Arquivo de 30Dias
A antiga história de Nabot se repete cotidianamente
Assim inicia Santo Ambrósio a sua obra De Nabuthae, que toma o nome do mísero que contrariou o então potente do trono
de Lorenzo Cappelletti

Abel assassinado pelo seu irmão Caim. Catedral de Monreale (século XII), Palermo, Itália
“Não nasceu apenas um Acab, mas o que é pior, a cada dia nasce um Acab e jamais morre por este mundo. Se há um a menos surgem logo outros; são mais numerosos os que roubam do que os que perdem. Não apenas um Nabot pobre foi assassinado; a cada dia um Nabot é oprimido, a cada dia um pobre é assassinado” (1, 1). Na verdade não ameniza a nossa curiosidade saber que a história de Nabot se repete cotidianamente. Se àquela de hoje assistimos, para poder entender a daquela época deveríamos ter diante dos nossos olhos o que tinha diante dos olhos Ambrósio, os rostos, as vozes, as fisionomias que não se repetem dos Acab e dos Nabot da época. Devemos nos contentar da reconstrução, por força de coisa genérica e parcial, operada pelos historiadores através dos documentos, e imaginar Milão no crepúsculo do século IV.
Daquilo que podemos entrever, na época, todo o Ocidente estava preocupado com uma crise demográfica que, acompanhada à política monetária deflacionária do tempo, significava geral diminuição da produtividade, redução do comércio, empobrecimento. Na Itália – dividida entre um Vicariatus Italiae que compreendia todo o norte e a atual Suíça, e onde se destacavam Milão, Turim e Ravena, e um Vicariatus Romae que compreendia todo o centro-sul e as ilhas, que gravitavam em torno da antiga capital imperial – a crise atingia especialmente o norte, onde, entre outras coisas, era maior a presença, digamos assim, dos imigrantes bárbaros. O aumento do latifúndio improdutivo às custas dos pequenos proprietários e a riqueza imponente de alguns resultavam particularmente escandalosas. Também porque muitos já eram cristãos. Imaginemos Ambrósio. Ambrósio é um observador pragmático, não concebe a fé como ligada a um projeto cultural. Salta da fé à política e da política à fé. Certamente levando consigo a cultura. Mas, como o Rodrigo Mendoza, de Mission, arrastava e não empurrava para frente a sua bagagem de quinquilharias barulhentas. Expiando assim aquela retórica clássica à sombra da qual crescera. Com efeito, por um lado (escrevia Pierre Courcelle, o latinista do Collège de France, falecido em 1980, concluindo um artigo seu que já é um clássico: Polemiche anticristiane e platonismo cristiano: da Arnobio a sant’Ambrosio) Ambrósio era impregnado mais do que os outros pelas teorias dos neoplatônicos: “Tão impregnado pela doutrina deles e pelo seu léxico metafórico, que algumas vezes chegava até a recair num verdadeiro e próprio neoplatonismo [...]. A síntese que fora apenas esboçada por Arnóbio, foi levada bem adiante por Ambrósio, quase adiante demais". Mas por outro lado a pesquisa sugere a Courcelle “uma importante correção. Aquele mesmo Ambrósio que nos testemunha um tão forte desejo de síntese, é também capaz, se colocado diante de uma doutrina que lhe parece absolutamente irreconciliável com a fé cristã, de rejeitá-la sem hesitações e de atacá-la com a mais cruel das ironias”. No caso estudado por Courcelle, Ambrósio, para salvaguardar o depositum fidei, estava pronto a armar um contra o outro, autores que faziam parte ambos da sua bagagem e usar “as velhas armas forjadas pelo cético Luciano contra o platonismo pitagorizante”. Para que assim, entre os dois adversários, pudesse sair ganhando o depositum fidei.
Uma cobiça sanguinária
Mas voltemos ao Ambrósio do De Nabuthae, que escolhe (ao menos à primeira vista) um leitmotiv de caráter social: o verdadeiro pobre é o rico, ou, se quisermos, o rico não é um verdadeiro pobre: é miseravelmente indigente, porque procura aquilo que é dos outros; na sua cobiça “não há a disposição da humildade mas o ardor da cupidez” (2, 8). Portanto, a sua é uma forma de insânia. Assim como é insano o despeito pelo qual, à recusa de Nabot, o rico Acab deixa de dormir e de comer. Como é diferente o jejum do pobre, “que não tem nada e não sabe jejuar voluntariamente senão para Deus, não sabe jejuar senão por necessidade” (4, 16).
Mas a insânia é ainda mais profunda. Na realidade o rico não pretende possuir, quanto excluir a posse de qualquer outro bem. Produzindo conseqüências econômicas desastrosas, para aquela época. E agora não é diferente. Assim fala o rico: “Enquanto espero, que os preços aumentem, perdi o hábito de fazer caridade. Quantas vidas de pobres poderia ter salvado com o trigo do ano passado? Teriam me deixado mais feliz estas recompensas. O avaro está sempre arruinado pela abundância dos produtos, porque prevê uma desvalorização dos gêneros alimentícios. Com efeito, uma rica produção é um bem para todos, a carestia tem vantagens apenas para o avaro. Alegra-se mais pelos preços altíssimos do que pela abundância dos bens e prefere ter aquilo que só ele pode vender do que vender junto com todos os outros” (7, 33. 35). Enfim os ricos crêem que só eles tem o direito de viver. Mas isto é contra a natureza. “Por que expulsais aquele com o qual tens em comum a natureza e pretendeis possuir a natureza só para vós? A terra foi criada como um bem em comum para todos, para os ricos e para os pobres” (1, 2).
Este é o conteúdo da obra que mais apaixonou e provocou discussões nos anos Cinqüenta e Sessenta na Itália, tanto que o De Nebuthae terminou na primeira página do jornal comunista L’Unità e poucos dias depois também na primeira página do jornal L’Osservatore Romano em abril de 1950. Em plena guerra fria, surpreende, seja dito entre parênteses, a liberdade com que o L’Osservatore Romano
Mas o rico opõe a este convite o julgamento corrente de que sobre o pobre pesaria a maldição de Deus e que portanto não serviria a nada doar. Ambrósio, sem discutir esta questão, corta logo: “Não procurar aquilo que cada um merece. A misericórdia não costuma julgar os méritos, mas socorrer às necessidades, ajudar o pobre, não examinar aquilo que é justo”. Porque ele sabe que a partir desta busca de uma própria justiça se desenvolve uma terrível cadeia que chega até o homicídio. “Tu estás triste porque queres considerar a medida da justiça para não roubar aquilo que é dos outros: eu [é o rico Acab que fala] tenho os meus direitos, tenho as minhas leis. Caluniarei para despojar; e para que a propriedade do pobre seja roubada, será atingida a sua vida [...]. Com que evidência foi descrito o modo de agir dos ricos! Ficam tristes se não roubam os bens alheios, renunciam à comida, jejuam, não para reprimir o pecado, mas para facilitar o crime. Podem ser vistos na igreja zelosos, humildes, perseverantes, para merecer o sucesso do delito” (9, 41; 10, 44). Tanto que para escapar da ameaça que pesa sobre o rico – “por aquela morte cruel, que infligiu ao outro, ele mesmo está condenado a pagar com a própria horrível morte” (11, 48) – não valem, digamos assim, as obras de religião. A sua devoção, que vimos não se tratar de uma devoção mas de "cobiça sanguinária”, cruenta luxuries (11, 49) – não é benéfica para o rico: “Ofereçam ao Vosso Senhor Deus dons, devolvam a ele na pessoa do pobre, entreguem ao necessitado, emprestando a ele como a um mísero, já que não podeis dar-lhes satisfação de outro modo devido às vossas infâmias. Façam vosso devedor aquele que temeis como vingador” (16, 67). Se o rico pode apenas chorar os seus pecados e doar, o pobre pode apenas pedir: “Rezeis e agradeceis ao Senhor vosso Deus, vós, todos aqueles que em torno a ele ofereceis dons, isto é, rendeis graças, ó pobres, porque Deus não considera as aparências. Aqueles outros acumulem as riquezas, juntem tanto dinheiro, reúna tesouros de ouro e de prata; vós, que outras coisas não possuís, rezai; rezai vós que possuís apenas isso, o que é mais precioso do que o ouro e a prata” (16, 68).

O retrato mais antigo de Santo Ambrósio, que remonta ao séc. V. Detalhe do mosaico da Capela de São Vítor, na Basílica de Santo Ambrósio em Milão
Mas “o pobre e glorioso Nabot”, como o chama o artigo de L’Osservatore Romano citado acima, é também alguma outra coisa, ou melhor, é também alguma outra coisa. Nabot não é apenas a imagem do pobre de Israel. Na sua recusa de ceder a vinha (“O Senhor me livre de ceder-te a herança dos meus pais”), Nabot é também a imagem do guardião do depositum fidei. Durante a batalha que o opôs aos arianos, Ambrósio lembrava Nabot a respeito deste propósito: “O santo Nabot defendeu as suas vinhas mesmo com o preço do seu sangue. Se ele não cedeu/traiu (non tradidit) a sua vinha, nós cederemos a Igreja de Cristo? [...] Se ele não cedeu a herança dos pais, eu cederei a herança de Cristo? Longe de mim ceder a herança dos pais, ou seja de Dionísio que morreu no exílio por causa da fé, a herança de Eustórgio, a herança de Mirocle, e de todos os santos bispos precedentes. A minha resposta foi a de um bispo; o imperador que faça o que está em poder de um imperador. Poderia me tirar a vida antes que a fé” (Lettera 75a, ou seja Contra Auxentium de Basilicis do ano 386).
Dois sucessores de Ambrósio, que depois subiram ao trono de Pedro, quiseram imitar o santo bispo de Milão na guarda da vinha do Senhor, que é juntamente a guarda do pobre e do depositum fidei: Pio XI (Achille Ambrogio Damiano Ratti) e Paulo VI (Giovanni Battista Montini). Ambos, como Ambrósio, homens de vasta cultura, ambos provenientes de ricas famílias, ambos levantando a voz como pobres e para os pobres, ambos com condições de fazer política sem objetivo político. Ambos lembraram Santo Ambrósio em seu magistério social. Pio XI – que, na Quadragesimo anno, relevou com os tons proféticos do santo doutor que “à liberdade do mercado subentrou a hegemonia econômica, à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio e toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz”; e que única era a fonte donde jorrava” de um lado o nacionalismo ou o imperialismo econômico; do outro não menos funesto e execrável o internacionalismo bancário ou imperialismo internacional do dinheiro, cuja pátria é lá onde está o lucro” – abria esta encíclica “seguindo a advertência de Santo Ambrósio que dizia ‘não haver algum dever maior do que o de agradecer’”. Segundo aquele convite constante à oração (não tinha dito Santo Ambrósio “rezeis, vós que possuís apenas isso, coisa que é mais preciosa do que o ouro e a prata”?) que não é o último motivo de tocante consolação quando se lêem os outros seus documentos sociais: a pequena e comovente Impendent Charitas, que implora, na Festa dos Anjos da Guarda de 1931, de vir ao encontro dos sofrimentos dos menores ao aproximar-se de um inverno de fome; a não muito mais extensa Charitate Christi compulsi, de maio do ano seguinte, encíclica social toda dedicada à oração e às obras de penitência: “E qual objeto poderia ser mais digno da nossa oração e mais correspondente à pessoa adorável d’Aquele que é o único ‘Mediador entre Deus e o homem, o homem Jesus Cristo’, do que implorar a conservação na terra da fé no único Deus vivo e verdadeiro?”.
Paulo VI, que se possível era ainda mais conforme ao grácil e culto Ambrósio, quis se referir precisamente ao seu De Nabuthae no número 23 da Populorum progressio: “Sabe-se com qual firmeza os Padres da Igreja esclareceram qual deveria ser o comportamento daqueles que possuem para com aqueles que são necessitados: ‘Não é dos teus bens’, diz Santo Ambrósio, ‘que fazes dons ao pobre; tu não fazes que devolver aquilo que os pertence. Pois te aproprias daquilo que é dado em comum para o uso de todos. A terra é dada a todos, e não apenas aos ricos’. É como dizer que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicionado e absoluto. Ninguém está autorizado a reservar para seu uso exclusivo aquilo que supera a sua necessidade, quando aos outros faltam o necessário. Numa palavra, ‘o direito de propriedade não deve jamais ser exercitado em detrimento da utilidade comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos’. Onde houver um conflito ‘entre direitos privados adquiridos e exigências comunitárias primordiais’, deve o poder público ‘preocupar-se em resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais’”.
Havia uma vez homens pobres e gloriosos...