AnÁlises. The New Rules of the World novo livro de John Pilger
Matadouro Iraque
No novo livro do jornalista australiano estão documentados os sofrimentos do povo iraquiano sob a ditadura de Saddam, durante a Guerra do Golfo e durante o longo embargo econômico
de Davide Malacaria

Soldados americanos observam o corpo carbonizado de um soldado iraquiano durante a operação desert storm de 1991
O fato de que Saddam Hussein durante a guerra entre o Irã e o Iraque tenha tido o apoio do Ocidente, também com a venda de material bélico, certamente não é um mistério. Nem mesmo que este apoio tenha prosseguido depois do fim do conflito. De qualquer modo, causam alguma surpresa as passagens do livro em que o jornalista descreve a sua visita ao hotel Al Rashid de Bagdá, onde um empregado, lamentando-se “dos bons tempos de antigamente” mostra ao autor a sua coleção do Baghdad Observer, no qual “Saddam Hussein está sempre na primeira página. O que muda nas fotografias é o ministro do governo inglês, sorridente ou titubeante, sentado ao lado de Saddam no sofá presidencial”. Entre essas fotografias que, segundo Pilger, estão ligadas à venda de material bélico, pode-se ver as de David Mellor, do Foreign Office, e as de Tony Newton, sub-secretário do Comércio de Margareth Thatcher. Todos os dois ao lado de Saddam Hussein em 1988: o primeiro enquanto o ditador “ordenava a morte por gás de 5 mil curdos na cidade de Halabja”, o segundo um mês depois do massacre. O fato de que os Estados Unidos abastecessem o ditador, como evidenciou também um inquérito do Congresso dos Estados Unidos em 1992, não é um segredo para ninguém. Por outro lado, alguns meses atrás, passou pela imprensa internacional, a fotografia de um caloroso aperto de mão entre Saddam Hussein e o sorridente Donald Rumsfeld, atual super-beligerante do Pentágono, visitando Bagdá. Mas um relatório do Senado americano de 1994, citado no livro, revela um detalhe pouco conhecido, qual seja, “a entrega ao Iraque de ingredientes para as armas bacteriológicas: botulino desenvolvido por uma companhia de Maryland sob licença do Departamento de Comércio e com a aprovação do Departamento de Estado”.
Enfim, por uma estranha ironia do destino, a patrulha de inspetores da ONU presente no Iraque, está tentando verificar se as armas fornecidas ao ditador pelos Estados Unidos ainda estejam ativas ou, como dizem os iraquianos, já foram destruídas.
O livro se detém em detalhes menos conhecidos da Guerra do Golfo. Claro, o conflito foi decidido no âmbito das Nações Unidas depois da invasão do Kuwait. Porém, a guerra de “libertação” do Kuwait, apesar de tudo, foi uma guerra como as outras, com todo um rosário de massacres e de mentiras. Uma desagradável verdade reconhecida também por uma testemunha de exceção como Peter Arnett, enviado da CNN em Bagdá, num artigo publicado em fevereiro pelo Guardian de Londres. No seu livro, Pilger revela que durante o conflito foram usados de modo maciço os projéteis de urânio empobrecido. O cronista australiano escreve: “Em 1991 o Instituto de Energia Atômica inglês calculou que se apenas 8% do urânio empobrecidoýusado na Guerra do Golfo fosse inalado poderia causar ‘500 mil potencialmente mortos’”. Um estudo inquietante se considerarmos que a poluição radioativa certamente não acabou com a guerra: o aumento vertiginoso de malformações e de doenças como o câncer e leucemia, das quais o livro fornece numerosos testemunhos, dificilmente se explica sem a persistência das radiações.
O livro destrói também o mito construído em relação a outros projéteis especiais, ou seja, as “bombas inteligentes”. O conflito do Golfo, foi dito, teria marcado o início de uma nova era, na qual era possível atuar uma “guerra cirúrgica”, por meio do uso de bombas “inteligentes” (teleguiadas), permitindo a redução ao máximo das vítimas inocentes. O autor escreve: “Na realidade, menos de 7% dos armamentos usados na operação desert storm era armas ‘inteligentes’, como reconheceu o próprio Pentágono, bem depois do fim da guerra. Cerca de 70% das 88.500 bombas lançadas sobre o Iraque e Kuwait, o equivalente a sete Hiroshima, erraram completamente o alvo, e muitas caíram em centros habitados. Sobre os mortos iraquianos daqueles dias sabe-se muito pouco. No livro recorda-se do episódio ligado à fotografia de Ken Jareke (publicada só no Observer) na qual via-se “um iraquiano reduzido a pó, petrificado na direção do seu carro na estrada de Bassora onde, junto com uma centena de outros, tinham sido reduzido a cinzas pelos pilotos americanos que faziam “tiro ao alvo” durante a retirada dos iraquianos e dos cidadãos estrangeiros, principalmente ‘trabalhadores hóspedes’, emboscados no Kuwait”. Mas, continua Pilger, “o massacre da estrada de Bassora fotografado por Ken Jareke, foi apenas um dos muitos massacres. Os outros não foram relevados, pois foram feitos bem longe do controle do ‘consórcio de jornalistas’”. Certamente deveria ser aprofundada a notícia do livro segundo a qual “sem que os jornalistas soubessem, nos últimos dois dias antes do cessar-fogo foram empregados ininterruptamente, principalmente à noite, escavadeiras americanas para enterrar vivos os iraquianos em suas trincheiras, inclusive os feridos”. Circunstância que só foi revelada seis meses depois do fim da guerra pelo New York Newsday de 12 de setembro de 1991, onde se lia que três brigadas americanas da primeira divisão de infantaria mecanizada“tinham utilizado niveladores montados sobre tanques e escavadeiras para enterrar milhares de soldados iraquianos, alguns ainda vivos, ao longo de mais de 120 quilômetros de trincheiras”. Mas ainda continuam as dúvidas sobre o número total de mortos no conflito, que seria bem superior ao já considerável 100 mil, indicado pelas fontes oficiais, que por outro lado calam sobre as vítimas civis. Sobre isso o autor apresenta um estudo do Medical Educational Trust de Londres de 1991, segundo o qual “pelo menos 250 mil entre homens, mulheres e crianças foram mortos ou morreram por causas diretas do ataque [...]. Isso confirma as estimativas dos serviços de informação americanos e franceses sobre ‘mais de 200 mil mortos’”.
Na fase pós-guerra, em particular sobre as conseqüências do embargo que afligiu o povo iraquiano, foi escrita muita coisa. O livro de Pilger apresenta detalhes particularmente odiosos, como o bloqueio dos remédios, entre os quais vacinas para a difteria e a febre amarela (doença que matou como moscas as crianças iraquianas), porque eram considerados adequados à fabricação de armas bacteriológicas. Ou como a proibição da chegada de roupas e brinquedos enviados por iraquianos de Londres aos familiares em pátria. Indicando a leitura do livro para o aprofundamento destes aspectos, limitamo-nos a apresentar os resultados de um estudo da Unicef segundo o qual “entre 1991 e 1998 morreram 500 mil crianças iraquianas a mais da quota prevista abaixo dos cinco anos de idade. Em média, isso significa 5200 mortos ao mês abaixo dos cinco anos que se podia evitar”. Mas o bloqueio econômico não arrasou somente as crianças. Os pesquisadores americanos John e Karl Mueller, trabalhando com estatísticas produzidas por vários estudos científicos num artigo publicado em 2000 no The Journal of Strategic Studies, concluíam que provavelmente as sanções econômicas ao Iraque teriam causado a morte de mais pessoas do que poderiam ter causado todas as armas de destruição de massa da história”. Mais um inútil massacre que, segundo o autor do livro (mas não só ele), alcançou o objetivo contrário: obrigando a martirizada população a sobreviver somente graças à ajuda estatal, permitiu ao ditador de Bagdá consolidar mais ainda o seu poder.

Uma mulher iraquiana cuida de seu filho no hospital pediátrico de Nassirya, a 370 Km de Bagdá;
A mesma situação da “no fly zone” no norte do Iraque, esclarecendo, a que foi construída para proteger a minoria curda da ameaça de Saddam. O autor detalha as várias expedições militares das forças armadas turcas (refere-se ao antigo regime turco, antes da vitória eleitoral do partido islâmico moderado) no território ocupado pelos curdos iraquianos. No livro lê-se: “em 1995 e em 1997, cerca de 50 mil soldados turcos apoiados por tanques de guerra, aviões-caça e helicópteros armados ocuparam grandes faixas da “zona-protegida” dos curdoý com o pretexto de atacar as bases do PKK (o Partido Independentista Curdo). Retornaram em dezembro de 2000 espalhando terror nos vilarejos curdos”. As incursões turcas tiveram o apoio tácito da aviação anglo-americana que, escreve Pilger, durante os ataques suspendia os vôos de patrulhamento na zona. Mas o que pode ter realmente acontecido naquela região não se pode saber, dado o silêncio que circundou estas incursões. Porém resta o fato que, em março de 2001, os “pilotos da RAF que patrulhavam a “no fly zone” setentrional protestaram publicamente pela primeira vez sobre ‘as tarefas humanitárias de vital importância’ descritas por Tony Blair: lamentavam-se que recebiam continuamente ordem para voltar às suas bases, para permitir que a aviação turca bombardeasse os curdos no Iraque”.
A outros cabe aprofundar estas informações. Assim como deve ser verificada a existência de armas de destruição de massa atualmente em posse do tirano iraquiano. Também se espera que com essa documentação, hoje com mais eficácia do que então, sejam exploradas todas as vias diplomáticas para resolver de modo pacífico a atual crise. Porque se, como é provável, a palavra passará às armas, além da propaganda, para o povo iraquiano será mais uma vez um matadouro, entre outras coisas, pouco “inteligente”.