Uma ponte entre Oriente e Ocidente
Fundado em 1584 por Gregório XIII para promover as relações entre a Santa Sé e a Igreja Maronita, hoje o Pontifício Colégio Maronita propõe-se como lugar de diálogo entre diversas culturas e religiões
por Pina Baglioni

O afresco no átrio do Colégio Maronita que representa a Coroação de Nossa Senhora, inspirado na figura do santuário de Qannoubine
Há um belo vaivém no número 18 da via de Porta Pinciana, sede do Pontifício Colégio Maronita, em Roma: são peregrinos carregados de bandeiras, provenientes do Líbano e das eparquias maronitas do Oriente Médio. Mas oriundos também da diáspora presente nos quatro cantos do mundo – sobretudo nos Estados Unidos e no Canadá –, que representa dois terços dos três milhões e meio dos herdeiros de São Maron. No domingo de manhã, por volta das 10h30, é fácil encontrar os maronitas residentes na Cidade Eterna encaminhando-se, seguidos por pencas de crianças, para a igreja de São Maron, contígua ao Colégio, na via Aurora – rua que passa pelo lado leste do edifício –, onde é celebrada a missa em rito sírio-antioqueno, frequentada também por muitas famílias muçulmanas. Depois da missa, ficam conversando em volta do único banco de praça do lado de fora da igreja, ou no jardim interno, enquanto outros preferem frequentar os cursos de língua árabe organizados para as crianças nascidas na Itália.
Tudo isso acontece ao redor do elegante edifício do bairro Ludovisi, encaixado entre grandes hotéis superluxuosos, bancos e lojas para turistas ricos.
O Colégio Maronita, do qual os sacerdotes estudantes ali residentes, todas as manhãs, voam como um enxame para as Pontifícias Universidades, representa o elo entre a Santa Sé e a Igreja Maronita, antiquíssima Igreja sui iuris de rito sírio-antioqueno, a única entre todas as Igrejas cristãs do Oriente Médio a ostentar desde sempre plena comunhão com o sucessor de Pedro. Suas origens são estabelecidas pela tradição histórica entre os séculos IV e V, quando, após a morte do anacoreta sírio Maron, seus seguidores começaram a edificar mosteiros ao lado de seu túmulo, em Apameia, na Síria, às margens do rio Oronte.
Mas na via de Porta Pinciana não se encontra apenas o Pontifício Colégio Maronita para sacerdotes estudantes; essa é também a sede da pastoral que se dedica aos frequentadores da igreja contígua de São Maron e da Procuradoria do Patriarcado Maronita de Antioquia junto à Santa Sé. Instituições que, nos últimos meses, viram-se no centro de um turbilhão de acontecimentos: em 2010, as celebrações dos mil e seiscentos anos da morte de São Maron; depois, a chegada a Roma das relíquias dos grandes santos maronitas do século XIX: São Charbel Makhlouf, Santa Rafka Rayes e São Nimatullah Al-Hardini, cuja devoção vem-se difundindo amplamente; enfim, em 23 de fevereiro passado, a instalação da imagem de São Maron num nicho externo da Basílica de São Pedro, na presença de Bento XVI. Isso sem contar que entre 28 de fevereiro e 15 de março deu-se também o pedido de demissão de sua beatitude, o cardeal Nasrallah Pierre Sfeir, depois de vinte e cinco anos à frente do Patriarcado, e a eleição de seu sucessor, Béchara Boutros Raï, bispo de Jbeil, Byblos dos Maronitas, septuagésimo sétimo patriarca maronita de Antioquia. Logo após sua eleição, o novo patriarca esteve em Roma duas vezes em poucos dias: em 14 de abril, para a audiência particular com o Papa, e em 1º de maio, para a beatificação de João Paulo II.
O Colégio Maronita: um gomo de cristianismo médio-oriental na Cidade Eterna
“Vivemos um período com uma riqueza de acontecimentos como não nos lembrávamos de ter tido há tempos. Estamos todos um pouco confusos, mas muito, muito contentes.” Monsenhor Antoine Gebran é procurador do Patriarcado há dois anos, e há alguns meses reitor do Colégio e capelão dos migrantes adeptos da Igreja sírio-antioquena maronita residentes na diocese de Roma. Com pouco mais de quarenta anos, provém, como a maior parte dos sacerdotes libaneses, do vale de Qadisha, no norte do país, também chamado Vale Santo, pela miríade de mosteiros encastrados sob os cimos dos montes. Foi lá, entre os séculos VIII e IX, que encontraram refúgio os seguidores de São Maron que fugiram da Síria em consequência das constantes perseguições por parte de bizantinos, monofisistas e muçulmanos.
O jovem monsenhor, antes de assumir o triplo encargo, foi ecônomo do Colégio e trabalhou durante sete anos no Pontifício Instituto para a Família: “Aqui”, explica, “recebemos sacerdotes enviados pelos bispos de todas as eparquias maronitas. Mas também aqueles que pertencem a todas as outras Igrejas cristãs do Oriente Médio, tanto as que estão em comunhão com Roma quanto as que não estão. O mesmo acontece no Líbano, onde os maronitas sempre conviveram com os armênios apostólicos e os armênios católicos, os greco-ortodoxos e os melquitas, os sírio-ortodoxos e os sírio-católicos, os assírios, os coptas, os caldeus e os católicos de rito latino. Além dos xiitas, dos sunitas, dos drusos, dos judeus e dos protestantes”.
![A entrada do colégio, na via de Porta Pinciana [© Paolo Galosi]](http://www.30giorni.it/upload/articoli_immagini_interne/24-04-05-011.jpg )
A entrada do colégio, na via de Porta Pinciana [© Paolo Galosi]
Charbel Ghoussoub é sacerdote há nove anos e vem da arquieparquia de Antélias, pouco distante de Beirute. Está para obter o mestrado em Ciências da Formação na Universidade Salesiana. “Vou voltar para o Líbano, pois o meu bispo me chamou de volta; lá, já fui pároco por cinco anos. Provavelmente voltarei a Roma para o doutorado”, conta-nos. “Em Roma respiramos o ar da universalidade da Igreja, muitos ritos, muita riqueza. Só aqui entendemos o quanto a Igreja é grande. E levamos essa consciência para o Líbano, onde o espaço físico e mental em que atuamos normalmente é seminário e paróquia, paróquia e seminário, dentro de uma problemática toda libanesa. É importante estudar em Roma também para dar a entender aos outros o que é a Igreja Maronita. Vários colegas, na Universidade, me perguntaram se meus pais ainda eram muçulmanos e quando foi que eu me converti ao cristianismo...” Temos ainda Autoun Charbel, doutorando em Direito Canônico, já mestre em Teologia e com experiência missionária na Nigéria, onde trabalhou por anos numa paróquia pessoal. Perguntamos a ele se entre os sacerdotes maronitas mais jovens há esperança de que o Líbano ultrapasse o sistema do “comunitarismo” religioso, julgado por muitos historiadores libaneses como o maior obstáculo ao pleno desenvolvimento e à plena democracia do País dos Cedros. “Por ora é só um ideal um tanto distante, complicado de alcançar: vivemos ainda o tempo das comunidades religiosas, porque, por ora, não temos outro sistema além desse. Basta pensar que não existe uma só história do Líbano, mas tantas histórias quanto são as comunidades religiosas, ou seja, dezessete. Mas neste momento estamos muito otimistas com a nomeação do novo patriarca: ele certamente será capaz ao menos de pacificar os ânimos em nosso país”.
“Seria bom que o Colégio Maronita pudesse, de maneira cada vez mais evidente, fazer sua parte num momento tão delicado para o Oriente Médio: ou seja, recuperar o papel de intercâmbio cultural, religioso e político que teve a partir do século XVI”, diz ainda o reitor, monsenhor Gebran. “Este ano festejamos também os onze anos da reabertura do Colégio, ocorrida em 2001, depois da longa interrupção iniciada com a Segunda Guerra Mundial. Nos longos, terríveis anos da guerra civil no Líbano, os nossos sacerdotes continuaram a vir a Roma, alojando-se aqui e ali, sobretudo em Propaganda Fide e no Colégio Capranica. Graças ao trabalho intenso e inteligente de meu antecessor, monsenhor Hanna Alwan, o Colégio, logo depois do Jubileu de 2000, pôde finalmente retomar seu caminho”. Transparece, nas palavras de monsenhor Gebran, também um pouco de lamento pelos muitos tesouros perdidos ao longo dos anos: “Centenas de livros preciosíssimos já não estão aqui. Muitos tomaram o caminho da biblioteca do Pontifício Instituto Oriental. Para mim foi um golpe no coração, quando eu estudava para o doutorado em Ciências Eclesiásticas Orientais no Instituto, ver em minhas mãos um livro com o carimbo do Pontifício Colégio Maronita. Mas por muito tempo tivemos reitores jesuítas...”.
Na arcada da entrada do edifício, um afresco de cores muito vivas representa a Coroação de Nossa Senhora, aos pés da qual está disposta uma inscrição em siríaco em louvor à Virgem. “A Coroação não corresponde à nossa iconografia tradicional”, explica-nos padre Joseph Sfeir. “Essa imagem se inspira na do santuário de Qannoubine, no vale de Qadisha, sede dos patriarcas do século XV ao XIX, um dos santuários mais venerados do Líbano e o mais antigo do Vale Santo”. Bem debaixo do afresco foi posta, sobre um balcão, uma pequena reprodução da imagem de São Maron instalada em 23 de fevereiro passado num nicho externo da Basílica de São Pedro. “O justo florescerá, crescerá como o cedro do Líbano”, reza, em aramaico, o salmo inscrito na estola do pai da Igreja Maronita. Seguindo na direção de um amplo salão, vemos, ao fundo, o trono do patriarca, onde evidentemente Sua Beatitude sentou-se por ocasião de suas visitas à Cidade Eterna.
![Bento XVI com o presidente libanês Michel Suleiman e o cardeal Nasrallah Pierre Sfeir, por ocasião da inauguração da imagem de São Maron instalada num nicho externo da Basílica de São Pedro, em 23 de fevereiro de 2011 <BR>[© Osservatore Romano]](http://www.30giorni.it/upload/articoli_immagini_interne/26-04-05-011.jpg)
Bento XVI com o presidente libanês Michel Suleiman e o cardeal Nasrallah Pierre Sfeir, por ocasião da inauguração da imagem de São Maron instalada num nicho externo da Basílica de São Pedro, em 23 de fevereiro de 2011
[© Osservatore Romano]
A propósito do papel de ligação entre Igreja de Roma e Igreja Maronita, perguntamos se o Colégio favoreceu, paradoxalmente, a latinização do antigo rito sírio-antioqueno, considerando que nos século XVII e XVIII foram enviadas ordens religiosas ocidentais para controlar a doutrina e a liturgia dos discípulos de São Maron. “É claro que, sendo a única Igreja do Oriente Médio sempre em comunhão com Roma, tivemos logo uma certa assimilação”, explica o reitor; “isso ocorreu, porém, mais no plano externo, como, por exemplo, nos paramentos litúrgicos, que no plano da substância. Adotamos a casula e a planeta. Mas preservamos a nossa liturgia sírio-antioquena”. Padre Joseph Sfeir tem uma opinião ligeiramente diferente: “Não devemos crucificar ninguém, pelo amor de Deus, mas os legados papais revisaram um por um os nossos textos litúrgicos. E tudo o que, na opinião deles, não estava bastante em linha com a liturgia latina foi queimado, destruído”.
Voltando ao presente, pedimos ao reitor, enfim, um juízo sobre uma questão que muitos maronitas consideram o problema dos problemas: a emigração dos maronitas do Líbano em consequência da instabilidade política e da explosão demográfica dos muçulmanos. “Negar que isso esteja acontecendo seria tolo”, responde. “Mas devemos dizer também que muitos maronitas estão voltando. E que também muitos muçulmanos estão indo embora. Mas o destino da Igreja Maronita está nas mãos de Nosso Senhor: ele nos conservou por mil e seiscentos anos. Se ainda nos quiser lá, ficaremos. O que mais posso dizer? Seja feita a Sua vontade.”
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