Todos os números do barril de pólvora do Kosovo
Um pós-guerra infinito
Todos os números do barril de pólvora do Kosovo
de Gianni Valente
Soldados e pessoal
da ONU
Atualmente, cerca de 26 mil militares da KFOR pertencentes a 38 nações operam no Kosovo. Mais de dois mil foram deslocadas para a Grécia e a Macedônia para garantirem o suporte logístico da missão da KFOR. Os militares italianos (exército, polícia, aeronáutica militar e alguns da marinha) são cerca de 4 mil. Seu quartel-general fica em Pristina (onde trabalham 560 militares e cerca de 500 civis), com quatro brigadas estacionadas nas várias regiões do Kosovo: Pristina (sob comando inglês), Bondsteel (sob comando norte-americano), Mitrovica (sob comando francês), Prizren (brigada ítalo-alemã, atualmente sob comando alemão), Pec, Decani e Djakovica (sob comando italiano, protegendo, entre outras tarefas, dois dos lugares religiosos mais famosos dos sérvios).
Estão também no Kosovo 16 mil civis e forças policiais ligadas à ONU. A missão das Nações Unidas para o Kosovo (UNMIK) recebe também a colaboração de cerca de cinco mil agentes locais da polícia kosovar (KPS). A Itália contribui às forças de segurança da ONU com agentes policiais e a guarda financeira.
Refugiados
Entre 1998 e 1999, cerca de 860 mil kosovares albaneses deixaram a região. A grande maioria deles voltou durante as semanas seguintes à chegada das forças da KFOR, em 1999. Ao mesmo tempo, cerca de 230 mil sérvios e ciganos fugiram do Kosovo. Atualmente, segundo dados fornecidos pela Agência da ONU para os refugiados (UNHCR), 201 mil refugiados encontram-se na Sérvia (75 por cento sérvios) e cerca de 30 mil em Montenegro. As minorias que voltam para o Kosovo vivem em enclaves ou à margem da sociedade. Não se pode falar de uma integração real. Alguns números são realmente frustrantes: na região de Pec, onde viviam 32 mil sérvios antes da guerra, hoje vivem apenas 1.300. Na cidade de Pec há apenas vinte freiras e sete civis sérvios. Em Pristina viviam 50 mil sérvios e hoje há 200. Em Gniljane há 275 sérvios, em Prizren, 90, em Djakovica, 10. Muitas dessas pessoas, além disso, só se mantêm graças à constante proteção da KFOR. As operações de reintegração não conseguiram ainda resultados significativos. No ano passado, os percentuais de reentrada foram exíguos. No biênio 2000-2002 reentraram no Kosovo cerca de 6.000 refugiados, dos quais 3.400 sérvios.
Igrejas e mesquitas
A comunidade islâmica do Kosovo denunciou recentemente que, de 1998 até o fim da guerra, foram destruídas, incendiadas, demolidas ou vandalizadas quatro escolas corânicas, 86 minaretes e 212 das 560 mesquitas existentes, algumas das quais construídas nos séculos XV e XVI, todas ligadas à etnia sérvia.
Nos primeiros meses do pós-guerra (junho a setembro de 1999), antes da desmilitarização das milícias albanesas da UCK, bandos de etnia albanesa destruíram, incendiaram ou vandalizaram entre 76 e 103 igrejas, mosteiros ou monumentos sérvios de alto valor histórico-artístico. No setor da brigada multinacional oeste (sob comando italiano), que coincide com a Metohija (área das propriedades religiosas ortodoxas), os mais importantes lugares religiosos sérvios, como o patriarcado de Pec e os mosteiros de Visoki, Decani e Djakovica, foram submetidos imediatamente à proteção da KFOR. Até dezembro de 2001, a Força deslocou guardas fixas para 66 igrejas, dando prioridade à proteção direta de edifícios históricos e de alto valor artístico particularmente sujeitos a risco e aos lugares religiosos ligados a atividades de culto das comunidades dos poucos sérvios que restaram. Ao longo de 2002, a proteção fixa direta foi mantida para 26 locais, a maioria lugares em que estão presentes pequenas comunidades sérvias. Para os outros locais, a segurança passou à competência dos órgãos da polícia local, enquanto a KFOR continuou garantindo a proteção por áreas. Em 2002, houve 24 episódios de vandalismo e duas igrejas foram danificadas, mas até novembro passado nenhum ato hostil foi dirigido contra as quarenta igrejas para as quais foi modificado o tipo de proteção.
Crimes
A polícia da UNMIK recentemente tornou públicos os dados sobre crimes ocorridos em 2002. Foram 68 homicídios, 144 seqüestros, 114 estupros, 463 roubos, 365 furtos, 477 incêndios e 6 saques. Além desses crimes, foram registrados 953 casos de posse ilegal de armas, 335 atos de violência contra a polícia kosovar (KPS) e 141 contra a UNMIK. Nos 68 homicídios, 60 vítimas eram de etnia albanesa, 6 de etnia sérvia e 2 de outras etnias. No total, foram registrados 1.807 atos criminais em 2002, contra 1.695 em 2001 e 2.194 em 2000.
Episódios recentes, como a explosão de um carro-bomba em 13 de dezembro, em Pristina, ferindo cerca de 30 pessoas, constituem uma possível ação do crime organizado com a finalidade de intimidar testemunhas de processos locais. O assassinato de um ex-oficial das FARK, em 4 de janeiro passado, permite pensar em acertos de contas, embora não sejam conhecidos os verdadeiros mandantes e suas motivações. De qualquer forma, dos 17 homicídios que podem estar ligados a rivalidades políticas, 13 foram de expoentes do partido LDK, dirigido pelo presidente Ibrahim Rugova.
Em fevereiro passado, por ordem do Tribunal Penal Internacional, três extremistas albaneses do Kosovo foram presos para ser extraditados para Haia, onde estão sendo processados por crimes contra a humanidade. Entre eles destaca-se Fatmir Limaj, um dos chefes do dissolvido Exército de Libertação do Kosovo (UCK), atual número dois do Partido Democrático do Kosovo (PDK), detido na Eslovênia e extraditado pelas autoridades judiciárias de Lubliana. As outras duas prisões se deram no Kosovo, por obra da KFOR.
(agradecimentos ao coronel
Massimo Panizzi, responsável
pela Assessoria de Imprensa
de KFOR, pelos dados fornecidos)