ESTADO DE CRISE. Por que um país, farol de estabilidade, acaba no caos da violência
“Se o Quênia incendiar não haverá amanhã”
Konaré, presidente da União Africana, sintetizou dessa forma os riscos da crise política no Quênia, do qual também depende o destino de toda a África centro-oriental. Na opinião dos missionários católicos, deve-se perguntar quem tem interesse em desestabilizar um Estado tão importante
de Stefania Falasca

Um partidário do Orange Democratic Party com um poster do líder Raila Odinga durante os protestos no bairro de Kibera, em Nairóbi
As conseqüências econômicas no plano interno dessa obscura guerra estão se delineando enormes: dois milhões de dólares e mais de cinqüenta mil empregos foram perdidos e já iniciou a fuga de capital do país. A crise do Quênia causa irremediavelmente repercussões em cadeia sobre o desenvolvimento de toda a área da África central e oriental. Bastaram poucos dias de interrupção das atividades produtivas e de exportação para causar graves problemas aos Estados limítrofes como a Uganda, o Burundi, a Tanzânia, o Congo, o Sudão e Ruanda que ficaram sem fornecimento energético. Com efeito, há muito que as economias dos países vizinhos e a estabilidade de uma área estratégica para todo o Ocidente dependem do Quênia. É suficiente recordar que em Nairóbi as Nações Unidas, várias ONGs e muitos governos ocidentais dispõem de importantes estruturas logísticas utilizadas para intervenções em toda a África Oriental e Central, e que também boa parte das atividades informativas internacionais para esta área, além dos serviços de intelligence de vários Estados, têm sua base no Quênia. A importância do seu papel-guia no plano estratégico consolidou-se também pela sua atividade diplomática ao tentar soluções para as crises dos países vizinhos mediando entre as várias partes em guerra, como por exemplo, o Sudão, a Uganda e a Somália. O Quênia, por várias vezes, foi sede de várias negociações de paz no decorrer dos anos. “Portanto se o Quênia se transformar em um Estado frágil ou, pior, falido, a sua queda agravará inevitavelmente a instabilidade de toda a região”, observaram alguns especialistas. “Se o Quênia incendiar não haverá amanhã”, sentenciou o presidente da União Africana, Alpha Oumar Konaré. As análises sobre os motivos que abriram as portas a essa crise são várias. Uma delas as que provêm do observatório das realidades missionárias que contam com uma presença arraigada nestes territórios. “Pergunta-se antes de tudo quem tem interesse em desestabilizar um país tão importante nos equilíbrios da África Oriental, quem tem interesse em atiçar o fogo do tribalismo”, afirma Teresino Serra, superior geral dos Combonianos, que em janeiro foi a Nairóbi visitar as missões e participar de uma conferência de paz proclamada pelas Igrejas locais. “O tribalismo e as divisões étnico-políticas não são suficientes para explicar tudo o que aconteceu”, continua padre Serra. “No Quênia convivem mais de quarenta etnias. O ódio tribal nunca foi muito explorado e de modo geral a convivência é civil e pacífica. O mais evidente internamente”, explica, “é que o motivo do estouro das explosões foi uma frustração generalizada e as diferenças sociais enormes: não é um caso que tenham incendiado logo os slum de Nairóbi. Mas também foi evidente que a própria campanha eleitoral foi conduzida evidenciando as divisões étnicas e os interesses tribais. Os políticos tinham jogado esta cartada. Durante o governo de Kibaki foi retomada uma perigosa prática de favorecimento de algumas tribos. Os cargos foram monopolizados por expoentes destes grupos. O grupo de Raila Odinga percebeu que tinha sido colocado de lado e parecia que agora chegava a sua hora de governar. O seu slogan era: ‘Chegou a nossa hora’. Mas essas são apenas razões elementares”, afirma Serra. “É preciso também recordar que o principal problema do país está ligado à distribuição da terra. No Quênia, terceiro produtor mundial de flores, onde mais de dois terços do território é formado por regiões desérticas, a questão da subdivisão da terra nunca foi resolvida. Ficou nas mãos, mesmo depois do colonialismo inglês, de uma elite queniana que se apossou dela e usou-a politicamente, para comprar a oposição, por exemplo. A terra não é só de ricos quenianos, kikuyu e outros, mas também de multinacionais como a Del Monte e muitas outras. O quadro é muito mais complexo principalmente por causa dos vários interesses multinacionais que entram em jogo”. “Portanto, a matança de cristãos que matam cristãos que abalou o país” observa o padre comboniano, “só pode ser de algum modo pilotada e organizada”. Uma opinião compartilhada pelo episcopado queniano. Há cerca de 15 anos (durante os quais o país teve a sua consolidação de liderança na região), os bispos do Quênia continuam a lançar alarmes sobre a instrumentalização do tribalismo para fins políticos não só internamente. Depois das violências que estouraram em agosto de 1997, ano de eleições, Ambrogio Ravasi, na época bispo de Marsabit, no nordeste do Quênia, assim definia os combates: “São frutos do egoísmo, avidez e sede de poder. Os combates continuam impunes, mesmo sendo de modo reduzido, como se se tivessem tornado um intolerável, mas normal, modelo de vida, ou pior como se fossem resultado de alguma bem planificada estratégia satânica, dirigida por algum poder superior desconhecido, que os esforços humanos não podem controlar ou deter”. Além disso, o bispo notava que no momento em que se aproximavam as eleições aumentavam as tensões e ouvia-se “falar de combates e desordens entre os vários partidos políticos”. Em 16 de setembro de 1997, o atual arcebispo de Nairóbi, o cardeal John Njue, na época presidente da Conferência Episcopal do Quênia, publicou uma mensagem ‘profética’ na qual, falando das violências que se tinham desencadeado na província da Costa, perguntava-se se estas ‘eram um projeto piloto a ser repetido em outros lugares, em alguma parte da Rift Valley, das províncias ocidentais, orientais e de Nyanza”. As mesmas regiões que foram cenário dos recentes combates. Em agosto de 2002 por ocasião das eleições gerais, vencidas por Kibaki, os bispos tinham lançado um apelo aos políticos para fazer todo o possível para prevenir a repetição dos combates que se tinham verificado durante as eleições anteriores. “Notamos”, explicavam os bispos, “que os chamados ‘combates tribais’ iniciaram nas mesmas regiões do país já envolvidas nos conflitos de 1992. É uma coincidência? Como é possível que a população seja capaz de conviver de modo civil por um longo período de tempo e depois, sem nenhum pré-aviso, desabe na violência? Como é possível que os jovens desempregados nas zonas urbanas, em particular de Nairóbi, pareçam tão facilmente organizáveis e mobilizados para causar desordens?”
“A Igreja Católica não tem outro