Os historiadores da via Giulia
No coração de Roma, encontra-se o Centro Superior Espanhol de Estudos Eclesiásticos. Desde 1959, realizam-se ali estudos relativos à história da Igreja na Espanha. Os sacerdotes residentes também se encarregam da igreja nacional de São Tiago e Santa Maria de Montserrat, ponto de referência da “colônia” espanhola de Roma e de todas as comunidades hispano-americanas privadas de uma igreja própria
de Pina Baglioni
![A entrada do Palácio de Montserrat, sede do Centro Superior Espanhol de Estudos Eclesiásticos, em via Giulia, 151<BR> [© Paolo Galosi]](/upload/articoli_immagini_interne/1279550639868.jpg)
A entrada do Palácio de Montserrat, sede do Centro Superior Espanhol de Estudos Eclesiásticos, em via Giulia, 151
[© Paolo Galosi]
O tour prossegue para o salão de honra, com o enorme retrato da rainha Isabel II de Bourbon, em cuja época se deu a edificação do edifício. “Ao redor da grande mesa reunia-se parte dos bispos espanhóis que vieram a Roma para o Concílio Vaticano II”, conta o reitor. “Outros eram hospedados na via de Torre Rossa e em outros centros hispano-romanos.”
Nascido em Oviedo, nas Astúrias, há oitenta e um anos, monsenhor Novalín vive em Roma já faz muito tempo. Logo depois de ordenado sacerdote, em 1952, mudou-se para a Urbe pela primeira vez para estudar História da Igreja na Gregoriana. Naquela época, hospedava-se no Palácio Altemps, antiga residência do Pontifício Colégio Espanhol. Mais tarde, a partir de 1960, passou a visitar Roma uma vez por ano, como pesquisador no Centro de Estudos de via Giulia, do qual, em 1975, tornou-se vice-reitor e, enfim, reitor, em 1998. “Tive a felicidade de receber a ordenação por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional de Barcelona, em junho de 1952”, lembra. “Éramos mais de 800 ordenados naquele dia. Como ainda não era usada a concelebração, a cerimônia se realizou no Montijuïc, o antigo estádio de futebol da cidade, com a presença de cem bispos. Cada um deles tinha seu altar, e o arcebispo de Barcelona celebrava no principal. Em outubro do mesmo ano, eu já estava em Roma.”
Duas instituições num mesmo edifício
No interior do edifício da via Giulia convivem duas instituições: a igreja nacional espanhola e o Centro Superior de Estudos Eclesiásticos. E os sacerdotes que fazem parte do Centro são os mesmos que cuidam da igreja. “Toda a nossa história começa no final da Idade Média”, conta Novalín. “O século XIV é importante para a fundação de igrejas nacionais em Roma: além da espanhola, são fundadas, por exemplo, também a de São Luís dos Franceses, a de Santa Maria da Alma, dos alemães, e a de Santo Antônio, dos portugueses. Essas igrejas nasciam em benefício dos peregrinos, que, em vida e na morte, queriam estabelecer um vínculo duradouro com o apóstolo Pedro. Entre as igrejas espanholas presentes em Roma, despontavam São Tiago dos Espanhóis, na praça Navona, e a nossa, Santa Maria de Montserrat. Eram as igrejas ligadas aos dois principais reinos da Península Ibérica: o Reino de Castela e o Reino de Aragão.” A primeira, cujo patrono era São Tiago, tinha sido fundada e sustentada graças às heranças dos espanhóis de origem castelhana que viviam em Roma e às doações dos príncipes desse Reino. Sua finalidade era assistir espiritual e materialmente seus conterrâneos. A outra, Santa Maria de Montserrat, era a igreja ligada ao Reino de Aragão, ponto de referência dos aragoneses e dos catalães. Ambas assistiam grandes massas de peregrinos: as pessoas chegavam a Roma esgotadas pela longa viagem ou, pior ainda, doentes. A ponto de se tornar necessário instalar hospitais anexos às próprias igrejas.
No início do século XIX, por motivos históricos e políticos, as duas igrejas se uniram numa única igreja nacional. Como sede definitiva, foi escolhida a da via de Montserrat, que naquela altura assumiu o título de São Tiago e de Santa Maria de Montserrat.
Foi então que, na região chamada “ilha de Montserrat”, onde algumas partes das instalações antigas já estavam em estado de abandono, começa a edificação do edifício atual, que se concluiria em 1862, na época da rainha Isabel II de Bourbon.
Desaparecendo, entre outras coisas, a necessidade de manter os hospitais em funcionamento, nasceu o projeto de criação do Centro de Estudos Eclesiásticos, que seria inaugurado bem depois, no Natal de 1959, durante o reitorado de monsenhor Maximino Romero de Lema, mais tarde secretário da Congregação para o Clero.
![Uma sala de leitura da biblioteca do Centro <BR>[© Paolo Galosi]](/upload/articoli_immagini_interne/1279550639884.jpg)
Uma sala de leitura da biblioteca do Centro
[© Paolo Galosi]
Desde então são “produzidos” em via Giulia essencialmente estudos superiores de ciências eclesiásticas, relativos, principalmente, à história da Igreja na Espanha. Em Roma, os pesquisadores têm à sua disposição o imenso patrimônio do Arquivo Secreto Vaticano e de todos os outros arquivos e bibliotecas eclesiásticos. Pesquisas mais recentes, sobre as relações entre a Igreja e as instituições civis, levaram os pesquisadores espanhóis a trabalhar também nos arquivos e nas bibliotecas estatais de Roma. Em sua própria casa podem, ainda, usufruir de uma boa biblioteca especializada em história da Igreja na Espanha e do fundo arquivístico da Pia Obra dos Estabelecimentos Espanhóis na Itália, organismo que sustenta as atividades da instituição. “Recebemos aqui sacerdotes que já obtiveram o mestrado, enviados a Roma por seus bispos de acordo com as necessidades das dioceses. Hospedamos quinze por mês, em sistema de rotação”, explica monsenhor Novalín. “Entre os muitos estudiosos, que já somam mais de 600, eu me lembro com grande prazer de padre Julián Carrón, hoje responsável pelo movimento de Comunhão e Libertação. Ele vinha ficar conosco um mês por ano, para preparar suas aulas e suas várias publicações. Na época, era professor de Sagrada Escritura na faculdade de Teologia de San Dámaso, em Madri. Sua presença era particularmente apreciada, por sua personalidade”.
A atividade intelectual do Centro se reflete sobretudo em suas publicações, articuladas em quatro séries: a revista Anthologica Annua, que reúne pesquisas históricas especiais realizadas ao longo do ano; os Monumenta Hispaniae Vaticana, série relativa aos documentos pontifícios sobre a história eclesiástica da Espanha; as monografias sobre temas particulares e, enfim, os subsídios para a pesquisa, sempre relacionados à vida da Igreja espanhola, realizados em fundos arquivísticos romanos. Já são mais de cem os volumes publicados por essas quatro séries. “Por circunstâncias particulares”, diz o reitor, “nos últimos anos tem-se registrado uma diminuição dos estudos históricos, em prejuízo dessas publicações. Nossa intenção é dar um novo impulso a esses estudos, quem sabe acrescentando novos campos de pesquisa”.
Os sacerdotes de via Giulia, que se dedicam principalmente aos estudos, representam um ponto de referência espiritual para toda a “colônia” espanhola de Roma, “embora a vida espiritual de nossos conterrâneos, graças às afinidades linguísticas e culturais com a Itália, seja hoje também alimentada nas paróquias da Urbe”, explica o reitor. “Buscamos de modo particular uma vida comunitária e litúrgica, como a que é própria de um colégio sacerdotal: nós nos preparamos para as missas dominicais, principalmente, e de modo especial para a missa solene das 10 da manhã, com homilias elaboradas para a ocasião e insistindo muito na música gregoriana. Esse cuidado se intensifica no Natal e durante a Semana Santa, quando o número de conterrâneos nossos residentes em Roma ou de peregrinos é maior. E não nos esquecemos da grande afluência de espanhóis nas datas festivas nacionais: a festa de Santa Maria de Montserrat, em 27 de abril, a festa de São Tiago, em 25 de julho, e a festa de Nossa Senhora do Pilar, em 12 de outubro. Mas nossa igreja acolhe também fraternalmente todas as manifestações de caráter religioso organizadas pelas comunidades hispano-americanas que não têm uma igreja própria em Roma”.