A ONU de Lula
“Queremos recordar que a extrema
pobreza atinge mais de um bilhão de pessoas, que sobrevivem com menos de um
dólar por dia. Na África subsaariana cerca de 300 milhões de pessoas vivem na
pobreza absoluta. Milhões de crianças continuam a morrer todos os anos por
falta de cuidados médicos, de água potável, de uma moradia decente e de uma
nutrição adequada, enquanto 20 milhões de pessoas morrem todos os dias por
razões ligadas à fome. No atual nível de progresso tecnológico e de produção
agrícola no mundo, a persistência dessa situação é economicamente irracional,
politicamente inaceitável e moralmente vergonhosa”.
Percebe-se o estilo de Luíz Inácio Lula da Silva nesta passagem da declaração final do encontro entre os líderes mundiais realizado nas Nações Unidas no dia 20 de setembro. A iniciativa (“Action against hunger and poverty”) Ação contra a fome e a pobreza, partiu do presidente brasileiro, e a acolher os chefes de Estado e de governo nas salas do Conselho Econômico e Social da ONU, onde se realiza o encontro, serão os discursos de introdução de Lula, de Kofi Annan e dos líderes mundiais que aderiram imediatamente: o presidente francês Chirac, o chileno Lagos e o espanhol Zapatero.
O objetivo declarado é conseguir não diminuir o passo rumo ao objetivo de diminuir pela metade até o ano de 2015 o número de homens que no mundo sofrem e morrem de fome e de pobreza (promessa já feita na ONU em 2000 com o “Millennium Development Goals” – o texto que sancionava os compromissos para o terceiro milênio – e retomada mais tarde com o acordo alcançado em Monterrey e em Doha). As nações ricas devem doar 0,7% do PIB e também acionar ulteriores políticas de ajuda direta aos países pobres, operar a remissão da dívida, dar aos produtos do Terceiro Mundo acesso aos mercados. Mas ao convidar para o encontro de Nova York em 20 de setembro, o Brasil, com um amargo sentido de ironia, advertiu a todos para que saíssem da utopia milenarista, recordando que se tudo continuar com o ritmo atual, os resultados talvez possam ser vistos em 2147. São necessários 50 bilhões de dólares a mais por ano. Por isso, Lula patrocinou um estudo técnico para verificar novas formas de apoio financeiro aos países pobres, como base para a discussão no “Action against hunger and poverty”.
Evidentemente a posição do governo brasileiro é compartilhada por muitos. Já desde o início da sessão anterior da Assembléia Geral da ONU, Lula criou junto com a Índia e a África do Sul um novo fundo internacional para a luta à pobreza, e as novas medidas em estudo para conseguir recursos apresentadas neste encontro de setembro referem-se, por exemplo, a impostos na venda de armas, nas transações financeiras e também investimentos “socialmente responsáveis”. Além dos governos, também os grupos privados e a sociedade civil podem intervir.
O que deve ser bem entendido é que, como dizem os textos oficiais do governo de Lula, “o Brasil apóia com todo o coração os esforços na luta contra a pobreza e a fome”, e faz isso na visão de remodelar com maior justiça a ordem mundial. Apresentando em Genebra no dia 30 de janeiro, com Chirac, Lagos e Annan, “Action against hunger and poverty”, Lula disse com magistral ironia que não veio apenas para “recordar que a fome é uma arma de destruição de massa que mata 24 mil pessoas todos os dias e 11 crianças a cada minuto e que atinge quase um quarto de toda a população mundial”, mas “veio para procurar soluções”. O Brasil de Lula recorda a todos que no recente passado muitas nações latino-americanas seguiram as políticas econômicas aconselhadas pelas cúpulas, combateram a corrupção e melhoraram suas democracias. Mas ninguém lhes deu a parte dos benefícios da globalização e isso “contribuiu para gerar um sentido de frustração em grande parte da população”. Enfim, a América Latina não pode ser colocada à parte. E se hoje há os que colocam a “segurança” como critério das relações internacionais, o Brasil, ao invés, “continua a crer que o desenvolvimento é parte essencial da segurança mundial”. Também a propósito das chamadas intervenções humanitárias e das operações de manutenção da paz por parte da ONU, o governo Lula sublinha que depois do fim dos anos Oitenta “aumentaram tanto em número quanto em áreas de desenvolvimento” e superaram “as clássicas tarefas de interposições de forças”.
Definitivamente, o que levar em consideração deste encontro de setembro em Nova York? Principalmente o renovado interesse em dar por inteiro 0,7% do PIB para financiar o desenvolvimento, e a utilidade de criar... um sentido de culpa ao redor dos persistentes vacilantes. Também, o fato de que em tempos de reforma para a ONU, o Brasil afirma claramente a sua vontade de ter mais peso, ou seja, uma cadeira permanente no Conselho de Segurança (que segundo Lula deve ser remodelado também considerando o crescente peso das nações em desenvolvimento). O Brasil, como outras nações que nas últimas décadas não tiveram voz, agora a reclamam. E estão sendo ouvidas.
Percebe-se o estilo de Luíz Inácio Lula da Silva nesta passagem da declaração final do encontro entre os líderes mundiais realizado nas Nações Unidas no dia 20 de setembro. A iniciativa (“Action against hunger and poverty”) Ação contra a fome e a pobreza, partiu do presidente brasileiro, e a acolher os chefes de Estado e de governo nas salas do Conselho Econômico e Social da ONU, onde se realiza o encontro, serão os discursos de introdução de Lula, de Kofi Annan e dos líderes mundiais que aderiram imediatamente: o presidente francês Chirac, o chileno Lagos e o espanhol Zapatero.
O objetivo declarado é conseguir não diminuir o passo rumo ao objetivo de diminuir pela metade até o ano de 2015 o número de homens que no mundo sofrem e morrem de fome e de pobreza (promessa já feita na ONU em 2000 com o “Millennium Development Goals” – o texto que sancionava os compromissos para o terceiro milênio – e retomada mais tarde com o acordo alcançado em Monterrey e em Doha). As nações ricas devem doar 0,7% do PIB e também acionar ulteriores políticas de ajuda direta aos países pobres, operar a remissão da dívida, dar aos produtos do Terceiro Mundo acesso aos mercados. Mas ao convidar para o encontro de Nova York em 20 de setembro, o Brasil, com um amargo sentido de ironia, advertiu a todos para que saíssem da utopia milenarista, recordando que se tudo continuar com o ritmo atual, os resultados talvez possam ser vistos em 2147. São necessários 50 bilhões de dólares a mais por ano. Por isso, Lula patrocinou um estudo técnico para verificar novas formas de apoio financeiro aos países pobres, como base para a discussão no “Action against hunger and poverty”.
Evidentemente a posição do governo brasileiro é compartilhada por muitos. Já desde o início da sessão anterior da Assembléia Geral da ONU, Lula criou junto com a Índia e a África do Sul um novo fundo internacional para a luta à pobreza, e as novas medidas em estudo para conseguir recursos apresentadas neste encontro de setembro referem-se, por exemplo, a impostos na venda de armas, nas transações financeiras e também investimentos “socialmente responsáveis”. Além dos governos, também os grupos privados e a sociedade civil podem intervir.
O que deve ser bem entendido é que, como dizem os textos oficiais do governo de Lula, “o Brasil apóia com todo o coração os esforços na luta contra a pobreza e a fome”, e faz isso na visão de remodelar com maior justiça a ordem mundial. Apresentando em Genebra no dia 30 de janeiro, com Chirac, Lagos e Annan, “Action against hunger and poverty”, Lula disse com magistral ironia que não veio apenas para “recordar que a fome é uma arma de destruição de massa que mata 24 mil pessoas todos os dias e 11 crianças a cada minuto e que atinge quase um quarto de toda a população mundial”, mas “veio para procurar soluções”. O Brasil de Lula recorda a todos que no recente passado muitas nações latino-americanas seguiram as políticas econômicas aconselhadas pelas cúpulas, combateram a corrupção e melhoraram suas democracias. Mas ninguém lhes deu a parte dos benefícios da globalização e isso “contribuiu para gerar um sentido de frustração em grande parte da população”. Enfim, a América Latina não pode ser colocada à parte. E se hoje há os que colocam a “segurança” como critério das relações internacionais, o Brasil, ao invés, “continua a crer que o desenvolvimento é parte essencial da segurança mundial”. Também a propósito das chamadas intervenções humanitárias e das operações de manutenção da paz por parte da ONU, o governo Lula sublinha que depois do fim dos anos Oitenta “aumentaram tanto em número quanto em áreas de desenvolvimento” e superaram “as clássicas tarefas de interposições de forças”.
Definitivamente, o que levar em consideração deste encontro de setembro em Nova York? Principalmente o renovado interesse em dar por inteiro 0,7% do PIB para financiar o desenvolvimento, e a utilidade de criar... um sentido de culpa ao redor dos persistentes vacilantes. Também, o fato de que em tempos de reforma para a ONU, o Brasil afirma claramente a sua vontade de ter mais peso, ou seja, uma cadeira permanente no Conselho de Segurança (que segundo Lula deve ser remodelado também considerando o crescente peso das nações em desenvolvimento). O Brasil, como outras nações que nas últimas décadas não tiveram voz, agora a reclamam. E estão sendo ouvidas.