Quando tudo se torna simples como uma oração
Paris, Lyon, Rennes, Ars. Viagem pelo catolicismo da França
de Gianni Valente
![Crianças participam da missa de Natal na igreja de Notre-Dame Saint-Vincent, em Lyon, em 24 de dezembro de 2008 [© Ciric]](/upload/articoli_immagini_interne/1238580346354.jpg)
Crianças participam da missa de Natal na igreja de Notre-Dame Saint-Vincent, em Lyon, em 24 de dezembro de 2008 [© Ciric]
“A Fé”, diz Deus, no Mistério dos Santos Inocentes, de Charles Péguy, “é uma igreja, uma catedral radicada no solo da França. [...] Mas, sem a Esperança, tudo isso nada mais seria que um cemitério”. A catedral deserta parece uma imensa relíquia pronta a mergulhar, com toda a sua história, na noite fria que se aproxima. Mas eis que chega Pierre, de pele bem morena, que se põe a sussurrar as ave-marias de seu rosário diante do altar. Ajoelhado, como o rei da estátua atrás dele, que mal vislumbramos na escuridão da nave. (“Todas as prosternações do mundo”, diz Deus, segundo Péguy, “não valem o mais belo ajoelhar-se de um homem livre. [...] Quando São Luís cai sobre as lajotas do pavimento da Sainte-Chapelle, de Notre-Dame, é um homem que cai de joelhos, não um trapo, não um farrapo, não um escravo trêmulo do Oriente”). Depois de Pierre, chegam outras pessoas: dez, vinte, cem. Rápidos e silenciosos sinais da cruz, algumas preces antes da missa da noite, celebrada por padre Jean Baptiste, vietnamita. Muitas dessas pessoas são imigrantes “negros” dos subúrbios. São poucos, mas estão ali. E ninguém os “mobilizou”. Eles vão para lá sozinhos. Uma individualidade sem mandato.
![Jesus com três apóstolos, vitral da Catedral de Chartres [© Ciric]](/upload/articoli_immagini_interne/1238580541135.jpg)
Jesus com três apóstolos, vitral da Catedral de Chartres [© Ciric]
Dizem que na França acabou tudo. A Igreja está em estado de decomposição; o cristianismo, em via de extinção. Intelectuais católicos carrancudos escreveram sobre isso mesmo nos dias que antecederam a visita do Papa, em setembro passado. Mas, se num domingo você entrar na igreja dos lazaristas, onde as pessoas podem ver o corpo de São Vicente de Paulo, encontrará centenas de pessoas em fila para a comunhão, muitos delas subindo as escadas para rezar diante do santo que “passou a vida fazendo o bem”, como diz a inscrição latina do arco acima do altar. Lá perto, a capela de Notre-Dame de la Médaille Miraculeuse, mantida pelas irmãs de São Vicente, está fechada para reformas até abril. Quando a reabrirem, recomeçará o fluxo silencioso de peregrinos e penitentes que nunca deixa de animar as calçadas da rue du Bac. Até mesmo em Saint-Ignace, na rue de Sèvres – com o altar no centro e os bancos dispostos ao redor, plenamente alinhada aos clichês de estilo pós-conciliares –, as cultas liturgias eucarísticas dos jesuítas registram centenas de fiéis a cada missa. “Em Paris, não param de ser inauguradas novas paróquias: foram no mínimo dez, nos últimos anos, só na parte velha da cidade”, explica padre William Jean, pároco da Basílica de Saint-Séverin, perdida no emaranhado de vielas e restaurantes para turistas do Bairro Latino. Satisfeito, ele nos dá o perfil de sua igreja, bem diferente de um lugar deserto: 1.500 fiéis nas missas dominicais, repletas de música sacra barroca; um ambiente intelectual médio-alto; no mínimo cinquenta paroquianos que vão à missa todos os dias. E todo santo dia, das 5 às 19h, há algum padre na igreja para confessar, “e as pessoas estão sempre aí, todo tipo de gente, inclusive os sans-papiers que trabalham nos restaurantes próximos”. Saint-Séverin experimentou os prenúncios da reforma litúrgica conciliar, com as primeiras missas celebradas ad experimentum em francês, já em 1954; foi Saint-Séverin que acolheu os paroquianos “fugitivos” de Saint-Nicolas, quando, em 1977, essa igreja “irmã” (as duas constituíam uma só paróquia) foi tomada à força pelos tradicionalistas lefebvrianos. Houve conflitos físicos, pessoas acabaram no hospital. “Eu temia que a revogação do decreto de excomunhão pudesse reabrir velhas feridas e levar à eclosão de novos conflitos. Em vez disso, muitos paroquianos acolheram bem as decisões do Papa”, garante padre William. “Eles me dizem sempre que, para eles, hoje, o diálogo e a reconciliação são possíveis”. Mas é nas grandes paróquias populares, das regiões suburbanas lotadas de imigrantes, que o dominicano Jean-Miguel Garrigues – um observador lúcido e não conformista dos acontecimentos da Igreja francesa – vê os fatos mais interessantes: “Lá existe um povo com uma fé muito simples, que muitas vezes nem participa das organizações paroquiais. Eles visitam os lugares de peregrinação, são apaixonados pelos santos franceses, dão uma passada na igreja para rezar, mas às vezes nem participam da missa, ou não ouvem as homilias, porque as acham muito complicadas. A Igreja francesa, nas últimas décadas, talvez tenha sacrificado esse cristianismo popular, enquanto todos buscavam um ‘cristianismo adulto’. Mas, hoje, boa parte dessa gente vem da globalização. São muitos, não param de aumentar, e mesmo quando se tornam franceses conservam sua sensibilidade própria. Com o tempo, isso terá suas consequências”.
Como fazem todas as noites, os miseráveis de Paris põem-se em fila para tomar sua Soupe Saint-Eustache, diante da paróquia dos oratorianos, perto de Beaubourg. São centenas de clochard e beberrões, mas não só isso. Há também grupos de jovens imigrantes, velhinhas, famílias inteiras. Com a crise – dizem os voluntários –, já aumentou o número de refeições distribuídas. Está para nevar. A ponta da Torre Eiffel está envolta em nuvens baixas. No Sena, passam os barcos carregados de sal. “A Caridade”, escreve Péguy, “é um hospital, um abrigo que acolhe todas as misérias do mundo”.
rc;s, entre maio e setembro, quando, pelo menos uma vez por ano, todos aqueles que desejassem – e eram sempre muitos: empregados e proprietários, marinheiros e donas de casa, cultos e ignorantes – se encontravam na capela mais próxima, se confessavam com o padre e depois perdoavam também uns aos outros as ofensas e os gestos de má vontade que haviam trocado ao longo do ano que passara. As dioceses bretãs também saíram arrasadas do desbastamento forçado da memória cristã que se seguiu à Revolução. Mas, depois, a “civilização paroquial” da Bretanha floresceu outra vez, mais robusta do que antes, embebida da devoção aos Corações de Jesus e de Maria, cheios de bondade e misericórdia pelos pecadores, como sempre lembrava o santo bretão Luís Grignon de Montfort. Até meados do século passado, a atividade foi intensa: palavras e obras, missões quaresmais para despertar os corações mais tímidos e semanas sociais para não perder contato com as massas camponesas. Congressos marianos e bênçãos do mar. Seminários, igrejas e escolas católicas erguidas por um impulso potencializado pelo sentimento de revanche contra o Estado “padrasto”, que, com a Lei de Separação de 1905, cortara todos os financiamentos a atividades eclesiais e se apossara dos bens da Igreja. Mas eis que, em poucas décadas, todo esse movimento pareceu evaporar. Na França, antes de outros lugares, já era visível entre as duas grandes guerras que as antigas terras cristãs da Europa tinham voltado a ser terra de missão. Já a partir da metade do século passado, todas as experiências eclesiais – desde a Action Catholique até os padres operários, passando pela Jeunesse Ouvrière Chrétienne (JOC) – eram marcadas por uma tentativa – generosa, ao menos como movimento inicial – de testemunhar Cristo dentro de um mundo em agitação.
Hoje, na Bretanha, a trajetória dessa grande mutação também pode ser medida por números de causar vertigens. A região de Léon e Quimper era chamada de la terre des prêtres, a terra dos padres. Ainda na década de 1960, as dioceses da Bretanha tinham mais de mil padres, e outros mil sacerdotes bretões estavam espalhados pela França e pelo mundo inteiro, em terras de missão. Hoje, o clero da Bretanha tem um total de 307 sacerdotes, a maioria com mais de sessenta anos, e uma média de cinco seminaristas por diocese. Aqui também, como em toda a França, ocorre a fusão de paróquias, que são entregues a párocos “itinerantes” que dividem seu tempo e suas energias entre as diversas comunidades paroquiais.
No seminário Saint-Yves de Rennes, o reitor Gérard Le Stang ocupa uma posição privilegiada para discernir com seu olhar lúcido coisas antigas e novas. Ele não minimiza nem censura o que foi feito de errado, o naufrágio das boas intenções ou os efeitos da “amnésia coletiva” (“em certo sentido, continua a ser um mistério”) que em poucos anos transformou em fantasia do passado os velhos slogans em dialeto bretão que fundiam Feiz ha Breiz, Fé e Bretanha. Mas padre Le Stang registra também, com serenidade e sem triunfalismo, o que discretamente acontece de bom na trama ordinária das circunstâncias tais como são dadas. São fatos imprevisíveis, que, justamente por ocorrerem numa terra árida, mostram com maior evidência sua feição gratuita e germinal. Ele nos fala dos padres mais idosos, “que cresceram seguindo o modelo um pouco cerebral do ver-julgar-agir dos movimentos da Ação Católica, que na década de 1970 se sentiam na vanguarda do novo e hoje são trocados pela fé simples dos imigrantes que voltam a se enxergar como paroquianos”. Padre Le Stang nos fala das capelas desertas, em bairros envelhecidos, que de repente começam a organizar cursos de catecismo para dezenas de jovens e adultos que pedem o batismo. Fala de “jornadas do perdão”, que voltam a ocorrer nas paróquias, baseadas no modelo dos antigos Perdões, “depois de o sacramento da confissão ter quase desaparecido por um longo tempo”. Padre Le Stang, sobretudo, procura desenhar o futuro olhando para os jovens de seu seminário. Se, no século passado, as legiões de padres bretões eram formadas quase apenas de filhos de camponeses, hoje os 34 seminaristas de Saint-Yves são uma imagem do novo mosaico francês: ex-comunistas, ao lado de membros das novas comunidades carismáticas; jovens que reencontraram a fé descobrindo as peregrinações tradicionais às sete catedrais da Bretanha, ao lado de haitianos e vietnamitas que vão se tornar párocos em cidadezinhas de onde antigamente partiam missionários franceses para as terras de além-mar; gente oriunda de sólidas famílias católicas tradicionais, ao lado de filhos de divorciados ou de pessoas que há muito tempo voltaram as costas à Igreja e sofrem como uma desgraça o fato de terem um filho padre. “Em muitos desses seminaristas”, observa o reitor Le Stang, “existe uma necessidade quase física de continuar a ser simples. O fato de serem e se dizerem cristãos já é um milagre; não é preciso inventar outro. Eles percebem uma correspondência instintiva com tudo o que é elementarmente Igreja, com aquela maneira de viver a Igreja descrita nos Atos dos Apóstolos. Quando pensam em seu futuro, não se imaginam como grandes líderes de superparóquias. O que esperam em seu íntimo é fazer coisas simples: orações, missas, sacramentos, ensinar a fé dos Apóstolos. Mesmo que venham a ser padres ‘itinerantes’, não querem que sua dedicação se perca num humanismo vago e distante”. Até mesmo a decisão do Papa de revogar a excomunhão aos bispos lefebvrianos, que em outros lugares foi recebida com perplexidade e polêmicas, não perturbou os jovens que se preparam em Rennes para se tornar padres. “Para eles”, conta o reitor, “o desejo de unidade do Papa é uma coisa boa. De qualquer forma, eles veem esse gesto como o fim de um episódio do passado, que já não os toca tanto. Eles não consideram o Concílio Vaticano II o evento central de sua vida cristã. Nasceram e cresceram na Igreja do pós-Concílio, e não enxergam toda a história anterior como um esqueleto que precisa ser escondido no armário...”. Ali perto, na cozinha do refeitório, Tanguy, Jean e outros dos jovens de que fala padre Gérard lavam e enxugam às pressas os pratos e talheres do almoço. Eles estão a poucos minutos de se espalhar pelas paróquias de Rennes, como fazem todos os sábados à tarde.
![A igreja de Saint-Eustache, no bairro parisiense Les Halles [© Ciric]](/upload/articoli_immagini_interne/1238580541245.jpg)
A igreja de Saint-Eustache, no bairro parisiense Les Halles [© Ciric]
Em 1948, havia mais de 42 mil sacerdotes franceses. Em 2007, esse número caiu para menos de 20 mil, com idades superiores a sessenta anos. Em 1996, havia ainda 1.050 seminaristas em toda a França; hoje, são 741. O número de ingressos no seminário chegou ao nível mais baixo em 2002 (116), pouco tempo depois de ter passado a onda de euforia do Grande Jubileu em toda a Igreja; em 2008, foram 139 novos candidatos. Em 2007, 50 dioceses da França não registraram nenhuma ordenação sacerdotal e, em 24 dioceses, houve uma única ordenação.
Há quem tenha visto essa mudança nos números como uma oportunidade para caminhar “para um novo rosto da Igreja”. É esse o nome da série de livros em que o arcebispo Albert Rouet e seus colaboradores celebram o “modelo Poitiers”, experimentado durante doze anos na diocese de Santo Hilário, que busca a “organização de comunidades locais”, nas quais “os leigos têm um grande papel” e “os padres já não aparecem como um agente centralizador, mas, sim, como uma fonte de confiança”. É um plano de trabalho que se inspira na constatação, que todos podemos compartilhar, de como hoje, na França, parece mais evidente a antiga máxima de Tertuliano que dizia que “nós não nascemos cristãos, nos tornamos”, e que a fé – como nota o vigário episcopal Jean-Paul Russeil – “não tem o mesmo caráter de uma posse óbvia, de uma vantagem adquirida”. Mas esse levantamento das circunstâncias, em vez de sugerir uma simplificação libertadora, soluções elásticas e provisórias favorecidas pelos tempos de penúria, parece complicar-se num labirinto de novas competências que precisam ser distribuídas entre os vários times de leigos “profissionalizados”: equipes e conselhos pastorais, setores, grupos de animadores, eleições de representantes. Em meio a tudo isso, a vida dos cristãos parece um pouco o resultado de uma atividade, uma ocupação para pessoas iniciadas, ou uma questão de técnica, de engenharia genética aplicada aos métodos pastorais, para selecionar novas nomenclaturas leigas e democráticas, em lugar das formadas pelas cúpulas clericais. É uma maneira de viver a Igreja que não deixa de suscitar críticas: “Eles enfrentam a crise das vocações sacerdotais seguindo apenas critérios racionais e funcionais, e com isso correm o risco de pecar contra a esperança: é o Senhor que constrói a Igreja, não nós, com os nossos programas”, observa Marc Aillet, jovem bispo de Bayonne. Enquanto isso, na França, outro clichê parece destinado também a desaparecer: inaugurado em meados da década de 1980, ele dizia que a única resposta eficaz ao deserto da descristianização eram os novos movimentos e as novas comunidades. “Pequenas ilhas de Igreja perfeita, e ao redor o cristianismo vai-se embora, desaparece”, diz sem rodeios Gérard Le Stang. Ao mesmo tempo, o dominicano Garrigues nota que as novas comunidades “continuam a ser uma parte mínima da Igreja”; ele diz se sentir incomodado com os “anúncios que de tempos em tempos se repetem de primaveras eclesiais sob a responsabilidade das vanguardas militantes”, que cadenciaram as últimas décadas, ou com uma certa retórica da Nova Evangelização, que se degradou em “gosto pelo sensacional e pelo espetacular”, ou em “exploração das técnicas de pressão mundana para condicionar os fiéis”. E constata, enfim, que “foi a formação rígida e tradicionalista de antes do Concílio que produziu os padres contestadores de 1968, e, hoje, o mesmo pêndulo oscila em sentido oposto, inspirando novos conformismos, numa atmosfera que me faz lembrar o desfile de cardeais e prelados no filme Roma, de Frederico Fellini”. Mesmo os bispos mais abertos às novas comunidades falam com sobriedade de suas simpatias: “Na Igreja”, diz dom Aillet, “todo carisma pode encontrar seu espaço. Os movimentos e as novas comunidades são uma resposta transitória, que pode dar sua contribuição às paróquias, em que o povo de Deus se reúne ordinariamente”. Guy-Marie Bagnard, bispo de Belley-Ars, concorda: “Não é que os movimentos não sejam úteis. Mas, se faltasse hoje na França tudo o que acontece na vida ordinária das paróquias, sem nenhum barulho, o cristianismo desapareceria”.
![A casa paroquial do Cura d’Ars [© Danièlle Bouteaud/Sanctuaire d’Ars]](/upload/articoli_immagini_interne/1238580541307.jpg)
A casa paroquial do Cura d’Ars [© Danièlle Bouteaud/Sanctuaire d’Ars]
Ars não é um lugar para agitações. Poucas casas, mergulhadas num campo tranquilo, as carmelitas, o convento das clarissas, a estrada que faz a curva ao redor da igreja do Cura Jean-Marie Vianney, santo padroeiro dos párocos. Lá dentro, quase sempre há alguém. As pessoas chegam sozinhas, em pequenos grupos, em comitivas. Um fluxo contínuo e discreto. Quase meio milhão de peregrinos por ano, “a cada ano um pouco mais, e, entre eles, mais de oito mil sacerdotes”, acrescenta padre Jean-Philippe Nault, jovem reitor do santuário. Esse aumento tem-se registrado nos últimos tempos, depois que, por décadas, São João Maria Vianney parecia ter caído no esquecimento. Na década de 1980, nasceu a Société Jean-Marie Vianney: padres que não querem ter nenhuma espiritualidade particular, a não ser a que vem da própria ordenação sacerdotal, para a salvação das almas. Este ano, jubileu dos 150 anos da morte do santo, o “programa” é sempre o mesmo. Sem horário, na igreja é sempre possível confessar e celebrar missa, “pousar o peso dos próprios pecados e saborear um gole de misericórdia. A qualquer hora, das seis e meia da manhã até a noite”. Dentro de pouco tempo, abrirão uma capela para a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento. Foi o povo da cidadezinha que pediu. Há dez anos – conta padre Nault – nem era possível imaginar uma coisa dessas.
Quando Jean-Marie chegou à cidade, em fevereiro de 1818, a Igreja da França saía das ruínas da Revolução. A paróquia de Ars era como uma terra desolada. “E ele fez apenas o que qualquer padre, normalmente, pode fazer: oração, catequese, confissão, celebração da eucaristia, auxílio aos pequenos e aos pobres”, repete o bispo Bagnard. “No minúsculo buraco em que o recolheram, por ser incapaz”, escreve René Laurentin, “ele atraiu multidões em escala nacional. Sem querer, fundou um centro de peregrinação”. Ainda hoje, não é preciso organizar nada. As pessoas vêm sozinhas. “É um santo pobre”, não para de dizer o padre Nault, “e encontrar um pobre não dá medo. Como quando encontramos Teresinha. Ou Bernadete. Esses santos nos dizem: se você é pobre, eu sou mais do que você. Somos pobres juntos, diante do Senhor. Você reza por mim, e eu por você”.
“Se o bom Deus tivesse encontrado um sacerdote mais miserável do que eu”, dizia sempre o Cura d’Ars, “seria a ele que teriam acontecido todas estas coisas maravilhosas”. Talvez o mundo, na França e em outros lugares, também tenha saudade de uma Igreja assim. Que não pretende ditar leis; que não se lamenta dos tempos ruins. Que deixa apenas se apresentar no horizonte a espera do milagre. “Já nos disseram tanta coisa, ó Rainha dos Apóstolos. Perdemos o gosto pelos discursos. Não temos mais altares, a não ser os teus. Não sabemos nada, além de uma oração simples” (Charles Péguy).