Cristãos no Iraque. Entrevista com o Bispo auxiliar do Patriarcado dos Caldeus em Bagdá
Sangue iraquiano, armas ocidentais
“O Iraque tornou-se o covil de terroristas de todo tipo... Do Ocidente vemos o trágico ateísmo, junto com os traficantes de armas e drogas, que alimentam o fanatismo e também armam o terrorismo”. Entrevista com Shlemon Warduni
de Gianni Valente
As 36 mesas redondas do Congresso “Religiões
e Culturas. A coragem de um novo humanismo”, organizado pela Comunidade de Santo Egídio e pela
arquidiocese de Milão de 5 a 7 de setembro, foram uma resposta aos que afirmam
que nos nossos tempos de terror global somente o fato de falar de diálogo e de
negociações equivale à rendição ou mesmo à conivência com o inimigo. E isso
porque nas jornadas de trabalho não houve apenas intervenções dos habitué de festivais de boas intenções. Mas de
homens concretos, imersos na confusão que parece envolver tudo. Uma imanência à
realidade com as suas contradições e as suas zonas obscuras, que se pode
perceber nas entrevistas com Shlemon Warduni, bispo auxiliar da Bagdá dos
Caldeus, e com Ahmad al-Tayyib, reitor da Universidade islâmica de Al-Azhar,
que 30Dias acolheu por
ocasião do Congresso em Milão.

“Por que a guerra? Não há nenhuma razão, a não ser o interesse do petróleo e talvez também Israel [...]. Peguem o ouro negro, nós não o queremos. Queremos a paz para as nossas crianças”. Shlemon Warduni, bispo auxiliar do patriarcado dos Caldeus de Bagdá, falou bem claro no encontro de Milão organizado pela comunidade de Santo Egídio. Com a mesma sinceridade conta a 30Dias como o desastre causado pela guerra abala também as comunidades cristãs presentes no Iraque.
Depois dos atentados de agosto o que mudou na vida concreta das comunidades cristãs iraquianas?
SHLEMON WARDUNI: Obviamente os atentados de primeiro de agosto causaram sobressalto e medo. Impressionou principalmente a sincronia com qual foram atingidas as igrejas cristãs em Bagdá e Mosul.
As participações às missas e às atividades paroquiais diminuíram?
WARDUNI: Por duas semanas notou-se uma diminuição. Mas já nas celebrações de 15 de agosto contávamos com o número habitual de fiéis.
Mesmo assim, segundo algumas fontes, nas semanas que se seguiram aos atentados 40 mil cristãos fugiram do Iraque...
WARDUNI: Alguns foram embora, mas fiz uma pequena sondagem e posso garantir que os números que circularam são inventados. A emigração dos cristãos do Iraque e do Oriente Médio, infelizmente, é um fenômeno constante. A situação nos últimos 50 anos está cada vez pior, de um conflito a outro, de uma crise a outra. Isso faz com que principalmente os jovens queiram partir, pois não conseguem imaginar um futuro melhor ficando aqui. Com certeza este fenômeno acentuou-se depois dos atentados às igrejas, mas não foi uma fuga em massa como se falou na mídia ocidental.
Atualmente as igrejas cristãs estão sendo protegidas?
WARDUNI: Depois dos atentados, por alguns dias, as igrejas tiveram a proteção das forças policiais e dos militares. Depois, preferimos confiar aos nossos jovens a tarefa de vigiar e enfrentar eventuais perigos. Uma espécie de autogestão de forças de ordem, para que os fiéis que vêm à missa sintam-se seguros vendo rostos conhecidos controlando, e não policiais e militares com armas e meios blindados.
Segundo uma interpretação difusa, tinha-se a intenção de atingir os cristãos por considerá-los hóspedes indesejados em terra islâmica, ligados de algum modo com as forças ocidentais de ocupação...
WARDUNI: Eu não diria isso. Deve-se permanecer nos fatos, sem fazer muitas especulações. As nossas relações com os muçulmanos eram muito boas. E nós continuamos a fazer o nosso dever como antes. Os nossos jovens fazem serviço militar e em todas as guerras cumpriram sempre suas obrigações de cidadãos para com a nação. Respeitando as autoridades civis e as leis do país e trabalhando sério, e isso todos os muçulmanos sabem. Nós consideramos os ataques às igrejas como uma parte daquele projeto que atingiu todas as direções, a partir das mesquitas, para fazer com que toda a situação caísse no caos.
Mas aos olhos da população, o governo provisório começa a ter uma certa legitimidade, ou é percebido como um governo de fantoches?
WARDUNI: Há muitos que o consideram um governo ilegítimo. Mas muitos esperam que esse governo provisório e o conselho que o apóia possam efetivamente levar o país para o caminho de volta à normalidade. Para mim, é um primeiro passo, uma tentativa que deve ser apoiada. É preciso dar crédito a esse governo, porque um país sem governo e sem lei não pode sobreviver. Depois, quando chegar as eleições, será possível escolher um governo que seja realmente a imagem fiel das forças presentes na sociedade iraquiana.
Primeiro a guerra, depois o caos e a seqüência de massacres e de terrorismo. Dois anos depois do início do ataque dos americanos, qual foi o erro de base dos que escolheram a intervenção bélica para derrubar o regime de Saddam?
WARDUNI: Pensaram em fazer como no Afeganistão, mas o Iraque era completamente diferente. Era um país rico de história e de cultura, e com um controle político capilar, com um exército estruturado. Quando tudo isso é derrubado repentinamente, abre-se uma imenso vazio, que causa medo. Quando, por exemplo, decidiram demitir todos os empregados da burocracia e do aparato estatal, criou-se de um dia para outro uma multidão imensa de desempregados. Mesmo os que no início receberam a queda do regime como uma libertação, logo viram que os próprios libertadores eram uma força de ocupação. Outro erro fatal foi manter abertas as fronteiras. Mesmo hoje qualquer pessoal pode entrar quando e como quiser. O Iraque tornou-se o covil de terroristas de todo tipo, que entram trazendo consigo armas e instrumentos de terror. Também há armas do exército e da polícia que acabam nas mãos da população... No Ocidente fala-se apenas dos seqüestros dos estrangeiros, mas também centenas de iraquianos são seqüestrados para pedir o resgate, e quando dizemos isso aos jornalistas respondem que isso não interessa a ninguém. Também há bombas colocadas por tudo. É fácil perder a esperança.
No início, também os cristãos pareciam envolvidos nos primeiros passos da reconstrução. Tinham nascido jornais e grupos políticos organizados por cristãos. Ainda há sinais concretos de tal participação?
WARDUNI: Sim, há partidos e jornais que exprimem interesses particulares. Mas precisam ser unidos para entrar na cena política. Nós temos encorajado os cristãos para que participem da vida das instituições para construir o país democrático e livre junto com seus próprios concidadãos. Mas essa democracia como deveria ser concebida? A idéia de impor de fora a liberdade e a democracia é grotesca e desastrosa. Por exemplo, não se pode pensar em impor o modelo de democracia americano ou italiano em um país do Oriente Médio. Há costumes, culturas, tradições diferentes. Somente olhando o Iraque com os olhos dos iraquianos pode-se dar origem a um processo que, com a gradualidade dos processos históricos reais, aproxime à democracia. Nós dissemos aos cristãos: não se dividam em pequenos grupos, tentem fazer um só partido. Senão, nesta situação, acaba-se por se tornar agrupamentos preteríveis.
Segundo alguns intelectuais o islã teria desencadeado uma guerra santa à civilização ocidental e às suas raízes cristãs. Como um bispo do Oriente Médio vê essas teorias?
WARDUNI: Os cristãos devem apenas seguir o que foi dito por Jesus. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Assim ficaremos unidos. E testemunhamos aos outros a nossa fé em Jesus, tanto no Oriente como no Ocidente. Antes as pessoas referiam-se aos cristãos dizendo: “Olhem como se amam entre eles”. E muitos tornaram-se cristãos. Hoje isso não existe. E do ocidente, o que vemos é principalmente um trágico ateísmo, junto com os tráficos de armas e drogas, que alimentam o fanatismo e armam também o terrorismo.

A igreja católica-assíria Nossa Senhora do Socorro em Bagdá depois do atentado de 1º de agosto de 2004
“Por que a guerra? Não há nenhuma razão, a não ser o interesse do petróleo e talvez também Israel [...]. Peguem o ouro negro, nós não o queremos. Queremos a paz para as nossas crianças”. Shlemon Warduni, bispo auxiliar do patriarcado dos Caldeus de Bagdá, falou bem claro no encontro de Milão organizado pela comunidade de Santo Egídio. Com a mesma sinceridade conta a 30Dias como o desastre causado pela guerra abala também as comunidades cristãs presentes no Iraque.
Depois dos atentados de agosto o que mudou na vida concreta das comunidades cristãs iraquianas?
SHLEMON WARDUNI: Obviamente os atentados de primeiro de agosto causaram sobressalto e medo. Impressionou principalmente a sincronia com qual foram atingidas as igrejas cristãs em Bagdá e Mosul.
As participações às missas e às atividades paroquiais diminuíram?
WARDUNI: Por duas semanas notou-se uma diminuição. Mas já nas celebrações de 15 de agosto contávamos com o número habitual de fiéis.
Mesmo assim, segundo algumas fontes, nas semanas que se seguiram aos atentados 40 mil cristãos fugiram do Iraque...
WARDUNI: Alguns foram embora, mas fiz uma pequena sondagem e posso garantir que os números que circularam são inventados. A emigração dos cristãos do Iraque e do Oriente Médio, infelizmente, é um fenômeno constante. A situação nos últimos 50 anos está cada vez pior, de um conflito a outro, de uma crise a outra. Isso faz com que principalmente os jovens queiram partir, pois não conseguem imaginar um futuro melhor ficando aqui. Com certeza este fenômeno acentuou-se depois dos atentados às igrejas, mas não foi uma fuga em massa como se falou na mídia ocidental.
Atualmente as igrejas cristãs estão sendo protegidas?
WARDUNI: Depois dos atentados, por alguns dias, as igrejas tiveram a proteção das forças policiais e dos militares. Depois, preferimos confiar aos nossos jovens a tarefa de vigiar e enfrentar eventuais perigos. Uma espécie de autogestão de forças de ordem, para que os fiéis que vêm à missa sintam-se seguros vendo rostos conhecidos controlando, e não policiais e militares com armas e meios blindados.
Segundo uma interpretação difusa, tinha-se a intenção de atingir os cristãos por considerá-los hóspedes indesejados em terra islâmica, ligados de algum modo com as forças ocidentais de ocupação...
WARDUNI: Eu não diria isso. Deve-se permanecer nos fatos, sem fazer muitas especulações. As nossas relações com os muçulmanos eram muito boas. E nós continuamos a fazer o nosso dever como antes. Os nossos jovens fazem serviço militar e em todas as guerras cumpriram sempre suas obrigações de cidadãos para com a nação. Respeitando as autoridades civis e as leis do país e trabalhando sério, e isso todos os muçulmanos sabem. Nós consideramos os ataques às igrejas como uma parte daquele projeto que atingiu todas as direções, a partir das mesquitas, para fazer com que toda a situação caísse no caos.
Mas aos olhos da população, o governo provisório começa a ter uma certa legitimidade, ou é percebido como um governo de fantoches?
WARDUNI: Há muitos que o consideram um governo ilegítimo. Mas muitos esperam que esse governo provisório e o conselho que o apóia possam efetivamente levar o país para o caminho de volta à normalidade. Para mim, é um primeiro passo, uma tentativa que deve ser apoiada. É preciso dar crédito a esse governo, porque um país sem governo e sem lei não pode sobreviver. Depois, quando chegar as eleições, será possível escolher um governo que seja realmente a imagem fiel das forças presentes na sociedade iraquiana.
Primeiro a guerra, depois o caos e a seqüência de massacres e de terrorismo. Dois anos depois do início do ataque dos americanos, qual foi o erro de base dos que escolheram a intervenção bélica para derrubar o regime de Saddam?
WARDUNI: Pensaram em fazer como no Afeganistão, mas o Iraque era completamente diferente. Era um país rico de história e de cultura, e com um controle político capilar, com um exército estruturado. Quando tudo isso é derrubado repentinamente, abre-se uma imenso vazio, que causa medo. Quando, por exemplo, decidiram demitir todos os empregados da burocracia e do aparato estatal, criou-se de um dia para outro uma multidão imensa de desempregados. Mesmo os que no início receberam a queda do regime como uma libertação, logo viram que os próprios libertadores eram uma força de ocupação. Outro erro fatal foi manter abertas as fronteiras. Mesmo hoje qualquer pessoal pode entrar quando e como quiser. O Iraque tornou-se o covil de terroristas de todo tipo, que entram trazendo consigo armas e instrumentos de terror. Também há armas do exército e da polícia que acabam nas mãos da população... No Ocidente fala-se apenas dos seqüestros dos estrangeiros, mas também centenas de iraquianos são seqüestrados para pedir o resgate, e quando dizemos isso aos jornalistas respondem que isso não interessa a ninguém. Também há bombas colocadas por tudo. É fácil perder a esperança.
No início, também os cristãos pareciam envolvidos nos primeiros passos da reconstrução. Tinham nascido jornais e grupos políticos organizados por cristãos. Ainda há sinais concretos de tal participação?
WARDUNI: Sim, há partidos e jornais que exprimem interesses particulares. Mas precisam ser unidos para entrar na cena política. Nós temos encorajado os cristãos para que participem da vida das instituições para construir o país democrático e livre junto com seus próprios concidadãos. Mas essa democracia como deveria ser concebida? A idéia de impor de fora a liberdade e a democracia é grotesca e desastrosa. Por exemplo, não se pode pensar em impor o modelo de democracia americano ou italiano em um país do Oriente Médio. Há costumes, culturas, tradições diferentes. Somente olhando o Iraque com os olhos dos iraquianos pode-se dar origem a um processo que, com a gradualidade dos processos históricos reais, aproxime à democracia. Nós dissemos aos cristãos: não se dividam em pequenos grupos, tentem fazer um só partido. Senão, nesta situação, acaba-se por se tornar agrupamentos preteríveis.
Segundo alguns intelectuais o islã teria desencadeado uma guerra santa à civilização ocidental e às suas raízes cristãs. Como um bispo do Oriente Médio vê essas teorias?
WARDUNI: Os cristãos devem apenas seguir o que foi dito por Jesus. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Assim ficaremos unidos. E testemunhamos aos outros a nossa fé em Jesus, tanto no Oriente como no Ocidente. Antes as pessoas referiam-se aos cristãos dizendo: “Olhem como se amam entre eles”. E muitos tornaram-se cristãos. Hoje isso não existe. E do ocidente, o que vemos é principalmente um trágico ateísmo, junto com os tráficos de armas e drogas, que alimentam o fanatismo e armam também o terrorismo.