Bispos. A Igreja na África de hoje
Simplicidade e fidelidade
São as duas características para a vida da Igreja africana sugeridas pelo presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e de Madagascar
de John Olorunfemi Onaiyekan

Um momento de oração durante os trabalhos do Simpósio das Conferências Episcopais da África e de Madagascar (Secam), realizados em Dacar em outubro de 2003
Obedecemos a duas razões fundamentais de mudança. A primeira é que o Secam nasceu em 1969, com um pequeno grupo de bispos, a metade dos quais missionários estrangeiros, em um mundo completamente diferente do de hoje, não apenas no âmbito africano, mas mundial. Hoje o Secam é formado por um episcopado quatro vezes mais numeroso do que o de 1969 e a grande maioria é composta por africanos. Em 1969 predominava a euforia pela independência do colonialismo: depois de quarenta anos de independência a África permaneceu onde estava. Portanto, se para responder às necessidades atuais, a Igreja da África quer encontrar hoje o modo de influenciar em nível continental, deve agir em nível continental. A segunda razão é simplesmente eclesial: dez anos atrás celebramos o Sínodo da África. Só agora se começa a entender bem as implicações de todas as discussões feitas então, as idéias iluminadoras da Ecclesia in África. Por isso, acreditamos que o “ajustamento” na prática religiosa, na pastoral da Igreja — necessário em condições locais de paróquias, de dioceses e de conferências episcopais nacionais — deva ter a sua influência também no modo com o qual o Secam é organizado, para poder responder melhor às expectativas do Sínodo africano. Definir com precisão no que consiste a reestruturação é arriscado, e quando tentamos intercambiar indicações sobre como renovar, praticamente voltamos ao que temos agora: isso significa que o obstáculo talvez não esteja na instituição quanto no espírito, na consciência da missão da Igreja na África, em procurar hoje um modo adequado de relações com os outros.Por exemplo, em Dacar, decidimos levar adiante o processo de colaboração com os protestantes e os muçulmanos africanos. Há uma tentativa de fazer com que funcione um Conselho de líderes religiosos da África, e o Secam participa ativamente, em nível de liderança (participei do encontro inter-religiosos de Abuja em nome do Secam, onde fui eleito co-presidente junto com um muçulmano ugandense).Também há as relações com as autoridades civis. Cada conferência episcopal nacional procura o modo adequado de tratar com o próprio governo, com resultados, na verdade, muito diferentes. Porém, nós bispos começamos a nos perguntar onde está a voz da Igreja nas reuniões dos nossos Chefes de Estado, e se há um modo de sermos ouvidos. A Assembléia do Secam deu-me um mandato para começar um diálogo com a União Africana em Addis Abeba. E o arcebispo de Addis Abeba verificou para nós que a resposta da União Africana será positiva, pois depois da redação do estatuto da União haverá uma abertura aos grupos religiosos, um comportamento inovador por parte da Organização da União Africana.Enquanto isso também o Conselho dos líderes religiosos da África procurou ativar o mesmo contato, e uma tentativa não cancela a outra. Soubemos que segundo a União Africana a idéia de criar este Conselho Inter-religioso é muito positiva. Além disso, perguntamo-nos se devemos constituir novas comissões para realizar todas as obras das quais falamos. Nos últimos quarenta anos, tivemos que formar algumas de acordo com a necessidade: para a Bíblia, para a Teologia, a Social também temos a Caritas África, e tudo sempre foi feito por objetivos bem precisos. Se para os próximos anos devemos tentar reorganizarmo-nos, queremos simplificar a burocracia interna, não queremos ficar imersos em atividades que o Secam não pode e nem deve fazer. Porque a vida da Igreja é imensa, mas o maior trabalho é o local: são as paróquias e as dioceses que fazem tudo. A conferência nacional não substitui os bispos locais. Se houver possibilidade, pode coordenar seu trabalho e favorecer a responsabilidade. Funcionando bem em escala nacional, não se deve tentar repetir em escala continental o que funciona bem localmente e, também, não se deve esquecer que contamos com o nível intermediário que são as conferências episcopais regionais.Assim, a Igreja africana iniciou um caminho no qual deseja identificar com precisão o que deve fazer, para depois construir uma estrutura essencial ao redor deste núcleo. Principalmente creio que seria importante unir as nossas forças para administrar as relações internacionais. Podemos ter mais sucesso como órgão de representação pan-africana, do que as Igrejas de cada país representadas por conta própria, e naturalmente sempre em colaboração com a Santa Sé, que tem grande experiência neste tipo de atividade. Mas acreditamos que, às vezes, podemos falar em nosso nome, graças também à ligação com a União Africana.

A partir da esquerda, o líder líbio Muhammar Kadafi, o presidente de Moçambique Joaquim Chissano, Oumar Konare, presidente da União africana
Pode-se legitimamente afirmar que a imagem de Igreja à base dessa nossa “reconstrução” nos leve a Paulo VI e o seu “A África aos africanos”. Todo o nosso empenho é visto com um critério de grande simplicidade e, a priori, não nos comparamos à Igreja ocidental européia ou americana... Seguimos uma idéia de “reforma” da Igreja? A resposta é que à “simplicidade” citada acima, eu acrescentaria “fidelidade”. Não se começa com um programa de reforma definido. Ao contrário, o Sínodo africano nos deu a ocasião para refletir sobre o que é a Igreja. E levamos adiante tal reflexão, não criando polêmica, com alguma idéia ou realidade de Igreja, mas simplesmente ouvindo a Palavra de Deus e o que acreditamos sinceramente que Jesus Cristo queira hoje para a África. A partir disso, chegamos em algumas evidências sobre o que poderia ser a nossa Igreja. Olhamos ao nosso redor, procurando ver quais instrumentos possuímos para trabalhar não apenas como instituição em si, mas como uma Igreja que, segundo o Sínodo africano, hoje tem na África uma missão que abrange cinco grandes áreas: a proclamação, a inculturação, a justiça e a paz, o diálogo e os meios de comunicação social. A idéia é simples; mas para colocá-la em prática é preciso saber “quem faz o quê”. Também temos que reconhecer abertamente que há muitas coisas que não estão sob nosso controle, como a administração dos negócios econômico-políticos da África, que não apenas nos diz respeito, mas nos afligem. E que não podemos enfrentar dizendo: “Os políticos nos traíram e portanto devemos organizar governos católicos!”. Não. Não é tarefa da Igreja. Sabemos bem a atividade da Igreja depende do contexto político, econômico e social, mas também acredito que a Igreja possa cumprir com fé a própria vocação de testemunha em qualquer contexto. Com certeza deve também olhar ao seu redor e ler os sinais dos tempos, saber se adaptar, sempre na fidelidade à própria missão.
Tudo isso tem sentido com as palavras ditas profeticamente por Paulo VI: “Vocês africanos, já são missionários de si mesmos, vocês podem e devem ter uma Igreja africana”. São esplêndidas palavras proféticas, sabemos que não é fácil fazer com que sejam aceitas por todos, mas não importa... Nenhum interesse “sectário”
Na África também nos damos conta de que no mundo católico há os que sustentam ideologicamente o choque entre o islã e os católicos, como no Sudão, na Nigéria ou em muitos outros países. Na África, com freqüência, estes choques são pagos com a vida de sacerdotes e missionários locais assassinados.
Quanto mais eu leio os documentos do Sínodo africano, mais aprecio o valor providencial do que está acontecendo atualmente no nosso continente, mesmo porque finalmente colocou a nossa Igreja em condições de entender melhor o contexto da situação mundial em conflito. As coisas mudaram muito depois de 1994: vejam as últimas loucuras do governo americano, que pretende se tornar a única superpotência, com a permissão de fazer tudo o que quer, mesmo ignorando os direitos humanos. Está sendo criada uma nova ordem mundial, na qual se quer que a África não conte mais nada. Isso já foi dito no Sínodo africano, e nos ajuda. Todo o capítulo sinodal sobre a justiça e a paz diz respeito ao papel da Igreja, não tanto como hierarquia que toma posição, quanto como uma família. Então, nós, na África dizemos que quando é preciso responder aos desafios políticos e sociais de um país não se deve olhar apenas às declarações dos bispos, mas ao que fazem os cristãos, os políticos católicos, as associações de fiéis. Porque, mesmo sem formar um partido político católico, os fiéis podem criar grupos de reflexão ou iniciativas que contribuam para melhorar a situação de cada país: quando há guerra, é preciso sempre de gente que trabalhe para a paz; quando há corrupção, gente que encoraje o restabelecimento da ordem pública. Quanto mais nós cristãos agimos assim, mais descobrimos que outras pessoas pensam como nós. Então se entende o quanto vale o diálogo, a importância de colaborar com os outros. Na Igreja africana o diálogo refere-se não somente às religiões, mas se estende às instituições políticas e sociais. A Igreja deve permanecer sempre em diálogo. Este ensinamento do Sínodo ajudou-nos muito. Se podemos falar com os muçulmanos, com os quais temos grandes diferenças, mais condições devemos ter de falar com um governo que há idéias descabidas. O comportamento “profético” de falar sempre e de qualquer modo contra os governos não nos ajuda, pois eles se defendem... Se se tem uma idéia genuína de diálogo, fica claro para o nosso interlocutor que não temos nenhum interesse político “sectário”, mas que a nossa ânsia é apenas que exista paz para todos, inclusive aos que fazem parte do governo. E tudo fica mais fácil.

Um grafite sobre a calamidade da Aids em um mural de Johannesburgo
Na África os governos e a Igreja vivem sob a nuvem da pobreza, da insegurança, da fraqueza político-militar. Se começarmos a falar entre nós, pode-se ajudar a África, que no fim das contas é quem sofre. Para não falar do fato que os filhos da Igreja estão em ambas as partes, ou seja, também fazem parte do governo. Em alguns países o chefe de Estado é católico. Começamos a nos perguntar o que quer dizer chefe de Estado católico. As perguntas que hoje nos fazemos não são novas, mas sabemos que cabe a nós mesmos procurarmos uma resposta para as nossas necessidades. Pode-se também obter vantagens olhando o que os outros realizaram. Por exemplo, estudando a origem e a história dos partidos católicos na Europa concluí que o partido único dos católicos era uma resposta justa naquele momento e naquele contexto, mas não é adequada à nossa situação. Devemos encontrar outras respostas. O objetivo é colocar à disposição da sociedade os valores cristãos do bom governo, que é um princípio válido para todos, mas como isso se realiza é outra coisa.
Conseguimos chegar a um acordo
Na doutrina social da Igreja encontram-se os princípios para uma boa organização da sociedade, mas devemos encontrar o modo, por exemplo na Nigéria, de torná-los acessíveis à nossa gente que não é católica, mas que reconhece a verdade quando a vê. Espero e acredito que pouco a pouco se consiga, mas me dou conta de que quando a Conferência Episcopal nigeriana faz declarações sobre a política interna, todos as lêem com atenção, não como texto de uma religião, mas principalmente como documento de um grupo social que provavelmente tem idéias claras sobre certas coisas. Temos que dizer as coisas de modo que os não católicos possam entendê-las, assim como na Nigéria, em toda a África.
Quando a análise da situação é bem clara, todos a aceitam como verdadeira. Então as respostas, que nós bispos propomos, são compreensíveis e na nossa opinião razoáveis. Às vezes há várias opções e nós como bispos devemos fazer algumas escolhas que, graças a Deus, para nós não são difíceis, isto é, conseguimos chegar a um acordo. É mais fácil se focalizamos a nossa atenção nas coisas essenciais da nossa amada Igreja.

Bispos africanos em procissão na Basílica de São Pedro por ocasião do Sínodo da África de 1994
Enfim um pensamento sobre a Aids na África. O papel da Igreja consiste em tentar reunir todos os recursos disponíveis, fazer com que exista mútua colaboração entre os que se dedicam a esta calamidade, evitar polêmicas estéreis, especialmente no que se refere aos modos de aplacar a epidemia. Sabemos de cor o “estribilho” sobre o uso dos preservativos, sempre em primeiro plano quando se fala de Aids, como se fosse a única solução. Mas saímos do encontro de Dacar encorajados e com mais esperança no fato que se pode colaborar também com aqueles grupos que até pouco tempo atrás contrastavam com a Igreja. Quem veio de Genebra falar em nome da Unaids (Joint United Nations Programme on Hiv/Aids) e de Nova York em nome da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) reconheceu amplamente o trabalho que a Igreja está fazendo. Se olharmos concretamente, a Igreja Católica com os seus missionários é quem mais trabalhou. Por isso quem realmente quer trabalhar para ajudar as pessoas contra a Aids, e solicita um programa eficaz de educação, formação e informação – para vencer, principalmente, a discriminação contra os que têm o vírus, – não pode deixar de considerar a Igreja. Dizem que há três caminhos na luta contra a Aids: a abstinência, a fidelidade e a contracepção. São três caminhos em ordem de eficácia, porque o melhor é a abstinência, seguindo a fidelidade ao esposo e à esposa legítimos, e enfim a contracepção. Porém, deve ser admitida a verdade sobre o preservativo, sem distribui-lo com a idéia de que resolve tudo. Existem claras provas científicas, baseadas em pesquisas realizadas pela Igreja junto com países que julgaram seriamente os nossos argumentos, que o caminho da abstinência e o da mudança de um comportamento sexual desordenado funcionam. Há o exemplo de Uganda, onde o governo, ao menos nisso, uniu-se com a Igreja para comunicar aos jovens que é melhor adiar a atividade sexual. Com isso não queremos dizer que não devem ser dados fundos aos que distribuem preservativos, mas que também os nossos projetos devem ser subvencionados. Porque não se pode fazer um programa de educação e de assistência grátis: é preciso de pessoas capacitadas, é preciso de estrutura e dinheiro. Como chegar aos fundos disponíveis é uma das coisas que começamos a estudar. Organismos como a Unicef já estão prontos para dialogar conosco. Quando se fala de Aids, é preciso reconhecer que os problemas dos países pobres são completamente diferentes dos países desenvolvidos. Ter Aids já é uma tragédia, mas ter Aids sem possibilidade de encontrar remédios é pior ainda. Ora, eu imagino que se um ocidental é infectado pelo vírus, sabe onde ir e qual remédio é disponível, mas na Nigéria? Há possibilidade somente para os poucos ricos que podem ir ao exterior fazer tratamentos. Nos últimos anos o governo nigeriano realizou um projeto piloto para 2 mil pessoas. Mas o que são 2 mil pessoas em uma população de 130 milhões? Por isso na batalha contra a Aids na África, a coisa mais importante é a prevenção. E antes disso há um outro problema: o contexto socioeconômico que permite o alastramento da Aids na África, ao contrário do Ocidente, o problema da pobreza, do mau governo, das guerras. Então, não é que os africanos tenham mais tendências sexuais do que os outros, mas em um contexto no qual nem mesmo o controle da malária é pensável, como se pode combater a Aids? Devemos contrastar juntos a toda a situação político-socio-econômica dos nossos países.
(texto reunido por Giovanni Cubeddu)