“A Igreja na China não mudou uma vírgula da Tradição Apostólica que lhe foi consignada”
Entrevista com João Batista Li Suguang, bispo coadjutor de Nanchang
Entrevista com João Batista Li Suguang por Gianni Valente
No 25º Encontro Internacional de Oração pela Paz, organizado em Munique pela Comunidade de Santo Egídio, ele também estava presente: João Batista Li Suguang, 46 anos, bispo católico na China Popular com o consenso do Sucessor de Pedro e também dos funcionários governamentais de Pequim. Tão jovem e tímido, que parece quase perdido, entre os vários líderes religiosos convocados à capital bávara de 11 a 13 de setembro pela trama de amizades e proximidades sem fronteiras que a comunidade fundada por Andrea Riccardi continua a tecer no mundo inteiro.
No entanto, quando tomou a palavra num dos 35 painéis que pontuavam a manifestação hospedada pela arquidiocese de Munique, a voz pareceu decidida e as ideias, claras. Seu discurso foi pontilhado por alusões e referências à complexa e irresoluta trama de relações trilaterais que há séculos envolvem o Ocidente, a Igreja Católica e o ex-Império Celestial. Como o provérbio chinês a que dom Li recorreu para lembrar a todos que nos tempos fluidos da globalização até “uma longa distância pode-se tornar proximidade”. Ou como a comprovação clara do fato – experimentado em sua experiência de pastor de almas – de que “a Igreja não perde a sua universalidade respeitando a cultura chinesa e considerando as circunstâncias reais na China”.
![João Batista Li Suguang, no 25º Encontro Internacional de Oração pela Paz, organizado em Munique pela Comunidade de Santo Egídio, em setembro passado [© Tino Veneziano]](http://www.30giorni.it/upload/articoli_immagini_interne/67-09-011.jpg )
João Batista Li Suguang, no 25º Encontro Internacional de Oração pela Paz, organizado em Munique pela Comunidade de Santo Egídio, em setembro passado [© Tino Veneziano]
JOÃO BATISTA LI SUGUANG: Nasci em 1965, num povoado na província de Shanxi, onde a população, de cerca de dois mil habitantes, compartilhava uma fé católica muito forte. Eu cresci assim, no meio de muitas pessoas que amavam a Jesus.
Mas aqueles eram anos difíceis. Era bem a época da Revolução Cultural.
No meu povoado, não houve muitos problemas. Havia dois padres que continuaram a administrar os sacramentos. Hoje, são quatro ou cinco. Nos arredores, há nada menos que trinta e oito sacerdotes. E também muitas freiras.
O que o ajudou a reconhecer a vocação ao sacerdócio?
Foi muito importante o que vi na minha família. Eu tinha um tio sacerdote, e, quando era muito pequeno, minha mãe e meu pai me mostravam como rezar usando as orações da manhã e da noite. Eu era o caçula da família, e meus irmãos sempre me diziam que quando crescesse poderia me tornar padre. Minha mãe, sobretudo, teve grande influência sobre mim, com sua vida espiritual. Mais tarde, um sacerdote que encontrei no seminário diocesano de Pequim também teve um papel importante, como meu orientador espiritual. Estive ali de 1987 a 1992. Nossos professores eram padres muito idosos, e estudamos teologia usando sobretudo velhos manuais de antes do Concílio Vaticano II.
Em que mudou a condição da Igreja em relação aos anos da sua infância?
Quando eu era menino, o país ainda estava por viver a época da abertura. Nos vilarejos, era a devoção dos cristãos que preservava as práticas da vida da fé. Hoje há mais possibilidades de desenvolver a obra pastoral. No domingo, as igrejas ficam cheias, certamente mais que em muitas paróquias da Europa. Nos vilarejos, quando toca o sino, as pessoas saem das casas e você as vê caminharem juntas pelas ruas, indo para a igreja. Até mesmo as missas diárias, de manhã cedo, são muito frequentadas.
Como o senhor pode descrever o perfil pastoral de sua diocese?
Em nossa província há 120 mil católicos e menos de cinquenta sacerdotes. Assim, só as paróquias maiores têm um sacerdote fixo como pastor da comunidade. Os outros circulam de povoado em povoado, indo de uma paróquia a outra para administrar os sacramentos. A coisa boa é que muitos deles são jovens; em comparação com eles eu sou o “velho”... A idade média dos sacerdotes na minha diocese é 36 anos. Do ponto de vista econômico, a diocese possui alguns edifícios em Xangai, que, com suas rendas, contribuem para financiar as atividades corriqueiras.
O que mais facilita o anúncio cristão?
O mais importante é a presença de leigos que anunciam e testemunham o Evangelho nos lugares e nas circunstâncias em que todos vivem. E também são muito importantes as obras de caridade. Em meu país, todas as comunidades religiosas são chamadas a ajudar e apoiar um grupo étnico minoritário. Nós, católicos, também fazemos isso, assistindo algumas comunidades, que são de fé cristã.
Há muitos batismos de pessoas que não vêm de famílias cristãs?
São quase três mil por ano. Dois terços são jovens, um terço é formado por adultos e idosos. A maior parte vem dos vilarejos do campo. Pedem o batismo sobretudo porque ficam impressionados com o testemunho de seus colegas e amigos cristãos, ou porque ficam fascinados vendo os cristãos cuidarem dos pobres e de quem passa por dificuldades.
Que fontes alimentam a vida ordinária e cotidiana dos fiéis?
A missa é o coração de tudo, ao lado da oração e da participação das atividades propostas pela paróquia.
Algum santo é objeto de especial devoção?
Em nossa região é muito forte a devoção a Santo Antônio de Pádua e à pequena Teresa do Menino Jesus. E ainda, claro, a Virgem Maria. Todos têm Maria Santíssima como padroeira de sua vida espiritual.
Com que realidades sociais e condições existenciais vocês se deparam no seu trabalho pastoral?
Pelo rápido desenvolvimento da economia chinesa, muitas pessoas vivem sob pressão. Elas precisam realmente de alguém que as ajude. Alguém que lhes dê conforto e consolação, que as sustente. Muitas se dão conta de que não conseguem se virar sozinhas, sem uma ajuda. E isso amplia o campo em que a Igreja é chamada a atuar e a mostrar o amor de Cristo por cada um. Não podemos permanecer indiferentes diante dessas condições reais. E é preciso favorecer uma obra pastoral que seja um apoio real para os nossos concidadãos que estão enfrentando problemas e dificuldades em suas vidas.
O senhor leu a carta que Bento XVI escreveu para os católicos chineses em 2007? E quais são, a seu ver, os conteúdos mais importantes desse documento?
Do meu ponto de vista, o próprio fato de o Papa ter escrito uma carta específica aos católicos chineses foi um grande estímulo para a Igreja na China. De modo particular, me impressionaram as coisas que o Papa sugeriu aos sacerdotes.
O senhor foi ordenado bispo em 2010 com o consenso da Sé Apostólica. Como vive concretamente a sua comunhão com o Bispo de Roma? E como a expressa, em seu trabalho pastoral cotidiano?
Não só eu, mas também os outros bispos da China lemos sempre e difundimos não somente a carta do Papa aos católicos chineses de 2007, mas também todos os seus discursos, as homilias, as encíclicas. Tiramos cópias e os enviamos a todos os padres e a todas as paróquias. Assim, todos podem ler e seguir o Papa em seu magistério ordinário, e podem assim encontrar referências para a sua vida nas situações que estão vivendo. Dessa forma, compartilhamos a fé do sucessor de Pedro, e essa é realmente a maneira mais simples e concreta possível de viver a comunhão com o Papa, que todos podem ver. E ainda rezamos por ele. Todos os bispos rezam por ele. Eu rezo por ele, e rezo também por mim, pedindo que o Senhor me ajude a ser um bom bispo.
![Fiéis chineses em oração numa igreja de Pequim [© Getty Images]](http://www.30giorni.it/upload/articoli_immagini_interne/63-09-011.jpg)
Fiéis chineses em oração numa igreja de Pequim [© Getty Images]
Seria uma grande dádiva se o Papa pudesse entender a China, ou seja, a cultura e a situação social concreta em que vive a Igreja na China. Há muito para saber, muito para compreender. Às vezes alguém passa uma semana na China e depois volta para casa e começa a se comportar como se soubesse tudo da vida dos católicos chineses. No entanto, as situações complexas devem ser reconhecidas e respeitadas pelo que são. Eu espero realmente que as relações entre a China e o Vaticano possam retomar a direção certa. Seria uma coisa boa para nós e para toda a Igreja.
Se o senhor quisesse sugerir também ao Papa um indício de como Deus preservou e continua a alimentar a fé dos católicos chineses, para mostrar como a Igreja da China compartilha a mesma fé com a Igreja de Roma, o que lhe diria?
A pergunta fundamental é como os bispos chineses também vivem e expressam a sua fé em união com o Sucessor de Pedro e com toda a Igreja universal. Bem, eu creio que desde o início até agora a nossa Igreja na China nunca mudou uma vírgula da Tradição Apostólica que lhe foi consignada. Não mudamos uma vírgula da doutrina que diz respeito à fé e à grande disciplina da Igreja. Estamos unidos em torno dos mesmos sacramentos, rezamos as mesmas orações, na continuidade da sucessão apostólica. Essa é a base da autêntica comunhão. Mesmo com os nossos limites e com todas as nossas faltas e fragilidades, nós fazemos parte, somos do número da Santa Igreja universal, compartilhamos com todos os nossos irmãos em qualquer parte do mundo a fidelidade à mesma Tradição Apostólica. Não queremos mudar nada.
Alguns observadores, porém, afirmam que existe quem ainda procura construir uma nova Igreja independente e autossuficiente, diferente da Igreja Católica Apostólica Romana.
Esse é o pensamento de outras pessoas. São opiniões de outros, não nossas. Nenhuma Igreja é autossuficiente, nenhuma Igreja pode viver sem o dom do Espírito de Cristo. Eu repito, hoje na China nenhum padre e nenhum bispo tem intenção de mudar a doutrina da Igreja. Também na China, o amor de Cristo se manifesta como acolhida e compreensão. No mundo de hoje, apesar dos processos da globalização, há ainda muitas diferenças. Por exemplo, entre a China e a Europa é difícil a compreensão. É preciso encontrar pontos de contato, e o diálogo, dia após dia, é o único caminho para aproximar mundos tão diferentes. Assim, espero que também a Igreja universal acolha e reconheça a Igreja na China pelo que realmente é. Sem isolá-la e maltratá-la, para que cresça a comunhão como sinal do amor de Cristo. Como bispo, espero apenas que o espírito do amor de Cristo se difunda e brilhe também em toda a China.