Chipre. Entrevista com o arcebispo Chrysostomos
Uma Igreja fundada pelos apóstolos
Nesta ilha encontra-se a sepultura de Barnabé, que acompanhou Paulo durante a sua primeira viagem apostólica. Encontramos o chefe da Igreja Ortodoxa, que sempre teve um papel importante também na vida civil do povo cipriota
Entrevista com o arcebispo ortodoxo Chrysostomos de Giovanni Ricciardi
A Igreja Ortodoxa de Chipre tem um papel central na história recente da ilha. Foi o seu
arcebispo Makarios III quem guiou o país na luta pela
independência da Grã-Bretanha. E, caso mais único do
que raro, tornou-se ele mesmo, sem deixar seu cargo religioso, o primeiro
presidente da República de 1960 até sua morte, em 1977. Foi
exilado, sobreviveu ao golpe de Estado de 1974 e assistiu à
ocupação turca na parte norte de Chipre e à
separação das duas comunidades da ilha, greco-cipriotas
(ortodoxos) e turco-cipriotas (muçulmanos), ainda em ato depois de
32 anos. Com o sucessor, Chrysostomos, a Igreja voltou ao seu papel de guia
espiritual da nação, favorecendo o seu desenvolvimento
democrático e acompanhando o país rumo ao ingresso na Europa.
O arcebispo, há muito tempo doente, não tem mais
condições de exercer seu ministério. Por isso, desde
novembro passado, os cipriotas elegeram um novo pastor, Chrysostomos, que
leva o mesmo nome de seu predecessor e que, como bispo de Pafos, a sede
mais antiga da ilha , exercia um papel de “suplência” na
guia da Igreja cipriota.

Eminência, o cristianismo em Chipre tem uma
tradição bimilenária. O senhor poderia percorrer
brevemente os aspectos mais salientes da sua história?
CHRYSOSTOMOS: A Igreja de Chipre remonta aos apóstolos e conserva a sucessão apostólica íntegra. No ano de 46, Paulo e Barnabé, durante sua primeira viagem missionária, desembarcaram em Pafos, capital da então província do Império romano. Aqui, segundo os Atos, Saulo mudou seu nome em Paulo. E aqui se deu a conversão do governador romano Sérgio Paulo. Uma segunda e mais longa viagem missionária foi realizada mais tarde por Barnabé junto com o evangelista Marcos. Eles difundiram o cristianismo em toda a ilha. Por isso o apóstolo Barnabé é considerado o verdadeiro e próprio fundador da Igreja de Chipre: uma Igreja com longa tradição, um papel importante na história e muitos testemunhos antigos da cristandade. Os bispos de Chipre participaram do Concílio de Nicéia, e a Igreja tornou-se autocéfala a partir de 431. Depois do período bizantino, a ilha foi submetida a dominações estrangeiras: francos e venezianos levaram até a ilha o cristianismo latim; depois deu-se a longa dominação otomana, de 1571 a 1878, enfim os ingleses. E assim, no decorrer dos séculos o arcebispo assumiu também a função de “etnarca”, ou seja, representante da população grega da ilha diante do poder constituído. Portanto o seu papel há também um caráter político. Por esse motivo em Chipre o arcebispo é eleito diretamente pelo povo.
A que época remonta este sistema de eleição?
CHRYSOSTOMOS: O povo participa da eleição do bispo desde o período otomano, quando a Igreja ortodoxa, depois da expulsão dos venezianos, recuperou a sua autocefalia. Trata-se de um caso único também na tradição ortodoxa. A participação popular foi ulteriormente ampliada no último século. E a eleição do bispo é muito importante para a população, que assim identifica-se mais diretamente com o próprio pastor.
Isso ocorreu também por ocasião da sua eleição?
CHRYSOSTOMOS: A eleição foi realizada em 3 fases. Na primeira o povo votou, em setembro passado, 1400 representantes leigos, que por sua vez escolheram entre eles 100 delegados. Estes 100 leigos, junto com 34 membros do clero, entre os quais os bispos e os abades dos mosteiros foram chamados enfim para designar o novo pastor.
Foi este caráter popular que permitiu ao arcebispo Makarios de se colocar como chefe dos greco-cipriotas na luta pela independência?
CHRYSOSTOMOS: O arcebispo Makarios, como pai de todos, aceito por todos, guiou o novo Estado com a vontade de resolver os problemas que se criaram com os turco-cipriotas depois da independência. Sempre tentou superar estes obstáculos com a intenção de deixar o lugar para um outro mais tarde. Infelizmente muitos problemas não foram resolvidos e a última conseqüência de todo isso foi a invasão turca.
A Igreja de Chipre ainda se sente revestida por um papel político?
CHRYSOSTOMOS: Os tempos mudaram. Existe uma classe dirigente eleita pelo povo em condições de guiar o país sem necessidade de um papel de suplência da Igreja em relação às instituições. Porém a Igreja continua a representar a identidade nacional dos greco-cipriotas e se empenha para que possam viver em paz e harmonia com as minorias que vivem em Chipre, sem problemas e sem contrastes.
Hoje, o que a Igreja pode fazer para favorecer a reconciliação e a reunificação do país?
CHRYSOSTOMOS: A Igreja de Chipre reza sempre pela paz e pela concórdia entre todos. Não fazemos distinção de religião ou proveniência, sentimo-nos todos filhos do mesmo Deus. Queremos viver juntos em paz neste país. Temos certeza que, para um efetivo progresso comum, Chipre deve ser apenas um Estado, mas aceitamos a idéia de um Estado federal com um governo comum. Infelizmente a Turquia não persegue o mesmo objetivo, mas quer a criação de dois Estados separados, para tutelar melhor seus próprios interesses. O seu objetivo é o de entrar na União européia sem renunciar a Chipre. E este seu modo de “queimar” o tempo, sem jamais fazer significativos passos adiante, joga a seu favor.
No dia 30 de novembro, festa de Santo André apóstolo, o Papa encontrou em Constantinopla o patriarca Bartolomeu I. Como a Igreja de Chipre vivenciou esse evento?
CHRYSOSTOMOS: Existe uma sólida relação entre Roma e Chipre. Em 1996, quando eu era bispo de Pafos, na comemoração dos 1950 anos do desembarque de Paulo na ilha, convidei os bispos de todas as cidades assinaladas pela passagem do apóstolo. Ainda lembro com alegria o encontro que tive na ocasião com o enviado do Papa, o cardeal Cassidy. Além disso, se o túmulo de Paulo está em Roma, o seu companheiro Barnabé está sepultado em Chipre em um mosteiro que hoje, infelizmente, foi transformado em um museu, pois situa-se na parte norte da ilha. Também a relação de Chipre com a sede de Constantinopla é muito grande. Os cipriotas têm, entre outras coisas, uma profunda veneração pelo apóstolo André, mesmo tendo a passagem do apóstolo por Chipre confirmações menos garantidas do que a de Paulo. Mas essa tradição também é sinal da vocação de Chipre, que se pode considerar uma ponte entre Oriente e Ocidente.
O presidente da Grécia, Tassos Papadopoulos encontrou o Papa Bento XVI em 10 de novembro passado, presenteando-lhe com um livro que documenta o estado de degradação do patrimônio eclesial da parte norte de Chipre. Na ocasião, convidou o Papa para visitar Chipre. O que o senhor acha?
CHRYSOSTOMOS: A situação das Igrejas do norte ocupado é uma das nossas mais graves preocupações e esperamos que a Igreja Católica seja sensível ao problema e nos ajude a chamar a atenção da comunidade internacional sobre a questão e encontrar uma solução mais urgente e irrenunciável para um patrimônio de cultura e de arte que pertence a toda a humanidade. Quanto ao Papa, para nós seria belíssimo se ao repercorrer as pegadas de São Paulo, Bento XVI pudesse um dia ir a Jerusalém, fazendo uma etapa em Chipre.

O arcebispo ortodoxo Chrysostomos durante a procissão à Catedral de São João em Nicósia para a sua posse como novo arcebispo de Chipre, em 12 de novembro de 2006
CHRYSOSTOMOS: A Igreja de Chipre remonta aos apóstolos e conserva a sucessão apostólica íntegra. No ano de 46, Paulo e Barnabé, durante sua primeira viagem missionária, desembarcaram em Pafos, capital da então província do Império romano. Aqui, segundo os Atos, Saulo mudou seu nome em Paulo. E aqui se deu a conversão do governador romano Sérgio Paulo. Uma segunda e mais longa viagem missionária foi realizada mais tarde por Barnabé junto com o evangelista Marcos. Eles difundiram o cristianismo em toda a ilha. Por isso o apóstolo Barnabé é considerado o verdadeiro e próprio fundador da Igreja de Chipre: uma Igreja com longa tradição, um papel importante na história e muitos testemunhos antigos da cristandade. Os bispos de Chipre participaram do Concílio de Nicéia, e a Igreja tornou-se autocéfala a partir de 431. Depois do período bizantino, a ilha foi submetida a dominações estrangeiras: francos e venezianos levaram até a ilha o cristianismo latim; depois deu-se a longa dominação otomana, de 1571 a 1878, enfim os ingleses. E assim, no decorrer dos séculos o arcebispo assumiu também a função de “etnarca”, ou seja, representante da população grega da ilha diante do poder constituído. Portanto o seu papel há também um caráter político. Por esse motivo em Chipre o arcebispo é eleito diretamente pelo povo.
A que época remonta este sistema de eleição?
CHRYSOSTOMOS: O povo participa da eleição do bispo desde o período otomano, quando a Igreja ortodoxa, depois da expulsão dos venezianos, recuperou a sua autocefalia. Trata-se de um caso único também na tradição ortodoxa. A participação popular foi ulteriormente ampliada no último século. E a eleição do bispo é muito importante para a população, que assim identifica-se mais diretamente com o próprio pastor.
Isso ocorreu também por ocasião da sua eleição?
CHRYSOSTOMOS: A eleição foi realizada em 3 fases. Na primeira o povo votou, em setembro passado, 1400 representantes leigos, que por sua vez escolheram entre eles 100 delegados. Estes 100 leigos, junto com 34 membros do clero, entre os quais os bispos e os abades dos mosteiros foram chamados enfim para designar o novo pastor.
Foi este caráter popular que permitiu ao arcebispo Makarios de se colocar como chefe dos greco-cipriotas na luta pela independência?
CHRYSOSTOMOS: O arcebispo Makarios, como pai de todos, aceito por todos, guiou o novo Estado com a vontade de resolver os problemas que se criaram com os turco-cipriotas depois da independência. Sempre tentou superar estes obstáculos com a intenção de deixar o lugar para um outro mais tarde. Infelizmente muitos problemas não foram resolvidos e a última conseqüência de todo isso foi a invasão turca.
A Igreja de Chipre ainda se sente revestida por um papel político?
CHRYSOSTOMOS: Os tempos mudaram. Existe uma classe dirigente eleita pelo povo em condições de guiar o país sem necessidade de um papel de suplência da Igreja em relação às instituições. Porém a Igreja continua a representar a identidade nacional dos greco-cipriotas e se empenha para que possam viver em paz e harmonia com as minorias que vivem em Chipre, sem problemas e sem contrastes.
Hoje, o que a Igreja pode fazer para favorecer a reconciliação e a reunificação do país?
CHRYSOSTOMOS: A Igreja de Chipre reza sempre pela paz e pela concórdia entre todos. Não fazemos distinção de religião ou proveniência, sentimo-nos todos filhos do mesmo Deus. Queremos viver juntos em paz neste país. Temos certeza que, para um efetivo progresso comum, Chipre deve ser apenas um Estado, mas aceitamos a idéia de um Estado federal com um governo comum. Infelizmente a Turquia não persegue o mesmo objetivo, mas quer a criação de dois Estados separados, para tutelar melhor seus próprios interesses. O seu objetivo é o de entrar na União européia sem renunciar a Chipre. E este seu modo de “queimar” o tempo, sem jamais fazer significativos passos adiante, joga a seu favor.
No dia 30 de novembro, festa de Santo André apóstolo, o Papa encontrou em Constantinopla o patriarca Bartolomeu I. Como a Igreja de Chipre vivenciou esse evento?
CHRYSOSTOMOS: Existe uma sólida relação entre Roma e Chipre. Em 1996, quando eu era bispo de Pafos, na comemoração dos 1950 anos do desembarque de Paulo na ilha, convidei os bispos de todas as cidades assinaladas pela passagem do apóstolo. Ainda lembro com alegria o encontro que tive na ocasião com o enviado do Papa, o cardeal Cassidy. Além disso, se o túmulo de Paulo está em Roma, o seu companheiro Barnabé está sepultado em Chipre em um mosteiro que hoje, infelizmente, foi transformado em um museu, pois situa-se na parte norte da ilha. Também a relação de Chipre com a sede de Constantinopla é muito grande. Os cipriotas têm, entre outras coisas, uma profunda veneração pelo apóstolo André, mesmo tendo a passagem do apóstolo por Chipre confirmações menos garantidas do que a de Paulo. Mas essa tradição também é sinal da vocação de Chipre, que se pode considerar uma ponte entre Oriente e Ocidente.
O presidente da Grécia, Tassos Papadopoulos encontrou o Papa Bento XVI em 10 de novembro passado, presenteando-lhe com um livro que documenta o estado de degradação do patrimônio eclesial da parte norte de Chipre. Na ocasião, convidou o Papa para visitar Chipre. O que o senhor acha?
CHRYSOSTOMOS: A situação das Igrejas do norte ocupado é uma das nossas mais graves preocupações e esperamos que a Igreja Católica seja sensível ao problema e nos ajude a chamar a atenção da comunidade internacional sobre a questão e encontrar uma solução mais urgente e irrenunciável para um patrimônio de cultura e de arte que pertence a toda a humanidade. Quanto ao Papa, para nós seria belíssimo se ao repercorrer as pegadas de São Paulo, Bento XVI pudesse um dia ir a Jerusalém, fazendo uma etapa em Chipre.