A oração dos judeus
O instrumento poderoso do Adveniat regnum tuum. Encontro com Riccardo Di Segni, rabino-chefe da comunidade judaica de Roma
Entrevista com Riccardo Di Segni de Giovanni Cubeddu
![Riccardo Di Segni [© Contrasto]](/upload/articoli_immagini_interne/1238581746901.jpg)
Riccardo Di Segni [© Contrasto]
RICCARDO DI SEGNI: Poderíamos falar de centenas de problemas... Mas comecemos pela pergunta: “Para que serve o diálogo?” Nestes últimos tempos, era como se sentíssemos a terra tremer debaixo dos nossos pés e tudo voar pelos ares. Parecia que a importância da relação conosco estivesse sempre em segundo lugar, em comparação com outros problemas, que são importantes para a unidade da Igreja, nós reconhecemos, mas sacrificam outras conquistas. Assim, a primeira coisa para que deve servir o diálogo, à luz do que aconteceu recentemente, é a possibilidade de trocarmos opiniões com toda a franqueza, respeitando-nos uns aos outros, e de ver como, embora o caminho seja acidentado, ainda é possível prosseguir nesse respeito e nessa colaboração. Em outras palavras, que tenhamos a possibilidade de deixar de lado as situações de crise. É preciso que tenhamos essa possibilidade e muita boa vontade...
Entremos na situação específica.
DI SEGNI: O episódio da revogação da excomunhão dos lefebvrianos, que desencadeou uma montanha de polêmicas em torno do negacionismo, todas justificadas, é emblemático e levanta três níveis de questões. Em primeiro lugar, é claro que o negacionismo é algo totalmente deslocado no pensamento da Igreja Católica, mas esse equívoco alarmou a todos, e noventa e nove por cento das críticas se concentraram nesse aspecto. Em segundo lugar, e é algo muito importante, vem o pensamento que está na base da divisão dos lefebvrianos, que não aceitam o Concílio e tudo o que dele deriva, ou seja, Nostra aetate e os documentos seguintes – textos que são fundamentais para que possa acontecer um diálogo respeitoso entre judeus e cristãos. Não é tanto a polêmica óbvia em torno do negacionismo que nos preocupa, mas muito mais o fato de voltar a ter uma posição de dignidade na Igreja um pensamento que põe outra vez em discussão algo que já era um conquista. E essa não é uma preocupação menor.
E em terceiro lugar?
DI SEGNI: É um problema sobre o qual ninguém falou nada, mas é uma consequência das duas primeiras questões: qual é o pensamento oficial da Igreja perante o povo judaico e sua fé? É sintomático que, no dia seguinte ao anúncio da revogação da excomunhão, que aconteceu em janeiro, num sábado, o Papa, em seu ciclo de homilias dedicadas a São Paulo, tenha feito um discurso sobre a conversão do apóstolo, dizendo que na realidade não se tratava de uma conversão, pois Paulo era um “judeu de fé”; portanto, passar para a crença em Jesus Cristo não era uma coisa contraditória. Provavelmente, havia nessa frase uma polêmica velada com os lefebvrianos, uma vez que para eles o judaísmo é o demônio... do qual a pessoa precisa se libertar com um ato de conversão. Para este Papa, não é assim, ou pelo menos ele sempre disse e repetiu que isso é a raiz nobre e sagrada em que se enxerta a fé cristã; de outro lado, porém, para o Papa o judaísmo é sempre também uma experiência incompleta, e nós somos pessoas incompletas, pois deveríamos fazer coerentemente o que Paulo fez.
Passada a tempestade, e deixando de lado o negacionismo e a discussão a respeito do estado em que se encontra o diálogo, continua a haver uma última “hipoteca”.
DI SEGNI: E como podemos resgatá-la? No mínimo, evitando falar disso em nossas relações. No entanto, nós não sabemos o que o Papa tem em mente quando afirma que o diálogo não pode ser religioso... Não sabemos a que ele se refere, se fala de todas as outras religiões, em geral, ou abre uma exceção para o judaísmo, como um problema mais “interno”... Mas, ao menos do ponto de vista judaico ortodoxo, sempre ficou claro que o diálogo não pode acontecer em torno dos fundamentos da fé, pois isso não conduz a parte alguma.
Depois do Concílio, a história do diálogo religioso deixou de implicar os fundamentos das confissões históricas, mas alguns conteúdos religiosos.
DI SEGNI: Entre nós, judeus, circula muito a ideia de que não deve haver um diálogo entre as religiões, mas entre as pessoas religiosas, que é uma coisa diferente e muito mais útil. Entre as pessoas, e não entre grandes sistemas conceituais.
Por uma questão de concretude, é possível dialogar em torno de tzedek e tzedakah, da justiça e da caridade. Esse foi o conteúdo da primeira audiência que o senhor, como rabino-chefe de Roma, teve com o Papa.
DI SEGNI: A concretude do diálogo consiste, em primeiro lugar, em partir do pressuposto de que a pessoa que você tem a sua frente é um homem inspirado. Ele possui algo que o leva a comportar-se de maneira justa na sociedade, e por isso é um aliado seu, em conformidade com o seu desejo de fazer o bem e com o dever comum de dar esse testemunho. É um pressuposto fundamental de respeito. Na prática, poderíamos encontrar uma série de campos de aplicação.
A começar do caso de Eluana Englaro.
DI SEGNI: Nesse episódio, duas visões se contrapuseram, uma “laica” e outra “católica”, com enormes implicações políticas para a Itália e outros países. Pela direção que os acontecimentos tomaram, as instituições judaicas se mantiveram o mais discretas possível em relação a esse tema: assistimos a tudo em silêncio, pois não queríamos entrar numa guerra santa, uma guerra institucional religioso-política.

A rocha golpeada, Marc Chagall, Museu Nacional da Mensagem Bíblica “Marc Chagall”, Nice, França
DI SEGNI: E isso seria importante. Mas seria preciso a na noite anterior à suspensão do tratamento.
Nós ainda nos perguntamos: será que temos valores em comum? É claro que sim. E, a respeito da bioética do cotidiano, não há muito o que discutir: existe uma urgência moral. Então, façamos essas coisas juntos...
Uma vez, o senhor disse com todas as letras que é lícito aplicar o realismo político ao diálogo judaico-cristão.
DI SEGNI: Realismo político significa que nenhum judeu deveria pensar em dizer a um cristão: “Sua fé é estranha, porque não corresponde à nossa ideia de monoteísmo”; e nenhum católico, da mesma forma, deveria pensar em virar para um judeu e dizer: “Agora, converta-se”. Antigamente, isso acontecia, tanto do ponto de vista das pressões psicológicas do dia a dia quanto nas explosões violentas em torno dessa questão. Mas isso parece acabado, ao menos no horizonte do mundo católico, embora ainda não em alguns setores do mundo evangélico. Realismo significa que eu não trabalho programaticamente para mudar as ideias das pessoas que me cercam, e permito que elas, de acordo com sua consciência, trilhem seu caminho. Depois veremos... Realismo político significa que, se existem urgências éticas na sociedade, podemos trabalhar juntos, trocar experiências como amigos. Ou existe ainda um outro campo a percorrer, mais delicado e cheio de riscos, que é o do estudo da religiosidade do outro.
Que significa estudar, nesse caso?
DI SEGNI: O homem de fé, vendo as pessoas que creem em outras religiões, diz: “Veja só como eles são fiéis a seu Deus!”, e se pergunta: “O que devo fazer em relação ao que estou vendo?” e “quantos de nós rezam com um ardor como esse?”. Isso não diz respeito apenas às relações entre judeus e cristãos... qualquer italiano deve ter feito essa pergunta a si mesmo, ao ver a praça do Domo de Milão lotada de muçulmanos rezando. O que está em jogo aqui não é uma possível provocação política, mas uma religiosidade que é tão pública – às vezes, até ostentada –, que impôs a um católico e a um judeu uma questão sobre a fé vivida por toda uma coletividade. “E nós?”, devem ter dito os dois. Isso pode acontecer a um cristão, quando vê os judeus festejarem a Pesach, a Páscoa, ou a um judeu, quando vê o forte testemunho dos cristãos em determinados tempos litúrgicos. E isso acontece a ambos diante do islã...
Isso significa olhar, e esse olhar traz consigo uma série de perguntas: o que os outros fazem é correto? Por que eles têm tanto ardor e eu não? O método deles é incoerente? É uma ostentação que ultrapassa os limites da fé? Ou será que é a mesma ostentação que nós temos?... Este é um momento em que na Itália, e em outras partes do mundo, nós saímos de um provincianismo em que, no passado, o único grupo diferente – diante de um universo completamente católico – eram os judeus. Hoje tudo é mais variegado...
O que significa para os judeus a oração pela plenitude da redenção, Gueulá Shelemá?
DI SEGNI: Precisamos partir do pressuposto de que o judaísmo nasce de uma raiz que não é meramente religiosa, mas é também nacional, de coletividade; portanto, o modelo de redenção inicial é o do êxodo do Egito, em que um povo sai da escravidão. Na promessa de Deus a Moisés ( Êxodo 6,6), existem quatro expressões fundamentais nas quais fala-se de redenção. Por isso na experiência judaica, isso também é redenção do jugo, ou seja, independência política coletiva. Além delas, há outros tipos de independência, como a libertação material do indivíduo e, enfim, a libertação espiritual. Uma coisa não exclui a outra; são faces da mesma realidade. Redenção espiritual significa crescimento. Apenas em algumas partes do pensamento místico judaico existe um conceito que se aproxima do conceito do pecado original cristão, enquanto a ideia da reconstrução da unidade originária está de certa forma presente em vários aspectos do pensamento judaico, no sentido de reverter a desordem primordial provocada pela culpa de Adão, o que também é considerado uma redenção completa. A questão tem muitas facetas...
Essa oração tem ou não tem o mesmo valor da oração para a conversão rezada, por exemplo, na Pro iudaeis do Sábado Santo?
DI SEGNI: A expressão Gueulá Shelemá aparece na oração diária das 18 Bênçãos, que não é a oração universal do Alenu [o Alenu é a fórmula conclusiva das orações diárias, uma declaração de fé e esperança na acolhida universal do reino de Deus, ndr]. Quando rezamos pela redenção completa, é pela redenção do povo de Israel, nos sentidos que expus antes. A oração que alguns contestam é a do Alenu, que poderia conter alusões ao cristianismo; mas são apenas possíveis alusões. Alguns as veem, outros não. Vou lê-la e traduzir do hebraico, para que não haja a possibilidade de equívoco. [O Rav lê trechos do livro Preghiere, de 1950, do rabino-chefe de Roma David Prato, com texto em hebraico e italiano, ndr].
“Devemos louvar o senhor de tudo e reconhecer a grandeza do autor da criação, pois não nos fez iguais aos povos idólatras e não nos constituiu como as famílias dos pagãos, que se prostram diante do nada e da vaidade e invocam deuses que não podem socorrê-los”. Por mais que o texto tenha sido interpretado por alguns como uma alusão polêmica à fé cristã, essas expressões, na verdade, são muito anteriores ao cristianismo; uma oração como essa poderia tranquilamente ter sido rezada pelos primeiros cristãos...
“Enquanto nos ajoelhamos e nos prostramos diante do Rei dos reis, Santo e Bendito seja Ele, que estendeu a abóbada do céu e fundou a terra [...]. Nós esperamos, por isso, ó Eterno Senhor nosso, ver o quanto antes a glória de Tua força, para que desapareçam as impurezas da terra e sejam definitivamente eliminados os falsos deuses. Com o advento de Teu reino, o mundo será perfeito”. O advento de Teu reino, típica expressão hebraica, por acaso não lembra também uma oração cristã?
“Todos os mortais invocarão Teu nome e todos os maus voltarão arrependidos para Ti. Reconhecerão e saberão todos os habitantes do universo que só a Ti devem dobrar seus joelhos, que a Ti toda língua deve invocar. Diante de Ti, ó Eterno Senhor nosso, dobrar-se-ão e cairão todos, e à glória de Teu nome prestarão homenagem. Todos aceitarão o jugo de Teu reino e Tu em breve reinarás sobre eles, por toda a eternidade”. Essa repetição constante do conceito do reino que deve vir é também o instrumento poderoso do Adveniat regnum Tuum. Como o senhor vê, nós, definitivamente, somos parentes...
“Pois a realeza pertence a Ti e Tu reinarás gloriosamente para sempre, como está escrito em Tua Torá: o Eterno reinará para sempre; e também: o Eterno será rei sobre toda a terra, e nesse dia o Eterno será Um, e Seu nome será Um! E enfim: Ouve, ó Israel, o Eterno Senhor nosso, o Eterno, é Um”. Essa oração foi composta para o ano-novo judaico. Na série de orações desse tempo, que têm uma ordem própria, algumas têm como tema a realeza divina e proclamam a Deus Rei do universo. Não sabemos quando essa oração foi composta; alguns a atribuem a Josué, outros a deslocam para muitos séculos depois. Por sua importância, ficou decidido que a lêssemos todos os dias, no final das orações diárias.

A festa, 1925, Marc Chagall, coleção particular
DI SEGNI: É verdade, mas agora o senhor conhece o texto autêntico. E um dos frutos do diálogo, em que insisto sempre, é justamente este: que uma relação de serenidade e respeito entre as religiões é uma consequência estrita do fim da agressividade entre as partes. Quando há agressividade com o judaísmo, este reage erguendo paliçadas; “se você me trata desse jeito, então eu...”, e vice-versa. Para que serve o diálogo? Para fazer que uma oração que nasceu universal continue a sê-lo na consciência de quem a reza, sem se transformar em outra coisa, sem ser uma maneira de pisar em nossos calos. Afinal, existe uma oração e existe um valor que podemos dar a ela em decorrência de uma alusão polêmica; mas esse valor se extingue, quando a polêmica se desfaz.
Numa das jornadas de diálogo judaico-cristão, o senhor explicou o universalismo judaico partindo de Noé, um homem modesto e honesto, que “andava com Deus”...
DI SEGNI: Segundo a Bíblia, bastou que Noé fosse um homem comum que obedecia a Deus, para que se salvasse e fundasse uma nova humanidade inteira. O cristianismo se apresenta como religião abramítica, e Abraão, no entanto, “precedia” a Deus... O judaísmo acolheu em torno de Noé a realidade da dupla salvação, ou seja, que não é necessário submeter-se à doutrina peculiar do sacerdócio israelita para obter os prêmios futuros. O universalismo judaico significa que é suficiente que cada um siga o caminho em que se encontra no momento de seu nascimento e respeite suas normas, ou seja, respeite a criação, os outros homens e a relação com Deus. Creio que judeus e cristãos observantes, cada um por seu caminho, possam chegar à salvação. Mas, se judeus e cristãos se tornam missionários zelosos da fé pura, para que serve dialogarmos?
Rav, o senhor é um famoso torcedor da Roma. O time pelo qual torcia a comunidade judaica da cidade, o Roman, foi uma das três sociedades que se fundiram para originar a Associazione Sportiva Roma. E as cores da camisa da Roma são as mesmas do Roman. O senhor se lembrava disso?
DI SEGNI: O que o senhor quer que eu diga: infelizmente, ainda existem judeus que torcem pela Lazio...