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06/07 - 2010 >
Entre os temores do passado e a busca de novos caminhos de convivência
Entre os temores do passado e a busca de novos caminhos de convivência
As guerras são um passado que não quer passar, a paz ainda é precária. Cristãos e muçulmanos são chamados a procurar novos equilíbrios e novas convergências para estabilizar um Estado multiconfessional que tem uma importância capital para a paz do Oriente Médio
de Davide Malacaria e Lorenzo Biondi
![Beirute [© Getty Images]](/upload/articoli_immagini_interne/1286465267881.jpg)
Beirute [© Getty Images]
A história recente do Líbano é realmente atormentada. Em 1975, teve início a longa e sangrenta guerra civil que se encerraria em 1989 com o acordo de Taef. Foram anos em que Israel e os Estados árabes, sobretudo a vizinha Síria, se enfrentaram nesta região, apoiando aliados que mudavam a toda hora ou mandando tropas de invasão. Nessa época, a linha de demarcação que separava amigos de inimigos passava também pelas diferenças religiosas, o que acabou por escavar um abismo entre as diversas comunidades. Hoje, após anos de relativa tranquilidade, o País parece fadado a mergulhar novamente no abismo: em fevereiro de 2005, o primeiro-ministro Rafiq Hariri foi assassinado. Uma multidão imensa se lançou às ruas de Beirute, pedindo a retirada das tropas sírias ainda estacionadas no País, ao que se seguiu de uma manifestação preparada pelo Hezbollah, tão grande quanto, mas no sentido contrário. Esse impasse só se resolveu com a retirada dos militares sírios e a instituição de um tribunal internacional encarregado de investigar a morte de Hariri (até hoje os culpados não foram identificados). No entanto, os crimes contra personalidades continuaram a ocorrer. Em junho de 2005, por exemplo, foi assassinado o jornalista e intelectual Samir Kassir, um dos fundadores do movimento Esquerda Democrática; em dezembro do mesmo ano, foi morto o jornalista e parlamentar Gebran Tueni, do Movimento pelo Futuro; em novembro de 2006, foi eliminado o ministro da Indústria, Pierre Gemayel, expoente do Partido das Falanges. Uma escalada de violência cometida por assassinos que continuam a não ter rosto. O fato mais traumático dos últimos anos, porém, ainda é a guerra contra Israel ocorrida em meados de 2006, depois de uma incursão-surpresa do Hezbollah contra os militares de Tsahal.
Atualmente, o país dos cedros tem procurado, com dificuldade, deixar o passado para trás, em busca de uma estabilidade capaz de manter unidas as dezoito comunidades religiosas que convivem aqui há séculos. E isso numa região, o Oriente Médio, em que a estabilidade, há muito tempo, é algo permanentemente provisório.
Um país com vocação multiconfessional
“A guerra acabou, mas as divisões continuam”, explica-nos padre Khalil Alwan, reitor do santuário mais venerado do país, o de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa. “Beirute ainda está dividida em bairros muçulmanos e cristãos. Já não há fronteiras reais, marcadas pelo arame farpado, mas existem as psicológicas. É raro encontrar muçulmanos em bairros cristãos e vice-versa, ainda que ultimamente as coisas estejam mudando... Mas ainda é cedo”. Apesar de tudo, aqui, no santuário localizado sobre uma colina que domina a capital, esse encontro improvável é algo cotidiano. Hoje, no meio da multidão de peregrinos, se destacam algumas jovens com a cabeça coberta por um véu, que, como todos os outros, sobem a pequena escadaria que leva ao topo desse edifício em formato de cone para se aproximar da imagem de Nossa Senhora, pôr a mão em sua base e reclinar a cabeça. E rezar uma oração murmurada. Sim, o santuário recebe também a visita de muçulmanos, alguns vindos de longe, como os provenientes do Irã. “Geralmente, as mulheres islâmicas vêm até aqui para pedir a graça de ter filhos, mas é claro que as pessoas pedem de tudo à Virgem Maria”, explica-nos o reitor, que pertence à Congregação dos Missionários Libaneses Maronitas. “Para os muçulmanos, Maria é apenas a mãe do profeta Jesus, que eles não reconhecem como Deus; apesar disso, é objeto de devoção profunda. Nos bairros muçulmanos de Beirute, onde existem igrejas dedicadas à Virgem Maria, é fácil ver muçulmanos rezando ali”. Padre Chamoun Ihab, da mesma congregação do reitor, confirma suas palavras. E lembra a época da guerra, quando era pároco no sul, onde a maioria é muçulmana do ramo xiita. Naquele tempo, era fácil encontrar islâmicos na igreja, durante a missa, e mulheres de véu aglomeradas em torno da imagem de Nossa Senhora...
Este ano, a Anunciação passou a ser festa civil, uma decisão do governo a que cristãos e muçulmanos foram favoráveis. A finalidade declarada é criar um momento de encontro entre as diversas comunidades religiosas. “Essa decisão política é muito bem-vinda”, afirma padre Antoine Daou, secretário da Comissão da Conferência Episcopal Libanesa para o Diálogo com o Islã, “mas é claro que o diálogo entre as religiões deve ser construído sobre bases mais sólidas e respeitando a identidade de cada um: é preciso levar os muçulmanos a entenderem a figura de Maria no Evangelho, que é bem diferente da que aparece no Alcorão”. Padre Antoine conta em detalhes suas relações fecundas com os islâmicos e como, no passado, presenciou as comemorações do aiatolá Khomeini na qualidade de delegado do Patriarcado Maronita de Antioquia. “No campo das relações inter-religiosas, são usadas muitas vezes expressões limitadas, como ‘respeito pelo outro’, ‘tolerância’... O Evangelho nos pede uma coisa bem diferente: amar ao próximo, seja ele cristão ou muçulmano. No Líbano, temos uma história de séculos de convivência entre cristãos e muçulmanos. Se o que queremos é construir uma sociedade equilibrada, a questão não é criar sei lá o que, mas retornar ao passado de vida em comum pacífica”. Foram séculos de convivência, que proporcionaram a criação de um Estado único no mundo, nem teocrático nem laico. “A ‘fórmula’ libanesa é a participação em pé de igualdade de cristãos e muçulmanos no Parlamento, no governo e em outras instituições”, explica Béchara Raï, arcebispo de Jbeil, a antiga Biblos; “assim, a presidência da República é ocupada pelos cristãos maronitas, a do Parlamento pelos muçulmanos xiitas e a do governo pelos muçulmanos sunitas. Os problemas de convivência vêm de duas tendências inatas e contraditórias: os muçulmanos tendem à teocracia islâmica e os cristãos à laicidade ocidental. As interferências externas batem nessas teclas”. Dom Raï tem familiaridade com o Vaticano, como membro do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais e do Pontifício Conselho da Pastoral dos Migrantes e dos Itinerantes. Nós o encontramos num dia em que atende os fiéis no tribunal eclesiástico de Beirute, às vezes em grupo, às vezes um por um, cada qual vindo expor e pedir uma solução para seu problema. Um deles têm nas mãos o rosário muçulmano, e o desfia enquanto espera. “As Igrejas orientais são uma ponte entre o cristianismo e o islã”, acrescenta. “O Ocidente não pode dialogar com o islã prescindindo dos cristãos orientais. Estes dirão aos ocidentais que o islã, por si só, não é fonte de violência, e dirão aos muçulmanos que os cristãos do Ocidente não são promotores de guerra e de ódio. Os cristãos do Oriente gostariam que os ocidentais entendessem que o islã não é apenas uma religião, mas um regime político teocrático que une religião e Estado. Não é possível tratar com os muçulmanos com base na mentalidade laica ocidental”. O arcebispo conclui sua análise explicando como a instabilidade do Oriente Médio, a crise econômica que a acompanha e o fundamentalismo islâmico são a causa de uma constante migração de cristãos do País. Muitos por aqui chegaram a essa constatação, que é, ao mesmo tempo, um temor: o de uma hemorragia irrefreável, capaz de reduzir a presença cristã a uma minoria sem influência. O que significa também o medo de cedo ou tarde assistir à transformação do Líbano num Estado islâmico. Todos esses temores, analogamente ao que ocorre em Israel em relação aos palestinos, se fundamentam na cruel lei da demografia, uma vez que os muçulmanos têm tido mais filhos que os cristãos.
![O santuário de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa [© Lorenzo Biondi]](/upload/articoli_immagini_interne/1286465267912.jpg)
O santuário de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa [© Lorenzo Biondi]
Elias Nassar, arcebispo maronita de Sídon, recebe-nos numa manhã particularmente sufocante. Ele nos explica que hoje o relacionamento entre muçulmanos e cristãos em sua região é tranquilo, e que ele mesmo, no dia anterior, foi convidado para um encontro com alguns muftis locais, para consolidar suas relações. Mas o êxodo dos cristãos o entristece. “A verdade é que há mais solidariedade entre islâmicos que entre cristãos”, explica, enquanto ouvimos ao longe a oração entoada pelo muezim da mesquita mais próxima. “Os países árabes enviam rios de dólares, que depois são investidos em obras que empregam os muçulmanos. Já os cristãos, lamento ter de dizer isto, recebem realmente muito pouco, quer de outras regiões do Líbano, quer dos governos e das Igrejas ocidentais. E os cristãos daqui não encontram empregos, nem a Igreja local tem fundos para ajudá-los. Assim, são obrigados a deixar a região. Em 1985, havia duas mil famílias católicas em Sídon; hoje são apenas cento e vinte. Não precisamos de ajuda econômica para criar algo contra as outras comunidades, mas para ficar aqui, com elas”.
Em Tiro, outra diocese do sul, a situação é semelhante. “Há quatrocentos anos, por razões históricas e geográficas, cristãos e muçulmanos tiveram de conviver em nossa cidade e na região. Festejam juntos os casamentos, vão juntos aos funerais: é a vida de todos os dias”, explica dom Chucrallah-Nabil Hage, arcebispo maronita de Tiro, depois de falar da situação de sua região, que viveu longos períodos de paz no passado, interrompidos por conflitos sangrentos de caráter religioso. “Infelizmente”, diz, para concluir sua digressão histórica, “desde 1948 o sul do país esteve submetido a guerras ininterruptas. Com o tempo, as pessoas abandonaram a região, por motivos econômicos ou de segurança. Só que, enquanto os muçulmanos voltaram a seus vilarejos ao final dos conflitos, os cristãos preferiram ir embora e construir o futuro de seus filhos em outro lugar”. Assim, a Igreja local tem de atuar num território de ampla maioria muçulmana. Poderia ser uma tragédia. Ou talvez possa ser uma oportunidade para um convívio diferente... O arcebispo cita uma fileira de números, como os oitocentos alunos, quase todos muçulmanos, da escola Cadmus, menina dos olhos da arquidiocese. Ou as outras escolas, espalhadas pela região, que também oferecem seus serviços de educação a uma maioria de estudantes islâmicos. Não há ênfase na sua fala. São simplesmente escolas eficientes, que atraem os islâmicos por seu profissionalismo. “Mas hoje os muçulmanos também estão abrindo boas escolas”, conclui o prelado. Em outras dioceses do País, sobretudo naquelas que se encontram em regiões de maioria islâmica, a presença de estudantes muçulmanos nas escolas cristãs é uma coisa comum, acrescenta. Nós o questionamos sobre a última guerra, contra Israel, devastadora para o país dos cedros. O arcebispo nos diz que naquela circunstância dramática aconteceu algo inesperado, o florescimento de uma caridade imprevisível. Fugindo das bombas, os islâmicos encontraram refúgio junto à comunidade cristã. As casas dos fiéis, mas também os edifícios cristãos, como as escolas, os mosteiros e até o arcebispado católico e greco-católico de Tiro, se abriram para acolher os refugiados. “Não há nada de extraordinário nisso”, apressa-se a atenuar o arcebispo: “Os nossos vizinhos estavam em dificuldade; ajudá-los era normal. Não há mérito nenhum nisso”.
O que aconteceu em Tiro aconteceu também em Sídon. E em Beirute. E em Trípoli. E em cada pequena cidade do Líbano. É o que nos conta também o padre Marcel Abi Khalil, que já foi superior-geral da ordem dos Maronitas Mariamitas e hoje vive em Deir el Qamar. O vilarejo é um enclave cristão do Chouf, uma região habitada pelos drusos, seita muçulmana com conotações vagamente esotéricas. Durante a conversa, padre Marcel aponta para o grande edifício ao lado de sua casa, em cujo interior, em 1860, os islâmicos assassinaram, um por um, centenas de cristãos. São histórias do passado, explica, para depois nos convidar a visitar uma grande cruz erigida pelo beato padre Yacoub no monte que domina o vilarejo. A cruz é cercada por destroços do que antigamente eram estações da via-sacra, que algum soldado zeloso demais achou por bem demolir (sírios e israelenses passaram por aqui). Chegaram a atirar até em Jesus (e olha que já estava na cruz...), o que os levou a ter de tapar os buracos de bala. Mas isso é passado, retoma padre Marcel, “hoje a situação está tranquila”.
![A Catedral Maronita de São Jorge
e a mesquita Jami al-Amin, em Beirute [© Lorenzo Biondi]](/upload/articoli_immagini_interne/1286465267959.jpg)
A Catedral Maronita de São Jorge e a mesquita Jami al-Amin, em Beirute [© Lorenzo Biondi]
Durante a última guerra, a Cáritas libanesa foi a primeira ONG a agir em socorro da população islâmica. Padre Simoun Faddoul, seu presidente, faz-nos uma pequena revelação ao lembrar aqueles dias: naquele clima trágico, a Cáritas chegou a receber financiamento de países árabes. “Foi a primeira vez que aconteceu uma coisa assim...”. Atualmente, explica, a Cáritas desenvolve suas atividades em favor de toda a população, independentemente das diferenças religiosas, e atua dentro de uma associação de ONGs que reúne organizações assistenciais muçulmanas e cristãs. Ele nos fala também dos programas de acolhida aos refugiados iraquianos e aos palestinos que vivem há décadas nos campos de refugiados libaneses, aos quais, até hoje, é negado o direito de vender e comprar (casas e terrenos, principalmente). “Por meio de atividades sociais, é possível derrubar barreiras e construir pontes”, conclui padre Simon. “Na vida cotidiana, somos todos libaneses. É a política que cria divisões”.
Têm o mesmo teor as palavras do arcebispo maronita de Trípoli, Georges Bou-Jaoudé: “Para nós, a liberdade religiosa não é um problema, mesmo nesta cidade de grande maioria muçulmana: nas festas religiosas, saímos às ruas tranquilamente, podemos fazer procissões e outras coisas”. Trípoli se encontra no norte do Líbano, e grande parte da população é sunita. Enquanto falamos com o prelado, numa grande sala do arcebispado, entra o mufti sunita da cidade, Malik al-Shaar. O abraço dos dois evidencia uma fraternidade incomum. “Em primeiro lugar, todos os homens vêm da mesma raiz, Adão e Eva”, começa a explicar o mufti, com sua fala cheia de sabedoria. “Todas as religiões monoteístas são reveladas pelo próprio Deus. O profeta Maomé diz que todos os profetas são irmãos, enviados por Deus. Em segundo lugar, a nossa própria religião, o islã, nos impõe que vivamos juntos de todos, independentemente das opiniões políticas. Em terceiro lugar, moramos todos num único país. Ou seja, vivemos juntos como homens, como crentes e como cidadãos: assim, a convivência tem uma dimensão humana, uma dimensão religiosa e uma dimensão nacional. O aprofundamento de nossas relações nos aproxima do Criador. E a capacidade de convívio com o outro é um valor da fé islâmica: quem rejeita o outro, para nós, é um descrente. Há dezoito confissões diferentes no Líbano, mas todas têm um denominador comum, que é o de contribuírem, juntas, para o bem-estar da vida nacional. Nossas diferenças não podem ser motivo de hostilidade: estão ligadas à fé, não às relações humanas. Desde quando fui eleito mufti, trabalho para favorecer tudo isso. Não somos fotocópias uns dos outros, somos complementares: cristãos, muçulmanos e judeus”. Enquanto fala, o mufti procura com os olhos o arcebispo (que nos serve humildemente de tradutor do árabe), para identificar algum sinal de aprovação. E isso não falta. É uma sintonia que não parece derivar de algo estranho ao papel próprio de um bispo da Santa Igreja Romana, mas de algo que tem a ver com a própria essência de sua tarefa pastoral, em que a busca de caminhos para a paz e para a concórdia com todos é feita em benefício dos fiéis e da coletividade. Na verdade, restam bem poucos fiéis nesta cidade, apenas quinze mil, conta-nos o arcebispo, “mas a situação voltou a melhorar”. E acrescenta: “Entre os muçulmanos, existe a vontade de que os cristãos voltem à cidade, até por motivos econômicos e comerciais. A cidade não pode viver sem cristãos. Até pouco tempo, não havia representação cristã no Conselho Municipal. Nós a solicitamos e hoje três dos vinte e quatro conselheiros são nomeados entre os cristãos, com o consenso geral. A tradição, aqui, é a convivência. Os extremistas muitas vezes pertencem à camada mais pobre da população e são fanatizados por influências externas, estrangeiras”. Sobre essa questão, o mufti cita o ex-presidente da República Elias Hrawi, que, quando governava, explicou os conflitos entre libaneses com estas palavras: “É a guerra de outros em nossa terra”. “Em nosso país, como no mundo todo, existem exaltados”, retoma o mufti, “mas é preciso que o tratamento dê uma resposta adequada à doença. O extremismo é a reação a um mal e, às vezes, o fruto de uma má compreensão da religião. A pobreza, a injustiça e a instabilidade são um terreno fértil para o nascimento do extremismo. Toda vez que a situação política ou social se estabiliza, o fundamentalismo se enfraquece. Por isso, eu gostaria de fazer um apelo ao mundo: ajudem-nos a encontrar um remédio para a pobreza e para a instabilidade; dessa forma, derrotaremos o fundamentalismo”.
“Não existe apenas o extremismo muçulmano”, comenta dom Georges Bou-Jaoudé: “Este talvez seja mais visível, pois os extremistas islâmicos são mais numerosos. Mas há muitos outros fundamentalistas no mundo; basta pensar na política americana sob a presidência Bush... Um extremismo chama a outro extremismo...”. Para promover a distensão geral, explica o arcebispo, ele e o mufti se apresentam juntos em público. Uma sintonia que permitiu anular muitos perigos. Foi o caso de uma livraria cristã de Trípoli, em que foram encontrados no chão alguns livros do Alcorão. Ato sacrílego de um cristão? Se tivesse sido isso, teria começado um incêndio. “Nada disso: foi um muçulmano que queria criar um incidente...”, concluem nossos interlocutores, com sua concórdia tão singular.
“A situação local é problemática, mas há problemas no mundo inteiro”, constata, impassível, o arcebispo greco-ortodoxo de Trípoli, Ephraim Kyriakos. “Apesar de tudo, ainda estamos aqui... graças a Deus”. O acento, em sua fala, recai (e se mantém) sobre o agradecimento final. No Líbano, os fanáticos são mesmo uma minoria, acrescenta, pois existe liberdade no país: o problema são as influências externas... “Não nos deixam em paz”, conclui, quase suspirando por trás da longa barba; “mas apesar de tudo ainda estamos aqui”. Depois, faz uma pausa e acrescenta: “Rezemos para que continue assim”. O problema, lamenta, é que o Estado libanês não é leigo... As relações com os muçulmanos de sua diocese são serenas, prossegue, contando de iniciativas sociais tomadas em comum, como a atenção aos portadores de necessidades especiais. Nós perguntamos a ele se em suas relações com os islâmicos se lembra de algum episódio particularmente significativo. “Um episódio?”, repete e ri, divertindo-se... “Sim, claro... quando fui nomeado bispo desta cidade: fui mais bem acolhido pelos muçulmanos que pelos cristãos...”.
![Caná. O mausoléu que recorda o momento mais trágico da guerra de 2006, quando, durante um bombardeio, 29 pessoas morreram nesse vilarejo no sul do Líbano, quase todas crianças [© Lorenzo Biondi]](/upload/articoli_immagini_interne/1286465267975.jpg)
Caná. O mausoléu que recorda o momento mais trágico da guerra de 2006, quando, durante um bombardeio, 29 pessoas morreram nesse vilarejo no sul do Líbano, quase todas crianças [© Lorenzo Biondi]
Em Beirute, encontramos o professor Mohammed Sammak, secretário-geral do Comitê Nacional para o Diálogo Islâmico-Cristão: “A presidência Bush e o fundamentalismo islâmico se sustentaram mutuamente, mediante uma cultura da rejeição do outro. O resultado é que o islã moderado ficou esmagado entre esses dois polos. A mídia também promoveu esse extremismo: títulos de página inteira para os atentados e nem uma linha para a grande maioria moderada. O islã foi ‘desencaminhado’ pela mídia e por alguns políticos ocidentais; nossa religião é a vítima, e não a fonte do terrorismo, por mais que os terroristas digam que combatem pelo islã. O Ocidente, depois do 11 de Setembro, tem aplicado uma punição coletiva contra todos os islâmicos: uma novidade perigosa para a cultura de vocês, baseada na responsabilidade individual do criminoso”. A análise do professor é serena e tange as questões de um modo não corriqueiro, como, por exemplo, quando explica que a própria palavra “fundamentalismo” nada tem a ver com a tradição islâmica, mas nasceu nos Estados Unidos, dentro do movimento cristão evangélico. “O islã tem a jihad”, explica, “que na realidade é uma guerra defensiva, infelizmente mal interpretada por alguns muçulmanos e entendida equivocadamente pelos não muçulmanos. Um equívoco voluntário, nos Estados Unidos, funcional a uma linha política específica...”.
Sammak participou do Sínodo especial para o Líbano de 1995. Na ocasião, pediram-lhe que preparasse o esboço do documento final sobre as relações islâmico-cristãs. “Foi a primeira vez que um documento escrito por um muçulmano foi proposto como documento oficial da Igreja...”, lembra. Desde então, ele é um interlocutor privilegiado da comunidade cristã libanesa. Explica-nos que, superado o incidente de Regensburg, a imagem de Bento XVI junto aos muçulmanos atualmente é muito positiva, graças à grande quantidade de gestos e palavras distensivas do Papa. Mas também graças à histórica visita do rei da Arábia Saudita ao Vaticano, ocorrida em 2007. E acrescenta: “Para nós, islâmicos, cuidar dos cristãos do Oriente é uma responsabilidade”. Na prática, uma frase como essa põe nas mãos dos muçulmanos a proteção da presença cristã em terras árabes, afirmação realmente surpreendente, que demonstra que os caminhos do Senhor são realmente infinitos. As palavras de Sammak refletem afirmações semelhantes de expoentes destacados do mundo islâmico. Garantias como essas são suficientes para dissipar o medo que se insinua no interior da Igreja libanesa de uma progressiva islamização do País? É um tema que toca a própria essência da presença cristã em terras islâmicas (para dizer o mínimo). Em outras palavras, a questão que se apresenta é: o problema numérico, e, por conseguinte, a relação de forças, é primordial ou, pelo contrário, é possível simplesmente aceitar a condição de pequeno rebanho (que na verdade é semelhante à assumida no Ocidente), para ser “fermento” numa sociedade já islâmica, como diz o arcebispo maronita de Beirute, dom Paul Youssef Matar? Esse é um nó que a Igreja libanesa terá de desatar, com o tempo. Hoje, as feridas da guerra civil talvez ainda estejam frescas demais.
Neste meio-tempo, porém, a política parece ter encontrado caminhos de convergência, na medida em que a coalizão que venceu as últimas eleições conduziu ao governo, lado a lado, muçulmanos sunitas e cristãos. Nesse sentido, é ainda mais significativo o ocorrido na oposição (que participa do governo de unidade nacional), em que o maior partido cristão do país, dirigido pelo general Michel Aoun, coligou-se ao Hezbollah. É uma aliança surpreendente, que nasceu ao longo de anos em que o estrondo do conflito de civilizações se erguia de modo ensurdecedor. É possível que esse tipo de unificação, tão difícil em outros lugares, apenas reflita a normalidade de um país que vive e prospera sob a multiconfessionalidade. Mas pode ser também que, como muitas pessoas nos disseram, a aproximação entre as comunidades tenha sido facilitada pelo socorro prestado pelos cristãos aos muçulmanos durante a guerra de 2006.
Não temos respostas para isso. O que podemos dizer é lembrar um episódio ocorrido no município de Caná, no sul da diocese de Tiro. Ali, há um mausoléu com vinte e nove túmulos, contornado por fotos dos rostos dos defuntos dispostas em semicírculo: são quase todos crianças, lembrança do novo massacre de inocentes que representou o momento mais trágico da guerra de 2006. Há quem aponte esse vilarejo como sendo o do primeiro milagre de Jesus, hipótese provavelmente infundada. O certo é que, não muito longe desse mausoléu infantil, há um lugar de recordação daquele primeiro milagre, com esculturas de pedra que dão testemunho de uma antiga devoção cristã. É um pouco triste ver que essa devoção se transformou em meta turística quase desconhecida, mas essa é a realidade. Embora seja uma localidade muçulmana, Caná, como muitos outros municípios de maioria islâmica, possui uma igreja cristã. Nós a encontramos fechada, pois já passa do horário de funcionamento. Quem nos socorre é um senhor idoso de sorriso bondoso, guardião das chaves. Quando ele abre o portão, nós nos surpreendemos ao ver seus grossos dedos queimados de sol desfiarem com agilidade um gasto rosário muçulmano. De repente, tudo fica mais simples.