Entrevista com Pietro Parolin sobre as relações entre a Igreja e o governo de Hanói
Passo a passo na trilha de Hô Chi Minh
“Não podemos deixar de esperar que haja disponibilidade de voltar ao espírito que animava Hô Chi Minh, o qual – na célebre ordenança número 234 de 1955 – não colocava imposições à Igreja acerca da nomeação dos bispos, do acesso aos seminários ou das atividades das congregações religiosas”. Palavras do subsecretário da Seção das Relações com os Estados da Secretaria de Estado do Vaticano
de Giovanni Cubeddu
“A única real chave de leitura para a nomeação do
cardeal Pham Minh Mân, no último consistório, é o cuidado do Papa para com a
Igreja vietnamita, que é viva, unida, florescente de vocações sacerdotais e
religiosas”, fazendo parte da realidade do país e desejosa de servir o bem
comum. A nomeação foi saudada pelo próprio governo comunista, que, em uma
declaração do porta-voz do ministério das Relações Exteriores, afirmou: “É uma
boa notícia para os católicos vietnamitas ter um outro cardeal. É a primeira vez
na história da Igreja Católica do Vietnã que o país conta com dois cardeais ao
mesmo tempo”.

Dom Pietro Parolin, subsecretário da Seção
das Relações com os Estados da Secretaria de Estado guiou a delegação vaticana
que visitou o Vietnã no final de abril,
e da qual faziam parte D. Luis Mariano Montemayor, conselheiro da
nunciatura junto à Secretaria de Estado, e D. Barnabé Nguyên Van Phuong, chefe
de departamento da Congregação para a Evangelização dos Povos. Com essa visita
retomava-se a praxe de um encontro anual interrompida em 2003 “por motivos de
organização”, explica Parolin, “devido aos vários compromissos no nível da
Segunda Seção da Secretaria de Estado”. O seu juízo meditado, depois dos
encontros vietnamitas, é o de uma viagem positiva, de um relacionamento que
está melhorando.
O novo cardeal Pham Minh Mân propôs publicamente a regularização da matéria da liberdade religiosa, retomando o que fora estabelecido pelo pai fundador do Vietnã comunista, Hô Chi Minh. Qual é a sua opinião?
PIETRO PAROLIN: Diria que se trata de uma proposta válida. O cardeal tomou a iniciativa com coerência e merece apoio. Portanto, não se pode deixar de esperar que haja disponibilidade de voltar ao espírito que animava Hô Chi Minh, o qual – na célebre ordenança número 234 de 1955 - não colocava imposições à Igreja acerca da nomeação dos bispos, do acesso aos seminários ou das atividades das congregações religiosas. Além disso, nos encontros oficiais, ouvimos várias vezes a citação de uma recente resolução do Comitê Central do Partido Comunista na qual consideram os católicos vietnamitas como “cidadãos a título pleno” e assegura-se a vontade do governo de “responder às exigências espirituais daquela parte da população que professa uma fé religiosa”. Sem dúvida, essa posição do Partido Comunista deve ser recebida positivamente. Um outro conceito que foi confirmado em várias ocasiões como expressão da vontade dos interlocutores vietnamitas é que nas relações com a Igreja Católica é hora de deixar para trás o passado e olhar com confiança para o futuro.
O que o senhor pode nos contar da sua estadia no Vietnã?
PAROLIN: A delegação da Santa Sé, como nas precedentes missões, predispunha-se a realizar essencialmente dois objetivos: dialogar com as autoridades governamentais para promover as relações recíprocas e tratar as questões das relações entre Igreja e Estado, e, ao mesmo tempo, encontrar a comunidade católica. Assim, tivemos a alegria de nos reunirmos com o presidente da Conferência Episcopal, os membros do Conselho permanente da mesma e os bispos da província eclesiástica de Hanói. Visitamos as dioceses de Xuân Lôc e de Ban Mê Thuôt. São dioceses que nunca tinham sido visitadas pelas precedentes delegações da Santa Sé, e poder concretizar essas visitas, na verdade, foi uma agradável surpresa. Xuân Lôc, no sul, é a maior diocese do país, na qual os católicos representam cerca de 30% da população. Ban Mê Thuôt encontra-se no planalto central, onde vivem cerca de 40 grupos de minorias étnicas, conhecidas com o nome de “montagnards” e onde, como se sabe, há muitas tensões; sobre o ocorrido no início de abril recebemos informações das autoridades locais. Em Hanói celebramos a santa missa no Seminário Maior e no convento das Irmãs Amantes da Santa Cruz, e em Thanh Pho Hô Chi Minh foi organizado um encontro com os representantes do clero, da vida religiosa, dos leigos, e das instituições católicas da arquidiocese. Em relação aos encontros governamentais, foram realizadas duas sessões de trabalho com o Departamento de Relações Religiosas e visitas de cortesia ao vice-ministro das Relações Exteriores, ao vice-presidente da Comissão para as Relações Exteriores do Comitê Central do Partido Comunista do Vietnã e, durante a visita às dioceses houve encontros com as autoridades locais. Fomos recebidos com respeito e, diria, quase com cordialidade, comportamento a que procuramos sempre corresponder. Considero que os encontros com as autoridades do Departamento para as Relações Religiosas tenham sido úteis, mesmo se permanecem questões à espera de resposta.
No que se refere à liberdade religiosa foi possível obter algumas melhoras?
PAROLIN: Das primeiras visitas da delegação da Santa Sé até hoje já se passaram quinze anos e não se pode negar que houve progressos. Soubemos que em algumas regiões as autoridades pediram a colaboração das religiosas para cuidar dos doentes de Aids; em outros foi dada a autorização para novos ingressos em Institutos Religiosos. São todos sintomas de um comportamento mais aberto para com a Igreja Católica. Todavia, creio que o caminho a ser percorrido ainda é muito longo. Portanto, espero que o diálogo continue e possa ser aprofundado e com o diálogo cresçam a compreensão e a confiança. O único pedido da Igreja é o de poder exercer livremente a sua missão, colocando-se generosamente a serviço do país e de seus habitantes.

E a propósito dos limites
governamentais às nomeações episcopais?
PAROLIN: A delegação da Santa Sé foi para o Vietnã também para tratar com as autoridades governamentais o assunto da nomeação dos bispos, que, devido a notas circunstâncias, no Vietnã, atualmente, segue procedimentos excepcionais. Obviamente temos a esperança de que também nesse campo se possa chegar à normalização. Nessa última visita não faltaram resultados, que serão apresentados no momento oportuno. Também foram enfrentadas outras questões que merecem atenção.
Há um episódio desta viagem ao Vietnã que o senhor recorda de modo particular?
PAROLIN: Creio que o episódio que mais nos comoveu foi o ocorrido em Ban Mê Thuôt. À tarde tínhamos celebrado a santa missa na capela do Episcopado e na manhã seguinte estava prevista uma visita à Catedral. Porém, quando chegamos encontramos uma igreja quase lotada de fiéis, que tinham se reunido espontaneamente quando souberam da presença da delegação da Santa Sé. Foi uma experiência muito intensa que se repetiu logo depois na Casa das Irmãs de Maria Rainha da Paz, uma congregação diocesana que trabalha principalmente com os “montagnards”. Mas gostaria de evidenciar que todos os encontros com a Igreja se caracterizaram pelo entusiasmo, profunda espiritualidade, clima de intensa comunhão eclesial e sentimentos de apego, devoção e fidelidade ao sucessor de Pedro: e isso nossa delegação teve a alegria de transmitir ao Santo Padre quando retornou a Roma.

Jean-Baptiste Pham Minh Mân acolhido em Thanh Pho Hô Chi Minh, no seu retorno à pátria, logo depois de ter sido nomeado cardeal por João Paulo II no consistório de 21 de outubro de 2003
O novo cardeal Pham Minh Mân propôs publicamente a regularização da matéria da liberdade religiosa, retomando o que fora estabelecido pelo pai fundador do Vietnã comunista, Hô Chi Minh. Qual é a sua opinião?
PIETRO PAROLIN: Diria que se trata de uma proposta válida. O cardeal tomou a iniciativa com coerência e merece apoio. Portanto, não se pode deixar de esperar que haja disponibilidade de voltar ao espírito que animava Hô Chi Minh, o qual – na célebre ordenança número 234 de 1955 - não colocava imposições à Igreja acerca da nomeação dos bispos, do acesso aos seminários ou das atividades das congregações religiosas. Além disso, nos encontros oficiais, ouvimos várias vezes a citação de uma recente resolução do Comitê Central do Partido Comunista na qual consideram os católicos vietnamitas como “cidadãos a título pleno” e assegura-se a vontade do governo de “responder às exigências espirituais daquela parte da população que professa uma fé religiosa”. Sem dúvida, essa posição do Partido Comunista deve ser recebida positivamente. Um outro conceito que foi confirmado em várias ocasiões como expressão da vontade dos interlocutores vietnamitas é que nas relações com a Igreja Católica é hora de deixar para trás o passado e olhar com confiança para o futuro.
O que o senhor pode nos contar da sua estadia no Vietnã?
PAROLIN: A delegação da Santa Sé, como nas precedentes missões, predispunha-se a realizar essencialmente dois objetivos: dialogar com as autoridades governamentais para promover as relações recíprocas e tratar as questões das relações entre Igreja e Estado, e, ao mesmo tempo, encontrar a comunidade católica. Assim, tivemos a alegria de nos reunirmos com o presidente da Conferência Episcopal, os membros do Conselho permanente da mesma e os bispos da província eclesiástica de Hanói. Visitamos as dioceses de Xuân Lôc e de Ban Mê Thuôt. São dioceses que nunca tinham sido visitadas pelas precedentes delegações da Santa Sé, e poder concretizar essas visitas, na verdade, foi uma agradável surpresa. Xuân Lôc, no sul, é a maior diocese do país, na qual os católicos representam cerca de 30% da população. Ban Mê Thuôt encontra-se no planalto central, onde vivem cerca de 40 grupos de minorias étnicas, conhecidas com o nome de “montagnards” e onde, como se sabe, há muitas tensões; sobre o ocorrido no início de abril recebemos informações das autoridades locais. Em Hanói celebramos a santa missa no Seminário Maior e no convento das Irmãs Amantes da Santa Cruz, e em Thanh Pho Hô Chi Minh foi organizado um encontro com os representantes do clero, da vida religiosa, dos leigos, e das instituições católicas da arquidiocese. Em relação aos encontros governamentais, foram realizadas duas sessões de trabalho com o Departamento de Relações Religiosas e visitas de cortesia ao vice-ministro das Relações Exteriores, ao vice-presidente da Comissão para as Relações Exteriores do Comitê Central do Partido Comunista do Vietnã e, durante a visita às dioceses houve encontros com as autoridades locais. Fomos recebidos com respeito e, diria, quase com cordialidade, comportamento a que procuramos sempre corresponder. Considero que os encontros com as autoridades do Departamento para as Relações Religiosas tenham sido úteis, mesmo se permanecem questões à espera de resposta.
No que se refere à liberdade religiosa foi possível obter algumas melhoras?
PAROLIN: Das primeiras visitas da delegação da Santa Sé até hoje já se passaram quinze anos e não se pode negar que houve progressos. Soubemos que em algumas regiões as autoridades pediram a colaboração das religiosas para cuidar dos doentes de Aids; em outros foi dada a autorização para novos ingressos em Institutos Religiosos. São todos sintomas de um comportamento mais aberto para com a Igreja Católica. Todavia, creio que o caminho a ser percorrido ainda é muito longo. Portanto, espero que o diálogo continue e possa ser aprofundado e com o diálogo cresçam a compreensão e a confiança. O único pedido da Igreja é o de poder exercer livremente a sua missão, colocando-se generosamente a serviço do país e de seus habitantes.

Um sacerdote abençoa um grupo de peregrinos vietnamitas junto ao santuário de Nossa Senhora de La Vang, na província de Quang Tri
PAROLIN: A delegação da Santa Sé foi para o Vietnã também para tratar com as autoridades governamentais o assunto da nomeação dos bispos, que, devido a notas circunstâncias, no Vietnã, atualmente, segue procedimentos excepcionais. Obviamente temos a esperança de que também nesse campo se possa chegar à normalização. Nessa última visita não faltaram resultados, que serão apresentados no momento oportuno. Também foram enfrentadas outras questões que merecem atenção.
Há um episódio desta viagem ao Vietnã que o senhor recorda de modo particular?
PAROLIN: Creio que o episódio que mais nos comoveu foi o ocorrido em Ban Mê Thuôt. À tarde tínhamos celebrado a santa missa na capela do Episcopado e na manhã seguinte estava prevista uma visita à Catedral. Porém, quando chegamos encontramos uma igreja quase lotada de fiéis, que tinham se reunido espontaneamente quando souberam da presença da delegação da Santa Sé. Foi uma experiência muito intensa que se repetiu logo depois na Casa das Irmãs de Maria Rainha da Paz, uma congregação diocesana que trabalha principalmente com os “montagnards”. Mas gostaria de evidenciar que todos os encontros com a Igreja se caracterizaram pelo entusiasmo, profunda espiritualidade, clima de intensa comunhão eclesial e sentimentos de apego, devoção e fidelidade ao sucessor de Pedro: e isso nossa delegação teve a alegria de transmitir ao Santo Padre quando retornou a Roma.