Montini e o Rosário
“Oração dos pequenos por causas grandes”
“O mais terno balbuciar da criança que diz o nome de sua mãe. A piedade mais simples, mais terna, mais infantil: esse é o remédio para os grandes sofrimentos sociais”. Os apontamentos pessoais do jovem Montini sobre o Santo Rosário
de Gianni Valente

Paulo VI em oração diante da gruta da Virgem de Lourdes, nos Jardins Vaticanos
Naqueles anos, o sacerdote lombardo, ordenado em 1920, trabalhava na Secretaria de Estado e, até 1933, era também assistente nacional da Federação Universitária Católica Italiana (Fuci). No estilo fragmentado e alusivo típico de apontamentos esparsos, cheios de abreviações, Montini capta com genial agudez os traços que tornam a simples oração do Rosário tão preciosa para a fé e para a vida do povo cristão. A começar da repetitividade das fórmulas, que torna essa prática piedosa familiar à própria estrutura da condição humana, em seu caráter cotidiano. “Onde existe vida corpórea (humana), a repetição é vida”, escreve Montini em suas anotações de 1934. E padre Colzani, em seu comentário, acrescenta: “A repetição, por vezes tachada de monotonia, é na realidade explicada pela dinâmica da vida. A repetição é tão fundamental na vida corpórea, que se torna insubstituível. É a respiração repetida. É o passo do caminho”. É também o balanço monótono da mãe que embala a criança. A oração, como esses gestos comuns, não precisa de tiradas originais. Pois não é uma ocupação para profissionais da pesquisa espiritual. Péguy, talvez pensando na parábola do fariseu e do publicano, escreve que o rico, quando reza, fala, e o pobre pede. Reza-se para pedir coisas que servem para a vida: a paz na família e no mundo, a cura de uma pessoa querida, a saúde da alma e do corpo. E que o Senhor olhe por nós de perto, mostrando seu rosto. E se o próprio Jesus mandou que não fôssemos “como os pagãos, que acreditam que serão ouvidos à custa de palavras” (Mt 6,7), para Montini a repetição de fórmulas como o Pai Nosso e a Ave Maria preserva-nos da tentação de transformar a oração em discursos cheios de palavras. “Contemplação objetivada, biográfica de Cristo”, olhar que se detém nos fatos realizados pelo Senhor: “Os fatos dele, alguns tão humanos e comuns, outros tão grandes e divinos, são modelos ainda vivos, próximos, concretos, nossos”. No ritmo repetido das invocações, o Rosário desencadeia “um desejo de nos aproximarmos concretamente daqueles fatos, como aquela que mais se aproximou deles, Maria”.

Giovanni Battista Montini, arcebispo de Milão, visitando a Santa Casa no Santuário de Loreto
É na doce insistência das contas desfiadas por eles que o Rosário se torna “oração dos pequenos por causas grandes” e “estranho remédio de imensos males”. Num dos apontamentos mais longos e com referências implícitas às cruzadas contra os albigenses, Montini escreve: “Pode-se reproduzir o quadro histórico do momento em que a Virgem ensina São Domingos a rezar o Rosário; estranho remédio de imensos males. Poderia parecer que o remédio tivesse de ser político, bélico (como infelizmente foi, pelas mãos de Simão de Montfort [conde Simão IV, de Montfort, 1150-1218; foi particularmente violento contra os heréticos albigenses; ndr], e como desgraçadamente se ouve exaltar nas pregações sobre o Rosário), no entanto, o remédio é o mais terno balbuciar da criança que diz o nome de sua mãe. A piedade mais simples, mais terna, mais infantil: esse é o remédio para os grandes sofrimentos sociais” (apontamento de 1937).
Intuições no mínimo preciosas e atuais, em nossos tempos tão cheios de presságios de novas cruzadas.

Giovanni Battista Montini
deducet te [Sl 44,5]
Rosário
(A beleza do Ros[ário])
Observações:
– uma festa por uma oração?
uma oração que é uma guirlanda de flores?
uma guirlanda que é a vida de Cristo?
(A moralidade do Rosário)
– As virtudes que esta oração requer:
– o espírito infantil e filial, a simplicidade
– a contemplação objetivada, biográfica de Cristo
– a confiança em Maria
(A teologia do Rosário)
– Os ensinamentos:
a) – a intercessão de Maria
– com a oração insistente
b) – mihi vivere Christus est [Fl 1,21]
– o ciclo da Sua vida
– e da nossa, aproximada da Sua como foi a vida de Maria
c) – a piedade popular, simples, doméstica
(A piedade do Ros[ário])
Como se deve rezar o Rosário
Até onde chega a arte - a liberdade - a ternura na oração
(Às clarissas, Roma, 7/10/1928)
I Rezar o Rosário
a oração dos simples
– facilidade
– repetição pode ser vida (ainda!
o respiro
o passo
a rosa [)]
II Meditar
a oração dos “comprensori”
– a alma fixa
– os quadros
– a Jesus, com Maria
III Imitar
a oração dos Santos
– a sua vida, a nossa
– como Maria
– O gáudio é a regra
– A dor é a providência
– A glória é o termo
(canta, que te passa)
– Normalmente, começa-se defendendo o Rosário de seu caráter popular e infantil
– Em vez disso, não se deve defendê-lo assim, mas deve-se [fazer] a apologia do espírito de infância e de simplicidade
– A repetiç[ão]. Onde existe vida corpórea (humana),
a repetição é vida.