O CONGRESSO SOBRE O ROSTO DOS ROSTOS
Perdão e comunhão em João Paulo II
Conferência proferida pelo reitor da Pontifícia Universidade Lateranense na décima edição do Congresso Internacional sobre o Rosto de Cristo
de Rino Fisichella

Dom Rino Fisichella, o cardeal Fiorenzo Angelini e o escritor Alain Elkann durante uma das sessões do 10º Congresso Internacional sobre o Rosto de Cristo, realizado em 14 e 15 de outubro na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma
A pessoa de João Paulo II continuará a ser por muito tempo a expressão mais significativa da vida da Igreja no início do terceiro milênio da sua história. Vendo apenas as estatísticas, que de quando em quando caem sob nossos olhos, já se experimenta uma comoção imensa ao pensar que esse homem, como nenhum outro, viajou pelo mundo inteiro, não negligenciando nenhuma região da terra que lhe fosse permitido visitar para levar a todos o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Milhões e milhões de crentes e não-crentes acorreram para ouvir sua palavra e ver seu rosto, interpretar seus gestos e, tendo mais sorte, trocar algumas palavras com ele e receber sua bênção. Durante cerca de vinte e sete anos ele mostrou o rosto de uma Igreja jovem, capaz de falar uma linguagem compreensível a nossos contemporâneos, mas sobretudo deu testemunho de como se pode viver com dignidade qualquer estágio da vida, apesar da doença e do sofrimento, para dar significado à dor e à morte. As imagens do início do pontificado, que mostravam em outubro de 1978 um Papa de apenas 58 anos, esportista, fascinante, forte e severo ao mesmo tempo, não destoam das que o mostram quase imóvel numa cadeira – nova sede gestatória, que ele nunca quisera ter –, impossibilitado de se exprimir pela palavra, mas repleto de um olhar sempre vigilante e atento. Em João Paulo II a Igreja teve uma testemunha da fé audaz, entusiasmada e coerente; do início ao fim, ele manifestou a palavra do Senhor: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos [...], ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28, 19-20).
De uma forma ou de outra, para compreender em profundidade o ensinamento de João Paulo II é preciso retornar a sua primeira encíclica, Redemptor hominis. É lá que se encontram os pontos essenciais nos quais se inspirou constantemente na sua ação pastoral para imprimir o seu pontificado a força e o entusiasmo que o caracterizaram. A idéia central que movia o pensamento de João Paulo II era a profunda fé em que Cristo é o redentor do homem. Sua obra de salvação se estende do Gólgota para alcançar a todo homem em todos os tempos, sem distinção alguma. Tal como seu sacrifício na cruz alcançou a todos, da mesma forma ninguém pode ser excluído de seu amor. “O homem”, escrevia o Papa, “não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se dele não participa vivamente” (RH, nº 10). Se quisermos, é justamente esse amor que revela a dimensão da salvação e a redenção do homem da sua culpa. Se nos abrimos ao amor de Cristo, nos encontramos e recuperamos a grandeza que fora perdida, a dignidade da existência pessoal e o valor de nossa participação na história. A missão da Igreja, portanto, foi interpretada por João Paulo II de modo tal que qualquer pessoa pudesse voltar seu olhar para o rosto de Cristo que revela e exprime o amor trinitário de Deus.
O amor no centro
Amor é a palavra que mantém viva a Igreja e que torna sua mensagem e sua missão permanentemente provocadoras ao longo dos séculos. Não um amor extraído da experiência humana, nem do qual se desdenha como expressão intelectual, mas um amor verdadeiro, concreto, tangível, que cada um de nós pode verificar se se puser diante do rosto de Jesus de Nazaré. Foi justamente sobre o tema do rosto de Cristo que João Paulo II quis escrever um de seus documentos mais conhecidos, Novo millennio ineunte, para corroborar o caminho da Igreja rumo ao terceiro milênio: “O nosso testemunho seria excessivamente pobre, se não fôssemos primeiro contemplativos do seu rosto [...]. Ao retomarmos o caminho de sempre, conservando na alma a riqueza das experiências vividas neste período muito especial, o olhar permanece mais intensamente fixo no rosto do Senhor” (NMI, nº 16). É esse o mistério que até hoje torna qualquer crente responsável pelo próprio batismo e pela partilha que faz da missão da Igreja. O amor não pode ser apenas anunciado, deve ser tornado visível e tangível na concretude da sua natureza. É por esse motivo que é preciso recuperar o horizonte da revelação; do contrário, o amor seria submetido à ambigüidade do conceito e das interpretações próprias do relativismo de hoje, como ensinou magistralmente Bento XVI em sua encíclica Deus caritas est.
Não erramos ao considerar que, diante da pergunta “o que é o amor?”, a resposta mais direta e universal que se recebe diga: “Dar a vida pela pessoa amada”. Resposta coerente que, ao mesmo tempo que evidencia o drama da sua verdade, mostra o longo caminho que somos chamados a percorrer para verificar nossa coerência. Quando se pronuncia uma expressão como essa, está-se diante de uma linguagem totalmente peculiar, a performativa, que compromete quem quer que seja a viver do que diz, sob pena de tocar com as mãos a própria contradição, a incoerência e a falta de sentido do próprio exprimir-se. Estamos tão acostumados a compreender o amor nessa acepção, que esquecemos sua origem e o significado profundo que foi introduzido nesse termo. O sentido de amar como equivalente a “dar a vida” provém da revelação de Jesus Cristo, que ofereceu sua vida por todos os homens, morrendo na cruz. O confronto com a literatura e a cultura antigas mostra o quanto essa concepção é única e original. A contribuição peculiar sobre esse tema que o cristianismo introduziu em todas as culturas, diferenciando-se até das outras religiões, imprimiu um desenvolvimento notável ao progresso da civilização universal. A revelação cristã encontra seu ponto culminante na expressão: “Deus é amor” (1Jo 4, 8-10). Pela primeira e única vez em toda a Bíblia, o autor sacro parece querer dar uma definição de Deus que não deixe espaço para outras fórmulas. Diversas delas podem ser facilmente encontradas nos vários textos do Novo Testamento; expressões como: “Eu sou a luz” (Jo 9, 5), “Eu sou a verdade” (Jo 14, 6), “Eu sou a vida” (Jo 11, 25) carregam consigo características próprias de Deus. Neste caso, todavia, o autor sacro pretende fixar o olhar diretamente na própria natureza de Deus, na sua essência, no que o qualifica como Deus. Uma análise detalhada da Primeira Carta de São João mostraria a profunda intenção reveladora que a expressão possui e o grande valor significativo que está por trás dela. Toda a primeira parte da Carta parece tender a esse versículo, e, por paradoxal que possa parecer, todo o Novo Testamento assume uma luz nova a partir desta expressão: “Deus é amor [...] e nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou”. Por duas vezes, num espaço muito breve (vv. 8-10), o evangelista repete: “Deus é amor”, e o estabelece como fundamento da existência pessoal de cada um; de fato, acrescenta: “Todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (v. 7). A essência do Deus de Jesus Cristo, portanto, consiste em ser amor. Quem se abre a isso e se deixa moldar, recebe uma vida nova, aquela que permite ser gerado por Deus, entrar em relação com ele e viver de sua própria vida. Essa vida de comunhão não é unidirecional, de Deus para o homem; o evangelista atesta que o amor se desenvolve numa real forma de reciprocidade: “Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (v. 16). Como a dizer: quem é chamado por Deus se torna capaz, por sua vez, de amá-lo e de corresponder a seu amor com aquela nova semente de vida que nele foi plantada em razão da fé.

João Paulo II no Dia do Perdão, em 12 de março de 2000
Como se nota, o sentido do verbo “entregar” possui uma totalidade de doação que não conhece confronto; a encarnação do Filho, a sua atividade terrena, a paixão e a morte, tudo é um dom com o qual o Pai revela a sua maneira de amar. Enfim, Deus só sabe amar assim: entregando a si mesmo por inteiro, sem nada pedir em troca. Uma modalidade de amor única que só Deus podia pôr no mundo, dando início assim a uma nova expressividade do amor entre os homens.
Mas “Deus é amor” permite entrar em contato com uma outra novidade que constitui o paradoxo da fé cristã. De fato, o amor de Deus não é uma idéia abstrata nem um sentimento mais ou menos genérico; ele se encarna numa pessoa que o torna evidente em sua vida e em sua morte. O amor tem um rosto: Jesus de Nazaré. É por força dessa identificação que se podem compreender algumas expressões de Jesus que, do contrário, soariam como ofensivas aos homens pela arrogância e soberba de que se revestem: “O Pai vos ama, porque me amastes” (Jo 16, 27), “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13, 34). Amai-vos como eu vos amei... Se essas palavras foram conservadas através dos séculos e foram acolhidas como cheias de sentido, é porque cada um vê nesse homem o próprio Deus; não poderia ser diferente.
Seja como for, a morte de Jesus só adquire seu significado pleno quando inserida na temática que enfrenta a maneira como Deus revela seu amor. Fora desse horizonte, seria um ato de violência contra um inocente; poderia no máximo suscitar compaixão, mas nunca seria assumida como diretriz para os homens que pedem um sentido para a contradição da morte. É a revelação que apresenta a paixão e a morte de Jesus como a forma última do amor de Deus na sua vontade de salvar a humanidade. Este continua a ser o paradoxo insubstituível da revelação cristã, contra o qual todo pensamento vem a se chocar se não acolhe em si a lógica do amor. Com razão, João Paulo II escrevia: “O Filho de Deus crucificado é o acontecimento histórico contra o qual se desfaz toda a tentativa da mente para construir, sobre razões puramente humanas, uma justificação suficiente do sentido da existência. O verdadeiro ponto nodal, que desafia qualquer filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz. Aqui, de fato, qualquer tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a mera lógica humana está destinada à falência. ‘Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o investigador deste século? Porventura Deus não considerou louca a sabedoria deste mundo?’ (1Cor 1, 20) – interroga-se enfaticamente o Apóstolo. Para aquilo que Deus quer realizar, não basta a simples sabedoria do homem sábio, requer-se um passo decisivo que leve ao acolhimento de uma novidade radical: ‘O que é louco segundo o mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios [...]. O que é vil e desprezível no mundo, é que Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são’ (1Cor 1, 27-28). A sabedoria do homem recusa ver na própria fragilidade o pressuposto da sua força; mas São Paulo não hesita em afirmar: ‘Quando me sinto fraco, então é que sou forte’ (2Cor 12, 10). O homem não consegue compreender como pode a morte ser fonte de vida e de amor, mas Deus, para revelar o mistério do seu desígnio salvador, escolheu precisamente o que a razão considera ‘loucura’ e ‘escândalo’. Usando a linguagem dos filósofos do seu tempo, Paulo chega ao clímax da sua doutrina e do paradoxo que quer exprimir: ‘Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que nada são para destruir as que são’ (cf. 1Cor 1, 28). Para exprimir o caráter gratuito do amor revelado na cruz de Cristo, o Apóstolo não tem medo de usar a linguagem mais radical que os filósofos empregavam nas suas reflexões a respeito de Deus. A razão não pode esgotar o mistério de amor que a Cruz representa, mas a Cruz pode dar à razão a resposta última que esta procura. São Paulo coloca não a sabedoria das palavras, mas a Palavra da Sabedoria como critério, simultaneamente, de verdade e de salvação” (Fides et ratio, nº 23).
João Paulo II escrevia: “O Filho de Deus crucificado é o acontecimento histórico contra o qual se desfaz toda a tentativa da mente para construir, sobre razões puramente humanas, uma justificação suficiente do sentido da existência. O verdadeiro ponto nodal, que desafia qualquer filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz”
A kénosis, como se nota, continua a ser o verdadeiro mistério
de Deus no ato em que entra na história e a redime. De fato, a cruz,
como evento último da vida de Cristo, nada mais faz senão
tornar evidente as conseqüências da encarnação com
a qual o Filho de Deus se faz homem no seio da Virgem. Com razão,
Von Balthasar escrevia que “o evento da cruz só pode ser
considerado sobre o pano de fundo trinitário, e só na
fé pode ser interpretado”. No inocente pregado na cruz, que
grita a Deus por tê-lo abandonado, é revelada aos homens toda
a distância que separa o Filho e o Pai que o enviou. De fato, nesse
momento, Jesus, o Filho de Deus, carrega sobre si o pecado do mundo e
parece aos olhos dos homens ter perdido o Pai, que o abandona nas
mãos de seus inimigos e na escuridão da morte. No entanto,
justamente diante desse abandono na hora da morte é possível
vislumbrar até onde chega o amor de Deus. No evento da morte de
Jesus e no significado que ele imprimiu a essa morte, é revelada a
própria vida trinitária; ela é vivida como um eterno e
total autodoar-se, onde o abandono de si se dá apenas em vista da
geração.
Amor como perdão e comunhão
Estas considerações permitem voltar com maior conhecimento de causa ao ensino de João Paulo II, quando escreve: “A Igreja, ao manter o sacramento da penitência, afirma expressamente a sua fé no mistério da redenção, como realidade viva e vivificante, que corresponde à verdade interior do homem, corresponde à humana culpabilidade e também aos desejos da consciência humana” (RH, nº 20). Em outras palavras, o Papa afirma que o mistério da redenção do homem realizada pelo amor do Filho de Deus se torna manifesto também aos nossos olhos na unidade do mistério eucarístico, verdadeiro fundamento da vida da Igreja e sinal eficaz da sua permanente presença na história da humanidade. O mistério da eucaristia exprime o amor de Deus e significa, ao mesmo tempo, perdão e comunhão. É interessante, dessa perspectiva, verificar a unidade incindível que mantém juntos o ato do perdão e o chamado a uma renovada vida de comunhão no pensamento de Karol Wojtyla: “A eucaristia é o sacramento no qual se exprime mais cabalmente o nosso novo ser, e no qual o mesmo Cristo, incessantemente e sempre de maneira nova, ‘dá testemunho’ no Espírito Santo ao nosso espírito de que cada um de nós, enquanto participante no mistério da redenção, tem acesso aos frutos da filial reconciliação com Deus, tal como ele mesmo a realizou e continua sempre realizando no meio de nós, mediante o ministério da Igreja” (RH, nº 20). De modo ainda mais explícito, o Papa exprime o mesmo conteúdo quando, em sua última encíclica, Ecclesia de Eucaristhia, escreve: “Aos germes de desagregação tão enraizados na humanidade por causa do pecado, como demonstra a experiência cotidiana, contrapõe-se a força geradora de unidade do corpo de Cristo. A Eucaristia, construindo a Igreja, cria por isso mesmo comunidade entre os homens” (EE, nº 24).
A vida eucarística do crente, portanto, torna manifesto não apenas o chamado à participação do mistério do amor Deus, mas evidencia a maneira como Deus ama: acolhe o pecador arrependido e o introduz com nova energia na vida de comunidade do amor trinitário. Perdão e comunhão nada mais são que as duas faces da mesma moeda, com a qual é revelada a misericórdia do Pai. Como se nota, no fim, chega-se a pronunciar o termo que se torna síntese do amor cristão. Misericórdia, de fato, atesta ao mesmo tempo capacidade de perdoar, introduzindo numa nova intensidade de relação com Deus e com o próximo. Se não houvesse o perdão, nunca teríamos uma forte garantia de que saberíamos amar e ser amados. Só quem ama, de fato, sabe chegar até o perdão, e só quem perdoa atesta a sua capacidade de saber amar. No entanto, isso também não basta. O perdão cristão é uma retomada ativa de relações interrompidas para reconstruir uma vida de amor. O pecado, como sabemos, é ruptura da vida de comunhão com Deus e, portanto, exclusão da comunidade cristã. Isso se expressa como a escolha errada de conduzir a própria existência prescindindo de Deus e da comunidade a que se pertence. Não é por acaso que a imagem que se usa para indicar o pecador seja mostrá-lo voltando as costas ao Pai e, com ele, a seus irmãos. Não podendo mais fitar o rosto de Cristo, o pecador reflete apenas a si mesmo, à própria vida e à contraditoriedade que a caracteriza.
É necessário um suplemento de amor para compreender a saudade do retorno à casa do Pai e saber que, longe dele, só é possível viver de subterfúgios, na pobreza extrema. Ser tocados pela misericórdia, por sua vez, implica tomar consciência do próprio pecado, da necessidade do perdão e de uma nova vida de relações que reintroduz na comunidade dos crentes. A parábola do filho pródigo é um ícone importante posto diante dos nossos olhos para compreender o valor do perdão e a nova vida de comunhão que ele comporta. O pai que vai ao encontro do filho que havia dilapidado o patrimônio da família não se limita a abraçá-lo, fazendo-o sentir dessa forma que é amado; ele faz muito mais. Beija-o, põe o anel em seu dedo e o veste com a túnica, reintroduzindo-o com todos os direitos em sua casa. Os gestos poderiam parecer secundários na economia da parábola, mas não o são de modo algum. Indicam a reinserção na vida da família, como verdadeiro filho. O beijo do pai atesta que seu amor pelo filho, apesar de tudo, permaneceu intacto, e esse filho, provavelmente porque derrotado pelo calor do pai, nem consegue terminar a frase que havia preparado. A túnica, aliás, “a veste mais bela”, é o sinal de ser hóspede de honra e, portanto, tratado com todo o respeito devido; ao passo que o anel é expressão do pleno poder que o filho tem em sua casa, pois com o anel se imprime o selo.

João Paulo II na procissão do Corpus Christi
Num período como o nosso, que freqüentemente parece marcado por gestos de ódio e falta de perdão, não pode passar em silêncio, enfim, o testemunho pessoal de João Paulo II. Nenhum de nós se esquece das imagens dramáticas daquele 13 de maio de 1981: a pistola apontada por um jovem turco quando o Papa passa sorridente, cumprimentando a multidão desejosa de ouvir sua catequese da quarta-feira na praça de São Pedro. O disparo foi forte, ensurdecedor, e queria matar, mas não impediu que se ouvisse a palavra de perdão que trazia João Paulo II de volta à vida. Na luta entre o ódio da morte e o amor da vida, esta levou a melhor e foi o triunfo da fé cristã, que sabe perdoar. As primeiras palavras que o Papa pronunciou tão logo pôde falar foram: “Perdôo de coração”. Palavras que foram acompanhadas por fatos: a visita à prisão de Regina Coeli e o abraço de João Paulo II a Ali Agca são o sinal eloqüente do quanto a misericórdia era verdadeira e concreta. Não por acaso a encíclica foi escrita justamente depois desses fatos; ela continua a ser o testemunho mais coerente de como João Paulo II viveu aqueles momentos.
É paradoxal que na Redemptor hominis o Papa tenha desejado falar de um “direito” que o crente possui diante de Deus, o direito de ser perdoado: “É o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro do sacramento da reconciliação: ‘Os teus pecados estão perdoados’; ‘Vai e de agora em diante não tornes a pecar’. Como é evidente, isto é ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momento-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão” (RH, nº 20). No entanto, o “direito” do crente não contradiz a gratuidade da oferta, nem o direito de Cristo limita a liberdade pessoal; pelo contrário. Justamente porque realizado à luz do amor, o perdão se torna verdadeiro sustento da vida nova que é ofertada, e pela qual nos tornamos responsáveis. Justamente porque ofereceu a si mesmo por amor, Cristo tem o “direito” de não ser excluído da nossa vida. Crescer no amor, essa é a questão, para compreender plenamente o que pode significar o sentido do perdão e a vida da comunidade que é feita de comunhão.