O novo é simplesmente descobrir um tesouro que já existe
“O tesouro é o das nossas raízes, a paixão missionária de Comboni, da fé vivida e comunicada por ele... uma fonte inexaurível e um caminho já traçado”. Entrevista com o padre Teresino Sebastiano Serra, Superior Geral dos Combonianos
de Stefania Falasca

Em primeiro plano, Teresino Sebastiano Serra em Cartum, por ocasião da celebração em honra de São Daniel Comboni
Padre Serra, o XVI Capítulo Geral dos Combonianos, concluído em 2 de outubro, elegeu-o com a maioria absoluta. Portanto nos próximos seis anos a tarefa de guiar a Congregação é sua...
PADRE TERESINO S. SERRA: Bem, isso já passou... Depois dos resultados da votação, deixa-se sempre ao “nomeado” um pouco de tempo para pensar se aceita ou não. Para mim deixaram uma noite toda... Passei a noite contando os azulejos do corredor: eram setenýa. Às onze e meia da noite tinha chamado o meu confessor para ser aconselhado, mas o tendo acordado, na hora ficou até meio zangado... Depois expliquei-lhe, entendeu e respondeu-me assim: “Bem isso quer dizer que nos próximos seis anos não lhe darei penitências, pois as terás em abundância...”. Na manhã seguinte “capitulei”, pensando nas palavras que ele me dissera: “Se os padres capitulares, os oitenta delegados de trinta nações, disseram sim para ti, tu respondas também sim e peça ajuda...”. Confiei. Dei muita confiança. E por enquanto, devo admitir, ainda não perdi a serenidade.
Com certeza... mas segundo as atas do Capítulo há um programa intenso para o futuro do Instituto. Discutiu-se sobre formação, metodologia, insistiu-se na exigência de uma nova missão... A propósito que significa?
SERRA: É verdade, insistiu-se muito nesse ponto. Acho difícil dar definições. É importante considerar e avaliar situações, lugares, tempos, contingências... e antes de tudo é preciso se perguntar o que é “missão”, e aquele “nova”?... A você, o que parece? Pode-se definir dizendo que é tudo e mais um pouco. O novo, ao invés, me parece que seja uma coisa muito simples: redescobrir o tesouro que já existe.
Qual?
ýERRA: O tesouro é o das nossas raízes, a paixão missionária de Comboni, da fé vivida e comunicada por Comboni... uma fonte inexaurível e um caminho já traçado. Para mim, o novo é voltar à origem daquele caminho e voltar a descobrir aquele patrimônio, aquela riqueza, que muitas vezes pensamos que já conhecemos e à qual não damos a devida importância ou nem chegamos a usá-la. Há muitos voluntários que levam adiante obras, mas comunicar uma fé vivida, autêntica, é uma outra história...
E essa foi a sua vocação...
SERRA: Essa é a nossa vocação. O “novo” são também os missionários e as missionárias que escreveram belas páginas de fraternidade, de dedicação, de paixão pela missão, de amor a Deus e de compartilhamento até o último momento de suas vidas, que deram e dão um testemunho de doação total, e seguir os seus passos sem reservas... os passos dos nossos mártires. E não são poucos.

Um missionário comboniano em uma escola no Brasil
SERRA: Justamente quando estávamos reunidos em Roma para o Capítulo, chegou a notícia do assassinato de dois combonianos no norte de Uganda, padre Mario Mantovani, um idoso sacerdote que vivia na África há 50 anos, e o irmão Kiryowa Godfrey, jovem recém professo ugandense. A morte deles foi como se Ele lá de cima quisesse mais uma vez nos colocar diante do fato que a missão e o martírio são vocações que muitas vezes caminham unidas, principalmente quando se decide ficar entre os irmãos mais pobres e abandonados e assumir junto seus problemas.
“Assumir a causa dos pobres, dos marginalizados”... Perdoe-me, mas muitas vezes essas expressões já soam como slogans...
SERRA: É verdade, são expressões usadas como bandeiras, das batalhas de papel. Do protagonismo. E mesmo entre os missionários algumas vezes corre-se este risco.
O senhor também critica isso... a que se refere particularmente?
ýERRA: Àqueles que não acolhem corretamente os sinais dos tempos e querem ir por tudo… agitam-se demais. A paixão por uma causa pode levar a não dar um passo atrás, a querer salvar o mundo… esquecendo às vezes que é Cristo quem salva. E gostaria de acrescentar um outro ponto.
Que ponto?
SERRA: É sacrossanto informar, denunciar e dar voz aos que não a tem, mas, para nós, o mais importante é a disposição de conviver com eles. Sem refletores e meios poderosos. Com os fatos, fisicamente, com as escolhas difíceis e corajosas. Estar com a disposição de quem aceita o papel de tijolo anônimo, de quem trabalha como humilde operário sabendo também que não poderá ver seus frutos. Por exemplo, no sul do Sudão, nós tínhamos construído igrejas, escolas, foi feito quando se podia fazer, hoje tudo foi destruído, não há mais nada, as pessoas se transferem de um lugar para outro... o que se pode fazer nessas situações? Alguns de nós ficaram com eles, vivem ali, transferem-se com eles, não têm mais nada, mas aquela gente sabe que não foi abandonada... Cada um de nós, onde quer que se encontre, é Igreja.
O senhor voltou recentemente do Sudão. Para vocês a África continua sendo uma escolha prioritária?
SERRA: Comboni nos deixou uma herança. Recomendou aos seus missionários para que amem com paixão esta terra abandonada. Uma terra que continua a ser abandonada, esquecida, assaltada, escravizada. Há muitas situações dramáticas, extremas, justamente no Sudão. Nós devemos escolher e viver nessas regiões mais pobres e esquecidas. Mas a escolha prioritária pela África não é nem exclusiva nem excludente.
Alguns escreveram que “os combonianos são uma família livre”...
SERRA: Bem eu poderia dizer variada: há os que vivem no passado, os do presente, e os que já se encontram no futuro... Do Concílio de Trento ao Concílio Vaticano IV, só para dar uma idéia... Mas se conhece uma família em que não haja diversidade?
Daniel Comboni conseguiu fazer com que missionários de formações diferentes atuassem juntos...
SERRA: Exatamente. No início não tinha pensado em fundar um Instituto todo seu, talvez não teria feito isso se o cardeal Barnabò não tivesse solicitado. Os seus primeiros missionários na África tinham várias origens: religiosos, diocesanos, leigos de várias culturas, várias espiritualidades, e podemos dizer que alguns não eram por nada “perfeitos”; outros foram tolerados, alguns suportados, embora tenham dado muitos problemas. Dava valor ao bem que podiam dar à missão e manteve-os unidos ensinando-lhes amar o que ele amava.
Então, o que quer dizer?
SERRA: Se há esse epicentro essencial, há também uma unidade. Nas cartas de Paulo às autoridades é chamado de “paraclito”, hoje é uma palavra que não agrada muito, mas “paraclito” vem de “parakalein”, que quer dizer animar, dar confiança, encaminhar para o bem. Mesmo não hesitando em retomar quando necessário, São Paulo nunca diz “Obrigo-vos”, mas diz “Exorto-vos”.
O que o senhor gostaria de recomendar aos seus missionários?
SERRA: Para que sigam adiante com coragem. Conscientes dos nossos limites e das nossas fragilidades, mas sem colocar obstáculos a Deus. A coragem vem da fé que nos diz que a nossa obra é Sua. Também peço para que rezem sempre mais. Senão, tudo é nada. A missão é feita com a oração. Isso nunca pode ser esquecido. Comboni queria seus missionários “santos e capazes”, não “homens provados”. Quem não reza, não pensa. Quem não pensa, não raciocina. E quem não raciocina, não é útil à missão.