O santo do imprevisto
Da amizade com os modernistas à política do Pater noster, a única eficaz. Dos primeiros tempos em Tortona às viagens à América Latina. Episódios da vida de padre Luís Orione que permitem perceber o fascínio que despertava
de Stafania Falasca

Dom Orione, com um grupo de amigos e benfeitores
Basta olhar para o quão inesperada foi toda a sua vida sem limites, de 23 de junho de 1872 a 12 de março de 1940: um mar aberto de histórias, circunstâncias e grandes obras imprevistas, uma mistura constante e surpreendente de pontífices e ex-presidiários, homens de Estado e pobres coitados, eremitas, políticos e abandonados, literatos, órfãos, santos e pessoas bem ao contrário disso. Nem o mais hábil escritor conseguiria contar tudo isso ao mesmo tempo. Teria de segui-lo por um caminho e, a certa altura, voltar atrás para tomar um outro, e depois mais outro ainda. E enquanto isso o protagonista percorre todos os caminhos ao mesmo tempo, sem se preocupar em saber aonde vão levá-lo. E se com ele a pena está sempre atrasada e a página é sempre pequena demais, invariavelmente algo acaba por ficar de fora. E não são apenas fragmentos. É toda uma vida que cotidianamente transborda das linhas e que o vê concentrado como “servente da Providência”, a abrir portas, a escancará-las, deixando-se provocar pela realidade, lendo e antecipando os tempos com formidável perspicácia. Muitos pensaram em enquadrá-lo. Tiveram de se render ao “doido de Deus”. “Uma das personalidades mais originais e eminentes do século XX”, disseram. O escritor inglês Douglas Hyde, ateu convertido, numa famosa biografia de Dom Orione, definiu-o “o bandido de Deus”, esse “gênio da caridade”, sobretudo porque fez obras-primas sem se dar conta disso. O certo é que esse padre de ar um pouco desajeitado, que “teve a têmpera e o coração do apóstolo Paulo, impulsivo e tenaz, terno e sensível a ponto de chegar às lágrimas, incansável e corajoso até a audácia”, teve o dom de iluminar homens sem fé. Alguém observou que até os padres ele conseguia comover e fazer chorar. Parece uma coisa um tanto difícil. A pregação de Dom Orione era acompanhada também por esse milagre. Só nos resta então tentar andar na cola dele, pelas estradas da sua vida imprevista, e pedir que venha ao nosso encontro, e nos aproximarmos dele e nos deixarmos aquecer ao fogo ardente dessa caridade.

Acima, Dom Orione com padre Umberto Terenzi (o primeiro à esquerda), no santuário do Divino Amor; abaixo, com o cardeal Ildefonso Schuster, durante a cerimônia de deposição da pedra inaugural dos novos pavilhões do Pequeno Cotolengo milanês, em setembro de 1938
Como o fascínio de um vento suave
Ele passou brilhantemente pela barreira do quarto ano ginasial, no oratório de Valdocco. E, no final de junho, chegou pontualmente para o retiro que precederia o pedido de admissão ao noviciado. Mas, ao final daquele dia, inesperadamente, abandonou a família salesiana. Ninguém acreditava: superiores, colegas. Era inútil pedir explicações ao interessado. Ele não dava nenhuma. O fato é que ele mesmo não sabia o que dizer. Era uma coisa da qual não conseguia dar razões. O que sabia, com certeza, é que tinha de sair. Mais tarde, confessaria: “Eu, que nunca havia tido nenhuma dúvida sobre a minha vocação para ser salesiano, bem naqueles dias tive um lampejo de entrar no seminário da diocese”. Assim, em 16 de outubro de 1889, Luís Orione entrou no seminário diocesano de Tortona. E aquele seminarista tão obediente quanto vivo logo foi notado por seus dons, e pela multidão de jovens que o cercavam, em número cada vez maior, no oratório. Alguns de seus colegas de seminário zombavam dele, outros o consideravam “um pouco estranho”, “um pouco louco”. Mas, em 16 de setembro de 1893, quando o viu chegar bem cedo a sua residência, o bispo teve mesmo a impressão de que Orione havia perdido aquele “um pouco” pelo caminho, ficando apenas “louco”. O seminarista lhe contou que deveria haver uns quinze jovens pobres dispostos a entrar num colégio interno, feito para eles... “Um dia poderão se tornar bons sacerdotes...”, arriscou. O bispo escutou, perplexo, e depois, com paciência, procurou fazer com que ele entendesse que aquilo lhe parecia uma coisa perdida nas nuvens, e não certamente algo que fosse se sustentar, assim, sobre as próprias pernas... Mas Luís, decidido, resolveu logo a questão: “Eu tenho fé na divina Providência”. O interlocutor, então, começou visivelmente a perder a paciência: “Afinal, o que é que você quer de mim?”. “Nada, excelência, só sua aprovação e sua bênção”, respondeu o outro. “Se é assim, eu lhe dou uma e outra”, respondeu o bispo sem perder tempo, convicto de que assim interrompia o assunto para sempre e se livrava do rapaz. No entanto, a Providência acabara de receber uma bela tarefa. O boato se espalhou pelos vales do Curone, da Staffora, do Borbera. O pequeno colégio, no bairro mal afamado de San Bernardino, em Tortona, foi aberto em 15 de novembro de 1893. Não há dúvida: esse é o núcleo originário da Pequena Obra. Luís Orione tinha apenas vinte e um anos. Em 13 de abril, dois anos depois, foi ordenado sacerdote e, no mesmo dia, seis de seus jovens recebiam o traje de seminaristas. E a aventura estava começada. A partir daquele momento, encontros, casas, colégios, orfanatos, colônias agrícolas, eremitérios e institutos despontariam sem aviso prévio. No meio disso tudo estava presente o olhar da Providência. Que, no caso dele, é realmente tudo: “programa” e “fim específico” da Obra. Mas no meio de tudo estava presente também o seu olhar, o de um inexorável franco atirador da misericórdia de Deus. “É difícil esquivar-se desse olhar, que, quando cruzava com o seu, era uma coisa que você não esquecia mais. Ficava dentro de você uma espécie de fascínio de um vento suave...’, escreve Ignazio Silone, falando de Dom Orione, entre as muitas pessoas prontas a confirmar o que diz. Basta mergulhar nos testemunhos, nos itinerários secretos das muitas pessoas que o encontrarão nas estradas abertas e acidentadas de seu apostolado. E nos itinerários dos personagens, algumas vezes ilustres, que, estando para morrer, não queriam padres, mas aceitavam aquele “padre estranho”. “Almas, almas... Se o Senhor me permitisse ir até o inferno, num sopro de amor, eu gostaria de tirá-las de lá também”. “Almas, almas”, é o anseio que o levava a suplicar: “Põe-me, Senhor, põe-me na boca do inferno para que eu, por Tua misericórdia, a feche”. No fundo, ele havia pedido isso como graça, no dia de sua ordenação: “Pedi a Nossa Senhora uma graça particular: que todos aqueles que de algum modo tivessem algo a tratar comigo se salvassem...”.

Dom Orione colaborou com os organismos vaticanos como mediador pela conciliação entre Estado e Igreja na Itália
Na aurora de 28 de dezembro de 1908, Messina não existia mais. Um terremoto a havia engolido. Ficaram só os destroços e aqueles que permaneceram na cidade. Dom Orione pegou um trem direto para Messina em 4 de janeiro de 1909. Lançou-se sem reservas naquelas ruínas de desespero. Quem se aproximou dele naqueles dias concorda que uma pessoa não o tenha visto agir ali, em meio àquela desolação, não consegue entender quem é Dom Orione. Mas, entre os destroços daquele terremoto, ele se viu logo em meio aos revezes de uma outra tempestade.
Em 1907, com a encíclica Pascendi, de Pio X, e o decreto Lamentabili, do Santo Ofício, a Igreja havia condenado o modernismo. Em março de 1909, constitui-se a “Associação Nacional pelos Interesses da Itália Meridional”, com o objetivo de ajudar as populações atingidas pelo desastre de Messina. Fazia parte da associação um bom grupo de modernistas, particularmente aqueles que dirigiam a revista lombarda Il Rinnovamento, excomungada pela autoridade eclesiástica. Lá estavam Aiace Alfieri, Antonio Fogazzaro, cujo romance Il Santo havia sido posto no índex, e outros expoentes do pensamento católico liberal, como o literato erudito Tommaso Gallaratti-Scotti. Dom Orione, como não podia deixar de ser, conhecia a todos eles. E alguns eram amigos bem próximos. E foi bem ali, em Messina, que teve a oportunidade de encontrar os modernistas da Associação, não deixando de lhes manifestar sua estima e seu apoio. E não eram esses os únicos modernistas com quem tinha relações. Ele era ligado por amizade fraternal a muitos sacerdotes que haviam infringido diversas medidas eclesiásticas por suas idéias modernistas: Romolo Murri, padre Brizio Casciola, padre Giovanni Genocchi, padre Giovanni Semeria, padre Giovanni Minozzi, padre Ernesto Buonaiuti. Alguns eram amigos seus de velha data. Em 1904, ele havia escrito a Romolo Murri pedindo-lhe um artigo para sua revista, La Madonna: “Você precisa me escrever algo bonito, repleto da sua fé e da sua alma: eu gostaria que fosse algo como ‘Nossa Senhora e a democracia’, ou alguma coisa nesse sentido; olhe bem, que esse é um campo extremamente amplo, aberto e ainda inexplorado. Será também a homenagem que você vai fazer a Nossa Senhora este ano!”. Em fevereiro de 1905, quando pensava numa obra em favor dos menores que saíam da prisão, escreveu a padre Brizio Casciola: “Você vai me ajudar muito; Semeria, Murri, todos vocês precisam me ajudar muito...”.
Mas devemos imaginar o clima de caça às bruxas que veio a se instaurar depois da Pascendi, e, sobretudo, depois da introdução do juramento antimodernista entre os sacerdotes e da instituição das comissões diocesanas de vigilância sobre a ortodoxia doutrinal. Naquele momento, até a simples suspeita já equivalia a uma condenação. Os chamados “soldados de batina”, cuja ocupação era cortar as cabeças dos modernistas mais acesos, não pecavam por sutileza e manejavam a pena como uma espada, molhando-a com vontade, muitas vezes, em veneno. Assim, dom Letterio D’Arrigo, arcebispo de Messina, escreveu também a Dom Orione uma bela carta de acusação, que chegou rapidamente às mãos do cardeal De Lai, prefeito do Santo Ofício. A carta acusatória, na qual o padre de Tortona era definido “homem de meia consciência que sabe se dar bem com todos”, foi passada a Pio X, e Dom Orione foi convidado a se apresentar. Mas, quando Pio X viu a seus pés o “estranho padre”, ficou até comovido. E, em resposta, quis dar um sinal de sua extrema confiança nomeando-o nada menos que vigário-geral da diocese de Messina, coisa que deixou sem palavras o pobre Dom Orione, para o qual o cargo significaria depois três anos de inferno nas fornalhas ardentes do ciúme clerical. Mas não foi só isso: o próprio autor da Pascendi deu a Dom Orione liberdade total para se relacionar com os modernistas.

Dom Orione a bordo do navio Conte Grande, que o levaria, em setembro de 1934, à Argentina

Dom Orione em Claypole, com o núncio Cortesi, abençoa a pedra inaugural do Pequeno Cotolengo argentino, em abril
Santas amizades
Sim, padre Cappello, um santo. E ele não foi o primeiro que Dom Orione encontrou na sinuosidade incomum de seus dias. Aqui se abre um outro caminho de trilhas imprevisíveis e imprevistas: a das santas amizades de Dom Orione. Um outro entrelaçamento denso de histórias. Uma outra intrincada rede de relacionamentos e ajudas mútuas, que serve para documentar também como, se muitas dessas pessoas não eram conhecidas na época, elas todas se conheciam entre si, se procuravam e queriam o bem uma das outras. Bem no meio do alvoroço de Messina, Dom Orione teve a seu lado Aníbal Maria Di Francia. Padre Umberto Terenzi, fundador dos Filhos do Divino Amor, estava ligado também a ele por uma amizade estreita, como também padre Giovanni Calabria, padre Luigi Guanella, o cardeal Ildefonso Schuster, para não falar de Pio X, de Dom Bosco e de muitos outros depois canonizados ou candidatos às honras dos altares. Padre Pio estava também nessa rede. E essa é realmente uma amizade que nos deixa aturdidos, pois essas duas almas, que também se conheciam muito profunda e intimamente, não apenas nunca se encontraram como também nunca trocaram nem mesmo duas linhas. A incrível história, que se desenrola na década de 1923-1933, anos da tormenta desencadeada em torno do santo de Pietrelcina, é minuciosamente documentada por padre Flavio Peloso, postulador do processo de canonização do padre de Tortona. Nela, vemos mais uma vez Dom Orione lançar luz sobre as sombras morais de eclesiásticos implicados nessa questão controversa e servir de ponte para resgatar Padre Pio das acusações. Leiamos mais um trecho escrito por Gallarati-Scotti: “Compreensão, compreensão e inteligência. Ele tinha uma inteligência extraordinária. Conseguia penetrar no coração e na mente dos outros e entendia tudo: entendia as coisas impuras da maneira como elas só podem ser entendidas pelos puríssimos, nunca tocados pela impureza; entendia os tormentos do espírito e da inteligência, da maneira como os pode entender quem tem uma fé absolutamente pura, resistente às dúvidas, às oscilações, firme na verdade que vive. E foi essa certeza sobre o lugar em que podia pisar, eu diria, que fez de Dom Orione um mediador para muitos errantes de seu tempo, mas não só para eles”.

Acima, durante uma palestra na Aula Magna da Universidade Católica de Milão; abaixo, numa foto de grupo na paróquia de Todos os Santos, no bairro Appio, de Roma, para onde o papa Pio X o havia mandado
A visão ampla de “sua” política
No arquivo geral da Congregação Orioniana foi encontrado um documento excepcional. É a carta que Dom Orione escreveu e enviou a Mussolini em 22 de setembro de 1926. Nela se lê: “Creio que Vossa Excelência, se quiser, poderá, com a divina ajuda, acabar com o amargo e funesto dissídio que existe entre a Igreja e o Estado. E é o que eu lhe peço humildemente, como sacerdote e como italiano. Encontre uma base razoável e proponha uma solução. Cabe ao Governo italiano estender nobremente a mão ao Vencido”.
Essa carta é uma peça importante para entender o papel desempenhado por Dom Orione nas preliminares e no início das próprias negociações. Está documentado que Dom Orione foi um dos primeiros a intuir, em 1923, que o novo clima político nacional poderia encerrar a controvérsia entre Estado e Igreja, e está documentado também que ele esteve presente na primeira reunião preparatória, ao lado de padre Genocchi, realizada na casa dos condes Santarelli, em Roma. Nessa carta é interpretada como a própria expressão da Santa Sé, que quis entregar a um sacerdote de confiança e de reconhecido valor moral para a opinião pública, uma mensagem clara ao governo italiano, sem comprometer a própria autoridade.
De fato, não se sabe se post hoc ou propter hoc, poucos dias depois daquela carta de Dom Orione as negociações foram declaradas oficiais e os trabalhos começaram de verdade. O resto é história conhecida. Veio o dia 11 de fevereiro de 1929, data da assinatura do Tratado de Latrão. O L’Osservatore Romano, que desde 1870 saía com uma tarja negra, naquele dia finalmente foi impresso sem o sinal de luto. Dois dias depois, Pio XI comentou: “É com profunda satisfação que acreditamos ter, com a Concordata, reentregue Deus à Itália e a Itália a Deus”. Essa página da história parece acabar cheia de glória, com todos satisfeitos. No entanto, Dom Orione, que tanto se empenhou pela solução da questão, não exultou tanto assim naquele momento. Quando soube da assinatura do Tratado, exclamou, beijando a foto de Pio XI reproduzida no jornal que trazia a notícia: “Pobre Papa! Que dor ele deve estar sentindo!”. “A Conciliação tinha de ser feita”, explicou, “mas não dessa forma. Não me parece, nesse momento, uma solda que agüente. Eu gostaria de estar errado, mas vocês verão dias ruins”. No entender de Dom Orione, havia alguns pontos fracos a respeito de certos temas. Ele temia particularmente que Mussolini aproveitasse o novo prestígio que obtivera para dar início a novas e injustas intervenções, com prejuízo para a Igreja na Itália. E naquele mesmo dia, numa reunião da Congregação, disse a seus sacerdotes: “Quando os fascistas entrarem nos Institutos para pegar os jovens, o Senhor inspirará em nós o que teremos de fazer”. Ele entendeu logo. E foi exatamente o que aconteceu. Mal tinham acabado os vivas à Concordata quando Mussolini retomou a política vexatória para com as organizações católicas.
Uma lucidez, uma visão de longo alcance, isso está claro. O que é preciso dizer é que por esses dons ele era ouvido não somente pelos papas, mas também pelos políticos. Em Roma, na residência de Via delle Sette Sale, batiam à sua porta personalidades como Gaetano Salvemini, o senador Zanotti Bianchi e também aquele “osso duro de roer” que era Achille Malcovati, grande personagem da indústria e eminência parda de muitos políticos de destaque. Só para citar alguns. Iam encontrá-lo e ele, com todas as letras, dizia que não entendia nem pretendia ocupar-se de programas políticos, obstinado como era em seguir a “sua” política: “A política do Pater noster”. A única eficaz. A única que não se limita entre fronteiras e “é plenamente realizável”, explicava. A única pela qual estava disposto a cruzar até o oceano. Depois dos terremotos na Sicília e em Marsica, em 1915, que o fizeram afundar os braços e o coração nos destroços das misérias humanas, ele não escondia o desejo de embarcar como missionário para as Américas. Um dia contou esse desejo ao próprio Pio X, e este, em resposta, enviou-o rapidamente à “Patagônia romana”, a periferia abandonada a leste de Roma. Mas chegou o dia em que realmente partiu.
Coisas do outro mundo
Zarpou para a América Latina em 24 de setembro de 1934.
Para dizer a verdade, já havia posto os pés no continente em 1921. E na ocasião também não passou despercebido, esse padre que não se pode catalogar, com seus tons às vezes explosivos, que não usa meios termos quando se trata de denunciar os abusos de poder e a injustiça social, e que prega que a verdadeira revolução se faz de joelhos, diante do tabernáculo.
No Brasil, deixou o clero atônito com sua “pastoral dos negros”. Mais uma vez, havia apenas antecipado os tempos. Quem insistiu para que ele fizesse aquela viagem foi uma de suas filhas espirituais: madre Teresa Michel, uma “doida” como ele, temível concorrente em termos de fé na Providência, à qual Dom Orione era grato por ter recebido dela conselhos e conforto em circunstâncias difíceis.
Nesta nova viagem, na popa do “Conte Grande”, que o levou à Argentina, estava também o futuro Pio XII, que viajava para o Congresso Eucarístico Internacional. O cardeal Pacelli, durante a travessia, teve oportunidades para manifestar sua estima. Dom Orione conhecia bem seu irmão, o advogado Francesco, que fizera parte das negociações oficiais da Concordata. Mas “o confessor do Conte Grande”, como o haviam rebatizado no navio, esquivo aos triunfos, quando chegou a Buenos Aires manteve os olhos arregalados para um enorme panorama de misérias. Lembra padre Dutto: “Ele começa a procurar nos barracos, nas vielas, em bairros mal-afamados, para encontrar aleijados, acidentados, doentes incuráveis, alcoolizados, dementes: elege-os seus senhores, lava as chagas deles com as próprias mãos, serve-os”. Na rua Carlos Pellegrini, em Buenos Aires, na casa que lhe fora doada por uma nobre senhora, e que compartilhava com um ex-padre, um menino surdo-mudo acompanhado pela irmã doente e pela mãe viúva, nem é preciso dizer que vinha bater à sua porta um batalhão de pessoas cada vez maior e mais diversificado: pobres coitados, ricos proprietários de terras, profissionais, religiosos, oficiais. Em 1936, hospedou ali Jacques Maritain, manteve contatos com o arcebispo Copello, com o núncio e também com o chefe de Estado. Seus noviciados e casas foram se abrindo um atrás do outro; assim, como sempre, floresciam as obras que ele sempre deixava por onde passava: a partir de um gesto concreto, de uma resposta imediata, de uma intuição, de um encontro fortuito, de uma circunstância rocambolesca. E as obras iam se realizando com um dinheiro que parecia sair diretamente das barbas de São José e dos bolsos daqueles ricos que, confiantes, não hesitavam em pôr seu dinheiro em segurança nos bolsos furados de Dom Orione. Ele parecia ter fixado raízes naquela terra de espaços amplos e grandes horizontes, e de nada valiam os convites para que voltasse à Itália, que iam se tornando cada vez mais insistentes depois de algum tempo. Ele, indiferente, continuava a abrir portas. Pedia mais pessoal. O bom padre Sterpi, do outro lado do oceano, que fora designado para dirigir a Congregação, não sabia mais a quem recorrer, e suplicava, rogava que Dom Orione voltasse. Além de tudo, começavam a soprar ventos de guerra, e havia problemas com o bispo de Tortona. No fim, depois de se esgotar todo tipo de argumento convincente, Dom Orione escreveu a padre Sterpi: “Por mais que suas cartas me sejam extremamente caras, peço-lhe que não me escreva mais, pois, dando-me notícias das casas novas que se abrem cada vez mais, você me mata”. Em três anos, percorreu uma distância dez vezes superior à que existe entre a Itália e a Argentina, “rezando ao Senhor que multiplicasse Suas obras”, num mergulho constante na realidade, que não conhecia obstáculos. “Eu gostaria de ter cem, mil braços, para chegar aonde ninguém quer ir”, e dar vida e mais vida àquele fogo indomável que o queimava por dentro. A Argentina jamais o esquecerá.
Um padre e tão-somente isso
Dom Orione desembarcava no porto de Nápoles em agosto de 1937.
De volta das Américas, convidaram-no a proferir palestras. Ele não tinha mesmo nenhuma intenção de esconder as obras da Providência. Em vez disso, alérgico a homenagens, o que escondia era a sua pessoa, quando isso dependia dele. Durante uma de suas palestras, na Aula Magna da Universidade Católica de Milão, foi obrigado a ouvir o orador oficial, que discorreu longamente sobre seus méritos. As pessoas próximas o viram cobrir o rosto com as mãos, agitar-se na cadeira, como se estivesse sofrendo uma tortura. E de repente, sem a mínima ostentação, com toda a veemência de seu caráter impetuoso, explodiu: “Mas que Dom Orione que nada! Que Dom Orione, esse camponês de Pontecurone! Não acreditem no que ele está dizendo! Não acreditem!”. Outra vez, na inauguração do instituto São Filipe, em Roma, coube-lhe o mesmo suplício. Aninhado na terceira fila, franzindo a testa, ouvia as expressões que o senador Cavazzoni empregava para elogiá-lo. Olhava em volta para ver se havia uma passagem por onde escapar. Nada. No salão superlotado estavam presentes também o presidente do Senado, o cardeal Salotti e grande número de autoridades. No final, ele foi chamado ao palco. A voz traía a timidez sincera e o esforço para não dizer palavras pouco oportunas; e então começou assim: “Eu não sei falar. Eu só sei fazer confusão... e estou certo de que entre todos os padres aqui presentes não há nenhum mais pecador do que eu”. E depois, dirigindo-se ao orador: “Meu caro senador, quem foi que lhe disse todas essas bobagens a meu respeito?”. E, levantando então a voz, de modo a ser entendido: “A verdade é esta, e eu quero que ela seja viva e presente a todos: eu não sou fundador de nada! Eu não conto absolutamente nada!”. E como chegara havia pouco tempo da Argentina, recorreu ao espanhol de São João da Cruz, dizendo “Nada! Nada!”, em vez do “Niente” italiano. “Pois, se eu tive de rodar meio mundo, indo até as distantes Américas, é porque é assim que se faz com um miquinho de circo ou com um macaco qualquer.” Mas Dom Orione não agia assim quando se tratava de assumir alguma falta; nesses casos ele sempre estava pronto a dar um passo à frente, reconhecendo até publicamente seus erros. Esclarecia: “Se existe algo de bom na Pequena Congregação, é tudo obra e bondade da divina Providência. Se existe algo de defeituoso e desajeitado, é tudo coisa minha, só minha, e talvez também de algum de vocês, ó meus caros filhinhos!”. Se os louvores o feriam, as injúrias também, mas estas ele as tomava como um bem. Conta padre De Paoli: “Um de seus filhinhos, quando ia abandonar a Congregação, cobriu-o de insultos e maldades. Eu estava presente. Dom Orione então lhe deu dinheiro, abraçou-o com ternura, beijou-o na testa, desejou-lhe todo o bem e quis que nós rezássemos por ele como por um benfeitor”.
No pé de uma foto que o imortaliza durante a subida do monte Soratte, quando ia visitar seus eremitas na garupa de um asno, Dom Orione escreveu: “Ele e eu somos dois”. Só para lembrar, com sua ironia simples, que não se levava em conta de jeito nenhum. Enquanto isso, em Tortona, as águas se agitavam de novo. O bispo se lamentava. Maldades, indiscrições, acusações, calúnias. E ainda hostilidade e tormentos. Dom Orione mandou um bilhete a um amigo que vivia em Roma: “Eu perdôo a todos e fico bem contente por estar longe das intrigas e da balbúrdia de Tortona. Meus sacerdotes rezam, se calam e esperam comigo, fidentes in Domino... Que os inimigos me arranquem até os olhos; basta que deixem o coração para amá-los...”. Um de seus religiosos, ao qual dera encargos de confiança, escreveu-lhe uma carta “feia e mentirosa”. Dom Orione ficou mal com isso. Padre Cribellati o interpelou, para que adotasse providências. Dom Orione respondeu: “Que nada... Diante dessas pessoas: a) se reza a Deus; b) se perdoa; c) se ama”.
“Nossa caridade é um dulcíssimo e louco amor por Deus e pelos homens que não é deste mundo”, havia escrito quando ia para a Argentina. Alguns anos depois, seu coração começava a lhe pregar peças. Em 1939, teve um grave ataque de angina do peito; em fevereiro de 1940, outro. Em 8 de março, em Tortona, na Casa Mãe, pediu os últimos sacramentos e cumprimentou a todos com o último “boa noite”. No dia seguinte partiu para San Remo, de onde sabia que não voltaria mais, indo ao encontro da morte como se estivesse abrindo uma outra porta: “Jesus, Jesus... estou indo”. E essa, no fundo, foi a maior peça que o seu coração nos pregou: para falar dele, é preciso necessariamente abrir espaço a um Outro. Deus é admirável em seus santos. Quanto a si mesmo, na epígrafe esculpida em seu túmulo está escrito: Aloysius Orione Sacerdos. Te Christus in Pace. Nada mais do que isso. Sacerdos. Essa é realmente a única coisa que talvez aceitasse que dissessem dele, aquilo que ele é e foi, simplesmente: um padre, e tão-somente isso. Que São Luís Orione nos perdoe.