África. As palavras de Gabriel Zubeir Wako, o primeiro cardeal da Igreja do Sudão
Os fundamentalismos são destruidores
Entrevista com o Arcebispo de Cartum: “No nosso país não há conflitos entre cristianismo e islã entendido como religião, mas se o cristianismo e o islamismo são usados para fins políticos são destruidores”
de Giovanni Cubeddu

O novo cardeal Gabriel Zubeir Wako
Encontramos o novo cardeal sudanês na cúria geral comboniana em Roma.
Quando o senhor foi nomeado cardeal, perguntou-se o que isso poderia significar para o Sudão.
GABRIEL ZUBEIR WAKO: Eu não esperava a nomeação, mas pensei que por muitas razões estaria nos planos do Papa um cardeal para o Sudão, considerando as dificuldades que estamos atravessando. Já quando ele veio ao Sudão, há 10 anos, disse que nos via como homens e mulheres no calvário... As várias cartas que recebi do Sudão depois da minha nomeação fizeram-me recordar mais ainda o quanto a Igreja do Sudão, desde os tempos de Comboni, esteja abandonada, e quão pouco se saiba sobre ela. Talvez a nomeação de um cardeal seja útil: para que a Igreja seja levada mais em consideração pelo mundo externo, e para que a nossa gente saiba realmente o quanto os seus pastores façam questão e o quanto procurem manter viva a fé cristã, nas dificuldades.
Porém, no mesmo dia em que fui criado cardeal dei-me conta em Roma do quanto a arquidiocese de Cartum seja pouco conhecida mesmo nos mais altos níveis dos meios de comunicação da Igreja... Por isso, os nossos cristãos acolheram a nomeação de um cardeal pÄra Cartum agradecendo ao Papa por ter-lhes dado um reconhecimento, por ter homenageado o seu testemunho e ter-lhes confortado.
Falemos da guerra no Sudão. O próprio Colin Powell participou das negociações entre governo e Spla, que parecem ter chegado a um ponto decisivo. A Igreja pode pedir ou fazer alguma coisa?
ZUBEIR WAKO: É difícil dizer o que se pode fazer agora. Deve-se reconhecer que, embora tenhamos dois arcebispos católicos no Sudão, não conseguimos esclarecer a nossa posição. O governo pensa que a Igreja seja um obstáculo às suas ações, que seja sua inimiga, e o presidente Omar Hassan al-Bashir, num encontro de julho, recordou-me isso claramente. Nós, ao invés, já tínhamos escrito alguns documentos, e os tínhamos enviado ao governo, exprimindo o nosso apoio às negociações de paz e às ações do governo, pedindo ao mesmo tempo uma verdadeira paz para o povo. Falar de paz com as pessoas faz com que todos recomecem a ter maior boa vontade e maior consideração. Depois de tantos anos de rancores e hostilidades entre as partes, uma verdadeira reconciliação, depois de uma declaração política entre governo e Spla, com certeza não será automática... A Igreja sudanesa apenas procura deixar isso bem claro.
Há também o problema da volta dos refugiados às suas terras de origem, se realmente houver a paz. Na diocese de Cartum há quase dois milhões de refugiados que, se voltarem ao sul ou aos montes Nuba, podem recomeçar suas próprias vidas com maior responsabilidade, sem depender das eventuais ajudas humanitárias. Neste ponto a Igreja também quer dar a sua ajuda, pois entendeu que quando for declarada a paz formal, todos terão que voltar para sua terra e não haverá muita preocupação se o refugiado que deixou sua casa a encontrará ou se existem serviços essenciais para a vida do dia a dia da população.

Crianças rezando na aldeia de Acumcum, no sul do Sudão
ZUBEIR WAKO: Quem nos garante que a paz será mantida? Ainda há a presença de muitos grupos armados e se nos detivermos apenas nos contrastes entre governos e soldados do Spla faremos um erro, pois então ninguém terá condições de deter estas outras formações militares. Não pedimos que a política de contraste às armas seja séria e contra todos, dado que as armas foram distribuídas à vontade: tanto para os que combatiam por Garang [o líder do Spla, ndr] como para os que apoiavam o governo. Mas, antes de tudo, deve vigorar a lei. Durante a guerra houve inúmeras violações dos direitos motivadas pela segurança, e nós pedimos que a razão de tais sofrimentos, a disparidade, cesse: que a lei seja aplicada igualmente a todos os cidadãos!
O Sudão é por antonomásia um lugar de contrastes entre cristianismo e o islã. É essa a verdadeira raiz da guerra?
ZUBEIR WAKO: É preciso deixar bem claro que no início da guerra não havia o fundamentalismo. Mesmo que alguns muçulmanos compartilhasseam o propósito de converter o Sudão num país islâmico e no passado os governos tentaram concretizar essa intenção com a força militar , a principal questão era e ainda é que a população do sul sente-se oprimida. Não tem oportunidade de administrar a própria vida, que lhes parece ser determinada por Cartum, e não tem poder na utilização das riquezas naturais, de que o sul é riquíssimo. "Ao menos algumas coisas dessas riquezas", dizem, "poderiam ser investidas para o nosso bem-estar". Desde os tempos coloniais o sul era uma área abandonada, carente do desenvolvimento que beneficiava o norte.
A guerra começou por uma questão de injustiça e de igualdade entre cidadãos do mesmo Estado, este é o verdadeiro motivo. Porém, desde então o governo direcionou forçosamente a islamização do país, houve violências a missionários e a cristãos em geral, a imposição da língua árabe no sistema educativo nacional... O povo do sul não tem nada contra a língua árabe, porém percebe que é uma forma de pressão contra pessoas que já tem sua própria língua. E faz com que lembrem quando, infelizmente, as relações com o mundo árabe eram caracterizadas pelo mercado dos escravos, até o século passado...
Fazendo assim o governo de Cartum, passo a passo, abriu o caminho ao fundamentalismo, infelizmente, acrescentando mais um fator para a continuação da guerra.
E o petróleo?
ZUBEIR WAKO: O problema do petróleo surgiu depois do início da guerra. Já se sabia antes das jazidas do sul, mas a população não se dava conta da importância, pois a exploração estava ainda no início. As porcentagens dos relativos lucros destinados ao sul são míseras... O tema do contraste entre cristianismo e islã pode ser muito bem colocado de lado e resolvido, mas os habitantes do sul continuarão a protestar se não houver uma distribuição eqüitativa dos recursos. Acabará uma guerra e iniciará uma outra. Infelizmente essa é a realidade.

Guerrilheiros do Spla (Sudan People’s Liberation Army)
ZUBEIR WAKO: Não creio que tenham falado muito conosco. Houve contatos com o presidente da nossa Conferência Episcopal e com o Conselho das Igrejas Cristãs, do qual a Igreja Católica participa. Mas os americanos têm a sua agenda, e não é dito que ouçam o que lhes dizemos, são coisas que não dão muita importância: para eles, atualmente, o único objetivo é parar a guerra.
Há muito tempo os bispos do Sudão lamentam-se pela falta de justiça, de respeito, de igualdade entre os cidadãos, dos direitos do homem, da dignidade. Repetimos isso várias vezes nas cartas pastorais. O islã pode cometer estas violações apenas se há quem o instrumentaliza para oprimir os que não são muçulmanos, para impor-lhes seus costumes. Nós combatemos essa imposição. Não há contrastes entre cristianismo e islã entendidos como religiões, mas se o cristianismo e o islã são usados para fins políticos... são destruidores. Os dirigentes políticos querem o apoio dos religiosos para impor a sua opinião. É disso que a Igreja sudanesa fala. Há quem na Europa queira nos ensinar como se faz o diálogo entre religiões, mas não é este o nosso problema. Nós queremos a igualdade.
Algumas semanas atrás, foi libertado da prisão Hassan al-Tourabi, fundamentalista, primeiro aliado e depois adversário de al-Bashir. Este gesto do governo mostra uma tentativa de uma pacificação nacional, mesmo com as correntes muçulmanas mais duras?
ZUBEIR WAKO: Não sabemos. Mas há muito tempo as organizações dos direitos humanos no Sudão e no exterior pediam ao governo a sua libertação, pois foi preso sem provas evidentes, e o governo não podia continuar a ignorar tais pressões. Evidentemente existe uma intenção pacificadora, dirigida aos componentes das dissidências islâmicas presentes no norte do país. O resultado seria a reunificação da frente islâmica, útil para obter uma maioria sólida em um sistema parlamentar. Nesse caso, as populações do sul teriam menos chances.

Muçulmanos rezando junto à mesquita de Omdurman, no Sudão
ZUBEIR WAKO: A Igreja do Sudão não assumiu nenhuma posição sobre o tema da divisão do país. Apenas dissemos que chegou o momento em que os cidadãos do sul têm, como todos, direito à autodeterminação. Cabe a eles dizer o que querem fazer, nós bispos não queremos usar a nossa posição para impor uma política. Os cidadãos têm esse direito, portanto, usem-no como crêem.
Alguns anos atrás, muitos de nós concordavam, inclusive a Igreja do Sudão, em dizer que ao acabar a guerra seria necessário um período de transição, nos qual as pessoas, especialmente as do sul, poderiam parar e entender realmente o que significa ficar unidos ou separados do norte. Porque é um assunto que não se sabe, e não se pode ir às urnas de um hipotético plebiscito sobre a secessão baseados em emoções. Os bispos do Sudão não falam de separação, mas de autodeterminação iluminada.
Os cristãos e os bispos do Sudão alguma vez sentiram-se instrumentalizados, pelos que os definem uma Igreja mártir, por vários e particulares fins de poder?
ñUBEIR WAKO: Instrumentalizados? Sim. Nos demos conta de que muitos dos que mostram interesse pela Igreja do Sudão no mínimo não são sérios e, pior, não querem levar em conta aquilo que propomos. Ou seja, se fazemos alguma crítica ao islã é apenas quando um ato é usado como instrumento de poder que não considera a situação das pessoas. Estamos fazendo todos os esforços para que os cristãos sudaneses possam ser cristãos e cidadãos, e respeitados como tais.
Isso, com certeza, acontece também nos países cristãos onde a Igreja se intromete em acontecimentos políticos e provoca a reação oposta de bispos e dos próprios fiéis.
Jamais usamos a palavra "laicidade" para descrever os nossos pedidos, como vocês na Europa. Sabemos que quem está no governo exprime a própria religião no modo de pensar e agir, mas deve levar em conta que o que ele professa não é compartilhado pelos outros. Por isso cabe à política fazer com que todas as religiões presentes em uma nação possam conviver e trabalhar juntas para o bem comum e que seja possível a qualquer um declarar-se cristão, muçulmano ou... comunista. Todos podem trabalhar juntos, cada um com sua própria diversidade, e no Sudão, onde há tantas línguas e culturas, é essencial que isso seja garantido.
Um governo sábio é aquele que faz com que todos vivam juntos e sintam-se uma só nação.
A propósito da obrigação imposta pelo governo de estudar árabe...
ZUBEIR WAKO: Para nós, usar a língua árabe é uma necessidade, pois é o único modo de se comunicar com muita gente, senão, nós pastores, deveríamos aprender centenas de dialetos... E também, com a língua árabe, levamos ao conhecimentos dos islâmicos os elementos da nossa fé cristã e dialogamos. Por enquanto falar árabe não é um problema. Além disso, muitas pessoas, mesmo cristãs, de várias tribos que se refugiaram no norte, não têm outra língua para se compreenderem entre eles, a não ser o árabe imposto pelo governo. Talvez não saibam muito bem, mesmo nós pastores a usamos de maneira simplificada e mais acessível. Quando chegar a paz e a possibilidade de todos voltarem aos seus territórios de origem, cada um voltará a falar principalmente sua própria língua.
Todos os anos, na Páscoa, há milhares de batizados na sua diocese. O senhor pode nos descrever alguns traços da Igreja do Sudão?
ZUBEIR WAKO: O que nos interessa é a evangelização e uma formação cristã constante, em todos os níveis da Igreja: este é o tema do nosso atual 2 sínodo diocesano. Talvez por isso o número de catecúmenos seja tão alto, dedicamo-nos muito a eles, assim como à formação dos catequistas e dos vários grupos de fiéis, pois eles são a vida da Igreja. Depois da morte de São Daniel Comboni, a Igreja no Sudão continuou o seu programa "Salvar a África com a África", programa onde a educação e a formação são fundamentais e ao qual, sinceramente, em Cartum nos dedicamos muito. Temos 70 escolas de instrução primária, com 42 mil jovens, e segui-los significa muito trabalho para os pastores e principalmente para os leigos, sem os quais tudo isso seria impossível.

Colin Powell com o ministro do exterior do Quênia, Kolonzo Musyuka, o líder do Spla, John Garang, e o vice-presidente do Sudão, Ali Osman Mohamed Taha, Nairóbi, 22 de outubro de 2003
ZUBEIR WAKO: Os missionários são poucos e também idosos. Na minha diocese, de cada trinta paróquias, apenas seis são dirigidas por missionários, as outras cabem aos sacerdotes sudaneses, e encontrar uma identidade cristã sudanesa faz parte do trabalho da nossa Igreja. A chamada de Comboni para que houvesse mais homens na Igreja e maior formação cristã, não seria possível se, no momento em que os missionários foram expulsos do país, os leigos não tivessem continuado a mandar adiante a Igreja. Nós confiamos muito nos leigos cristãos e, por isso, depois da canonização de Comboni, pedi ajuda para construirmos em Cartum uma universidade católica dedicada a Comboni, onde muitos dos nossos alunos, também das escolas do sul, poderiam um dia inscrever-se. Muitos cristãos não têm condições de contribuir à vida civil, na política e na economia se adequam aos outros, e acontece que diante de obstáculos, muitas vezes, pedem ajuda justamente aos sacerdotes ou aos bispos, aos quais não cabe tais competências. Porém, os leigos devem se virar sozinhos. Fala-se desta universidade há muitos anos, já tivemos até apoio do Papa, mas a situação política não nos ajudou e o projeto ficou de lado. Agora que a paz se aproxima, chegou o momento de tentar. Obviamente a Universidade Comboni será aberta e útil a cristãos e muçulmanos.
O novo cardeal de Cartum nasceu em uma família católica?
ZUBEIR WAKO: Sim, papai e mamãe eram católicos desde criança.
E a sua vocação?
ZUBEIR WAKO: Eu tinha oito anos quando comecei a dizer que gostaria de ser sacerdote e, segundo os costumes da época, aos dez anos, quando terminei a escola primária, entrei no seminário menor. Naquele tempo não havia muitas possibilidades de instrução, e em família, ninguém se opôs à minha vontade de entrar no seminário. Pensavam, principalmente que quando fosse mais velho iria desistir. Graças a Deus isso não aconteceu. Meu pai me encorajava dizendo: "vai adiante se quiseres, senão... não fiques no seminário, volte para casa, junto de nós. É melhor voltar atrás do que não se tornar um bom padre, ser um padre desestimulado".
Qual é o episódio da vida da Igreja daquela época que o senhor mais recorda?
ZUBEIR WAKO: O ano mariano de 1954, celebrado solenemente na nossa diocese porque o bispo era muito devoto de Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos. Era uma grande marcha com toda a população dos vilarejos em Wau. Havia os estudantes das escolas católicas junto com seus professores, e nós seminaristas; caminhávamos até a catedral e rezávamos juntos. Éramos mais de mil estudantes e o bispo nos esperava na catedral. Naquela ocasião, lembro que alguns muçulmanos mostraram sua hostilidade, pois logo que entramos na cidade, um professor que acompanhava a sua turma foi preso, ferido e quase torturado diante de seus alunos. Foi agredido pela sua fé. E na primeira jornada sucessiva de oração, o seu testemunho foi ouvido como o de um mártir.