Missão: Itália. As memórias de Richard Gardner, embaixador dos EUA em Roma de 1977 a 1981
Itália-EUA
Richard Gardner, que afirma ser, ao lado de Zbigniew Brzezinski, o articulador da eleição de Jimmy Carter à Casa Branca, revive em seu livro Mission: Italy momentos difíceis atravessados pela Itália. Como o terrível ano de 1978, no qual Aldo Moro foi assassinado
de Giulio Andreotti

Richard Gardner, embaixador dos EUA na Itália de 1977 a 1981, numa foto em Veneza, em 1977
O professor Richard Gardner pertence à terceira categoria. Com outro professor, Zbigniew Brzezinski - como conta detalhadamente em seu recente livro de memórias, Mission: Italy -, construiu a imagem política de um candidato, levando em poucos meses o quase desconhecido governador da Geórgia, Jimmy Carter, ao alto da presidência. A propósito, é interessante ver o mecanismo eleitoral que aqui se põe em evidência, no qual há um crescimento vertiginoso do consenso quando se adivinha o ponto certo na propaganda feita pela televisão (e vice-versa).
As dinastias e os longos períodos de permanência no poder talvez carreguem consigo dificuldades, mas o máximo de dois mandatos para um governante, dadas as responsabilidades mundiais do presidente, traz o risco de que, ao se começar a entender os problemas, já seja hora de voltar ao anonimato.
Nossa relação com os Estados Unidos prescinde da rotação quadrienal na Casa Branca e da conseqüente mudança do embaixador norte-americano em Roma. As características dos embaixadores são as mais diversas...
Pude constatar pessoalmente como Carter -
pessoa agradável e de autênticas e nunca ostentadas convicções religiosas -
dependia muito dos conselhos de seu staff. Ele escreveu a todos nós,
responsáveis pelos governos da Aliança Atlântica, pedindo-nos que reagíssemos
por carta às duras críticas que a União Soviética fizera ao projeto americano
da bomba de nêutrons. Fiz o meu dever e, viajando pouco depois a Washington,
reassegurei ao presidente que havia enviado a carta a Brejnev. Ele me
surpreendeu dizendo que nem falasse daquela bomba, à qual era totalmente
contrário. “São essas idéias fixas do almirante Rickover”.No período do interregno - entre a vitória de novembro e a posse, em janeiro -, fui recebido pelo presidente derrotado, que - graças à intervenção de John Volpe - nos deu uma mão para aliviar uma situação de nossas finanças públicas que nos massacrava. Na oportunidade, pude encontrar também Cyrus Vance, já designado novo secretário de Estado.
A despedida de Volpe foi brusca, diferentemente do costume. O vice-presidente Mondale programou uma visita a Roma para 26 de janeiro, e o embaixador recebeu ordem de deixar o cargo antes daquela data, sem nem ao menos fazer as despedidas oficiais. Talvez fossem rancores antigos, mas nós tínhamos uma má impressão daquela falta de estilo. Mondale vinha acompanhado do professor Gardner, designado mas ainda sem credenciais junto ao Palácio Quirinal. Seja como for, Gardner, casado com Danielle Luzzatto, natural de Veneza, deu uma ótima impressão, e deixamos que resolvessem entre eles as brigas entre democratas e republicanos.
...até porque - salvo poucas exceções - não pertencem à carreira diplomática e são enviados em troca de um forte engajamento nas eleições presidenciais, que pode ser financeiro, propagandístico (John Volpe, grande eleitor entre os imigrantes, e Max Rabb, que leva os votos dos judeus) ou, por assim dizer, programático
Uma idéia fixa nos Estados Unidos - com
diferentes nuanças, mas um tom sempre igual - era o temor de que os comunistas
vencessem na Itália. E não paravam de chegar advertências, críticas, vetos,
inclusive a proibição de conceder “vistos” aos próprios comunistas. A
interdição chegou a ser conjunta, pois, na cúpula de Porto Rico, o chanceler
Schmidt advertiu a Itália - em nome também de ingleses, franceses e americanos
- a que mudasse sua política. Moro e Rumor aceitaram, mas ficaram muito
amargurados. Além de tudo, muito antes a embaixadora Claire Luce havia definido
De Gasperi como pouco viril, exaltando o homem Pella pelo fato de ter brandido a espada para reagir
a uma pretensa ameaça do marechal Tito.Quando Carter (e Gardner) tomaram posse, estávamos num momento muito difícil. Assassinado Moro, sua linha de convergências havia sofrido um duro golpe, e Berlinguer, que paralelamente procurava romper relações com Moscou, viu-se numa posição desconfortável.
Havia, porém, um ponto firme que não era lícito subestimar. A não beligerância comunista de 1976 (depois de oposição ininterrupta desde 1947) se dera a partir de um acordo preciso. Os comunistas se comprometiam a reconhecer formalmente que o Pacto Atlântico e a Comunidade Européia eram os pontos fundamentais de referência da política externa italiana. Em novembro de 1977, isso foi proposto solenemente e votado pelos comunistas no Parlamento. As eleições antecipadas certamente não os haviam premiado. Seja como for, a mudança de rumo havia acontecido, e seria sábio levá-la em conta corretamente.
Eu deixei o Palácio Chigi e a presidência do Conselho passou a Francesco Cossiga, que quis se afastar logo depois da morte de Moro. Da minha nova posição, como presidente da Comissão para as Relações Exteriores da Câmara, continuei a trabalhar, mantendo uma linha de óbvia firmeza defensiva, pela corrente que buscava a redução efetiva dos armamentos. Chegaríamos a isso com a administração Reagan e os acordos com Gorbachov.

Richard Gardner, autor de Mission: Italy, entre Francesco Cossiga e Giuliano Amato ao final da apresentação do livro na Câmara dos Deputados italiana, em 14 de setembro de 2004
Naturalmente, pode-se não concordar, mas não é lícito interpretar essa posição como fraqueza ou tentativa de ficar em cima do muro.
Quando Carter (e Gardner) tomaram posse, estávamos num momento muito difícil. Assassinado Moro, sua linha de convergências havia sofrido um duro golpe, e Berlinguer, que paralelamente procurava romper relações com Moscou, viu-se numa posição desconfortável...
Em outra ocasião, eu constatei a
dificuldade recíproca com a embaixada de Villa Taverna. No início de 1954, numa
discussão de política externa em nosso grupo parlamentar, eu havia acenado a
como era inevitável, logicamente, o reconhecimento da China Popular. Alguns
dias depois, recebi um convite para almoçar com a senhora Luce e, para minha
surpresa, havia apenas um terceiro convidado, o conselheiro Stabler (que depois
foi chefe da missão à Espanha). Sem preâmbulos, a embaixadora me disse que eu
tirasse aquela idéia da minha cabeça. “O Senado americano nunca abriria a ONU à
China comunista”. O resto da conversa fluiu bem e, reconhecendo em mim - por
bondade sua -boa fé e uma certa ingenuidade, ela ofereceu a minha família umas
férias em sua casa no Havaí. Aquilo não se destinava a mim, um romano do povo;
mas fui grato a ela pelo convite.Ao Richard Gardner memorialista, devo, por assim dizer, imputar uma culpa jornalístico-histórica. Diz respeito ao crime da ocupação da embaixada americana de Teerã, e ocorreu pouco depois do início dessa terrível aventura. Eu nunca havia falado sobre isso, até que Pierre Salinger o comentou em seu livro.
Entrei em contato ocasionalmente com o advogado Chéron, cujo escritório havia feito Khomeini chegar até a França, e a partir de então tinha com ele uma ligação precisa. Pedi-lhe que viesse a Roma e ele me expôs uma solução possível. O Irã pediria a extradição do xá por meio de um libelo de acusação muito duro e articulado. Os americanos teriam de dar grande difusão a ele, mas objetariam que, na ausência de um tratado específico, a extradição era impossível. Isso bastava para que os ocupantes saíssem da embaixada.

Em 4 de novembro de 1979, em resposta ao bloqueio das contas bancárias iranianas nos EUA e à hospitalidade oferecida ao xá em exílio, quinhentos estudantes iranianos ocuparam a embaixada americana em Teerã, tomando 52 pessoas como reféns
Gardner veio me encontrar e me pediu para retomar os contatos com Paris. Eu não podia fazê-lo de uma forma decorosa. Forneci ao embaixador as indicações para o fizesse diretamente. Os fatos que se seguiram - negativos - são conhecidos.
De um lado e do outro se disputava um jogo onde cada um se considerava mais astuto que outro. Manter Carter em xeque, no ano eleitoral, poderia ser política e perfidamente útil para eles. Ao mesmo tempo, o presidente, isolado numa posição de intransigência, podia achar que parecia o homem forte que não deve ser aposentado.
...Havia, porém, um ponto firme que não era lícito subestimar. A não beligerância comunista de 1976 (depois de oposição ininterrupta desde 1947) se dera a partir de um acordo preciso. Os comunistas se comprometiam a reconhecer formalmente que o Pacto Atlântico e a Comunidade Européia eram os pontos fundamentais de referência da política externa italiana
O fato é que a embaixada foi liberada quando
Carter foi derrotado. A acolhida dos “prisioneiros” libertados foi um dos
primeiros gestos da nova administração, ao qual a televisão deu grande ênfase.O relato detalhado dos anos de Richard Gardner nos faz reviver muitos momentos difíceis atravessados por nós (na realidade, os momentos fáceis não foram freqüentes), inclusive as relações complexas com as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional).
As chamadas exigências políticas obrigam a passar por cima do rigor do fechamento das contas, mesmo porque os tratamentos indicados pelos especialistas às vezes são inaplicáveis. Lembro-me de quando impuseram a Burghiba que triplicasse (ou coisa parecida) o preço do pão. No dia seguinte, ele tinha milhões de tunisianos nas ruas e não pôde, naquele momento, aumentar o pão nem em um centavo. Não nos indicaram operações cirúrgicas tão duras, mas tivemos muitas vezes de nos esforçar muito para chegar a um acordo sobre cortes possíveis.
No livro de que estamos falando, o autor exprime juízos severos também sobre homens de seu país. Como quando polemiza com o politólogo Mike Leeden, que, em livro, insinuou que os Gardner haviam sido enviados a Roma para apoiar a causa do Partido Comunista Italiano. Sobre outro aspecto, é severo o perfil que Gardner faz de seu predecessor, o embaixador Martin, que, na verdade, esteve aqui num momento de depressão pessoal, pois acabara de baixar a bandeira americana no Vietnã (1975). O personagem teve poucos contatos (lembro-me de que, depois de meses, não havia visitado o presidente da Câmara), mas cometeu muitos erros. Seja como for, declarou mais tarde ter salvo a democracia na Itália, financiando os partidos. Como ex-presidente daquele tempo, eu lhe escrevi mais de uma vez convidando-o a dar nomes e especificar o que dizia. Nunca obtive resposta.
Na documentação utilizada para o livro, Gardner lembra uma “conversa dura” que teve comigo em novembro de 1976 sobre instruções de Washington, que tinha a impressão de que “o papel e a influência do PCI no governo italiano não paravam de crescer”. Dando solenidade a essa observação, Gardner, estando presente também seu conselheiro, Holmes, convidou-me para almoçar com meu adido diplomático, La Rocca.

Enrico Berlinguer, secretário do Partido Comunista Italiano, aperta as mãos de Aldo Moro, presidente da Democracia Cristã, em 20 de maio de 1977
Quando se passou da simples abstenção à discussão do programa - ainda com um governo monocor, democrata-cristão -, a excitação de Washington se tornou ainda mais nervosa.
A possibilidade de consultar os arquivos, hoje, permite-nos descobrir também iniciativas clamorosas. Assim (Gardner não tem relação com este aspecto), quando Moro estava para incluir os socialistas de Nenni no governo, preocupado em não espantar os americanos, insistiu muito para que eu ficasse, pois, como ministro da Defesa, eu garantiria a continuidade na Aliança. Nós não sabíamos (e Aldo nunca chegou a saber) que os socialistas tinham tido relações diretas e multivalentes com o governo americano, por meio de conversas formais do deputado Pieraccini, nos EUA, que depois foi membro reconhecido do novo governo.
Para concluir a resenha desta interessante monografia, citarei uma passagem que diz respeito exatamente a Gardner. Sua visita protocolar a Ingrao (líder do Partito Comunista), presidente da Câmara, havia provocado ataques contra ele em sua pátria, por parte dos formadores de opinião de direita. Quando encontrei o presidente Carter em Londres, para a Cúpula Econômica, tive a oportunidade de lhe falar disso, definindo estúpido o ataque a Gardner, que me parecia estar desempenhando seu papel de maneira perfeita. Hoje, vejo que Gardner foi informado disso pelo Departamento de Estado, e que o registrou de bom grado.