu estudo La repressione del modernismo.
Se, portanto, a década compreendida entre 1904 e 1914 foi um período de relativo isolamento, acabou por ser ao mesmo tempo extremamente fecunda para Gasparri, inteiramente dedicada como foi à obra de redação do Código de Direito Canônico, que continua a ser, dentro de uma atividade vasta e complexa, cheia de méritos, o maior de todos eles.
Já durante o Concílio Vaticano I, trinta e três bispos formularam a Pio IX o pedido de que se realizasse a codificação. Na solicitação que lhe enviaram, escreviam: “Opus sane arduum; sed quo plus difficultatis habet, eo magis est anto Pontifice dignum”. Mas foi Pio X – que já como chanceler episcopal de Treviso havia demonstrado vivo interesse pelo direito canônico, como mais tarde como patriarca de Veneza – quem deu vida a uma empreitada que alguns consideravam irrealizável ou inoportuna. De fato, sabemos da existência de duas escolas canonistas que tinham pareceres opostos no que diz respeito à codificação: de um lado – para exemplificar as posições e oferecer apenas alguns nomes, entre os mais emblemáticos –, encontramos os jesuítas da Gregoriana (Wernz, Ojetti), que defendiam a manutenção da ordem das Decretali, e, de outro, a escola do Apolinário (Sebastianelli, depois decano do Tribunal da Rota Romana, Lombardi, Latini), que, defendendo a escola jurídica laica, afirmava a urgência de uma codificação moderna, que superasse o caráter fragmentário da legislação, com todos os problemas hermenêuticos a ele ligados. O Corpus iuris canonici, de fato, era constituído pelo conjunto das coletâneas oficiais (Decretum Gratiani, Liber Extra, Liber VI, Clementinae, Extravagantes Ioannis XXII, Extravagantes communes), pouco a pouco enriquecidas por outros discursos normativos de fonte pontifícia e conciliar, além dos decretos das Congregações romanas e da jurisprudência do Tribunal da Rota. Realmente, “immensum aliarum super alias coacervatarum legum cumulum”, escreveria Gasparri no prefácio do Código, repetindo Lívio, Obruimur legibus. Isso seria remediado por um código assentado sobre o modelo napoleônico, autêntico, porque promulgado pelo Supremo Legislador, único, sistemático, universal, abstrato.
Com o motu proprio Arduum sane munus foi constituída uma comissão cardinalícia “De Ecclesiae legibus in unum redigendis”, da qual Gasparri foi nomeado secretário. A ela foi acrescentado um grupo de consultores, presidido pelo mesmo Gasparri. Para acelerar o trabalho, Gasparri constituiu também duas comissões particulares para matérias distintas, cada uma das quais com dez membros: uma se reunia nas quintas-feiras de manhã, a outra nas manhãs de domingo. Eugenio Pacelli colaborava com Gasparri; quando este, em 1907, foi criado cardeal por Pio X, primeiramente dom Scapinelli e depois o próprio Pacelli o sucederam como secretários da comissão cardinalícia. Os consultores tinham a tarefa de examinar o texto dos cânones propostos pelas duas comissões particulares. E foi a partir de uma proposta de Gasparri que, em 1912, Pio X estabeleceu que todo o trabalho já aprovado pela comissão cardinalícia fosse enviado àqueles que normalmente eram convocados ao Concílio Ecumênico, para que expressassem seu juízo e suas observações.
Com a morte de Pio X, ascendeu ao trono pontifício Giacomo Della Chiesa, com o nome de Bento XV, velho amigo e colega de Gasparri, pertencente à mesma geração leonina, que o nomeou secretário de Estado depois da morte do cardeal Domenico Ferrata, no cargo por apenas um mês. Era 13 de outubro de 1914: completada a redação do último livro do Codex iuris canonici – e preparado por Gasparri o esboço da sua promulgação (prevista para 1º de janeiro de 1915, mas, por diversos motivos, inclusive a guerra, adiada, como se sabe, para 27 de maio de 1917, com a constituição apostólica Providentissima Mater Ecclesia) –, o opus sane arduum estava finalmente concluído.

Dom Pietro Gasparri, arcebispo titular de Cesaréia da Palestina e delegado apostólico das Repúblicas do Peru, da Bolívia e do Equador
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Como nota agudamente Pio Ciprotti, a mentalidade de jurista acompanhou Gasparri também nas atividades não diretamente jurídicas. Isso se deduz em primeiro lugar pelas Concordatas, em cuja compilação – mesmo que em algumas disposições tenha tido de fazer exceções ao direito canônico geral, para vir ao encontro das exigências dos Estados, ou para que essas eventuais exigências produzissem o menor dano possível às almas – Gasparri sempre formula afirmações de princípio, até mesmo sobre pontos com os quais, na prática, o Estado dificilmente concordaria.
Afirmações de princípio que, ao mesmo tempo em que enunciam pontos fundamentais da doutrina teológica, lembram igualmente verdades que brotam do direito natural. “Nem a enunciação [...] do princípio tem apenas uma importância doutrinal, de proposição filosófica e teológica; ela tem, pelo contrário, um relevante alcance jurídico, na medida em que de certa forma é a premissa às normas práticas, necessariamente ponto de partida, portanto, para sua interpretação, constituindo tais normas, como se disse, nada mais que exceções ao princípio enunciado” (Ciprotti). Gasparri foi, enfim, um jurista levado à concretude, mas jamais inclinado a ceder a um mero pragmatismo que prevalecesse sobre os princípios.
É conhecido o papel exercido por Gasparri nas complexas circunstâncias que antecederam e prepararam a solução definitiva da duradoura Questão Romana. Deixando de lado a reconstrução detalhada dessas circunstâncias, já feita muitas vezes e, poderíamos dizer – considerando a abundante literatura sobre o tema –, de um modo quase definitivo, não acreditamos nos afastar da verdade ao afirmar que o papel de Gasparri foi certamente decisivo. Se a historiografia insistiu nas circunstâncias políticas particulares que levaram ao Tratado de Latrão, pode-se sem dúvida afirmar que foi determinante para a realização da Conciliação o paciente e concreto trabalho de costura realizado pelo cardeal, e que o caráter orgânico da Concordata e a atenção dada à noção de soberania trazem a marca dessa mens iuridica que se valeu da colaboração de Francesco Pacelli, de Domenico Barone, do jesuíta Pietro Tacchi Venturi.
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O cardeal Gasparri deixou a Secretaria de Estado em 11 de fevereiro de 1930. Houve quem – como Pietro Palazzini, depois cardeal, no verbete dedicado a Pietro Gasparri na Enciclopedia Cattolica – não hesitasse em falar de divergências pessoais com Pio XI. Foi sucedido por Eugenio Pacelli, seu antigo colaborador desde a redação comum, no verão de 1905, em Ussita, do “Livro Branco” sobre a situação da Igreja francesa, e alvo de grandíssimo apreço por parte de Gasparri.
Retirando-se para a vida privada, viveu seus últimos anos entre Roma e a cidade natal, Ussita, reexaminando e reescrevendo algumas de suas obras jurídicas e completando a redação de um texto de catecismo, um trabalho ao qual, desde 1924, dedicara parte de seu tempo livre. “Sempre se lamentou, naqueles últimos anos, de que a memória já não o ajudasse. Considerava esse o maior dano trazido por sua velhice. Afligia-se tanto, então, por ter quase perdido a memória, quanto, quando era jovem e mesmo poucos anos antes, se alegrara de ter uma memória tão meticulosa, tenaz e extremamente ampla” (De Luca). O homem que havia trabalhado “sem pressa mas sem descanso, num ritmo tão desenfreado, encoberto por sua tranqüilidade exterior, a ponto de cansar e até às vezes esgotar quem colaborava com ele” (De Luca), morreu com oitenta e dois anos em Roma, a 18 de novembro de 1934.

Frontispícios de algumas obras jurídicas de dom Pietro Gasparri
Mas o signo que unifica o jurista, o diplomata e o servidor da Sé Apostólica deve ser buscado inteiramente no fato de Gasparri ter sido, integralmente, sempre e em qualquer circunstância, padre.
Desde os anos em que celebrava a missa para o cardeal diácono Mertel até os anos em que viveu em Paris, nos quais, de respeitado docente, se transformou em “pároco” para os imigrantes italianos, ele foi padre, e assim em todos os ofícios que pouco a pouco exerceu.
“Tendo vestido a túnica pela primeira vez aos oito anos”, nota De Marco, “não a abandonou mais, e sobretudo nunca mais deixou de lado aquele aspecto sóbrio e sereno do coroinha que se veria depois no sacerdote e no cardeal”.
“Foi um padre bom e simples”, escreve padre Giuseppe De Luca, “um brincalhão, que tinha medo até de uma inocente mentira; e foi ao mesmo tempo um dignitário eclesiástico tão elevado, que chegava a incutir em todos os outros uma sujeição invencível. Ninguém, mesmo compartilhando a mesa com ele, mesmo sendo seu alvo numa brincadeira familiar ou sendo de alguma forma provocado por ele, ninguém teria a coragem de assumir a menor intimidade. Obedecia sem se sentir humilhado, e justamente por isso comandava sem humilhar. Nunca uma ordem é mais bem obedecida do que quando o inferior se sente, no momento mesmo em que recebe a ordem, considerado e respeitado”.
Podemos perceber, na conclusão de seu testamento, datado de 4 de outubro de 1934, uma tocante vibração de seu espírito autenticamente sacerdotal, que ao mesmo tempo expressa a concretude que lhe era extremamente peculiar: “Recomendo a todos que sejam bons, lembrando-se de que a vida presente passa como um relâmpago, e que a eternidade nos espera”.
Ao apresentar, em 1932, seu catecismo católico para as crianças, não contendo a comoção fácil, mas não banal, que havia aprendido com sua mãe, escrevia: “Minha querida criança, estou preparando você para a primeira Comunhão. [...] Sou velho, minha querida criança, e muitas coisas e acontecimentos importantes passaram pela minha cabeça e pelo meu coração: no entanto, ainda me lembro com comoção e uma ternura que não consigo descrever o dia da minha primeira Comunhão [...] e peço a você que lembre a Jesus, quando Ele pousar no seu coração, este velho amigo que com um afeto de pai dá sua bênção a você”.
Biliografia essenziale
R. Astorri, Le leggi della Chiesa tra codificazione latina e diritti particolari, Padova 1992.
P. Ciprotti, Il diplomatico giurista, in Aa. Vv., Il cardinale P. Gasparri, Pontificia Università Lateranense, Roma 1960.
F. Crispolti, Corone e porpore, Milano 1937.
G. De Luca, Memoria di P. Gasparri, in La Nuova Antologia, 1° dic. 1934; Id., Discorrendo col card. Gasparri (1930), in ibidem, 16 nov. 1936, poi in Aa.Vv., Il cardinale P. Gasparri, cit.
V. De Marco, Contributo alla biografia del cardinale P. Gasparri, in Aa.Vv. Amicitiae causa. Scritti in onore del vescovo A. M. Garsia, a cura di M. Naro, Caltanissetta 1999.
C. Fantappié, Dizionario biografico degli Italiani, ad vocem; Id., Introduzione storica al Diritto canonico, Bologna 1999.
P. Grossi, Storia della canonistica moderna e storia della codificazione canonica, in Quaderni fiorentini XIV (1985).
G. Spadolini, Il cardinale Gasparri e la Questione Romana (con brani delle memorie inedite), Firenze 1972.
S. Tramontin, La repressione del modernismo, in E. Guerriero e A. Zambarbieri, La Chiesa e la società industriale, Milano 1990.