Varalo Sesia - Vercelli
Feitos para tocar o coração dos simples fiéis
de Giuseppe Frangi

Varalo numa ilustração de 1830, extraída da Storia del Sacro Monte di Varallo, de G. Bordiga
A intuição provocou uma reviravolta. Gaudenzio, homem culto, mas distante anos-luz da artificiosidade renascentista, esculpia figuras em madeira ou terracota em tamanho natural, que vestia com roupas de verdade e completava com cabelos bem cuidados, feitos de crina de cavalo; pintava nas paredes rostos de testemunhas que podiam muito bem ser o povo da Varalo de seu tempo; sobretudo, concebeu lugares aos quais as pessoas não iam apenas para assistir, não se limitavam a olhar, mas eram chamadas a fazer parte da cena. Nas capelas da Natividade, baixas e estreitas como devia ser a gruta de Belém, o peregrino se encontrava (e se encontra até hoje) entre a manjedoura e o cortejo dos Magos que chega às suas costas. Na capela da Crucificação (infelizmente isolada atualmente por vidros, por razões de conservação), as pessoas entravam e ficavam aos pés da Cruz, ao lado das estátuas de todos os protagonistas históricos. Testemunhas e participantes de um fato real.
Gaudenzio, enfim, havia inventado o mecanismo das Montanhas Sagradas. Eram as primeiras décadas do século XVI: foi preciso um pouco de decantação para que aquela idéia transbordasse para dezenas de outros lugares da região pré-alpina italiana da Lombardia e do Piemonte, sobretudo graças ao impulso dado por São Carlos Borromeu e, depois, por seu primo, Frederico. Os gigantescos canteiros de obras quase sempre começavam por iniciativa de algum frade franciscano. O que variava eram os conteúdos dos projetos: em Orta, as capelas contam a história de São Francisco; em Oropa, acompanhando a venerandíssima Nossa Senhora Negra levada até lá pelo bispo Eusébio, conta-se a história de Maria.
Hoje, as Montanhas Sagradas continuam sua vida, um pouco mais esquecidas, quase apartadas dos ditames da burocracia eclesiástica. Vivem travando duras batalhas pela conservação, de tão complexas que são suas estruturas. Dificilmente são reconhecidas pelos intelectuais, católicos ou não (ainda que a Unesco tenha inserido Varalo na lista dos grandes monumentos mundiais a serem preservados). No entanto, sua pobreza endêmica é o primeiro motivo de sua riqueza. Pois sua pobreza é o que comove os peregrinos ou os curiosos que, em pequenos grupos, não param de subir até lá.
As Montanhas Sagradas são como monumentos “nus” (a de Varalo, em particular, merece uma viagem, pelo menos uma vez na vida. A comoção que comunica dificilmente pode ser documentada, pois não tem correspondente em palavras). Elas não têm nenhuma retórica que as envolva e as proteja. Não têm nenhuma barreira física que as guarde. Estão expostas às intempéries, exatamente como a vida real. Sofrem com o frio quando faz frio; com a umidade, quando as chuvas não dão trégua. São miseráveis como, na sua realidade, é pobre a vida do homem. É por isso que as Montanhas Sagradas tocam o coração dos fiéis simples. Porque são feitas para eles.