Cenários. A questão católica vista de Taipei
Simplesmente chineses, cidadãos e cristãos
“Agora é o momento certo para a reconciliação. Pois o prestígio internacional de Pequim irá coincidir com o bem da Igreja. E o Papa traz a China todos os dias no seu coração”. Entrevista com o cardeal Paul Shan
de Giovanni Cubeddu

Acima, uma procissão pelas ruas de Taipei em Taiwan; à direita, o cardeal Paul Shan
“A carta do bispo Lanzhou é muito importante, pois precisamos realmente de reconciliação. Nós, a Igreja oficial e a patriótica... temos a mesma fé, temos os mesmos sacramentos! A divisão é imposta pelo governo de Pequim, não parte de dentro de nós. Por isso no futuro, para o nosso bem, para o bem dos cristãos, temos necessidade da reconciliação. E a prioridade neste caminho é o diálogo, disponibilidade recíproca em esclarecer as incompreensões entre nós. Fizemos algumas tentativas, cooperamos no trabalho pastoral e missionário e em difundir o Evangelho, agora creio que seja o momento certo de reconciliar-nos. E também acredito que essa seja a vontade de Deus, porque Jesus na última ceia rezou pela unidade, pela reconciliação, para que sejamos unidos, como ele é unido ao Pai. Também nós devemos rezar para que isso aconteça. Sabemos que a oração da maioria dos fiéis, dos sacerdotes, dos religiosos e dos bispos é para a unidade, queremos ser unidos, reconciliados, porque a divisão deriva de erros externos. Devemos rezar muito”.
Por que na sua opinião agora é o momento?
PAUL SHAN: Considero que a nova liderança chinesa em Pequim seja muito aberta. Muito mais do que no passado. Acredito que, para o bem comum do país, o governo queira que o povo fique unido e não dividido. São apenas alguns funcionários de nível mais baixo que querem, para próprio proveito, que a Igreja continue separada. Ao contrário, a cúpula do governo entende o quanto seja útil a unidade para a reconstrução da China, sabem quanta força venha da unidade e quanta fraqueza da divisão. Quando digo que o tempo chegou, a razão é a vontade da nova liderança de construir uma China economicamente forte. Os cristãos, unidos entre eles, podem oferecer uma contribuição maior para o desenvolvimento da economia, da agricultura, dos consumos, das infra-estruturas, e assim por diante.

Uma imagem da Assembléia Nacional popular durante os trabalhos de 15 de março passado quando foi formalizada a nomeação do presidente Hu Jintao e do novo primeiro-ministro da República Popular da China, Wen Jibao
SHAN: Diria que teriam benefícios a Igreja, o governo e o país. Se acontecer esta esperada abertura, o benefício será de todos. O governo aumentará consideravelmente seu prestígio internacional se permitir a unificação da Igreja. Em 2008 as Olimpíadas serão realizadas na China, chegarão muitas pessoas de todo o mundo que poderão ver com seus próprios olhos se os cristãos contam com a liberdade religiosa. Só o fato da vinda de toda essa gente já é uma pressão para o governo. Pequim está exercendo um papel cada vez mais importante no cenário mundial, está aumentando os seus contatos no exterior. E se conceder aos cristãos a sua união, fará pelo seu próprio prestígio, que coincidirá com o bem da Igreja, com a possibilidade de os cidadãos cristãos também terem uma vida normal.
A carta do bispo de Lanzhou refere-se à necessidade de atenuar algumas regras muito rígidas presentes nas célebres Diretivas da Santa Sé sobre alguns problemas da Igreja na China continental, proclamadas pela Propaganda Fide. Enfim é preciso de uma atualização. O senhor concorda?
SHAN: Sim, porque a situação está mudando e também as regras da Santa Sé deveriam se adequar à realidade. Se o governo permitir que os cristãos se unam e tenham liberdade, então muitos obstáculos para o estabelecimento das relações diplomáticas entre a Santa Sé e Pequim poderão desmoronar-se. Por isso, repito que o problema fundamental é deixar que os cristãos gozem da liberdade de religião. A questão das relações diplomáticas não é um problema.
Mas dificilmente poderiam se instaurar relações diplomáticas entre a Santa Sé e a China continental mantendo-se ao mesmo tempo as relações com Taiwan.
SHAN: Naturalmente, se a Santa Sé pudesse ter relações diplomáticas com os dois países, seria muito melhor. Mas se isso fosse impossível, e as relações com Taiwan tivessem que ser mudadas, como por exemplo, mantendo as relações ao nível de delegação apostólica, nós em Taiwan compreenderíamos. Sabemos que a natureza da diplomacia da Santa Sé é puramente religiosa, não política, e explicamos bem a toda a nossa Igreja local que a diplomacia vaticana não se dedica a interesses mundanos. Por isso, se acontecesse alguma coisa no campo diplomático, nós em Taiwan, compreenderíamos.

Acima, o encontro do primeiro-ministro chinês Wen Jibao com George W. Bush na Sala Oval da Casa Branca dia 9 de dezembro de 2003; abaixo, o presidente de Taiwan Chen Shui-bian
SHAN: Considerando que todos nós somos “o” povo chinês, e formamos a mesma Igreja e conhecemo-nos mutuamente, fazemos o que podemos para nos ajudar reciprocamente, com as nossas orações, a caridade, a amizade, a solicitude e algumas vezes com a ajuda material.
O que o senhor aconselharia para facilitar as relações entre a Santa Sé e o governo de Pequim? Quais os passos que Roma deveria dar?
SHAN: Antes de tudo, para poder falar com alguém precisa-se de diálogo, de conversas, de contatos, encontrar passo a passo um modo que seja adequado para ambas as partes. No que se refere à Igreja e aos aspectos doutrinais, certamente devemos permanecer na nossa tradição autêntica, não abandonar a fé, senão não seremos mais católicos. Quanto ao resto a Igreja, certamente pode adequar-se a todas as formas de regime político e, como disse o Santo Padre, podemos coexistir com qualquer sistema político.
Como o senhor julga as pressões sobre o tema dos direitos humanos muitas vezes exercidas por entidades internacionais com relação à China? E os pedidos que algumas vezes os Estados Unidos dirigiram à China continental no campo das relações com a Santa Sé?
SHAN: Não faz parte dos propósitos e nem dos ideais da Santa Sé pressionar os governos. Se algumas vezes resulta realmente impossível ter contatos diretos, a Santa Sé tenta os indiretos, através de outros governos. Mas isso não significa “fazer pressões”. Se não posso falar com alguém, então irei a um seu amigo para que ele transmita meu recado. Mas não faço pressões... senão a reação será negativa.
Recentemente o cardeal Danneels advertiu o perigo para a Igreja “de se apresentar como uma organização centralizada que manda seus agentes pelo mundo” porque isso “pode causar resistências principalmente na China”.
SHAN: O diálogo serve justamente para que a natureza da Santa Sé seja compreendida na China, pois não é um ordinário governo mundano, um poder mundano, mas uma religião. Até agora Pequim não entendeu isso e continua a interpretar as atividades da Santa Sé como gestos políticos e não religiosos. Esse é o ponto básico. Mas, se Pequim percebesse que a natureza da Santa Sé é outra, saberia que não há nada a temer. Os cristãos chineses não querem alcançar nenhum objetivo político, mas querem apenas viver como simples cidadãos e louvar a Deus com maior liberdade. Normalmente.
Com foram as relações de João Paulo II com a China nestes 25 anos de pontificado?
SHAN: Certamente esse Papa tem um grande amor pela Igreja da China. Todas as vezes que o encontrei, sempre me disse que todas as manhãs reza pela China, pelo povo chinês, e faz isso desde que foi eleito Papa. Lembro que ele foi à Coréia em 1984. No seu avião não tinha nenhum chinês, apenas alguns jornalistas europeus. Li num jornal coreano de língua inglesa que o entrevistaram durante o vôo e o Papa dissera: “A Igreja difundiu-se na Coréia chegando de Pequim. Eu rezo todos os dias pela China”. E lembro muito bem que no último Sínodo para a Ásia, no dia de abertura, o presidente da assembléia contou que fora convidado para um almoço com o Papa e que durante o almoço o cardeal coreano Kim perguntara jocosamente ao Papa: “Santo Padre, o senhor foi duas vezes à Coréia, por que não vai a Taiwan? Eu já estive lá...”. O Papa respondeu: “Gostaria muito ir para lá. Posso ir a Seul, Pequim, Xangai, Hong Kong, Taiwan, Hanói...”, e citou todos os lugares que ainda não tinha visitado. “Santidade, seriam necessários ao menos três meses para uma viagem dessas”, disse o cardeal Kim. O Papa replicou: “Não preciso de três meses, com as minhas orações faço esta viagem todos os dias”. Isso significa que o Papa traz a China todos os dias em seu coração . Ele lembra sempre da Igreja da China e ama muito o seu povo.
Por isso eu diria que depois de 25 anos de pontificado, certamente a China é uma das suas “preocupações”.
Certamente ele é o Papa da Igreja universal, o pastor de todos os fiéis, mas quando há cristãos que particularmente passam necessidades e dificuldades, creio que ele dê uma atenção e um afeto especial, uma oração particular. Um bom pai, que mesmo tendo tantos filhos, ao seu filhinho doente e fraco dá todo o seu coração e atenção. Assim é esse Papa para com a Igreja da China.
Houve momentos de tensão entre Taipei e Pequim porque o parlamento de Taiwan aprovou uma lei que possibilita o plebiscito para a declaração de independência da China continental. Mas até o presidente Bush declarou-se contrário a ações que mudem o status quo entre Taipei e Pequim. Qual é a sua opinião? E tudo isso, de que modo pode influenciar a vida da Igreja chinesa?
SHAN: No que se refere à situação entre Taipei e Pequim diria que tudo deve ficar como está. Agora, de modo geral, é melhor o status quo. Poderemos falar de mudanças quando as coisas estiverem mais simples e em Pequim houver uma maior consideração para com os direitos humanos, a democracia e a liberdade de religião.