São Paulo, um judeu em Cristo
Entrevista com Romano Penna sobre a atualidade de algumas das temáticas do Apóstolo das Gentes: a justificação, a conversão, a missão
Entrevista com Romano Penna de Lorenzo Cappelletti

Mosaicos da Capela Palatina (século XII), em Palermo; São Paulo, detalhe
Nós o encontramos às vésperas do início do Ano Paulino, que o papa Bento XVI abriu solenemente na festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo, em 29 de junho.
Já houve quem escrevesse, de maneira polêmica, que o verdadeiro inventor do cristianismo não teria sido Jesus, mas São Paulo.
ROMANO PENNA: É uma polêmica paradoxal, mas, de qualquer forma, são interessantes as razões que induziram alguns estudiosos a definir Paulo dessa maneira. A primeira delas é que, entre o Jesus terreno e Paulo, dá-se o evento pascal, que teve influência sobre a mensagem, sobre a formulação evangélica das primeiras comunidades cristãs. Jesus, ao longo da vida, não falou muito de sua morte e ressurreição. Ele pregava o reino dos céus. Mas, depois da Páscoa, o destino e o itinerário pessoal de Jesus passaram a fazer parte do coração do anúncio de seus discípulos. Estes se referem a Ele não apenas como mestre e profeta, alguém que eventualmente poderia ser reduzido ao esquema israelita daquela época (como fazem nossos irmãos judeus, que gostam de dizer que Paulo é o inventor do cristianismo), mas inserem a figura de Jesus no quadro histórico-salvífico, digamos, já maduro, no qual a figura de Jesus transforma-se na do Crucificado ressuscitado com uma certa destinação: para os outros. Portanto, entre Jesus e Paulo existe a Igreja, a comunidade cristã primitiva. A primeira comunidade cristã já define Jesus como aquele que “morreu por nossos pecados”. Paulo não inventa nada; ele é, em primeiro lugar, uma testemunha da Tradição. Não faz outra coisa a não ser retomar uma tradição pré-paulina, quando, por exemplo, diz os Coríntios: “Com efeito, transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras...” (1Cor 15, 3ss). A outra razão que devemos levar em consideração para explicar a definição de Paulo como inventor do cristianismo é sua efetiva originalidade, e, digamos também, genialidade, no modo como enfrenta a hermenêutica do evangelho.
Se fosse possível expressar a genialidade de Paulo numa única palavra, qual seria?
PENNA: Essencialmente, Paulo se destaca nas origens do cristianismo pela mensagem da justificação baseada na fé. O homem passa a ser justo diante de Deus, é considerado justo por Deus e, digamos, até santo (basta lembrar que Paulo, quando fala dos fiéis, chama-os santos não menos que vinte e cinco vezes em suas cartas), não graças a um aporte autônomo à própria santidade, mas pela acolhida humilde e também cheia de alegria de uma intervenção ab extra, a intervenção de Deus, em Jesus Cristo. É isso que torna o homem justo, ou seja, a aceitação, por fé, daquilo que Deus realizou para mim. Nas origens do cristianismo, esse não era um ponto pacífico. A fé em Jesus Cristo como Messias e até como Filho de Deus era bem aceita, mas o chamado filão judeu-cristão, sobretudo, fazia a fé em Jesus Cristo coexistir com um aporte pessoal. A Carta de Tiago (Tiago é um expoente dessa corrente) diz claramente que o homem não é justificado apenas pela fé. E o exemplo que dá é a oferta de Isaac em sacrifício por Abraão, invertendo, porém, a ordem das páginas bíblicas. No Gênesis, o sacrifício de Isaac se encontra no capítulo 22, portanto depois do capítulo 16, no qual já se havia dito que Abraão acreditou, que foi justificado pela fé, fato que Paulo cita no capítulo 4 da Carta aos Romanos. Sendo assim, essa justificação não é condicionada pelo exercício factivo da obediência, narrado depois no capítulo 22 do Gênesis. No fundo, o ponto de vista judeu-cristão consiste nessa inversão.

O batismo de São Paulo
PENNA: Se nos prendermos aos textos, veremos que Paulo não conhece o adjetivo “cristão”, que de fato ainda não existia na sua época. Sabemos, por Lucas, que os discípulos foram chamados cristãos em Antioquia; mas Atos 11, 26 é anacrônico, antecipa esse fato para os anos 30. Na realidade, Paulo não conhece esse adjetivo. Ele se considera judeu, é um judeu em Cristo. É por isso que nunca emprega o léxico da conversão. Paulo não é um convertido. O judeu não se converte. Uma frase célebre de Eugenio Zolli, rabino de Roma batizado após a Segunda Guerra Mundial, diz: “Eu não sou um convertido, sou alguém que chegou”; é que o convertido é aquele que dá as costas a seu passado, ao passo que o judeu não dá as costas, simplesmente segue em frente. É claro que Paulo teve um momento de passagem. Isso é mostrado por Filipenses 3, 7: “Mas essas coisas, que eram vantagens para mim, considerei-as como perda, por causa de Cristo”. Em que consistiriam as vantagens? Na adesão farisaica (não no sentido vulgar) à Lei, ou seja, na adesão total, completa, à Lei, a ponto de considerá-la condição do próprio fato de ser justo diante de Deus. Paulo superou isso. Mas Israel continua a ser sempre seu ponto de referência. Basta voltarmos aos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos: os gentios são enxertados em Israel; a planta é santa se a raiz é santa (cf. Rms 11, 16ss). Nós vivemos de uma santidade derivada; ela não é primária, mas secundária, e isso justamente do ponto de vista histórico-salvífico. Eu sempre digo que o cristianismo é simplesmente uma variante do judaísmo, e tenho pena daqueles que polemizam com Israel ou chegam, até, como lemos nos jornais, a cometer atos de vandalismo: eles não entenderam nada do que significa ser cristão.
Sempre me impressionou o versículo 3 do capítulo 6 da Carta aos Efésios, no qual “o mistério revelado” parece consistir no fato de que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho”. Quase poderia Nessa passagem se dá uma distinção clara: uma vez que Pedro, João e outros se dirigem aos circuncisos, eu – diz Paulo – e Barnabé iremos aos gentios. Paulo se caracteriza justamente por isso. Ele deu a vida por isso. Foi incompreendido essencialmente por isso. Por essa sua abertura, foi hostilizado – nessa mesma carta, ele fala de adversários –, não tanto pelos judeus, mas pelos judeu-cristãos. “Nós não somos filhos da escrava, mas da liberta”, diz Paulo na mesma carta (cf. 4, 31), referindo-se às duas esposas de Abraão; e os cristãos a quem escreve, os gálatas, são pagãos, não judeus. A grande coisa que Paulo faz não é descolar o evangelho de Israel, mas abrir, a todos os homens fora de Israel, as características que são próprias de Israel, ou seja, o fato de ser o povo de Deus, o povo da Aliança (Paulo usa mesmo a palavra povo). Assim, em Romanos 9, 25, ele cita um texto polêmico do profeta Oséias (“Chamarei meu povo àquele que não é meu povo”), e o relaciona aos gentios, aos pagãos, a todos nós, a todos aqueles que não são de origem judaica. Essa é a operação realizada por Paulo, tanto no plano hermenêutico quanto no missionário; pois tudo isso, no fim das contas, significa uma dedicação ativa, concreta, a todas as cidades fora de Israel a que Paulo se dirige. Ele não prega em Israel. E em Atenas, por exemplo, onde é que prega Jesus Cristo? Na ágora, na praça, e no Areópago, onde entra em contato com a sociedade viva da época, fora da atmosfera protegida dos lugares religiosos. Ele se interessa pelos que estão distantes, distantes em relação a Israel, como lemos em Efésios 2, 13. Diz o autor: “Vós, que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos”. Os distantes, os outros, aqueles que para Israel são os outros, os diferentes, o não-povo, as gentes (em Israel, era tradicional distinguir “o povo” das “gentes”): é a estes que Paulo se dedica. Essa é sua grande operação. Poderíamos dizer mesmo que, aos olhos de Paulo, Jesus Cristo representa pura e simplesmente a eliminação da distância entre os gentios e os judeus. São Paulo tem muito a dizer sobre todos os muros que são erguidos.
Mas é estranho que São Paulo não tenha conservado nenhuma palavra de Jesus relativa ao mandato missionário, embora, na tradição protocristã, haja múltiplos testemunhos desse gênero.
PENNA: O início da consciência missionária da Igreja é um problema complexo, pois, em primeiro lugar, precisamos nos perguntar se o Jesus histórico alguma vez chegou a anunciar um mandato missionário, sendo que o contrário é que é muito claro: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel”, diz Jesus (cf. Mt 10, 6 e 15, 24). O próprio Jesus, por toda a sua vida, ficou sempre dentro dos limites de Israel; nunca fez como Jonas, que foi a Nínive. Jesus não foi nem a Nínive, nem a Atenas, nem a Roma, nem a Alexandria do Egito, por mais que esta última fosse bem perto. Portanto, é preciso explicar como foi que a Igreja, depois da Páscoa, se sentiu investida do anúncio às gentes (não de imediato, é bom que se diga, uma vez que, em Atos 10, Pedro vê como problema o fato de ter de batizar o centurião Cornélio: evidentemente, isso não estava na consciência apostólica primitiva). Não é para menos que as palavras que lemos no final do Evangelho de Mateus: “Ide ao mundo inteiro, batizai todos os povos” (cf. Mt 28, 19s), são do Jesus ressuscitado, não do Jesus terreno. Portanto, existe uma hipótese de que sejam palavras redacionais, do evangelista ou de sua Igreja, uma Igreja judeu-cristã que experimentou dificuldades para chegar, depois, à abertura da Igreja antioquena, que efetivamente teve esse passadouro. Paulo não podia, portanto, citar palavras do Jesus terreno acerca da necessidade da missão. Mas, se observarmos o capítulo 9 dos Atos, o primeiro relato do encontro na estrada para Damasco, veremos que Jesus lhe diz: “Serás testemunha de mim perante os reis, ante os poderosos da terra...”. Sua vocação é pessoal, compartilhada por Barnabé e por uma série de colaboradores que o cercam: Timóteo, Silas, Apolo, Tito e todos aqueles que ele menciona no capítulo 16 da Carta aos Romanos, “que se afadigaram no Senhor”, que se dedicaram ao evangelho, à missionariedade. Mas, enfim, que significa missionariedade? Significa ter levado a sério a fé no Ressuscitado, pois foi o Ressuscitado quem derrubou as margens, foi a Páscoa que derrubou as margens e realizou uma... façanha, deu um impulso...

São Paulo em Damasco
PENNA: É isso mesmo. Quem mais percebe o valor prorrompente da Páscoa mais sente essa necessidade da missão. É assim que as coisas são. Paulo não diz nada a respeito do Jesus terreno, mas só do Crucificado ressuscitado. A cristologia de Paulo é toda centrada no evento pascal, nas duas faces do evento pascal, a cruz e a ressurreição, em que ele percebeu essa coisa prorrompente, eu dizia, que supera as fronteiras de Israel. Além de tudo, mais tarde se tornou tradicional também, nos escritos judeu-cristãos não paulinos, a consciência de que Jesus veio para abolir os sacrifícios. Se Ele veio para abolir os sacrifícios, isso significa que sua identidade ultrapassa as liturgias realizadas nos templos, é algo que está fora da categoria do sagrado, algo aberto ao profano – usemos essa categoria –; e o profano se encontra por toda parte, é sobretudo aquilo que está fora de Israel, de Israel enquanto povo santo (algo que “os outros” não são). Foi justamente para esses “outros” que Paulo percebeu estar destinado o evento pascal.
Para concluir, o que este Ano Paulino deve apresentar como a maior atualidade da figura e da mensagem de Paulo, na sua opinião?
PENNA: Uma mensagem de essencialidade, a redução do cristianismo ao que é essencial: a adesão pessoal a Jesus Cristo. Nada mais que isso; e nesse “mais” devemos pôr tudo e todos, dos anjos para baixo. O espaço entre o homem e Deus é preenchido por Cristo e por nenhum outro. Pois estar em Cristo (afinal, esta é a linguagem paulina: “Estar em Cristo”, ou “no Senhor”) significa estar em Deus. Uma redução à essencialidade, portanto, que implica podar várias coisas, ao menos no sentido do juízo de valor que se deve dar. Dizer Paulo significa dizer Jesus Cristo. E isso também do ponto de vista eclesial, institucional. É claro que, no tempo de Paulo, a Igreja era extremamente ágil como instituição, até porque não tinha a carga que lhe seria trazida pelos séculos seguintes. Mas era muito leve sobretudo porque a identidade eclesial do cristianismo era entendida como sermos todos irmãos (um termo que aparece 112 vezes no Corpus paulinum!), estarmos todos no mesmo plano. Talvez, inclusive, aqueles que se dedicam ao serviço estejam abaixo. Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo diz: “Pois, o que é Apolo? O que é Paulo? O que é Cefas? Ministros vossos... Tudo é vosso: Paulo, Cefas, o mundo, a vida. Mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (cf. 1Cor 3, 5ss). Não existe uma linha que vá do alto para baixo, mas de baixo para o alto. “Tudo é vosso”... Vós estais acima dos ministros, no sentido de que os ministros fazem parte da comunidade. É claro que a comunidade cristã não é um molusco, é vertebrada, mas o importante, na Igreja, não são os ministros, são os batizados; e os ministros são importantes na medida em que são também batizados. Eu não gostaria que me entendessem mal. Paulo tem plena consciência de que a existência de ministros é importantíssima, para não dizer essencial. Basta lembrarmos de quando fala da Igreja como um corpo estruturado (cf. 1Cor 12, 12ss).