História
O Pontifício Seminário Francês, encruzilhada da história
de Pina Baglioni

Padre Louis Marie Lannurien, o fundador do Pontifício Seminário Francês
Dirigido, desde sua fundação, pelos padres da Congregação do Espírito Santo como um pequeno forte em defesa da autoridade do papado, o Seminário Francês representaria um dos ambientes mais significativos do ultramontanismo, a corrente do catolicismo transalpino do século XIX que “olhava para além das montanhas”, ou seja, para o papa, visto como única e indiscutível autoridade da Igreja. Em contraposição, o neogalicanismo defendia as tradições peculiares da Igreja francesa, sobretudo no campo litúrgico, e seus representantes, em Roma, atuavam na igreja de São Luís dos Franceses.
Papa Pio IX demonstrou imediatamente um grande interesse pelo Seminário Francês. Tanto assim que, em 14 de julho de 1859, com a bula In sublimi Principis, ratificava sua aprovação canônica e se comprometia a ser “para sempre seu protetor”. As aparições marianas a Bernadete Soubirous na gruta de Lourdes, em 1858, concorreram para reforçar esse laço.
Poucos anos depois, entre 1868 e 1870, a casa de via di Santa Chiara receberia cinquenta hóspedes, entre bispos e teólogos, por ocasião do Concílio Vaticano I. Todos alinhados em favor da infalibilidade do papa, tema central do Concílio, contra a facção dos anti-infalibilistas, entrincheirados no Palácio Rospigliosi e no Palácio Grazioli.
Em 20 de junho de 1902, o Seminário obteve do papa Leão XIII o título de “Pontifício”. Nesse período, chegava a Roma o novo reitor, padre Henri Le Floch. Com suas posições ultraconservadoras, Le Floch transformaria o Seminário na dépendance italiana da Action Française de Charles Maurras, de quem o reitor se declarava fervoroso admirador. Sob a direção de padre Le Floch, ocorre um extraordinário crescimento do número de seminaristas: se, em 1904, eram 100, já tinham passado a 140 pouco antes da Grande Guerra, e chegariam a 207, em 1926, um recorde nunca mais alcançado em toda a história do Seminário.
Mas a admiração pela Action Française seria fatal para padre Le Floch: papa Pio XI, em 8 de setembro de 1926, lançou uma condenação pública ao movimento. A partir daquele momento, os católicos já não poderiam aderir à Action, nem ler sua imprensa, julgada perigosa para a fé e a formação dos jovens. Padre Le Floch demitiu-se, então, do cargo de diretor do Seminário e seu pedido de dispensa foi imediatamente aceito pelo Papa. Ele partiria de Roma em 20 de julho de 1927, deixando seus seminaristas perdidos. De modo particular, um deles: Marcel Lefebvre, hóspede do Seminário desde 1923, grande admirador de padre Le Floch e das ideias de Charles Maurras.
Depois do ultramontanismo das primeiras décadas e do ultraconservadorismo do período de padre Le Floch, o Seminário Francês se transformaria, durante o Concílio Vaticano II, num dos mais vivos laboratórios da renovação da Igreja. Graças a figuras como o arcebispo de Toulouse, o cardeal Gabriel-Marie Garrone. Hábil organizador da fase preparatória do Concílio, Garrone colaborou para a redação da constituição pastoral Gaudium et spes. Dos muitos bispos franceses que estiveram em Roma para o Concílio, pelo menos 44 eram ex-alunos do Seminário. Entre estes, o já citado Marcel Lefebvre, arcebispo de Dakar, e Alfred Ancel, bispo auxiliar de Lyon. Formados sob o mesmo teto na década de 1920, eles viveriam destinos diferentes: o primeiro, a partir de 1962, faria uma crítica radical ao Concílio, cujos desdobramentos o conduziriam, em 1976, à suspensão a divinis e, em 1988, à excomunhão; o segundo atrairia a atenção da Igreja para sua experiência pastoral ao lado dos operários de Lyon.
Um episódio talvez conte melhor que qualquer outro o clima que se respirava na década de 1960 no Seminário Francês: a chegada, no segundo semestre de 1963, de Bartolomeu Archondonis, um jovem diácono ortodoxo, enviado de Constantinopla a Roma pelo Patriarcado Ecumênico para completar seus estudos de Direito Canônico no Pontifício Instituto Oriental. Era a primeira vez, depois de dez séculos, que um ortodoxo ia estudar num ambiente e num instituto católico-romano. Em 28 de junho de 1995, Bartolomeu cruzaria de novo o portão de via di Santa Chiara, para prestar homenagem ao seminário de sua juventude. Desta vez, como Patriarca Ecumênico de Constantinopla, por ocasião da visita oficial a João Paulo II.
O Seminário, depois de atravessar, a partir de 1947, uma preocupante diminuição de estudantes, alcançou no início da década de 1960 o número de 108 inscritos. De 1966 para a frente, porém, os números voltaram lentamente a preocupar, até chegar aos 54 inscritos de 1970.
Um dos motivos da crise deve ser buscado no fato de que uma parte dos seminaristas manifestou franca divergência ante as profundas transformações provocadas pelo Concílio Vaticano II no campo litúrgico. Esses seminaristas, após tentativas fracassadas de adaptação, decidiram inscrever-se na Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por dom Lefebvre em 1970, e se mudaram para seu seminário internacional, em Écône, na Suíça. Naqueles mesmos anos, registrou-se também o abandono de outros oito jovens do Seminário Francês que foram para a Fraternidade da Santíssima Virgem Maria, fundada em Gênova pelo sacerdote grego Theodossios Maria della Croce, sob a proteção do cardeal Giuseppe Siri. Em 1976, porém, ocorreu o fenômeno inverso: alguns ex-seminaristas e jovens sacerdotes expressaram o desejo de voltar ao Pontifício Seminário Francês, em consequência do impacto desfavorável da suspensão a divinis de dom Marcel Lefebvre. O caminho para voltar a Roma não foi simples: num primeiro momento ficaram sob a responsabilidade dos padres lazaristas, para que fosse verificado o estado de seus estudos teológicos e dessa forma fosse possível evitar que viessem a formar um grupo autônomo em via di Santa Chiara. Mas, no fim, graças ao apoio de seus bispos diocesanos e à benevolência de Paulo VI, eles conseguiram voltar a Roma.
“Nunca nos resignamos à ruptura. A ruptura tinha, sim, trazido sofrimentos e feridas, mas, ao mesmo tempo, tinha preparado o terreno para a ideia de uma reconciliação marcada pela verdade e pelo respeito à concepção integral da doutrina católica e da Igreja, tal como fora afirmada no Concílio Vaticano II” (Claude Dagens, Formation intellectuelle et mission des prêtres au Séminaire Français de Rome, in: 150 ans au coeur de Rome. Le Séminaire Français, 1853-2003, op. cit., pp. 453-454).
Nos dias de hoje, o “lucro” obtido pelo Pontifício Seminário Francês em 157 anos de vida é considerável: de seus 4.800 seminaristas, 195 foram consagrados bispos, 23 criados cardeais. Entre as “glórias”, figuram o cardeal Roger Etchegaray, vice-decano do Colégio dos Cardeais, Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, e o bispo Dominique Mamberti, secretário para as Relações da Santa Sé com os Estados.