PAPAS. Entrevista com o cardeal Justin Francis Rigali, arcebispo da Filadélfia
“Obrigado, monsenhor atarefado...”
São palavras de João Paulo I ao se despedir de dom Rigali, no final daquela que seria sua última audiência. Na época dom Justin Francis Rigali era ainda um simples oficial da Secretaria de Estado. As suas recordações dos 33 dias como “intérprete” do Papa João Paulo I
de Gianni Cardinale

João Paulo I durante uma audiência na Sala Paulo VI
João Paulo I. Audiência geral da quarta-feira, 6 de setembro de 1978
“Corro o risco de dizer um despropósito, mas vou dizer...”
“Quanta misericórdia é preciso ter! Também os que erram... Precisamos realmente estar bem com nós mesmos. Limito-me a recomendar uma virtude muito amada pelo Senhor. Ele disse: ‘Aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração’. Corro o risco de dizer um despropósito, mas vou dizer. O Senhor ama tanto a humildade que, às vezes, permite alguns pecados graves. Por quê? Para que aqueles que cometeram estes pecados, depois, arrependidos, fiquem humildes. Não vêm em mente considerar-se meio santo, meio anjo, quando se sabe que se cometeram graves faltas. O Senhor recomendou muitas vezes: sede humildes. Mesmo que tenhais feito grandes coisas, dizei: somos servos inúteis”. Enquanto que a tendência em todos nós é, principalmente ao contrário: mostrar-se. Humildes, humildes, é a virtude cristã que se refere a nós mesmos”.

O cardeal Justin Francis Rigali
Eminência, o senhor foi muitas vezes intérprete de João Paulo I?
JUSTIN FRANCIS RIGALI: Sim, aconteceu muitas vezes. E até mais de uma vez no mesmo dia. Também participei das quatro catequeses que fez durante as audiências gerais das quartas-feiras.
Qual é a melhor recordação daqueles encontros?
RIGALI: O encontro mais vivo na minha memória é o que tive no último dia de sua vida terrena. Com efeito, naquele dia fui intérprete na última audiência do seu pontificado, a que foi concedida a um grupo de bispos filipinos em visita ad limina na manhã de 28 de setembro. E fui o último a despedir-me dele.
O senhor conhecia Albino Luciani antes que se tornasse Papa?
RIGALI: Sim, mas – assim por dizer – in extremis. No sentido que tive modo de conhecê-lo por uma casualidade pouco antes que entrasse em conclave.
Como foi?
RIGALI: Antes da proclamação do extra omnes houve uma recepção organizada pela Secretaria de Estado no Palácio Apostólico à qual participaram os cardeais e o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé. Fui convidado juntamente com outros oficiais da Secretaria de Estado. Lembro muito bem que cheguei na sala da recepção com uma certa antecedência. E o primeiro cardeal a chegar foi justamente Albino Luciani. Como ainda estávamos em poucos, tivemos a possibilidade de sentar e conversar.
Qual foi a sua impressão?
RIGALI: Fiquei impressionado pela sua grande simplicidade e pela sua profunda humildade. Na época eu não sabia que o seu lema episcopal era justamente Humilitas, mas tratava-se de um lema que realmente refletia a sua personalidade.
O senhor pensou que poderia se tornar Papa?
RIGALI: Devo confessar que fiquei com uma ótima impressão pela sua profundidade espiritual. Dei-me conta de que estava diante de uma pessoa realmente especial.
Das quatro catequeses da quarta-feira do Papa João Paulo I, qual mais o comoveu ?
RIGALI: Fiquei muito impressionado com as palavras do Papa sobre a misericórdia divina. Por duas vezes, no dia 6 e no dia 20 de setembro se não me engano [o cardeal cita de cor e recorda bem, ndr], falou das “vantagens de ser pecadores”. Não usou exatamente essas palavras, mas o sentido era esse. Quando alguém confessa humildemente seus próprios pecados e descobre sua própria miséria humana conta com duas vantagens. A primeira, é que não pode pretender a perfeição, não pode se sentir um deus, portanto é mais compreensivo com os outros. E a segunda vantagem é a de poder experimentar o doce perdão de Deus, a sua misericórdia. Obviamente Papa Luciani usou uma linguagem particular, incomum – “corro o risco de dizer um despropósito...” disse – mas lindíssimo, e muito eficaz.
As palavras de João Paulo I talvez lembrem Santo Agostinho que fala de felix culpa...
RIGALI: “... quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem”, recita a bela oração pascal do Exsultet. Com efeito, trata-se de uma imagem poética – uma culpa por si mesma não pode ser feliz – mas que não por casualidade entrou na mais antiga liturgia romana. O pecado original é uma culpa feliz não por si mesma, obviamente, mas porque nos deu um tal e tão grande Redentor.
O senhor recorda algum outro episódio particular daqueles trinta e três dias?
RIGALI: Sim, na manhã em que o metropolita ortodoxo de Leningrado, Nikodim, faleceu nos braços do Papa [5 de setembro de 1978, ndr]. Naquele dia fui chamado para ser intérprete antes e depois daquele trágico acontecimento.

João Paulo I saudando os fiéis da sacada central da Basílica vaticana
RIGALI: No seu último discurso, João Paulo I falou da viagem que Paulo VI fizera à Manila em 1970. E lembrou que naquela ocasião Paulo VI empenhou-se, e empenhou concretamente a Igreja para aliviar os sofrimentos dos pobres, para ajudar-lhes econômica e socialmente, mas ao mesmo tempo não calou sobre os “bens mais altos”, sobre a plenitude da vida no Reino dos Céus. Recordo que João Paulo I referiu-se ao Reino dos Céus várias vezes, também nas suas audiências: por exemplo, quando recebeu um grupo de bispos dos Estados Unidos em visita ad limina e falou da família. Mas voltemos a 28 de setembro. Naquela ocasião o Papa retomou a bela imagem das Filipinas como “luz de Cristo no Extremo Oriente”. No final da audiência, da sua última audiência do seu último dia de pontificado, o Papa despediu-se de mim com uma frase simpática...
Qual?
RIGALI: Desculpou-se por incomodar-me, pois sabia que eu tinha muito trabalho no escritório. Respondi que para mim era uma honra ser chamado pelo Papa. Então, com um sorriso, respondeu-me: “Obrigada, obrigado, monsenhor atarefado...”. Foram as últimas palavras que ouvi dele. Na manhã seguinte a Rádio Vaticano anunciou a sua morte. Foi um bouleversant, uma comoção.
Uma última pergunta. Na sua opinião qual pode ser o significado do pontificado de João Paulo I?
RIGALI: Talvez João Paulo I tenha tido um pontificado breve, de transição, para preparar a Igreja para um papa polonês. Sobre isso há duas coincidências que podem ser significativas. Papa Luciani foi eleito dia 26 de agosto, dia em que a Polônia festeja Nossa Senhora de Czestochowa, e morreu dia 28 de setembro, dia do aniversário da consagração episcopal de Karol Wojtyla.