Sudão, como teria agradado a Dom Bosco...
A pequena presença salesiana no Sudão. Entre Providência e favores inesperados do poder local
de Davide Malacaria

Os jovens que participam dos cursos de formação profissional dos salesianos no Sudão
Em 1986 abrem em Cartum a escola profissional São José. Um Centro Técnico que atrai estudantes de todas as partes, a ponto que, logo depois da abertura chega a contar com 900 inscritos enquanto continua o afluxo de pedidos de admissão... Por isso decidem abrir uma outra escola, na periferia da capital. Tudo isso com a bênção do governo. O próprio presidente, Omar al-Bashir, quis se encontrar com o representante da Congregação no Sudão, o salesiano leigo Giacomo Comino – Jim, como é chamado por aqui – para oferecer uma área sobre a qual edificar. Mas o projeto não se realiza. Foi então que chegou uma carta inesperada, assinada pelo vice-governador do Estado e Kordofan Setentrional. Com o seguinte texto: “Iniciou o ano de 2000. Cristãos e muçulmanos devem se unir no esforço de cooperarem para o bem público. Convidamos vocês a construírem o seu Centro Técnico na capital do Kordofan Setentrional, em El Obeid”. E assim a nova escola, dedicada à primeira santa sudanesa, Josephine Bakhita, nasce na parte setentrional do Sudão, por expressa vontade da autoridade local, de religião muçulmana. “Foi a Providência a nos levar para lá”, explica padre Vincenzo Donati. “El Obeid está relativamente perto de Darfur e quando se tratou de realizar uma intervenção em favor dos jovens que sofrem por causa deste novo conflito, foi natural usar esta nova estrutura”.
Nos campos-prófugos encontram refúgio as mães, os jovens e as crianças. São poucos os homens, porque são recrutados em alguma milícia ou foram para longe por trabalho, e também são poucos os rapazes. Segundo o padre Vincenzo estes últimos são a categoria que corre mais riscos, porque a forçada inatividade leva-os a agregarem-se em alguma milícia, na qual teriam, pelo menos, a comida garantida. Por isso surgiu a idéia de dar-lhes alguma formação, para ajudá-los a encontrar um trabalho. Uma idéia acolhida com favor pelos refugiados: o Centro “Josephine Bakhita” no primeiro ano contou com a freqüência de sessenta jovens, no segundo cento e vinte e no terceiro cento e setenta e cinco e no ano letivo 2007-2008, foram quatrocentos. Como a escola não conta com um internato, os estudantes alojam-se em casas particulares pagando aluguel. Padre Vincenzo é quem coordena o projeto e explica: “Os jovens passam o dia todo nas oficinas, onde podem escolher entre seis cursos: mecânica, soldadura, eletricidade, construção, marcenaria, encanamento. Eles logo sentem-se atraídos pelo ambiente. O segredo é o que Dom Bosco chamava “sistema preventivo”, que se resume em três palavras: ‘razão, carinho e religião. Sim, também a religião: há um professor de Alcorão para a maioria dos alunos, constituída por muçulmanos, enquanto que aos poucos cristãos ensina-se o Evangelho. Eu vivo com eles como em uma grande e alegre família. Além do estudo, há momentos de lazer: esporte, música, passeios... No final do curso recebem um diploma e, para facilitar a busca de um trabalho, também uma caixa com ferramentas. Quanto retornam aos campos-prófugos para rever suas famílias, são acolhidos com triunfo. A entrega do diploma e da caixa de ferramentas acontece exatamente aqui, nos campos, na presença do chefe da tribo. ‘Só Dom Bosco pensou nos nossos jovens’, ouvi que diziam os chefes, sublinhando sua satisfação...”. Logo também as irmãs salesianas entrarão nos campos-prófugos, para se dedicarem às mães, às jovens e às crianças. “E tudo isso é apenas uma gota de bondade no meio de tanta desolação”, repete padre Vincenzo. “Somente a oração pode salvar o Darfur”.
Graças a Deus não há somente a guerra. No sul, onde a frágil paz de 2005 ainda se mantém, os salesianos estão realizando algumas novas iniciativas. “Antes de iniciar as nossas intervenções elaboramos um Country strategy paper, analisando de maneira aprofundada a situação política, econômica e social do país”, explica Massimo Zortea, presidente do Vis (Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento), o organismo não governamental promovido pelos salesianos que, desde 2006, atua no Sudão e coordena as iniciativas de apoio por parte de todo o ‘Dom Bosco Network”, a rede internacional de ONGs salesianas para o desenvolvimento. “Este modus operandi permite-nos sermos diretos, ou seja, efetuar intervenções que se tornem motores de transformação de uma determinada realidade sócio-econômica. O problema do sul do Sudão é a grande desagregação dos vilarejos. Vistos do alto, a área aparece como uma série de casas afastadas umas das outras: um modo de oferecer menos pontos de referência aos bombardeios no tempo de guerra, mas também com a conseqüente desconfiança difusa entre as populações, onde ninguém confia em ninguém. Por isso, trata-se de reconstruir a confiança recíproca, a possibilidade de agregação social da qual possa nascer uma ‘polis’. A partir desta idéia nasceu um projeto, já financiado para realizar dez escolas rurais, organizadas em três edifícios. A outra intervenção refere-se à promoção do papel da mulher através da sua alfabetização e organização de grupos de mulheres, para poder capacitá-las em garantir a subsistência alimentar a todo um vilarejo e, porque não, ativar um possível comércio de produtos agrícolas. Em muitas áreas do sul não existe comércio nem rede de distribuição, por isso consideramos importante uma intervenção deste tipo, valorizando ao máximo o papel da mulher. Todos estes projetos serão feitos com o pessoal local, formados por nós, pago e acompanhado, porque queremos que sejam eles os protagonistas destas intervenções”.
Uma pequena gota de caridade em um mar de desolação, claro. Mas na ardência uma só gota já refresca. m">