FÉ E CULTURA. Entrevista com o patriarca de Veneza
O desafio antropológico
“Trata-se de enfrentar a natureza dramática da pessoa, pois cada um de nós é um, mas somos ‘um de alma e de corpo’, ‘um de homem e de mulher’, ‘um de indivíduo e de comunidade’”. Uma conversa entre o vaticanista de La Repubblica e o cardeal Angelo Scola
de Marco Politi

Paul Gauguin, O Cristo amarelo, óleo sobre tela, 1889, Albright Knox Art Gallery, Buffalo, Nova York
O dogma tem utilidade?
ANGELO SCOLA: Respondo retomando o belo subtítulo de uma grande obra de De Lubac, Catolicismo, que dizia: Os aspectos sociais do dogma.
Que significa mostrar as implicações sociais?
SCOLA: Trata-se de enfrentar a natureza dramática da pessoa, pois cada um de nós é um, mas somos “um de alma e de corpo”, “um de homem e de mulher”, “um de indivíduo e de comunidade”.
Por que o senhor fala de natureza dramática?
SCOLA: A linguagem atual confunde drama com tragédia. A palavra drama, no entanto, indica simplesmente que nós estamos sempre tendendo para esses dois pólos, de maneira constitutiva: alma e corpo, homem e mulher, indivíduo e comunidade. Se eu estou com dor de estômago, raciocino pior. Se estou triste porque minha esposa me deixou, tenho dor de estômago. Se a minha condição é a diferença sexual masculina, eu não poderei me entender a não ser fazendo referência à outra maneira de ser da diferença sexual, que me é inalcançável, o feminino. Analogamente, eu nunca posso separar o meu eu individual das relações sociais em que ele está mergulhado. E isso se reflete também no exercício da minha liberdade. Pois a estrutura da liberdade é tal, que eu estou sempre polarmente estirado entre a minha autoafirmação e a necessária saída rumo ao outro.
Portanto, o divórcio atual entre a fé e a cultura...
SCOLA: Em última análise, tem uma raiz antropológica. Em outros termos: nós insistimos na identidade do “eu” como se ele já não estivesse mergulhado na ação. Separamos a pessoa de sua tarefa. Isso se vê às vezes em nós, sacerdotes. Tendo um desejo sincero de autenticidade, intensificamos corretamente a ascese, os retiros espirituais, a meditação, a lectio divina e assim por diante. E ai de nós se não recomeçássemos sempre desses fundamentos! O problema é não perdê-los quando passamos para a ação. É preciso explicitar as implicações antropológicas e sociais do dogma nos quais acreditamos. Do contrário, imitamos da mentalidade dominante as razões da ação e nos rompemos em dois. Somos cristãos na intenção, mas na ação nos tornamos uma outra coisa.
Um exemplo concreto?
SCOLA: É preciso ajudar os últimos, é preciso promover a paz... coisas sacrossantas. O problema é por que e como a fé nos abre para os últimos, por que e como nos chama a consumirmos nossa vida pela paz.

O patriarca Angelo Scola
SCOLA: Paradoxalmente, a ênfase moderna no objeto - que é sacrossanta - produziu a tese pós-moderna da morte do sujeito. O desafio para a Igreja é, de um lado, acolher essa exigência, que é justa, tendo a coragem de dizer que nesses termos ela nunca havia sido vista antes da modernidade, e, de outro, afirmar com coragem que é possível uma nova antropologia. Não ingênua, mas “crítica”.
Para chegar até onde?
SCOLA: Até uma existência digna desse nome, na qual o valor inviolável e sagrado da pessoa - em si mesma e em suas relações - seja reconhecido, e na qual se manifeste ao homem a possibilidade de construir uma sociedade de vida boa, na qual a dimensão pessoal e a dimensão social sejam simultaneamente buscadas e não sejam negligenciados os dados constitutivos da experiência elementar do homem: os afetos, o trabalho, o repouso.
O caminho?
SCOLA: Jesus Cristo nada mais é que o caminho para isso.
Essa sociedade boa não pode ser construída também por um ateu?
SCOLA: Certamente. E nós ficamos bem contentes com isso. Jesus, de fato, diz ser o caminho para a verdade. O cristianismo é a plenitude do humano, não é de modo algum alternativo ao humano. Obviamente, essa plenitude deve lidar com o pecado. É por isso que existe um elemento de ruptura, de descontinuidade, de gratuidade: o evento Cristo irrompe na minha vida.
E mesmo assim todas as pesquisas, inclusive as feitas pela Conferência Episcopal Italiana, denunciam o fato de que na realidade Cristo é citado tal como se fala de Deus ou do Papa?
SCOLA: O motivo é tão singular quanto, se você quiser, simples. Porque, como até filmes recentes demonstram, em palavras é fácil seguir Jesus Cristo até o Sábado Santo... O problema é acreditar que ressuscitou! Para acreditar que Ele ressuscitou, eu devo fazer a experiência de que a libertação do temor da morte - ou seja, a minha ressurreição pessoal - é possível e, de certa forma, já é antecipada em meus afetos transfigurados e em meu trabalho regenerado. Esse é o ponto. Não é tão difícil falar de Deus hoje! Paradoxalmente, nem é difícil falar da Igreja, basta falar mal dela... Mas falar de Jesus Cristo sem ceder ao auto-engano de que se trate de um passado exige que a pessoa tenha arriscado a sua liberdade com o evento que aconteceu no Gólgota, mas que vive no presente. Em outros termos: significa ter aceito o desafio de Lessing, mostrando na própria experiência humana que não é verdade que é impossível transpor a “maldito fosso” de espaço e tempo que nos separa de Jesus.
Um dos pontos de atrito com a sociedade diz respeito à sexualidade. A mensagem religiosa tradicional é atual?
SCOLA: Aqui, estamos diante de uma das maiores provocações para o cristianismo, e é pena que a novidade do magistério de João Paulo II para o nosso tempo ainda não tenha sido bem assimilada, em primeiro lugar por nós mesmos, os pastores.
Em que consiste essa novidade?
SCOLA: Consiste em encontrar os fundamentos antropológicos da visão cristã do corpo e da sexualidade, de modo tal que sejam por eles iluminados, e por isso compreensíveis, os critérios éticos. O desconcerto está justamente em não entender isso. Freqüentemente, nós nos comportamos como aquele pai ou aquela mãe que, querendo realmente o bem do filhinho, quando ele diz: “Hoje à noite eu vou sair”, limita-se a responder: “Não, não vai”. E se o rapaz insiste: “Mas por quê?”, só sabe repetir: “Porque não”. Nós não damos razões convincentes em nível antropológico.
E quais são essas razões?
SCOLA: As razões derivam da unidade dual de homem e mulher. Da inseparável unidade entre a diferença sexual, o dom de si e a fecundidade. A diferença sexual não é uma simples diversidade... Aqui se esconde o equívoco. De fato, a diversidade pode ser superada e, muitas vezes, quando não é superada, pode se tornar prenúncio de prevaricações e abusos, ao passo que a diferença é interna ao eu. A diferença do corpo e do eros é uma auto-evidência. Não é uma característica de alguma forma acrescentada, externa ao eu. Se eu me encontro situado na diferença sexual masculina, sou estruturalmente orientado para a outra forma de ser homem, que é diferente da minha. O que isso afirma? Afirma a inclinação para o outro, afirma a origem do amor.

Paul Gauguin, De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?, óleo sobre tela, 1897, Museum of Fine Arts, Boston
SCOLA: Que é preciso reafirmar com força essa natureza “nupcial” do amor (eu, o outro e o terceiro: pai, mãe e filho), ou seja, essa inseparável unidade entre diferença sexual, dom de si e fecundidade. Afirmando com clareza que, se as tecnologias de hoje permitem separar esses três fatores, não é conveniente separá-los. O Papa, nesse sentido, deu uma grandíssima contribuição, e ainda existe muito trabalho a fazer.
Os jovens aceitarão essa posição?
SCOLA: É uma explicação que pode ajudá-los a entender que, se nós falamos de matrimônio indissolúvel, não é por uma fixação anacronista, mas porque é a maneira mais humana e realizada de viver o relacionamento entre o homem e a mulher. Tenho em mente os meus pais, depois de sessenta anos de matrimônio, e ainda tenho presente o olhar cheio de estima, de ternura e de perdão com que eles se olhavam...
O senhor sabe que a esmagadora maioria na Itália refuta o matrimônio eterno?
SCOLA: No final de uma vida, a pessoa se dá conta de que o matrimônio indissolúvel foi um grande leito de rio no qual o eu ficou protegido de qualquer evasão desestabilizante e do risco de auto-destruição, infelizmente bastante arraigados no homem.
O senhor não teme que essa visão possa ser sentida como demasiadamente tranqüilizante?
SCOLA: Um dia, no avião, vi numa revista um artigo sobre Picasso e seus nus eróticos pintados no fim da vida, e pensei: sem dúvida, este homem é um gênio que, com mais de oitenta anos, saindo com tantas modelos, certamente soube perceber alguns aspectos do feminino que meu pai e minha mãe - meu pai, caminhoneiro, minha mãe, uma mulher que havia cursado até o segundo ano primário - nem sonhariam... Mas, humanamente falando, meu pai e minha mãe tinham tido mais sucesso na experiência do amor do que Picasso, pois, na fidelidade ao seu matrimônio, tinham aprendido o permanente dom de si. Picasso, mudando de mulher muitas vezes, deve ter também percebido muitos aspectos profundos da psicologia do feminino, mas a experiência intensamente humana de meus pais... bem, tinha uma qualidade bem diferente.
Como levar em conta o princípio do prazer, que é um elemento forte do moderno?
SCOLA: Nas Cartas do diabo a seu aprendiz, do escritor C. S. Lewis, um demônio idoso instrui um jovem diabo sobre como se deve levar os homens à perdição.
E como se faz?
SCOLA: Ele afirma que um sistema infalível é insistir - como alguns católicos também fazem - em apresentar o prazer como uma coisa contra Deus.
Em vez disso?
SCOLA: O problema é situar o prazer dentro da experiência do gozo. E a diferença talvez possa ser captada olhando justamente para o ato conjugal. O desejo busca o gozo que é para sempre, definitividade. O lugar do gaudium para os grandes Escolásticos é o paraíso. O prazer, por si só, não dura. É sempre pontual. Isso abre a grande questão do que é o desejo, que, em última análise, pode ser descrito como desejo de ser definitivamente amado e de amar definitivamente.
Uma meta que pode ser alcançada?
SCOLA: Trata-se de objetar que a realização do desejo não está ao alcance do meu eu que deseja. Esse é o ponto. O fato de o horizonte do meu desejo ser o infinito não significa que eu sou capaz de responder a ele.
E então?
SCOLA: Para realizá-lo, devo passar pelo outro. E, se passo pelo outro, nesse ponto o meu desejo encontra o sacrifício, pois o outro é sempre diferente de mim. O segredo está em entender que o sacrifício não começa quando acaba o desejo, e que o querer não termina quando começar o dever. O dever é interno ao querer. O sacrifício é interno ao desejo.
O sacrifício como componente estrutural do desejo?
SCOLA: Parece-me que essas coisas são indicadas por Freud também. Quando ele fala, de um modo um pouco truculento, do princípio de “castração”, pretende dizer que enquanto a criança, na relação com a mãe, não aprender “a ceder” (sacrifício) algo ao pai, não conseguirá dizer eu. Ela vive a mãe como um mero prolongamento de si mesma. Sobre essa questão, a psicologia do profundo e a visão cristã das coisas estão de acordo.

Paul Gauguin, Girassóis, óleo sobre tela, 1901, Museu Hermitage, São Petersburgo
SCOLA: Para mim, duas coisas são extremamente importantes: em primeiro lugar, dar todo o peso necessário à liberdade da pessoa e, depois, aceitar o princípio de que, sendo o mundo salvo por Cristo, a Igreja deve se conceber como sinal transparente e vital dessa salvação. Por isso, deve receber das circunstâncias da vida de todos os dias a “carne” da sua proposta. Em outras palavras, a evangelização não pode ser reduzida a conteúdos que eu já tenho no meu bolso e que devo transmitir, mas se lança nas imprevisíveis circunstâncias pessoais, comunitárias e sociais com as quais eu me confronto.
Poderíamos dizer que o mundo é protagonista e não mais visto como inimigo?
SCOLA: “O campo é o mundo”, diz Mateus (Mt 13,38). O mundo não está fora da Igreja, não é outra coisa de modo absoluto. Depois do trabalho dos anos que prepararam e seguiram o Concílio Vaticano II, penso que hoje somos capazes de oferecer uma teologia mais serena da relação Igreja-mundo. Por exemplo, hoje todos nós, homens do Ocidente, ficamos sem palavras diante do caráter trágico do momento geopolítico: não é que nós, cristãos, temos soluções preconfeccionadas no bolso! Mas somos chamados a pôr mãos à obra, com todos os homens, cada um fazendo a sua parte.
Faz parte também dessa relação serena com o mundo a aceitação do que o Iluminismo trouxe de positivo?
SCOLA: Creio que sim, uma vez que o identifiquemos bem. No entanto, poderíamos discutir muito sobre o quanto o tríplice mote “liberdade, igualdade, fraternidade” já era ou não inspirado pelo cristianismo. De qualquer forma, não se discute que a conquista do respeito absoluto pela dignidade de qualquer indivíduo e pelos conseqüentes direitos pessoais, sociais, políticos e econômicos, como ponto sagrado e inviolável, garantido em última análise por Deus, é um princípio irrenunciável. Por outro lado, estou fortemente convencido de que uma reflexão equilibrada e fiel à sã doutrina cristã possa dar sua contribuição aos desdobramentos hoje mais interessantes da fenomenologia, da hermenêutica ou até da filosofia transcendental. Essas são as correntes de pensamento que tentam responder ao “Iluminismo ainda insatisfeito”.
(Publicação gentilmente concedida por La Repubblica)