Litterae communionis entre Roma e Baoding
Uma carta do cardeal Tarcisio Bertone torna públicas as indicações e as sugestões do Papa a respeito do caso de Francisco An Shuxin, bispo coadjutor de Baoding acusado de traição por alguns sacerdotes de sua diocese por ter decidido sair da condição de clandestinidade. Bento XVI convida todos a caminhar na via da reconciliação. E enquanto isso confirma dom Francisco na direção da diocese, embora o bispo tenha aceito um cargo na seção local da Associação Patriótica dos Católicos Chineses, instrumento da política religiosa do governo
de Gianni Valente

Papa Bento XVI com chineses provenientes de Pequim, em 25 de maio de 2005
Isso se deu recentemente com os sacerdotes, religiosos e fiéis leigos da comunidade católica chinesa de Baoding, na província de Hebei.
Ali, já há alguns anos, os corações se dividiam em torno do caso de Francisco An Shuxin, bispo ordenado clandestinamente (ou seja, sem o placet da política religiosa do regime chinês) que desde 2006, depois de dez anos de detenção e isolamento, decidiu sair da condição de clandestinidade e exercer seu ministério pastoral como bispo coadjutor em fidelidade ao Papa e respeitando também os procedimentos e as obrigações impostos pelo governo. Tudo isso enquanto o outro bispo “clandestino”, Tiago Su Zhimin, primeiro titular da diocese, continua até hoje incomunicável, depois de ter sido preso pelos órgãos de polícia em 1996.
Desde o início, uma parte dos sacerdotes da esfera clandestina considerou a decisão do bispo An determinada por uma mudança de ideia, chegando a pôr em dúvida a legitimidade de sua autoridade episcopal. As polêmicas e os ataques atingiram a fase mais virulenta na segunda metade de 2009, quando os opositores de dom Francisco trouxeram a público, como prova da pretensa “traição”, sua disponibilidade a aceitar um cargo na seção diocesana da Associação Patriótica.
Com o crescimento da controvérsia, a comunidade católica de Hebei recebeu em mais de uma ocasião indicações e sugestões provenientes da Sé Apostólica, sempre no sentido de impedir que a divisão e a dúvida se espalhassem. O convite mais recente e mais cheio de autoridade à reconciliação veio do próprio Papa: uma carta enviada pelo Vaticano ao monsenhor An, na diocese de Baoding, com a qual Bento XVI confirma a sua autoridade episcopal e faz votos de que todos os sacerdotes diocesanos a reconheçam, apesar do cargo assumido pelo bispo na Associação Patriótica.
“Caro irmão bispo”
A carta, escrita em nome do Papa pelo secretário de Estado Tarcisio Bertone, traz a data de 10 de fevereiro de 2010 e o número de protocolo 696/10/RS. Trata-se de uma resposta à missiva enviada a Bento XVI pelo próprio Francisco An em 12 de novembro de 2009, com a qual o bispo submeteu seu caso ao Papa, pedindo-lhe indicações concretas de como deveria agir. Nas primeiras linhas, Bertone comunica o apreço do Papa pelos “sentimentos de fidelidade a Cristo e à Igreja” e pela “devoção filial ao sucessor de Pedro” expressos pelo bispo An em sua carta. Em seguida, são transmitidas as indicações papais a respeito dos episódios que vêm atormentando a diocese.
Bento XVI, por intermédio de Bertone, torna pública a “grande atenção” com que acompanha a vida da Igreja na China, fazendo referência específica às comunidades diocesanas “que vivem em situações particularmente difíceis”. O Papa se diz “espiritualmente próximo” do bispo An e envia uma bênção especial ao bispo Su Zhimin (citado nada menos que quatro vezes na nova mensagem papal), lembrando sua condição de segregação, que o impede de exercer seu ministério episcopal em proveito do povo confiado a sua solicitude pastoral.
Na parte central, a carta se dedica diretamente às decisões do bispo An que mais suscitaram contestações de uma parte do clero da diocese, e, com palavras inequívocas, desfaz os nós ainda não resolvidos.
Uma das principais acusações feitas a An foi quanto a sua decisão de concelebrar uma missa com João Su Changshan, bispo “oficial” de Baoding, reconhecido como tal pelo governo, mas não pela Sé Apostólica. A respeito desse episódio, a carta afirma que “hoje todos têm condições de saber que isso aconteceu porque V. Ex.ª tinha consciência de que o bispo Su Changshan desejava ardentemente e tinha pedido com insistência a plena comunhão com o Santo Padre”. Há também uma menção às cartas enviadas por Su Changshan à Santa Sé, com as quais – é explicado – o bispo ilegítimo garantia que sua ordenação episcopal sem mandato apostólico tinha acontecido contra a sua vontade, e falava de sua aflição pela condição em que viera a se encontrar. “Esse caso”, explicita o secretário de Estado em nome do Papa, “deve ser considerado encerrado”.
Em seguida, a carta apostólica toca o ponto doloroso do cargo do vice-presidente da Associação Patriótica Diocesana que o bispo An aceitou assumir. Com uma sutileza não irrelevante, o texto não cita nenhuma espécie de “inscrição” de An no organismo patriótico, uma vez que o bispo limitou-se a aceitar verbalmente o cargo que lhe foi proposto. A mensagem enviada por Roma informa que as questões e as dificuldades “delicadas e complexas” suscitadas por esse episódio são conhecidas pela Santa Sé. As linhas-mestras fornecidas pelo texto enviado pelo Vaticano são claras e concretas: “Em sua situação específica”, escreve Bertone em nome do Papa, “semelhante decisão deveria ter sido evitada. Todavia, nas circunstâncias presentes parece preferível que V. Ex.ª não renuncie de iniciativa própria à possibilidade que atualmente tem de agir de forma oficial e acompanha e guia todos os seus padres, tanto oficiais quanto clandestinos”. Na carta enviada pelo Vaticano, é assegurado que a Sé Apostólica continuará a acompanhar a situação de Baoding, e que diante de novos desdobramentos significativos não deixará de oferecer ao bispo An critérios práticos de orientação. “Neste meio-tempo”, recomenda a epístola, com uma observação implicitamente dirigida a toda a diocese de Hebei, “a Santa Sé conta com a obediência que todo o clero de Baoding deve a V. Ex.ª, na ausência do bispo Su Zhimin”. Na parte final da carta, o cardeal Bertone pede que cheguem ao conhecimento da comunidade católica de Baoding as indicações enviadas pelo Papa, “da forma que [V. Ex.ª] considerar mais oportuna”. Por isso, a partir da segunda semana de março, a versão integral do texto apareceu em chinês e inglês no site da diocese. o e relevante para toda a China – alguns dos critérios-guia que Bento XVI havia exposto na Carta aos Católicos Chineses de 27 de maio de 2007.
Naquele documento do magistério, o Papa admitia que os procedimentos para o reconhecimento das comunidades locais por parte das autoridades civis – necessário para que essas comunidades pudessem agir publicamente – podem levar a decisões difíceis e controversas para a consciência dos católicos, uma vez que isso ainda é administrado por organismos “patrióticos” inspirados pelo Partido e alheios à estrutura da Igreja, que pretendem não obstante exercer um papel decisivo na vida eclesial. Por isso, nos casos individuais concretos, e “depois de ter reafirmado os princípios”, as decisões operacionais eram deixadas ao critério de “cada bispo, que, ouvido o seu presbitério, tem melhores condições de conhecer a situação local, de medir as concretas possibilidades de escolha e de avaliar eventuais consequências dentro da comunidade diocesana” (Carta de Bento XVI aos bispos, aos presbíteros, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos da Igreja Católica na República Popular da China, cap. 7). O Papa levava em conta também que as decisões opináveis de cada bispo pudessem não encontrar o consenso de todos os sacerdotes e fiéis. Nesse caso, fazia votos de que essas decisões fossem igualmente acolhidas, “ainda que com sofrimento”, para manter a unidade da comunidade diocesana com seu pastor.
O aspecto controverso das relações do bispo An com a Associação Patriótica dá também oportunidade à Santa Sé de se ater às orientações expostas pelo próprio Papa na Carta de maio de 2007. Na complexa situação pastoral de Baoding, o envolvimento direto do bispo no organismo patriótico reacendeu o mal-estar e as contestações entre os padres e fiéis clandestinos que já criticavam sua decisão de sair da condição de clandestinidade, e na carta de 10 de fevereiro está escrito que esse envolvimento “deveria ter sido evitado”. Mas, uma vez que o bispo decidiu aceitar o cargo de vice-presidente da Associação Patriótica Diocesana, a Sé Apostólica leva em conta sua decisão e não lhe pede que volte atrás. A “presença” do bispo An nos organismos patrióticos não deslegitima sua autoridade episcopal aos olhos da Santa Sé. Não são levantadas contraposições dialéticas artificiosas entre os princípios doutrinais e as opções pastorais, que alguns insistem em apresentar como formas de rendição covardes e reprováveis ante as ilegítimas pretensões do regime. Ao contrário, na carta redigida por Bertone em nome do Papa é sugerido a An que não saia por iniciativa própria da condição em que se pôs, que hoje lhe permite exercer publicamente seu papel de guia e de companhia para todos os padres da diocese, “tanto oficiais quanto clandestinos”.
Com as indicações que mencionamos antes, todos podem vislumbrar a potencial eficácia e adequação pastoral dos critérios expostos na Carta aos Católicos Chineses de 2007, quando estes são aplicados operacionalmente às condições efetivas. A carta confiava aos bispos o discernimento a respeito de como agir nas situações locais, levando em conta os contextos e as circunstâncias. O bispo An agiu dentro dos critérios e das possibilidades contempladas na carta papal de 2007. E a Santa Sé, atendo-se na prática à colegialidade apostólica, que significa também assumir responsabilidades compartilhadas, renova sua confiança em An, confirma-o em sua autoridade episcopal e convida todos a segui-lo, mesmo aqueles que ainda hoje não compartilham das decisões tomadas pelo bispo.
A mesma delicada e cordial confiança é reservada também a eles: aos críticos que até hoje continuam a manifestar com mais energia sua divergência ante o bispo An, até o ponto de quase recusá-lo como pastor da diocese. Na carta de fevereiro, não há qualquer vestígio de repreensão a eles, não há nenhum diktat. O Papa apenas dá a saber que ele mesmo conta com seu sensus Ecclesiae: eles, que no passado sofreram mais de uma perseguição em razão de sua fé, e que talvez hoje tenham dificuldade para acolher as decisões do bispo, também serão ajudados pela mesma fé a aceitar, com o tempo, a nova situação.
Assim, com breves observações, as indicações reapresentadas na carta expedida a Baoding pela Sé Apostólica deixam transparecer também de onde pode vir um possível novo início para a atormentada diocese de Hebei. A questão não é tentar fazer um balanço ilusório dos erros e dos acertos, para estabelecer quem venceu e quem perdeu, como acontece nas disputas do mundo: mesmo porque nunca há vencedores, mas apenas derrotados, nos desvios sectários que às vezes, em nome do intransigente apego às próprias convicções, acabam por dilacerar a comunhão e por complicar o acesso dos fiéis aos meios da vida da graça. Ao contrário, é justamente a natureza sacramental da Igreja que pode transparecer nas relações entre seus membros, inclusive nas relações entre o bispo e seus sacerdotes. E que pode favorecer com o tempo, com paciência, sem pressões externas inúteis, o milagre da reconciliação, que só pode passar pelos corações e pelas consciências dos indivíduos, abraçando a todos e perdoando a tudo. E só dessa forma pode ser mais fácil para todos os cristãos de Baoding “levar uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e dignidade”, como escreveu São Paulo na Primeira Carta ao amigo Timóteo.