Igreja. As palavras do presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso
Os cristãos agressivos são mais temíveis
Encontro com o cardeal Michael Louis Fitzgerald sobre o diálogo cotidiano entre as fés de hoje
de Giovanni Cubeddu

Devoção em uma igreja católica de Colombo, Sri Lanka
“Logo depois dos primeiros atentados deste verão contra as igrejas cristãs e católicas no Iraque, juntamente com os nossos amigos do Comitê Islâmico-cristão condenamos unanimemente os atentados terroristas. Acreditamos que não se pode e nem se deve falar de desavenças entre o Islã e o Cristianismo”.
Em maio deste ano foi celebrado o 40º aniversário do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, cuja instituição foi anunciada por Paulo VI na festa de Pentecostes de 1964. Na ocasião foi realizada uma assembléia plenária na qual os membros do Conselho, provenientes de todas as partes do mundo, trocaram mutuamente informações e conselhos sobre a realidade cotidiana do diálogo inter-religioso. Esses encontros internos entre protagonistas que atuam em campo raramente ganham páginas nos jornais, mas na verdade são os únicos que espelham a realidade cotidiana do diálogo inter-religioso, antes de qualquer teoria. Portanto, vale a pena repropô-los, principalmente agora. “Na plenária discutiu-se amplamente sobre o estado das relações com todas as maiores religiões e sobre o trabalho pastoral a ser feito sobre as seitas e os novos movimentos religiosos, mas”, sublinha D. Fitzgerald, “depois da leitura do relatório geral sobre as atividades realizadas pela última Plenária de 2001, obviamente passamos quase um dia inteiro falando de Islã”.
Alguns discursos merecem ser repropostos. Por exemplo, o do cardeal africano Pengo.
MICHAEL LOUIS FITZGERALD: Explicou-nos que no seu país, a Tanzânia, há algum tempo são realizados encontros e seminários com os muçulmanos, mas normalmente debate-se mais sobre questões sociais e políticas e não temas religiosos ou teológicos, e o cardeal confessava que parecia não haver muito interesse por parte dos muçulmanos em conhecer o cristianismo. Talvez para alguns, os mais extremistas, que querem mais aprofundamentos para que mais tarde possam servir para alimentar polêmcias. É preciso encontrar outro modo de proceder, mais profícuo.
Qual?
FITZGERALD: O caminho é o das pequenas comunidades cristãs. Na África, como na América Latina e na Ásia, geralmente a paróquia é um lugar de encontro de muitas pequenas e diversas comunidades, pessoas que vivem no mesmo bairro, que trabalham juntas, que lêem e meditam juntas os Evangelhos, que rezam pelos problemas da vida de todos dias: “Que estas comunidades não sejam fechadas” pedia o cardeal e, dado que vivem em um ambiente no qual um amigo, um colega de trabalho ou um vizinho de casa muitas vezes é de outra religião, podem também convidá-lo. Além disso, quando a pequena comunidade local de cristãos tem como objetivo propor a solução de algum problema social, é bom associar ao debate os não cristãos. Repetiu-se que “se o serviço ao povo é realizado em conjunto, é muito melhor, e contribui para criar uma sincera amizade”.

Alunas de uma escola religiosa em Sumatra na Indonésia
FITZGERALD: Na Indonésia há conflitos com o Islã que definimos “horizontais e verticais”. Os primeiros referem-se a grupos étnicos diversos e opostos, e isso acontece quando há transmigração da população de uma ilha a outra. Mas se uma etnia muçulmana desembarca em uma ilha de cristãos, o conflito não é de civilização, não é religioso, mas de interesses. Enquanto que o conflito vertical é causado pela insatisfação para com o governo central. Se há falta de liberdade e de democracia, maior é a insatisfação e é mais simples para os poderes externos instigarem à guerra civil grupos e comunidades até então pacíficos. Também neste caso não se deve invocar a batalha de religião. Comprovando isso os líderes religiosos indonésios reuniram-se para dar um juízo atento dos conflitos, e disso nasceu um movimento moral. No ano passado, no Vaticano, recebemos os responsáveis pelos maiores grupos muçulmanos da Indonésia, junto com o cardeal Darmaatmadja, com o secretário do Conselho para as Igrejas Protestantes, líderes hindus e budistas, vindo todos em delegação para serem recebidos pelo Papa para compartilhar uma avaliação sobre a guerra no Iraque: que não é um conflito entre cristãos e muçulmanos. Receber uma delegação do país que conta com a mais numerosa população muçulmana do mundo foi muito importante.
Porém, assim parece que na Plenária a discussão sobre as relações com o Islã tenha sido conduzida em uma única direção...
FITZGERALD: Não, muitos membros do nosso Pontifício Conselho revelaram as dificuldades criadas no mundo pelos próprios cristãos. Há casos clamorosos de grupos que – na Índia, no Sri Lanka, na Indonésia e em muitos outros países – pregam Jesus de uma maneira, para usar um eufemismo, não consonante. Por exemplo, no Sri Lanka, os bispos católicos foram obrigados a fazer uma declaração pública para se afastarem destes cristãos, que reivindicam sua fé em Jesus Cristo, de uma maneira que não respeita ninguém, cristão, de outra fé ou ateu.
Bem, a Igreja não pode considerar- se imune do integralismo...
FITZGERALD: Há os chamados, “católicos agressivos”. Estes procuram nutrir a suspeita de que os que têm uma personalidade aberta ao diálogo não são bons cristãos. Quando Paulo VI escrevia a Ecclesiam suam tinha em mente a necessidade não só do diálogo ecumênico e inter-religioso, mas também do diálogo dentro da nossa Igreja Católica. Não se pode esperar que os que se sentem possuidores da verdade dentro da Igreja possam criar pontes de paz no mundo, pois estes são intransigentes. Os que usando destas posições sentem-se – por qualquer motivo – paladinos do diálogo para com o mundo não são confiáveis. Mesmo porque o diálogo mais bonito e eficaz é o sustentado pela comunidade eclesial. Ou seja: o diálogo é a vida cotidiana dos cristãos.
Lembro de uma definição de Padre Thomas Michel: “Somos os melhores evangelizadores quando não temos consciência disso”. O diálogo, ou seja, a vida de fé do cristão não é um fato da consciência ou de “autoconsciência” da fé. Esta é mais uma afirmação de si mesmo, não é a vida dos cristãos. A vida dos cristãos é Jesus. Quem dialoga não tem o objetivo “imediato” de converter o seu interlocutor, ajoelhar-se junto diante de Jesus. Certa ocasião tive a oportunidade de dizer ao Embaixador do Irã que ficaria contente de compartilhar com ele a minha fé...
No final da nossa conversa aprende-se mais uma vez o que é o diálogo e o testemunho cristão para D. Michael Fitzgerald. Procurando na sua biblioteca de casa I fioretti de São Francisco de Assis conta que “um dia São Francisco, que queria ir pregar, pediu a um irmão que o acompanhasse. Começaram então a caminhar, atravessando lugares e casas, cumprimentando passantes e conhecidos, até que o irmão perguntou-lhe impaciente: “Mas, Francisco, quando vamos começar a pregar?” E ele respondeu: “Mas por que, o que fizemos o dia todo?”